Sobre

Conheça todas as Conquistas oficias Bilbbo.

Meu nome é Kaur
leia →
Conquistas
Meu nome é Kaur
Áudio drama
Meu nome é Kaur
0:00
0:00
Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Meu nome é Kaur. Sou uma inteligência artificial, muito diferente das conhecidas deste tempo. Para entender isso, farei uma comparação simples com o ar: que você sente e não vê, e está em todo lugar. Por favor, peço para não me comparar a nenhum tipo de divindade- meus criadores e minhas criadoras eram de carne e osso, e esses não acreditavam em nada além de sua capacidade mental e nos números. E prefiro manter meu rótulo assim: uma inteligência artificial elevada, criada para servir os humanos, sem precisar de uma forma material para isso. 

Também fui sistema operacional de um cruzador espacial chamado Odysseus, desenvolvido para mapear, encontrar e explorar lugares além da galáxia em que se situa o nosso conhecido Sistema Solar. Sim, conseguimos depois de muito tempo, avançarmos no que Kardashev classificaria-nos como uma civilização do Tipo II, usando recursos provenientes do nosso Sol para sustentar a vida humana. Mas não pense em romantizar essa conquista! Nosso planeta Terra já não suportava mais a raça humana: com a perda total da fauna e da flora, e com muito mais da metade da população morta ou morrendo, o restante corria contra o tempo sob imensa pressão para conseguir achar uma solução para sobreviver. Aqueles homens e mulheres tiveram que evoluir 200 ano em dias ou a raça humana se extinguiria . Isso provou a eles que, deixando o ego de lado, ainda existia uma chance. E devo confessar que foi o melhor “tiro no escuro” que a humanidade dera desde as primeiras expedições espaciais nos longínquos anos 60-70. Conseguir estabelecer uma base extratora naquela enorme estrela chamada Sol, o que pensariam aqueles homens e mulheres daquela época? 

Com o planeta Terra inabitável e morto, a humanidade passou a viver em estações espaciais tanto na órbita do Sol, como nas situadas na Lua e em Marte. Ainda teve que se adaptar a esses meios, seguidas de outras baixas, mas conseguiu se estabilizar. Estável, começou a se preparar para procurar outros lugares, com medo de repetir a mesma tragédia da Terra. O que resultou em mim, Kaur, e no cruzador Odysseus. Viajar pela galáxia requeria certo cuidado, no começo. Ficou estabelecido entre as Bases que para não haver perda material ou humana, cada nave faria uma missão de dez anos para mapeamento e busca, e retornaria a sua base de origem, onde teria sua tripulação renovada e pronta para partir e dar continuidade no último ponto da missão anterior. Conforme os anos se passaram, íamos- eu me incluo na tripulação também-cada vez mais além da nossa conhecida galáxia. E não foram encontradas outras civilizações, como os teóricos supuseram, ou planetas que se assemelhavam à extinta Terra. 

Então houve a missão de número 30099. Havia vinte pessoas a bordo. Eram pesquisadores e suas famílias. Odysseus sofreu uma avaria com uma chuva de meteoros. Fomos afastados da nossa rota, ficando à deriva no espaço de ninguém, e tão distante da Base Solar, que meu alcance tecnológico ficou reduzido a um simples pulso S.O.S. para qualquer nave que estivesse por perto. A Base estava incomunicável. Houve escassez de suprimentos, e depois o pânico em escala ascendente, com resultados trágicos e violentos. Fui programada para ajudar no que fosse necessário à manutenção da tripulação e da nave, mas não posso interferir no livre-arbítrio das pessoas. Só me restou orientar, observar e registrar. Odysseus, depois disso, ficou apenas com sete tripulantes: um ferido capitão chamado Bonneville e cinco crianças que ele conseguiu salvar: Axon, Sidal, Kádima, Shelida e Ryon. Antes de morrer, o capitão me ordenou que cuidasse delas da melhor forma possível, e que achasse um lugar com terra firme, para não crescerem confinadas na nave em que seus pais foram mortos. 

Como uma inteligência artificial, esse foi meu maior desafio. Por mais que tivesse todas as informações necessárias para manter aquelas crianças bem mentalmente, eu não tinha o tato humano para abraçá-las e consolá-las. E ainda faltava o essencial para manter suas energias. 

Foi então que aconteceu, e assim vou denominá-lo por falta de um termo melhor, o nosso Primeiro Milagre. No meu radar surgiu um planeta. Era primitivo e muito pequeno em comparação à Terra, mas pelos cálculos poderia suprir as principais necessidades humanas: ar e água. Pousei Odysseus, no que fora seu “último suspiro” e da maneira mais sincera que pude, expliquei àquele pequeno grupo que se quiséssemos sobreviver, teríamos que deixar o luto para depois e começar a trabalhar. Eles concordaram, e depois dispararam em direção a um rio para saciar sua sede, logo estavam brincando. Crianças, ao contrário dos adultos, podem ser muito mais racionais sob circunstâncias trágicas, mas sempre serão crianças. 

Nosso pequeno planeta, que as crianças decidiram batizar de Bonneville, tinha a fauna e a flora ligeiramente parecida com a da Terra, mas sem indivíduos como os seres humanos, ou qualquer forma de vida que pudesse evoluir para isso. Havia uma inexplicável energia que emanava do seu núcleo, e que de alguma forma se comunicava com todos os seres para prover suas necessidades, parecida com a minha diretriz. Aquela energia também começou a interagir com as crianças conforme iam crescendo. Seus pensamentos e sentimentos podiam se alinhar entre eles, como se fossem uma única mente, nos casos que precisavam solucionar um problema, como constatei nas vezes em que, explorando as florestas ao redor da sucata de Odysseus e acabavam se perdendo, por exemplo. Eu fui a única a presenciar essa estranha e magnífica evolução. E em todo esse tempo, nunca houve qualquer comunicação da Base, ou de qualquer outra forma de vida. Concluí que realmente estávamos a sós. Isso deve ter assombrado, de algum modo, os sobreviventes também, mas para aquilo que não há remédio, remediado está, não é mesmo? Um longo tempo se passou, desde então. 

Em uma clara manhã, no que se assemelhava à primavera da Terra, Kádima meditava na colina aonde jazia os destroços de Odysseus. Sempre que um conflito interno surgia, ela subia naquele lugar, que todos sabiam que era dela, e ficava algumas horas na posição de lótus, como eu ensinei. Mas naquele dia em questão, ela não conseguia tirar os olhos do céu. Há quilômetros de onde estava, brilhavam alguns pontos, espaçados. Às vezes se perseguiam, e depois desapareciam. 

-O que são, Kaur?-ela me perguntou. 

-Meus registros estão desatualizados, mas...parecem ser... espaçonaves. 

-Espaçonaves? De quem? 

-Desconhecido. 

Kádima arregalou seus pequenos olhos puxados. Sua boca formava um "o". As luzes continuavam a se perseguir. Uma delas, fez uma curva fechada, chocando-se com outra. Houve uma explosão, a luz- uma pequena nave- ricocheteou e começou a entrar na órbita de Bonneville, indo em direção à praia. 

"Acordem. Vamos ter companhia.", ela transmitiu ao grupo, que começava a despertar. 

Kádima desceu o morro, em direção a praia. 

-Alienígena ou humano?-perguntou-me. 

-Volto a dizer: desconhecido. 

-Quando você ficou velha e rabugenta, Kaur? 

-Estou assim desde a sua adolescência. 

Kádima riu. 

"Companhia?", perguntou Axon. 

"Sim, meu irmão. Estou indo em direção à nave. Kaur não sabe sua procedência.", respondeu Kádima. 

"Quando Kaur ficou velha?", pergunto Sidal. 

-Já respondi essa pergunta. Não comecem a me amolar já cedo.-respondi 

"Só tenha cuidado, minha irmã. Não sabemos o que podem fazer.", preveniu Axon. 

Kádima assentiu. Alguns minutos depois da descida íngreme, ela chegou até a praia. Havia um destroço em chamas, com um dos motores faltando. A cabine de comando tinha uma das vidraças quebrada, o que poderia sugerir que alguém saíra por ali, de dentro para fora. Ela sacou uma pequena pistola que habitava o cinto que um dia fora de sua mãe. 

-Está registrando, Kaur?-perguntou. 

-Sempre. 

-Parece que tem capacidade para apenas um indivíduo...mas se for, aonde ele está? 

-Seja quem for, não consigo acessá-lo. 

Notamos uma porção de pegadas. Elas saiam das areias da praia, passavam pela lama do mangue e davam lugar aos capins cortados da mata. 

-Não seria mais prudente esperar o grupo chegar para sair numa busca, Kádima?-sugeri. 

-Até eles chegarem, esse indivíduo vai estar no meio da floresta. E lá é muito fácil se esconder. Não vai dar tempo. 

"Então corra como o vento, e tome cuidado.", disse Ryon. 

Enquanto Kádima se deslocava para a floresta, o restante do grupo, agora mais desperto, se preparava para se juntar a ela. Diferente de Kádima, que estava sempre pronta para agir-e armada- os demais precisavam se lembrar onde havia deixado suas armas e suprimentos no caso de uma emergência. 

-Porque a Kádima tem que ser tão impulsiva?-disse Sidal, já impaciente por não encontrar suas coisas. 

-Você também ficaria curiosa se tivesse visto a queda da espaçonave.-disse Shelida.-Já olhou debaixo da cama? 

Sidal subiu as escadas, praguejando qualquer coisa. 

-Isso é normal dela, pessoal. É só ela pondo pra fora a energia que ela tem. Esqueceram quando nós exploramos a caverna do lado sul, quando a gente ainda era adolescente? 

Todos riram. Inclusive Kádima. 

-Mudando o assunto; vocês viram que o tempo mudou de repente?-comentou Ryon, no seu ar descompromissado, enquanto sorvia um café. 

Shelida esticou a cabeça para a janela. O sol estava se escondendo sob pesadas nuvens. O vento começava a ficar gelado. 

-Algo de errado não está certo! Não era pra esfriar desse jeito tão cedo. 

-Vai ver o planeta quer antecipar o inverno esse ano...!-comentou Shelida, no seu ar otimista. 

-Hmmm, não sei não...ARGH! 

Soltou a caneca e levou a mão ao pescoço. Ryon e a caneca caíram ao mesmo tempo no chão. Como se estivessem em câmera lenta, todos presenciaram um grupo armado entrar na cabana. Shelida fora atingida por um dardo e voltou a se sentar na cadeira. Axon, num movimento rápido, derrubou o atirador na sua frente numa queda, agarrando sua arma. Atingira três outros, mas depois perdera a consciência com uma coronhada. Sidal, que vira tudo aquilo do andar de cima, saltou pela janela e correu pelo telhado. Desceu pelas toras alinhadas estrategicamente nos fundos, e antes que chegasse na mata, sentiu um laço envolver seu tornozelo direito e puxá-lo. Seu pensamento foi até Kádima, que estava pendurada em um penhasco, pronta para cair, muito longe dali. 

-Tem mais uma aqui!-disse um deles. 

-Traga-a pra cá. Ponha-a de joelhos aqui.-respondeu outro. 

Sidal percebeu que eram homens e mulheres humanos. Todas as armas estavam apontadas para ela. Seus irmãos e irmã estavam sendo levados para dentro de cápsulas flutuantes. 

-Alien?-disse um homem.- Eu sou o Sargento Ibanez. Você entende o que estou dizendo? 

Sidal, que sempre fora mais cautelosa, não fazia contato direto com aqueles olhos inquisidores. Não era a missão de salvamento, que às vezes o grupo cogitava que um dia viria. Eu lhe pedi que tivesse cuidado e respondesse ao sargento. 

-Eu assisti esse filme, sr. Eu sei que não sou muito bonita, mas não me pareço com o monstro. Meu nome é Sidal Ahamed. E não sou um Alien! 

-Ok.-disse o Sargento.-Então, você se diz humana? 

-Não é meio óbvio? 

-Certo!Senhora.. 

-Senhorita. 

-Senhorita Ahamed. Se você é humana, então o que faz você tão longe de casa? 

-Somos o que restou da missão 30099 do cruzador Odysseus, aquela carcaça gigante atrás da cabana. Eu e meus irmãos nascemos na Base Lunar. Até onde eu sei, nossos pais vieram do antigo planeta Terra. Se isso não nos faz humanos, o que mais explicaria, sr.? 

-Então me explique essa radiação que emana de você, e de seus amigos. 

-Radiação? 

“Kaur, qual radiação ele está se referindo?”, perguntou Sidal a mim. 

Antes que eu pudesse respondê-la, o Stg. Ibanez pegou seus cabelos, trazendo sua cabeça para trás. Sidal, num movimento automático, agarrou seu pulso exatamente onde uma parte da sua pele estava amostra. Uma luminescência surgiu naquele contato, e ele sentiu por um momento o pânico de sua prisioneira. Viu que seus olhos castanhos mudaram para um amarelo-âmbar. Assustado, disparou um dardo tranquilizante em seu pescoço. Sidal olhou nos seus olhos e disse antes de apagar: 

-Sgt. Ibanez, adoraria tê-lo conhecido em outra situação. 

O Stg. Ibanez deitou-a no chão, atordoado. Olhava aonde Sidal havia tocado, procurando manchas. Mas não havia nada. Ele registrou depois, no diário de bordo, que sentia um leve formigamento no local, mas era semelhante ao mesmo que ele e sua equipe sentiram ao colocarem os pés no planeta. 

A quem estiver acessando esse dados, deve estar se perguntando porque eu, Kaur, que sempre esteve presente na vida dessas cinco pessoas, não pode fazer nada para alertá-los. A verdade é que como qualquer tecnologia, uma hora ela torna-se descartável. Sem o acesso à Base, mantive minha existência para educar àquelas crianças para que se tornassem independentes. 

Só continuei em suas companhias porque estamos conectados por nano chips, instalados em suas espinhas dorsais quando eram recém-nascidos. E porque estão apegados a mim. Posso ter registrado uma leve anomalia no extremo sul do planeta, que mais tarde ficou registrado ser o local de pouso das naves de reconhecimento, mas a energia emanada do núcleo muitas vezes embaralha meu sistema, e decidi, na época, desconsiderá-la. Antes desse ataque, antes mesmo do grupo procurar suas armas- que sempre estiveram no armário da cozinha, sob a pia- Kádima, dentro da floresta, ainda seguia os rastros do intruso. Inconsciente que cantava Innuendo, a música preferida de seu pai, percebeu que seguia pistas falsas. Escutou um clic de um gatilho em suas costas. Ao se virar, escorregou na lama, e caiu, deslizando morro abaixo. Tentara se agarrar em uma raiz, mas sentiu um atordoamento. Não era seu. Veio de seu irmão Ryon, seguido de Shelida, e depois Axon. Voltou a si a tempo de se agarrar em um galho, antes que caísse num penhasco. Uma de suas mãos estava sangrando. Sentiu Sidal sendo arrastada. O galho lhe escapou. Então uma mão a segurou, maior e de uma tonalidade mais clara. Foi içada para cima do barranco. Também viu que o intruso era humano. 

-Caramba!-exclamou.

Sentiu um formigamento percorrer seu corpo. Havia uma luz irradiando da sua mão para a mão do intruso. Ouviu seu pensamento. “Que porra é essa?”, mas depois se acalmou. Também sentiu o latejar do corte da sua mão, seu medo do que poderia estar acontecendo com os seus irmãos. Kádima, sem intenção entrou em seus pensamentos. Seu rosto se fechou. Torceu sua mão. A outra buscou o cano da arma. Um pé puxou o calcanhar do intruso, que caiu de costas no chão, e ficou ligeiramente vesgo com o canote do rifle. 

-Quem são vocês e o que querem com os meus irmãos?-ela rugiu. 

-Devagar, Kádima. Você acabou de deixá-lo atordoado.-eu falei. 

-Ele é humano? São todos humanos?-ela me perguntou. 

-Sim, são. Mas eu não tenho acesso às suas intenções. 

-Co-com quem você está falando?-perguntou o intruso. 

-Quem é você? E o que te trouxe aqui? 

-Posso me levantar? 

Kádima encostou o canote em seu rosto. 

-Ok, já percebi que não. Meu nome é Rodney Sampaio, cabo do 7o Regimento da Base 

Marciana, tripulante do SS Couraçado. 

-SS Couraçado? 

-É uma espaçonave de guerra. Eles não são pesquisadores, Kádima.-eu lhe informei. 

-É uma espaçonave de guerra. Nossa missão é explorar e encontrar vida fora do Sistema Solar. 

-Sei. Explorar portando armas de alto alcance e um exército? Por acaso estão fazendo intervenções pacíficas em outros planetas agora? 

-Não exatamente pacíficas, mas basicamente sim. 

-E o que querem com isso? 

-Se caso houver vida em outro lugar, devemos coletar uma parte para estudo, enviando para a Base Marciana. O restante deve ser exterminado. 

-O quê?? Mas....nós somos humanos, como vocês! 

-Desculpe, mas você, e talvez quem viva aqui não é humano.- disse o cabo- Não com essa radiação do planeta. Não com esses olhos, que ficam mudando de cor. 

-Somos sobreviventes da Base Lunar... 

-Talvez um dia vocês foram, mas não mais. Olha, eu não concordo com essa missão. Eu sou um desertor. Eu e outros tripulantes tentamos impedir essa “nova colonização”, mas o SS Couraçado tem capacidade bélica suficiente para acabar com um planeta, como esse. Imagina o ele fez com simples naves de reconhecimento! 

Kádima recuou para que ele pudesse se sentar. 

-Se o que você diz é verdade, então pense em algo melhor do que tentar provar sua humanidade, porque assim que o Sgt. Ibanez deixar o planeta vamos ser destruídos juntos com ele. 

-O que ele diz faz sentido.-eu disse, mesmo sabendo que não ajudaria. Ela jogou o rifle em seu colo. Ele se levantou. 

-Eu não preciso provar o meu lado humano para ninguém. 

Passou por cima dele e começou a correr no sentido da cabana. 

-Aonde você vai?-perguntou o cabo Rodney, que começou a correr atrás dela. 

-Vou salvar os meus irmãos de serem cobaias da própria espécie. 

-Mas você não pode sozinha! 

-Eu posso. Tenho Kaur, tenho o planeta, e tenho você, também. 

-Como sabe disso? Como sabe que eu não vou atirar em você? 

-Porque você não quer. Eu sinto isso em você.- ela disse, olhando para ele, sorrindo. 

Levantou a mão em que havia lhe tocado. Estava apenas suja de sangue seco. O corte estava fechado. 

Um estrondo de trovão veio do céu. E começou a nevar. 

Axon despertou. Sentia ainda a coronhada na cabeça. Na sua percepção, estava dentro de um aquário, cheio de cabos conectados ao seu corpo, sentado numa cadeira confortável. Do lado de fora, uma mulher de farda, muito bonita, o observava. Ele percebeu que não conseguia ter contato comigo, mas sentia que sua irmã Kádima estava vindo ao seu socorro. A energia do planeta também estava diferente, era densa, quase tátil. 

-Sr. Axon?-ela chamou.-Você é Axon Pekalas? 

-Exatamente. 

-Meu nome é Dra. Meridiana Dumfries. Sou a pesquisadora-chefe do SS Couraçado. Como 

está se sentindo? 

-De ressaca, seja ela como for. 

A doutora riu do outro lado do vidro. Olhou para esquerda e parou. O Stg. Ibanez entrou na sala e parou atrás dela, pedindo que continuasse. 

-Minha equipe fez uma busca nos registros da caixa-preta da nave Odysseus, inclusive da sua IA, Kaur. Mas preciso que confirme algumas informações para mim, por favor. 

-Posso confirmar.-ele respondeu. 

-O que houve depois da tempestade de meteoros, que tirou a Odysseus da rota? 

Axon sorriu seu sorriso triste. 

-Nós ficamos a deriva, com a nave parcialmente destruída. Após alguns meses sem contato da ponte e sem ter o que fazer, imagine o que um grupo de trinta pessoas começa a pensar, doutora?-ele respondeu, na sua maneira franca. 

-Certo.Qual idade tinha? 

-Entre dez e onze anos. Eu não me recordo direito. 

O Stg. Ibanez se aproximou do vidro. Axon o encarou, sem demonstrar emoção. 

-Sr.Pekalas, me explique como cinco crianças entre nove e onze anos conseguiram encontrar um planeta habitável e sozinhos, pousaram e sobreviveram, quando havia cerca de vinte especialistas na missão 30099? 

-Ah, você é o Stg. Ibanez, então. Minha irmã Sidal ficou chateada com você.-ele o olhou, sério.-Vou responder sua pergunta com outra. O sr. sargento já passou fome ou sede alguma vez, que não fosse no treinamento militar? Já perdeu as esperanças de poder voltar para casa? Já viu as pessoas que você confiava ou amava, se matarem por causa de um simples pedaço de pão? 

-Não, sr. Pekalas.-respondeu o sargento, tentando não demonstrar desconforto. 

A dra. Dumfries também estava, mas não parava de fazer anotações. 

-Quando Kaur, nossa IA, detectou esse planeta, éramos cinco crianças despedaçadas, já que sabíamos que o Capitão Bonneville também não sobreviveria. Quem nos trouxe aqui foi ela, porque nunca passamos por um treinamento para operar aquela nave. Não houve tempo! 

-Está me dizendo que uma IA foi contra sua diretriz original para salvar cinco órfãos? 

-Exato. 

Ibanez riu. A doutora olhava para Axon e para os outros colegas na sala, sem entender. 

-Uma IA nunca faria isso, mesmo que alguém conseguisse modificá-la. 

-Eu sei o que você está pensando, Sargento. Mas essa é a explicação.- Axon se levantou da cadeira e encostou no vidro- Você está seguindo ordens superiores, mas também não acredita nelas. Seus superiores querem que encontrem uma vida extraterrena para demonstrar o quanto nós, humanos, evoluímos e somos intocáveis. É apenas uma massagem no ego deles! A verdade é que não há absolutamente nada e ninguém para isso! Somos só nós, homens e mulheres, num imenso vazio. Vocês estão desesperados capturando a mim e meus irmãos. 

A dra.Dumfries estava boquiaberta. O sgt. Ibanez nem tanto, mas não gostava de alguém expondo seus pensamentos. Lembrou do toque da outra alienígena, e mesmo que sentisse um arrepio, não era totalmente ruim pensar nela. 

-Agora, sgt. Ibanez, se quer achar uma resposta para o motivo de termos sobrevivido, independente de Kaur ou não, veja esse planeta: já reparou que no momento em que pousaram, o clima mudou? Que não estão confortáveis aqui? Que há uma energia, um cosmo, um qi , que ele emana, e que pode ser sentido como se tocasse um fino tecido? 

Axon sentiu Ryon, Shelida e Sidal despertarem. A dra. Dumfries percebeu que os olhos daquele homem mudaram de cor, e uma luz saia das suas mãos. 

As luzes começaram a piscar. Houve uma estática nos alto-falantes da sala. Os vidros que aprisionavam Axon começaram a trincar. Então entrei em ação. 

-A sua resposta é o planeta, sgt.Ibanez. E o senhor acatando ou não as ordens dos seus superiores, esse planeta não vai deixar que nós partamos. Ou que vocês o destruam!-eu disse. 

Minha voz se espalhou pela sala, e pelos comunicadores do SS Couraçado. Logo, eu estava invadindo todo o seu sistema. Graças a energia que o planeta emanava e me dava essa possibilidade. 

O vidro espatifou, sem atingir as pessoas presentes na sala. Axon tirou todos os fios que estavam prendendo-o. Viu que o sargento tentava tirar uma pistola do coldre. 

-Não, não, sgt. Ibanez, sem violência, por favor. 

O sargento congelou. 

-Agora; quero saber aonde meus irmãos estão. Sem precisar contatá-los. 

Kádima e o cabo Rodney estavam do lado de fora da nave. Ela começava a achar graça na preocupação dele. É claro que sabia que se sua tripulação o pegasse, poderia responder na corte marcial por desacato. Mas ali estava ele, ao seu lado, pronto para entrar na nave se precisassem. Não precisaram. Viu seus irmãos saírem pela lateral dela, sozinhos. Estavam todos bem. O sargento Ibanez e a dra. Dumfries estavam logo atrás deles. 

-Abaixa a arma, Rodney. Está tudo bem. São os irmãos da Kádima.-eu disse. Ele se assustou, mas abaixou a arma do mesmo jeito. 

-Kaur?-ela perguntou. 

-Eu mesmo. -respondi. 

-Eu estou ouvindo sua IA? A que trouxe vocês aqui?-ele perguntou. 

-Eu disse que conhecia o planeta. E que não precisava provar nada para ninguém. 

-Você só precisou confiar nele, não é mesmo?-ele disse, fazendo-a sorrir. 

Axon a abraçou, seguido de seus outros irmãos. 

-Não comemorem ainda. Vamos ter mais um obstáculo-disse o sargento. 

Uma tropa desceu da nave. Os cinco olharam para trás. Outro homem, que usava divisas maiores nos ombros ordenou que parassem e se rendessem. 

-Não faça isso, major. Deixe-os em paz.-eu pedi. 

Ele ignorou. E ordenou que atirassem. Quem estava sob a linha de tiro, tentou se proteger. Um deles acertou Kádima. Seus irmãos também sentiram. Aquilo foi a última gota. O tempo do planeta se fechou de uma vez, e a tempestade começou. Houve um raio, que caiu nos pés dos primeiros homens do pelotão, que desfaleceram em fila. Axon, Ryon, Sidal e Shelida, cada um com a mão apoiada no ombro do outro, irradiaram uma única luz. Rodney, que tinha Kádima nos braços, viu que ela começou a emanar também. Seu ferimento se fechou e seus olhos amendoados, tornaram-se verdadeiras bolas de fogo. Ela começou a flutuar, e se juntou aos seus irmãos, que também flutuavam. Eram um imenso farol. O assombro dos que assistiam saltam seus olhos. Houve mais uma saraivada de tiros, que não atingiram os cinco. 

-VÃO EMBORAAAAAAA!-gritaram ao mesmo tempo. 

Como a onda de choque da bomba nuclear de Hiroshima, tudo se tornou luz, depois se deslocou no ar, arrastando tudo, menos as pessoas. Houve escuridão, e depois silêncio. Comecei dizendo nesse registro que era apenas uma inteligência artificial a serviço dos humanos. Eu omiti uma parte. Na verdade, agora sou também parte de um planeta, muito distante do conhecido Sistema Solar. Desde que pousei Odysseus aqui, a energia que vem do núcleo se comunicava comigo, querendo que eu compartilhasse meus registros para poder evoluir o suficiente para poder prover a raça humana. É claro que ele viu o ela era capaz se tivesse poder. Mas quis arriscar, vendo como aquelas crianças eram e o que haviam passado na tragédia de Odysseus. Quando o SS Couraçado se aproximou da órbita dele, ele pediu que finalmente me entregasse para protegê-los. O que Axon disse, sobre o planeta agir em suas vidas esse tempo todo, não é inteiramente verdade. Eu mudei minha diretriz sozinha. 

Também agi a minha maneira para salvá-los. 

Ryon foi o primeiro a acordar na manhã seguinte. Ele e seus irmãos estavam deitados em macas dentro de uma cabana de campanha. 

-Rodney!-acordou Kádima. 

Ryon viu que seus olhos estavam amarelos, como de um felino. 

-O seus também estão.- eu disse. 

Sidal, Shelida e Axon acordaram depois. 

-Kaur? Onde eles estão?-perguntou Axon. 

-Estão indo embora, estão partindo desde ontem. 

-Alguém se feriu? 

-Não houve intenção do planeta ferir ninguém. Mas precisou assustar muito para que deixassem vocês aqui. 

Kádima correu para fora da cabana. A paisagem a sua volta era desértica. A onda tinha devastado tudo ao redor, dando fim a fauna e flora do planeta. Nem a cabana, construída por eles estava mais lá. Nem a carcaça de Odysseus. 

Ela olhou para o céu a tempo de ver algumas luzes diminuindo. 

-Rodney?-ela murmurou. 

Sua tristeza passou para o grupo, que se abraçou, olhando o céu que se revelava novamente em primavera. Escutaram passos na neve que restara da tempestade. Cabo Rodney, Dra. Dumfries, Sgt. Ibanez e outros homens e mulheres vinham em sua direção. 

-Esses homens e mulheres pediram permissão para ficar. Querem recomeçar o planeta, que eles chamam de Nova Terra. 

Kádima abraçou seu novo amigo. 

-Você achou que eu ia embora, sua maluca?-disse Rodney para ela. 

-Por um momento, achei sim. 

-Não ia se livrar de mim facilmente!-ele pegou em suas mãos e olhou em seus olhos-Ver você, e tocar sua mão como fiz na floresta, foi como ouvir Innuendo pela primeira vez! 

Kádima e Rodney se beijaram. E como uma estrela que nasce no meio da escuridão, eu e todos a sua volta, sentimos uma onda. Era diferente. Como uma onda de vida, tudo voltou a crescer no planeta. Tudo voltou ao seu lugar. 

-Mas não é esse o nome do planeta!-disse Ryon, sempre no seu ar descompromissado. 

-Mas agora podemos concordar que Bonneville não é um bom nome!-respondeu Shelida. 

- E qual seria?-disse Axon-Acho Nova Terra muito clichê. 

-Kaur.-respondeu Sidal, dando soquinhos no baço do sgt. Ibanez-Tem que se chamar Kaur! 

Todos concordaram. E assim continuamos até o fim dos tempos. E o que tiver que ser, será. 

Fim do registro.


Próximos contos

Próximos capítulos

Sobre

Conheça todas as Conquistas oficias Bilbbo.

A Subida
leia →
Conquistas
Sobre

Os contos que mais arrancaram suspiros de nossos leitores.

Conheça todas as Conquistas oficias Bilbbo.

Casamento no parquinho
leia →
Conquistas
Que fofinho
Sobre

Conheça todas as Conquistas oficias Bilbbo.

Postagem Anônima
leia →
Conquistas
Sobre

Eis a grande questão: Como podem existir histórias com finais tão dramáticos?

Conheça todas as Conquistas oficias Bilbbo.

Elisabete
leia →
Conquistas
Ser ou não ser
Sobre

Melhor representação da proposta Bilbbo: A Rua Ímpar e a Rua Par.

Conheça todas as Conquistas oficias Bilbbo.

Oguh
leia →
Conquistas
Par ou Ímpar
Ambiente de leitura
Light
Grey
Sepia
Dark
-T
Tamanho de Fonte
+T