Começou, agora termina queride!

Conquista Literária
Conto publicado em
ACID NEON: Narrativas de um futuro próximo vol. 01

Prólogo

Epílogo

Conto

Áudio drama
Memórias
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A coletiva de imprensa teve início quinze minutos após o marcado. Para a surpresa dos jornalistas o próprio presidente da empresa assumiu o microfone, visivelmente mais cansado e abatido do que nos momentos anteriores que veio a público.

― Boa tarde senhoras e senhores― ele iniciou de forma breve e formal.― Venho representar minha companhia para fazer alguns esclarecimentos sobre a nossa postura perante a questões que estão sendo debatidas na mídia nas últimas semanas. Peço por favor que não façam-me perguntas. Qualquer eventual dúvida que vocês tiverem poderá ser solucionada com o meu assessor, que me substituirá depois de meu comunicado.

Os flashes fotográficos disparavam de pontos diversos. Uma dezena de microfones de diversas emissoras e meios de comunicação diferentes foi colocado em frente ao homem. Este respirou fundo. Prosseguiu sua declaração guiando-se por tópicos escritos de forma desordenada em uma folha de papel.

― Quando, no ano de 2022, fomos responsáveis por criar o leitor de memórias, tivemos as mais sinceras boas intenções. De fato, criei tal tecnologia porque eu tinha um sonho impossível, e estava disposto a tudo para realizá-lo. Imaginei que outras pessoas em todo o mundo também gos-  tariam de ter a oportunidade de reviver determinados instantes da sua vida, e por isso, apenas por isso, iniciamos a fabricação e venda dos leitores em grande escala.

Ajeitou o óculos na ponta do nariz e continuou, com uma sensível fadiga em seu tom de voz.

― Em momento algum, durante a criação do produto, imaginei que ele poderia servir a outros propósitos. Acredito que esse tenha sido o meu maior erro, ter subestimado a minha criação, sem pensar em quão poderosa ela poderia ser. Infelizmente, creio que agora talvez seja tarde demais.

― O propósito inicial do leitor de memórias era que tivéssemos um produto de uso pessoal, onde as pessoas poderiam reviver momentos em seu próprio passado. A popularização da venda de memórias nos foi uma enorme surpresa. Não esperávamos que as pessoas estivessem dispostas a tal experiências, por acreditarmos que estas tinham um caráter muito intimo para serem comercializadas.

Gesticulava sempre que falava, porém em momento algum o homem olhava para os jornalistas em sua frente. Seus olhos se limitavam aos microfones e as palavras do papel.

― Os escândalos da venda de memórias de celebridades foi o primeiro sinal que as coisas estavam saindo fora de controle. Nossa empresa se posicionou, desde o primeiro momento, efetivamente contra tais atos. Acreditamos na privacidade da memória individual. Tornar as mesmas públicas é uma atitude que abominamos devido a banalização dos sentimentos e das intimidades alheias. Fez uma pausa. Sentiu enorme dificuldade em continuar.

― O caso recente da venda em mercado negro da lembrança de criminosos sexuais nos atingiu de forma devastadora. Nós, da Memory Company gostaríamos de deixar clara a nossa total aversão por tais atos. Lamentamos por todas as mulheres vítimas de tal abuso, e viemos declarar o nosso posicionamento perante a tamanha atrocidade. Ergueu os olhos pela primeira vez.

― Eu, George Keep, criador e presidente da Memory Company, venho declarar que a empresa esta encerrando suas atividades por período indeterminado. Enquanto não criarmos um sistema delimitador das lembranças não lançaremos mais nenhum produto que tenha esse propósito. Tal decisão, que muitos podem julgar exagerada, foi tomada por mim. Peço perdão a todos que, de alguma forma, sofreram em virtude do meu invento. Mesmo sabendo que tal atitude não será capaz de extinguir o problema do tráfico de memórias, é o mínimo que sinto que devo fazer. As pesquisas sobre o apagamento de memórias devem continuar, mas não há previsão de comercialização deste produto.

Os jornalistas todos se amontoaram em frente a George, mas ele não respondeu nenhuma das questões. Virou as costas e desapareceu, ignorando os outros e voltando para seu escritório.

Horas mais tarde George sentou-se em seu sofá. Havia quase uma semana que não dormia, e nem lembrava qual foi a última vez que havia ido para casa. Ligou o reprodutor de memórias. Adicionou a cápsula do dia 10 de setembro de 2014 e vestiu o capacete-visor. Transportou-se telepaticamente aos últimos momentos que teve com seu filho.

― Pai, porque o senhor parece tão triste?― perguntou a criança. Suas roupas eram muito maiores que seu corpo, e já não havia nenhum fio de cabelo em sua cabeça.

George abraçou o filho sem responder. Sentia saudades de um jeito que só um pai poderia sentir.

Mas apesar de estar com ele em seus braços, sabia que aquilo não valia a pena. Soltou-o. Despediu-se dele pela última vez. Voltou a sua realidade e destruiu a capsula número um, dando fim ao instante sem jamais conseguir perder a lembrança.

Prólogo

Epílogo

Conto

A coletiva de imprensa teve início quinze minutos após o marcado. Para a surpresa dos jornalistas o próprio presidente da empresa assumiu o microfone, visivelmente mais cansado e abatido do que nos momentos anteriores que veio a público.

― Boa tarde senhoras e senhores― ele iniciou de forma breve e formal.― Venho representar minha companhia para fazer alguns esclarecimentos sobre a nossa postura perante a questões que estão sendo debatidas na mídia nas últimas semanas. Peço por favor que não façam-me perguntas. Qualquer eventual dúvida que vocês tiverem poderá ser solucionada com o meu assessor, que me substituirá depois de meu comunicado.

Os flashes fotográficos disparavam de pontos diversos. Uma dezena de microfones de diversas emissoras e meios de comunicação diferentes foi colocado em frente ao homem. Este respirou fundo. Prosseguiu sua declaração guiando-se por tópicos escritos de forma desordenada em uma folha de papel.

― Quando, no ano de 2022, fomos responsáveis por criar o leitor de memórias, tivemos as mais sinceras boas intenções. De fato, criei tal tecnologia porque eu tinha um sonho impossível, e estava disposto a tudo para realizá-lo. Imaginei que outras pessoas em todo o mundo também gos-  tariam de ter a oportunidade de reviver determinados instantes da sua vida, e por isso, apenas por isso, iniciamos a fabricação e venda dos leitores em grande escala.

Ajeitou o óculos na ponta do nariz e continuou, com uma sensível fadiga em seu tom de voz.

― Em momento algum, durante a criação do produto, imaginei que ele poderia servir a outros propósitos. Acredito que esse tenha sido o meu maior erro, ter subestimado a minha criação, sem pensar em quão poderosa ela poderia ser. Infelizmente, creio que agora talvez seja tarde demais.

― O propósito inicial do leitor de memórias era que tivéssemos um produto de uso pessoal, onde as pessoas poderiam reviver momentos em seu próprio passado. A popularização da venda de memórias nos foi uma enorme surpresa. Não esperávamos que as pessoas estivessem dispostas a tal experiências, por acreditarmos que estas tinham um caráter muito intimo para serem comercializadas.

Gesticulava sempre que falava, porém em momento algum o homem olhava para os jornalistas em sua frente. Seus olhos se limitavam aos microfones e as palavras do papel.

― Os escândalos da venda de memórias de celebridades foi o primeiro sinal que as coisas estavam saindo fora de controle. Nossa empresa se posicionou, desde o primeiro momento, efetivamente contra tais atos. Acreditamos na privacidade da memória individual. Tornar as mesmas públicas é uma atitude que abominamos devido a banalização dos sentimentos e das intimidades alheias. Fez uma pausa. Sentiu enorme dificuldade em continuar.

― O caso recente da venda em mercado negro da lembrança de criminosos sexuais nos atingiu de forma devastadora. Nós, da Memory Company gostaríamos de deixar clara a nossa total aversão por tais atos. Lamentamos por todas as mulheres vítimas de tal abuso, e viemos declarar o nosso posicionamento perante a tamanha atrocidade. Ergueu os olhos pela primeira vez.

― Eu, George Keep, criador e presidente da Memory Company, venho declarar que a empresa esta encerrando suas atividades por período indeterminado. Enquanto não criarmos um sistema delimitador das lembranças não lançaremos mais nenhum produto que tenha esse propósito. Tal decisão, que muitos podem julgar exagerada, foi tomada por mim. Peço perdão a todos que, de alguma forma, sofreram em virtude do meu invento. Mesmo sabendo que tal atitude não será capaz de extinguir o problema do tráfico de memórias, é o mínimo que sinto que devo fazer. As pesquisas sobre o apagamento de memórias devem continuar, mas não há previsão de comercialização deste produto.

Os jornalistas todos se amontoaram em frente a George, mas ele não respondeu nenhuma das questões. Virou as costas e desapareceu, ignorando os outros e voltando para seu escritório.

Horas mais tarde George sentou-se em seu sofá. Havia quase uma semana que não dormia, e nem lembrava qual foi a última vez que havia ido para casa. Ligou o reprodutor de memórias. Adicionou a cápsula do dia 10 de setembro de 2014 e vestiu o capacete-visor. Transportou-se telepaticamente aos últimos momentos que teve com seu filho.

― Pai, porque o senhor parece tão triste?― perguntou a criança. Suas roupas eram muito maiores que seu corpo, e já não havia nenhum fio de cabelo em sua cabeça.

George abraçou o filho sem responder. Sentia saudades de um jeito que só um pai poderia sentir.

Mas apesar de estar com ele em seus braços, sabia que aquilo não valia a pena. Soltou-o. Despediu-se dele pela última vez. Voltou a sua realidade e destruiu a capsula número um, dando fim ao instante sem jamais conseguir perder a lembrança.

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