Melanocetus Johnsonii

Terror
Outubro de 2019
Começou, agora termina queride!

Conquista Literária
Conto publicado em
O Culto

Prólogo

Epílogo

Conto

Áudio drama
Melanocetus Johnsonii
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- Puta que pariu, que frio! – eu disse pro Soldado Amaral.

- Isso vai te esquentar, Sprite. – Ele disse me alcançando um cantil. Sprite era o apelido que ganhei depois de responder ao Tenente que gostaria de Sprite, quando este perguntou que refrigerante gostaríamos. Obviamente não ganhamos nenhum. 

Abri o cantil e cheirei, era uísque. Não era bom, mas era uísque. Misturávamos com o café preto e isso espantava o frio, o sono e anestesiava os incômodos da vigia. Ficar sozinho no silêncio, observando o mato sem nunca nada acontecer obviamente era um saco. Mas todos os vigias rezavam para nada acontecer em seu turno, vários já morreram quando alguns bandidos decidiam roubar o quartel. Quão absurdo soa para você? Roubar um quartel protegido por patrulhas armadas com fuzis. Há quem tente.

- Algum Tenente vistoriando as guaritas? – perguntei.

- Não que eu saiba. – respondeu Amaral. – Bom, vou indo que hoje vou sair com aquela garota que te mostrei os nudes esses dias.

Amaral desceu as escadas da guarita e me deixou ali enchendo minha caneca de café preto com uísque. Era uma noite especialmente fria, eu estava com a japona do uniforme, mas minhas orelhas estavam tão frias que doíam e pareciam que iam cair do corpo. 

Lá estava eu de braços cruzados escorados no parapeito da guarita, escondendo as mãos entre os braços para aquecê-las. O café esfumaçando apoiado do lado do meu corpo. Dava pequenos goles. Eu levei meu celular escondido dentro da bota e botei tocar baixinho a discografia do Black Sabbath no aleatório. Fiquei ali cantarolando as músicas como surgiam.

Lembrei do esconderijo especial daquela guarita que era a mais afastada de todo o sistema de segurança, acima do pilar noroeste sempre tinha cigarros e isqueiros, todos os patrulhas costumavam deixar lá sempre que pudessem para salvar patrulhas como eu que não lembravam de comprar. A regra era clara, se você pegar um cigarro, tem que botar uma carteira lá em sua próxima patrulha. Botei minha mão no vão e havia uma carteira e dois isqueiros. Eram Lucky Strikes, eu não era um fumante habitual, logo era bom que não fosse um cigarro tão forte. Acendi um e fiquei observando o céu. Não era possível ver nenhuma estrela, o que era estranho considerando que foi um dia ensolarado. 

O rádio começou a chiar era por volta das três horas da manhã, um chiado baixo como se algo tivesse causando interferência. Não era tão comum, mas volta e meia tínhamos algum problema com o sinal. Nada grave a ponto de cortar a comunicação. Era um ruído chato e o pior é que foi se tornando mais alto e juntamente com isso o sono começou a pesar. 

Ambos estão realmente me incomodando, sirvo mais uma xícara de café preto e misturo água fria e viro num gole para ver se me livro do sono ao menos. Estranhamente há uma sensação de estar sendo observado. É algo estranho do ser humano saber quando é observado se pararmos para pensar sobre, no entanto neste momento eu tinha certeza que estava sendo. 

Peguei a lanterna e comecei a procurar pelo mato do lado de fora do quartel por alguém, ao aproximar a luz ao terreno bem abaixo da guarita, vi uma criança com as mãos na cerca que marcava o território do quartel. Ela estava calma, em silêncio me olhando nos olhos. O chiado ficou tão alto que doía os ouvidos, achei que estava alucinando de sono e fechei meus olhos. Como aquelas vezes que você acorda e vê uma aranha, mas ao levantar para matá-la ela some. Algum tempo depois olhei e lá estava ela. 

Peguei o rádio para chamar reforço, mas não conseguia ouvir resposta. Olhei para baixo novamente e lá estava a criança, na mesma posição, parecia que nem piscava. Fiquei a observando e notei que vestia umas roupas que pareciam antigas. Era aqueles pijamas que as famílias pobres usavam nos filmes de época. Algo me parecia realmente errado naquilo, sentia um misto de medo e curiosidade. O que eu devia fazer? Ignorar? Fugir?

Obviamente não era um fantasma, isso nem existe. Estou pensando como um covarde. Se eu não posso ir lá ajudar uma criança, o que farei se precisar servir numa guerra? Ou se alguém realmente invadir o quartel? Eu precisava agir como um oficial a serviço da pátria.

Desci as escadas da guarita e fui de encontro à criança. Conforme me aproximei, ela saiu correndo para o meio do mato, olhando para trás várias vezes. Como se quisesse que eu a seguisse. Esta situação ficava cada vez mais estranha. Pulei a cerca do quartel e a segui. Ela parou na extremidade oposta a minha de um círculo, no centro podia ver as brasas do que havia sido uma fogueira, algumas garrafas de cerveja jogada nos cantos e uma espécie de artesanato feito com galhos e cipós.  A criança parecia abraçada em algo, mas eu não via nada. Sua face refletia algo como medo, orgulho e desejo de aprovação. 

Senti-me novamente observado, desta vez por algo que vinha de cima, e tirei meus olhos da criança para procurar essa outra presença. A uns três metros de altura vi três olhos, ou o que pareciam ser três olhos. Eles brilhavam um verde claro na noite escura, não havia rosto ou corpo, apenas estes três olhos grandes olhos. Dois mais ovais lado a lado e um mais redondo acima. Senti um medo inexplicável me percorrer a espinha, como se instintivamente eu conhecesse aquilo. Como se fosse algum predador que a humanidade conheceu em seus tempos áureos.

Eu estava hipnotizado por aqueles olhos e com o tempo os observando, comecei a notar seu corpo mais escuro que a noite, era algo como uma sombra. Um vulto humanoide, sem dedos, ou sequer pernas. Analisando seu corpo notei que era a ele que a criança a abraçava. A luz da lanterna não refletia nele, como se não o atingisse. Ele começou a se aproximar, não caminhando, era como se seu corpo se esticasse e viesse em minha direção. Peguei o fuzil e disparei, vi as balas passando como se ele não existisse. Ouvi o barulho delas atingindo galhos e pedras.  Pensei em correr, mas não corri. Estava em choque. Paralisado. Olhei para a criança e agora pude ver que ela fazia parte dele, tinha uma ligação negra que saía da nuca dela e agora ela estava de cabeça baixa, olhos fechados e braços caídos, como se estivesse dormindo em pé.

Quando fui olhar novamente para a criatura, a criatura me alcançou e fui envolto por sua completa escuridão.  


Prólogo

Epílogo

Conto

- Puta que pariu, que frio! – eu disse pro Soldado Amaral.

- Isso vai te esquentar, Sprite. – Ele disse me alcançando um cantil. Sprite era o apelido que ganhei depois de responder ao Tenente que gostaria de Sprite, quando este perguntou que refrigerante gostaríamos. Obviamente não ganhamos nenhum. 

Abri o cantil e cheirei, era uísque. Não era bom, mas era uísque. Misturávamos com o café preto e isso espantava o frio, o sono e anestesiava os incômodos da vigia. Ficar sozinho no silêncio, observando o mato sem nunca nada acontecer obviamente era um saco. Mas todos os vigias rezavam para nada acontecer em seu turno, vários já morreram quando alguns bandidos decidiam roubar o quartel. Quão absurdo soa para você? Roubar um quartel protegido por patrulhas armadas com fuzis. Há quem tente.

- Algum Tenente vistoriando as guaritas? – perguntei.

- Não que eu saiba. – respondeu Amaral. – Bom, vou indo que hoje vou sair com aquela garota que te mostrei os nudes esses dias.

Amaral desceu as escadas da guarita e me deixou ali enchendo minha caneca de café preto com uísque. Era uma noite especialmente fria, eu estava com a japona do uniforme, mas minhas orelhas estavam tão frias que doíam e pareciam que iam cair do corpo. 

Lá estava eu de braços cruzados escorados no parapeito da guarita, escondendo as mãos entre os braços para aquecê-las. O café esfumaçando apoiado do lado do meu corpo. Dava pequenos goles. Eu levei meu celular escondido dentro da bota e botei tocar baixinho a discografia do Black Sabbath no aleatório. Fiquei ali cantarolando as músicas como surgiam.

Lembrei do esconderijo especial daquela guarita que era a mais afastada de todo o sistema de segurança, acima do pilar noroeste sempre tinha cigarros e isqueiros, todos os patrulhas costumavam deixar lá sempre que pudessem para salvar patrulhas como eu que não lembravam de comprar. A regra era clara, se você pegar um cigarro, tem que botar uma carteira lá em sua próxima patrulha. Botei minha mão no vão e havia uma carteira e dois isqueiros. Eram Lucky Strikes, eu não era um fumante habitual, logo era bom que não fosse um cigarro tão forte. Acendi um e fiquei observando o céu. Não era possível ver nenhuma estrela, o que era estranho considerando que foi um dia ensolarado. 

O rádio começou a chiar era por volta das três horas da manhã, um chiado baixo como se algo tivesse causando interferência. Não era tão comum, mas volta e meia tínhamos algum problema com o sinal. Nada grave a ponto de cortar a comunicação. Era um ruído chato e o pior é que foi se tornando mais alto e juntamente com isso o sono começou a pesar. 

Ambos estão realmente me incomodando, sirvo mais uma xícara de café preto e misturo água fria e viro num gole para ver se me livro do sono ao menos. Estranhamente há uma sensação de estar sendo observado. É algo estranho do ser humano saber quando é observado se pararmos para pensar sobre, no entanto neste momento eu tinha certeza que estava sendo. 

Peguei a lanterna e comecei a procurar pelo mato do lado de fora do quartel por alguém, ao aproximar a luz ao terreno bem abaixo da guarita, vi uma criança com as mãos na cerca que marcava o território do quartel. Ela estava calma, em silêncio me olhando nos olhos. O chiado ficou tão alto que doía os ouvidos, achei que estava alucinando de sono e fechei meus olhos. Como aquelas vezes que você acorda e vê uma aranha, mas ao levantar para matá-la ela some. Algum tempo depois olhei e lá estava ela. 

Peguei o rádio para chamar reforço, mas não conseguia ouvir resposta. Olhei para baixo novamente e lá estava a criança, na mesma posição, parecia que nem piscava. Fiquei a observando e notei que vestia umas roupas que pareciam antigas. Era aqueles pijamas que as famílias pobres usavam nos filmes de época. Algo me parecia realmente errado naquilo, sentia um misto de medo e curiosidade. O que eu devia fazer? Ignorar? Fugir?

Obviamente não era um fantasma, isso nem existe. Estou pensando como um covarde. Se eu não posso ir lá ajudar uma criança, o que farei se precisar servir numa guerra? Ou se alguém realmente invadir o quartel? Eu precisava agir como um oficial a serviço da pátria.

Desci as escadas da guarita e fui de encontro à criança. Conforme me aproximei, ela saiu correndo para o meio do mato, olhando para trás várias vezes. Como se quisesse que eu a seguisse. Esta situação ficava cada vez mais estranha. Pulei a cerca do quartel e a segui. Ela parou na extremidade oposta a minha de um círculo, no centro podia ver as brasas do que havia sido uma fogueira, algumas garrafas de cerveja jogada nos cantos e uma espécie de artesanato feito com galhos e cipós.  A criança parecia abraçada em algo, mas eu não via nada. Sua face refletia algo como medo, orgulho e desejo de aprovação. 

Senti-me novamente observado, desta vez por algo que vinha de cima, e tirei meus olhos da criança para procurar essa outra presença. A uns três metros de altura vi três olhos, ou o que pareciam ser três olhos. Eles brilhavam um verde claro na noite escura, não havia rosto ou corpo, apenas estes três olhos grandes olhos. Dois mais ovais lado a lado e um mais redondo acima. Senti um medo inexplicável me percorrer a espinha, como se instintivamente eu conhecesse aquilo. Como se fosse algum predador que a humanidade conheceu em seus tempos áureos.

Eu estava hipnotizado por aqueles olhos e com o tempo os observando, comecei a notar seu corpo mais escuro que a noite, era algo como uma sombra. Um vulto humanoide, sem dedos, ou sequer pernas. Analisando seu corpo notei que era a ele que a criança a abraçava. A luz da lanterna não refletia nele, como se não o atingisse. Ele começou a se aproximar, não caminhando, era como se seu corpo se esticasse e viesse em minha direção. Peguei o fuzil e disparei, vi as balas passando como se ele não existisse. Ouvi o barulho delas atingindo galhos e pedras.  Pensei em correr, mas não corri. Estava em choque. Paralisado. Olhei para a criança e agora pude ver que ela fazia parte dele, tinha uma ligação negra que saía da nuca dela e agora ela estava de cabeça baixa, olhos fechados e braços caídos, como se estivesse dormindo em pé.

Quando fui olhar novamente para a criatura, a criatura me alcançou e fui envolto por sua completa escuridão.  


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