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Mãos mágicas
Conto

Mãos mágicas

O ramo da medicina é para aqueles que tem vocação. Normalmente, pessoas que desejam salvar vidas ou tornar a vida dos outros melhor. Ou as vezes, pessoas que buscam ter mãos salvadoras.

Sophia Leite
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Áudio drama
Mãos mágicas
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

No dia 14 de abril, Vittorio De Luca era o melhor cirurgião de plantão no hospital, então não foi surpresa quando, quase à meia-noite, o chamaram para um atendimento de emergência. Dois carros haviam colidido em um cruzamento e agora os passageiros estavam em estado de emergência, ambos precisando de cirurgia. Em dez minutos, os internos já estavam arranjando a papelada e o direcionando para a sala número 3, a mesma que ele sempre requisitava para operações de risco.

Antes disso, pela primeira vez em muito tempo, a noite havia sido relativamente calma. Pernas quebradas, alguns resfriados e uma infecção, o que tornou bem fácil para o médico se encontrar com a amante em seu escritório. A mulher era uma das recepcionistas novatas, bonita, com o corpo escultural e ambiciosa o suficiente para considerá-lo um investimento para a carreira. 

—Não podemos continuar nos encontrando assim, sabe? Se sua esposa descobrir...

—Ela não vai, acredite. Somos mais casados com nossos trabalhos do que um com o outro. 

—Sei. E você comentou com o diretor sobre minha proposta?

—Sim, ele achou bem criativa. Deve entrar em contato logo, logo pelo sistema.

Aquilo nunca aconteceria. Ela soltou uma risada oca de emoção.

—Que bom.

—Sim. Agora vamos, suba na mesa...

Porta trancada, calças arreadas, camisinha de prontidão e ele estava se sentindo bem relaxado e satisfeito com sua vida quando, algumas horas depois, uma enfermeira lhe entregou o prontuário e confirmou os preparativos da operação. Seu paciente era Luciano Espindola, vinte e dois anos, O negativo e doador de órgãos. Um rapaz que, se dependesse dele, ainda viveria muito pela frente. 

Vittorio cumprimentou alguns colegas e se dirigiu para o vestiário, trocando a roupa enquanto testava os pulsos e mexia os ombros, se alongando. Já estava indo lavar as mãos quando a porta atrás de si abriu e seu colega, um americano bonachão chamado Alex, entrou e suspirou aliviado quando o encontrou.

—Ótimo, você ainda não começou. 

—O que houve, my boy? —Ele riu, tirando o excesso de água das mãos e as erguendo com cuidado, virando-se para o loiro. —O diretor reclamou de novo por eu ter pedido essa sala? Eu já disse, ela me dá sorte e com uma cirurgia dessas eu vou...

Alex fez que não, erguendo as mãos para que ele parasse.

—Algo aconteceu, meu amigo. Tentaram entrar em contato antes, mas você já estava vindo para cá. O acidente que aconteceu mais cedo, o carro que atingiu o do seu paciente... Era o de Angela.

Vittorio piscou sem entender.

—Como assim?

—Sua mulher estava no outro carro. Ela está na sala de cirurgia 2 e a Dra. Russo é a responsável. Espere! — Alex segurou o moreno assim que ele fez menção de sair correndo.

—Esperar? É minha mulher, porca miseria!  

—Ela está em estado crítico! O coração está falhando, não tem muito tempo. Pare de se debater e preste atenção! Você é popular aqui, metade do lucro se deve ao seu talento, então conversei com o diretor e ele concordou... Me escuta, que droga! — Segurou o amigo pela gola, fazendo-o olhá-lo. — Esse menino que está aí, ele não tem ninguém. É um órfão que acabou de sair do sistema e está tentando ganhar a vida. Entendeu o que quero dizer? Ninguém vai sentir falta dele.

Vittorio não respondeu, olhando para Alex em choque. O barulho do monitor na sala ao lado parecia apontar o óbvio, ecoando sugestivamente entre as paredes. 

—Ele é doador e tem um coração saudável.

—Está dizendo para eu...? 

—Para você tomar uma decisão. Não temos muito tempo, as pessoas envolvidas estão prontas para ajudar Angela caso você decida que sim. Ninguém de fora vai saber, será uma operação interna. Como não tem ninguém responsável, o corpo vai ficar aqui para as aulas, então forjamos a autópsia, documentação e terá sido como se um milagre tivesse acontecido. — Alex finalmente soltou-o, limpando a garganta. — Você só precisa cometer um pequeno erro, você viu o dano no crânio dele. Se fizer isso, poderemos salvá-la.

—Mas ele é apenas um garoto.

—E é mais importante que a sua esposa? Você sabe o tamanho da lista de espera, não seja idiota. Por algum milagre, os dois são compatíveis e estão aqui, no mesmo hospital, na mesma hora e com você como médico. Não perca essa chance.

O moreno abriu a boca e fechou-a logo depois, se virando para a sala e fitando o corpo na maca. De lá, as enfermeiras o olhavam curiosas, esperando ordens do que fazer. Mais hesitação e elas saberiam que algo estava errado. Vittorio fechou os olhos e respirou fundo, sentindo uma pressão desconfortável nas têmporas. 

Alex olhou para os lados e tocou-o no ombro.

— E então? O que vai ser?

***

Depois de algum tempo, as paredes muito brancas paravam de machucar os olhos e pareciam se fundir com as lâmpadas do teto. O forte cheiro de alvejante se tornava comum e as horas mal dormidas não afetavam mais seu organismo. Caminhar pelos corredores passava a parecer como atravessar um túnel de luz e era deste ponto em diante que um médico deveria se preocupar, o professor de Vittorio costumava dizer, pois, ou ele começaria a ter noção da sua incapacidade como mortal ou começaria a se considerar um deus.

Vittorio pensou que ainda teria muito tempo antes de cruzar esta linha, mas no instante em que tirou o jaleco e guardou-o no escritório, percebeu que já era tarde demais para se enganar dizendo que era uma pessoa boa. O sentimento piorou quando o celular começou a tocar em sua mão e ele viu o nome da esposa. A música continuou por alguns segundos, fora de lugar naquele ambiente sóbrio, até parar e o visor voltar a ficar escuro.

Fazia quatro meses desde o acidente e ele e Angela nunca mais haviam sido os mesmos. Ela por ter ataques de pânico toda vez que olhava a cicatriz no peito e ele por não se arrepender nem um pouco da decisão que havia tomado. Era contraditório, ter feito tanto para salvar uma mulher que ele constantemente traía, mas seres humanos eram caóticos assim como os sentimentos divergentes que os guiavam. Vittorio a amava, ou amava tê-la para si ou amava a criatura que ela havia se tornado.

Olhou para a prescrição de antidepressivos e suspirou, rasgando o papel e jogando-o no lixo antes de pegar a maleta e sair. Cumprimentou algumas pessoas automaticamente e passou rápido pela sala de espera, parando apenas quando viu uma conhecida no balcão da recepção. Baixou a cabeça sem graça, tentando escapar, mas ela o avistou e chamou seu nome, obrigando-o ir até lá e cumprimentar todas as quatro mulheres sentadas.

—Garotas, como vão?

—Bem, bem. — Uma delas respondeu desinteressada, mexendo no computador. Vittorio não se lembrava de seu nome.

—Um tanto decepcionada. Às vezes se demora muito para ter uma resposta do sistema, não é mesmo?

Ele engoliu em seco e fitou os olhos azuis do fruto proibido. 

—Fazer o quê? É como ele funciona.

Ela franziu o cenho.

—Indo para casa, doutor? — Sarah, uma criatura frágil e empática que mal lhe dirigia a palavra pareceu interceder pela sua sanidade.

—Ahm, sim. Minha esposa precisa de atenção.

—Eu imagino. Aquele acidente foi terrível e com certeza deve ter deixado algum trauma. 

—É, em nós dois. — E essa era a primeira vez que ele falava a verdade em quase um ano.

—Hm. Por que não a leva no circo? Aquele novo que chegou semana passada, dizem que é incrível.

—Circo?

—Sim, perto do shopping. Uma enorme barraca vermelha e branca. Como não o viu antes? — Tereza, a quarta e mais ocupada das recepcionistas finalmente se virou e analisou-o de cima a baixo. Parecendo não gostar do que viu, voltou a cuidar dos seus papéis e deixou que a amiga continuasse a conversa. Garota esperta.

—Circus Capella o nome. Tentem ir lá, minha tia diz que circos são lugares de magia, então quem sabe? Talvez seja exatamente o que estejam precisando.

Vittorio concordou simplesmente porque a ideia de uma redenção com a esposa, mínima que fosse, o atraía.

—Talvez eu vá lá, obrigado Sarah. Até mais meninas.

Ele passou os olhos por todas e os desviou da ex, dando as costas e saindo para o estacionamento. Entrou no carro e guardou o material no banco ao lado, colocando o cinto e ligando o rádio. Ramones começou a tocar ao que ele iniciava o motor e guiava o automóvel para a avenida principal. Recebeu o barulho do trânsito com alívio depois de passar o dia todo no silêncio doentio do hospital, tamborilando os dedos o volante e olhando para as luzes da cidade. Esperava não ter pesadelos naquela noite.

***

Diferentes de outras memórias, traumas não eram facilmente diluídos na repetição do dia-dia porque se comportavam como parasitas, esgueiravam-se para dentro do cérebro e se instalando nas partes mais íntimas e profundas de uma personalidade. Vittorio sabia bem disso, mas mesmo assim seu armário do banheiro estava cheio de remédios para insônia e calmantes. 

Deitado ali no escuro, ele fitava o teto sentindo-se vazio. Suas mãos estavam suadas e as costas doíam por ter ficado muito tempo parado na mesma posição, mas era uma dor bem-vinda que o fazia sentir-se presente. Soltou um suspiro e se virou, encarando as costas da esposa deitada ao seu lado. Com cuidado, tocou-a no ombro.

—Angela? Está acordada?

Ela não se mexeu, então ele deixou a mão cair, derrotado, e resolveu se levantar. Afastou os lençóis e caminhou até o corredor, parando ao ver uma figura de camisola perto da janela. A roupa branca estava suja e os braços ao lado do corpo pareciam muito longos e magros. Vittorio sentiu um arrepio e espiou a mulher dentro do quarto, hesitando por um momento antes de fechar a porta e fitar a estranha aparição.

—Hei! Quem é você, como entrou aqui?

Não houve resposta. A luz da lua entrou pela janela e banhou o corredor de um cinza morto e sufocante, expandindo a sombra deformada até ele. Vittorio cerrou os punhos e começou a se aproximar.

—Ei, está me ouvindo?

Seus pés pisaram em algo molhado. Ele olhou para baixo e viu sangue. Suas pernas tremeram e quando ergueu o rosto, a aparição se virou e lhe agarrou a mão. Ele se viu cara a cara com uma cópia de sua esposa, ensanguentada e com o peito aberto, segurando o coração ainda pulsante. Tentou gritar, mas qualquer voz que tivesse pareceu morrer abafada pelo barulho cada vez mais alto dos batimentos. Tu-dum...tu-dum...

—Mentiroso... Assassino! — Ela exclamou com a voz rouca, seu maxilar abrindo de forma não natural e simplesmente caindo no chão, deixando uma língua longa e molhada se balançando entre eles. Então o atacou.


Vittorio acordou sozinho na cama, cheio de suor e com uma pressão no peito. Olhou ao redor e se levantou rápido, nervoso.

—Angela? Angela?!

—Estou aqui. — A mulher acenou da poltrona no canto do quarto, abraçada aos joelhos enquanto olhava a vista da janela. —Você estava tendo um pesadelo.

—É, eu... Eu tenho tido muito deles ultimamente.

Ela concordou, voltando a olhar para frente. Ele suspirou e foi até ela, beijando-lhe a fronte e abraçando-a por trás, sentando-se no apoio.

—E você, por que está acordada?

—Não sei. A mesma coisa de sempre, eu ainda me sinto errada de algum jeito. É como se eu conseguisse sentir que isso não é meu... — Tocou o peito.

—Esse coração é seu. É medicinalmente impossível o que você fala, meu anjo. Seu corpo aceitou perfeitamente o transplante e...

—Mas minha cabeça não. Estou falando sério, Vittorio, eu me sinto mal. Eu devia ter sinalizado ou dirigido mais devagar, foi minha culpa o acidente. Eu matei aquele garoto e ainda roubei seu coração.

—Você não fez absolutamente nada disso. — Ele lhe segurou a mão e envolveu os dedos, sentindo-se melhor quando ela retribuiu o gesto.

Olhou também para a janela, tentando se acalmar. A cidade era muito bonita durante a noite, principalmente com a vista dos alpes. Angela havia sido a principal razão por terem se mudado para lá, para que ela assumisse seu cargo na COMALP. E estavam indo muito bem até aquela noite fatídica em que ela resolveu tirar folga e foi visitá-lo no trabalho. 

Vittorio suspirou e esfregou os olhos, notando uma forma incomum na vista que estava tão bem-acostumado. Uma tenda gigantesca parecia ter sido armada mais ao centro e ali de casa, ele conseguia ver sua ponta, com uma bandeira cumprida se balançando ao vento.

—Ei, sabe o que me contaram? Tem um circo novo na cidade. Que tal irmos amanhã?

A mulher mordiscou o lábio e olhou-o.

—Circo? 

—Sim, você sempre gostou deles, não? Vamos lá. É meu dia de folga. 

—Eu não sei...

—Por favor, Angela. Estamos precisando sair um pouco, eu e você.

Ela refletiu aquelas palavras e concordou.

—Está certo, é um encontro.

Vittorio riu.

—Há quanto tempo não vamos em um?

—Dois anos? Três? Não sei como ainda não traímos um ao outro. — Ela brincou, tocando os braços dele ao redor de sua cintura e soltando um suspiro.

—Porque eu te amo.

—Eu te amo também.

É, fazia muito tempo que ele não dizia a verdade...

***

Dizer que o Circus Capella era impressionante não fazia justiça ao impacto que ele causava assim que entrava em vista. Sua tenda principal parecia antiga e pesada, com tons sujos de branco e um vermelho fresco, quase vivo. Outras barracas e carrinhos cercavam a parte traseira e havia uma música sinistra no ar que casava muito bem com o show de aberrações à direita e a dança envolvente de algumas bailarinas à esquerda. Os palhaços tinham pinturas macabras, com sorrisos largos demais e meio borrados, mas Vittorio nunca havia gostado deles, então não saberia dizer se seu desconforto era justificado ou pessoal. Ao seu lado, no entanto, Angela parecia estar se divertindo. Não parecia sentir a carga elétrica no ar, nem as ocasionais sombras que surgiam pelo canto dos olhos e sumiam quando ele virava a cabeça.

Quando entraram na tenda, entretanto, sua ansiedade piorou. Em seus ouvidos houve uma confusão de sons e sussurros, que pareceram tomar conta de todo o espaço e sugar o oxigênio, deixando-o tonto. Ele só se sentiu melhor quando finalmente se sentaram nas arquibancadas e o show começou, mas mesmo assim seu coração continuou a bater furioso contra o peito e seus pés balançavam de lá para cá diante a realização de que não havia nenhuma saída à vista.

—Respeitável público, sejam bem-vindos! Fico muito feliz em ver tamanha plateia de pessoas tão diferentes e fascinantes, reunidas somente para se encantarem com nosso espetáculo. — O apresentador que entrou no picadeiro era uma figura esguia e cheia de gestos exagerados, com um sotaque estranho que Vittorio não soube identificar. O homem tirou a cartola e fez uma reverência. —Agora, sem mais delongas, senhoras e senhores, meninos e meninas, conheçam o maravilhoso, o formidável, o estupendo Circus Capella!

Houve uma explosão de aplausos ao que a trupe começou a desfilar e o show efetivamente começou. Vittorio pode notar mais tarde uma orquestra escondida nas sombras, tocando sons distorcidos e rápidos. Em dado momento, jurou ter visto os olhos do violinista brilharem vermelhos. 

—Fico feliz que você me convenceu a vir, estou gostando muito! — Angela disse de repente, tocando sua perna. Ele lhe dirigiu um sorriso sem graça.

Uma música envolvente abruptamente deu lugar ao ritmo circense, arabesca e misteriosa. O apresentador sorriu e apontou para todos, parando em Vittorio por um momento.

—Agora, vinda do extremo oriente, a misteriosa Malika! Dançarina dos sete véus e serpente do deserto!

As luzes piscaram e diminuíram quando uma mulher esbelta e coberta de véus adentrou o picadeiro, dançando. Os movimentos dela eram hipnóticos, sensuais e a cada véu retirado, Vittorio sentia o estômago embrulhar e o corpo ferver. Não só ele como vários outros homens da plateia soltaram suspiros desejosos, mesmerizados pela mulher que se movimentava como o vento. Ela parou no último véu e virou-se para eles, se inclinando para frente e depois para trás, atraindo-os como uma sereia para seus braços. Então girou, retirou o véu e jogou-o para o alto. O tecido deslizou pelo ar e começou a descer, cobrindo seus olhos intensos, e um segundo depois, Malika havia sumido e uma enorme serpente estava em seu lugar. 

***

—Foi incrível! — Angela falava animada, abraçada ao braço de Vittorio enquanto saíam da tenda principal para passear entre os carrinhos. 

—Sim, foi.

—Os palhaços, trapezistas, o leão... E aquela dançarina! Será que ela virou mesmo uma cobra? — Riu, parando quando notou o marido um tanto aéreo. —Está tudo bem?

—Hm? Sim, sim, claro. — Ele roubou um beijo dela e segurou-lhe melhor a mão. —Para onde agora? Já escureceu, mas temos tempo.

—Que tal ali? — Ela apontou para a Casa de Espelhos.

—Vamos.

A mulher beijou-o mais uma vez e caminhou até a construção com toda a calma do mundo. Vittorio, depois de desistir de procurar certos olhos intensos em meio à multidão, finalmente percebeu para onde estavam indo e empacou na entrada. Se lugares pudessem ganhar adjetivos vivos, aquele só poderia ser descrito como mal. Sua presença exalava intenções pervertidas para quem quer que tivesse a infelicidade de cruzar seu caminho. 

—Tem certeza que quer ir aí?

—Vamos, vai ser divertido!

Angela puxou-o com mais força e ele cruzou a porta, indo parar dentro de uma sala repleta de espelhos enfileirados, arrumados para criar uma prisão infinita. Olhou para seu reflexo em um deles e sentiu-se observado, dando alguns passos em falso para trás e esbarrando em outro, percebendo que o caminho por onde havia entrado havia sumido e ele estava sozinho.

—Angela? Amor, onde está você? — Virou em uma curva e depois outra, parando ao ver que havia voltado para o mesmo lugar. Soltou um palavrão.

—Ora, ora, que boca suja o senhor tem.

Vittorio se voltou para a direção da voz e se engasgou quando encontrou Malika encostada em um dos espelhos perto da parede, brincando com uma cobra gigantesca ao redor do pescoço. Ele passeou os olhos pelo seu corpo curvilíneo, sentindo-se estranhamente excitado em ver como a serpente parecia se encaixar nas dobras e linhas de sua anatomia, ressaltando o que estava escondido pelo vestido quase como se ambas fossem uma só.

—O gato comeu sua língua? — Ela perguntou, fazendo-o voltar ao rosto de lábios suculentos.

—Desculpe, estou perdido.

—Não estamos todos? — A cobra descansou e ela se aproximou trazendo um perfume apimentado consigo. — Eu lhe vi me olhando da plateia.

—É mesmo?

—Sim. 

Vittorio limpou a garganta e baixou os olhos, sentindo-se tímido. Qualquer que fosse o poder que aquela mulher exercia sobre ele, era perigoso para quem estava habituado a estar sempre no controle e de repente se via fazendo o papel da presa.

—Me diga estranho, com o que você trabalha?

—Por que quer saber?

—Curiosidade. — Ela sorriu.

—Sou médico. Cirurgião.

—Ah, você faz magia com essas mãos. — Malika esticou os dedos longos e pegou os dele com cuidado, analisando-os. A pele dela parecia fria ao toque. 

—Não, apenas ciência. E nem sempre posso salvar as pessoas que quero.

—Hm. Tem certeza disso? — Ela olhou-o com uma sobrancelha levantada.

Ele se afastou abruptamente e limpou a garganta.

—Não tenho tempo para isso, onde é a saída?

—Eu não sei.

—Como não sabe?

—A casa só lhe deixa sair depois que você estiver pronto. 

—Isso não faz o menor sentido.

A morena tombou a cabeça para o lado.

—E o que faz, nesta vida? Você me parece alguém que deixou de procurar significado nas coisas há muito, muito tempo.

Vittorio ignorou-a e voltou a analisar o ambiente a procura de uma saída. Podia ouvir a música vinda do lado de fora, mas não tinha ideia por onde ela entrava. Soltou um suspiro cansado e encarou mais uma vez seu reflexo, não conseguindo sustentar o próprio olhar.

—Você está olhando para o espelho errado.

—Hm?

—Você tem que achar o correto.

Ele balançou a cabeça e continuou a andar, tateando ao redor e batendo o joelho em uma moldura. Soltou um palavrão e viu que a ponta enfeitada de um dos objetos havia rasgado uma perna de suas calças. Tocou o corte na panturrilha e encarou o espelho com raiva. Somente depois percebeu que era melhor ter saído correndo.

A sensação foi a mesma de ter sido amarrado e obrigado a encarar uma luz muito intensa. Seus olhos arderam e lacrimejaram, incapazes de piscar ou ele de se mexer. Mãos invisíveis e invasivas saíram do reflexo e o tocaram, apalparam e enfiaram as unhas em seu peito, fazendo furos profundos e rasgando sua pele até abrir um buraco. Vittorio sentiu tudo sem conseguir revidar. Seu oposto sorriu ao ver seu desespero e, sem cuidado algum, enfiou o braço e arrancou algo que o fez estremecer. Algo vital que foi trocado por uma cópia sombria e pesada, que vazou por suas veias e contaminou seu sangue como uma doença. Houve um estalo e o médico caiu no chão, sentindo-se morto. 

Malika se aproximou calmamente e se inclinou, analisando-o em silêncio. A cobra escorreu pelo seu ombro e encostou nele. A mulher sorriu.

—Agora as coisas ficarão mais divertidas, doutor.

***

Angela suspirou aliviada assim que viu o marido sair da Casa de Espelhos, mas voltou a ficar séria ao se lembrar do que havia acontecido.

—Como você pôde ter me abandonado lá dentro? Eu fiquei assustada! Você sumiu de repente! E o que estava fazendo que demorou tanto?

—Ahm. Eu sumi? Desculpe, não lembro direito, acho que estou cansado. — Ele tocou o peito incomodado, depois passou a mão nos cabelos, soltando a respiração que não sabia estar prendendo. —E você, está bem?

—Claro que estou, mas isso não responde minha pergunta. — Ela olhou para atrás e balançou a cabeça quando viu Malika sair da Casa de Espelhos e voltar para a tenda principal. —Quer saber? Estou cansada também, podemos voltar?

—Podemos.

Eles seguiram em silêncio até o carro. Qualquer vestígio da felicidade que haviam sentido anteriormente parecia ter sumido e os dois eram mais uma vez estranhos. Vittorio pensou em tentar se explicar, mas nem mesmo ele sabia o que havia acontecido. Ligou o motor e ajeitou o retrovisor com cuidado, vendo o circo se distanciar cada vez mais até finalmente sumir de vista. Sentiu alívio.

—Ahm pelo menos tivemos nosso encontro, não é?

Angela não respondeu, olhando para a paisagem com o queixo apoiado o braço. O marido suspirou e optou por ligar o rádio bem quando gotas pesadas de chuva começaram a cair no para-brisa e abafaram o som da música. 

—Vittorio?

—Hm?

—Eu quero um divórcio.

Um raio iluminou a estrada vazia na frente deles e ele quase derrapou o carro.

—O quê?!

—Você ouviu, eu não posso mais fazer isso. Nosso casamento já não está mais dando certo. E não foi por causa do acidente, ele já não vem dando certo há muito tempo e você sabe disso.

—Isso não é verdade, tivemos muito bons momentos juntos! Você ia até me visitar no dia do acidente e...

—Eu ia lhe confrontar, Vittorio. Eu vi as mensagens da recepcionista, eu sabia que você estava me traindo. Por isso estava dirigindo tão rápido e bati o carro, matando aquele pobre rapaz. E por ele e por mim eu não posso deixar as coisas continuarem do jeito que estão. Eu não posso continuar mentindo e nem você.

—Mentindo? Eu passei esses meses todos me esmerando para te agradar, eu cuidei de você, lhe dei os remédios, eu te curei! E nunca mais toquei em mais ninguém, eu juro! — Ele já não prestava mais atenção na estrada.

—Será questão de tempo.

—Eu posso mudar!

—Eu não acho que você queira mudar. Eu acho que você pensa que não tem absolutamente nada de errado com o que fez. — Ela parou por um momento e respirou fundo. —Eu não sou burra, Vittorio. Eu sei o tamanho da lista de espera para transplante e sei da burocracia. Eu sei o que você fez.

Ele freou de repente, fazendo o carro escorregar pela pista molhada de maneira brusca e parar torto no meio da estrada. Angela se agarrou como pode no banco para não se machucar, mas sua cabeça foi de encontro do vidro. Ela soltou um palavrão e tocou o sangue na testa, tentando recobrar o foco. Então olhou para o homem ao seu lado, horrorizada. 

—Está louco?!

—Louco? Talvez. — Vittorio tamborilou os dedos de maneira nervosa no volante e então passou a mão nos cabelos. —Eu fui louco e completamente idiota em ter te salvado, arriscado minha carreira por você, uma ingrata maldita, filha da...

—Não aja como se eu fosse alguma preciosidade sua, seu canalha! — Ela parou de tentar abrir a porta e se virou para ele. —Você assassinou alguém inocente, você não fez nenhum sacrifício nobre! Você fez porque sabia que podia e porque queria que eu continuasse sua!

—Você é minha!

—Não!

Ele soltou uma risada maníaca.

—É? Veremos.

Em um movimento rápido e cheio de decisão, ele desligou as luzes, tirou as chaves, saltou do carro e ativou as trancas. Ignorando os gritos da esposa, se afastou e ficou de prontidão no acostamento, esperando na chuva. Muitos jornais já haviam relatado os acidentes que aconteciam naquela estrada devido à falta de iluminação, um erro fatal em uma via de alta velocidade. Então não demorou três minutos para o farol de um caminhão aparecer e arrancar um sorriso de Vittorio.

Ele fechou mais o casaco e olhou para Angela se jogando contra o vidro do automóvel, tentando fugir.

—Não se preocupe, meu amor. Vamos ficar juntos para sempre.

O barulho da batida foi maior que ele esperava. O carro foi amassado e atirado para longe, girando duas vezes no ar antes de cair em um barranco. O motorista do caminhão, pobre coitado, ainda tentou frear, mas o impacto o nocauteou e deixou-o desacordado no assento como uma boneca quebrada. A cena, em geral, foi mais emocionante do que nos cinemas.

Outro raio cortou os céus quando Vittorio cuidadosamente desceu até os restos do automóvel e se ajoelhou, encontrando o corpo de Angela dentre os destroços. Ambos os braços estavam virados em um ângulo impossível, um pedaço de vidro havia penetrado o ombro, parte da cabeça estava amassada e, ironicamente, o maxilar da mulher havia sido arrancado com o impacto. 

—Tsc, tsc... Não se preocupe querida. Eu vou dar um jeito. — Ele pegou-a com cuidado e procurou ao redor por qualquer outra parte que estivesse faltando. Quando se deu por satisfeito, olhou para as luzes da cidade e começou a andar de volta para o circo.

***

Fazia uma semana que o Circus Capella havia chegado em Madri e já havia sido um sucesso estrondoso. Suas atrações beiravam entre o belo o macabro, seduzindo a plateia com desconforto e encantamento. Vittorio admitia que era uma vida diferente da que ele estava habituado, mas era de longe desconfortável ou tediosa, afinal, havia saído de um caminho de luz para outro muito, muito mais interessante.

—Com vocês, o Incrível Mágico Mancini! — A voz do apresentador foi sua deixa para entrar no palco.

Claro que para se apresentar ele havia tido que mudar de nome, mas para honrar seu passado, havia escolhido o sobrenome de solteira da esposa. Ela, inclusive, sempre chamava atenção com as belas roupas coloridas que usava enquanto o assistia em seus truques de magia.

—E agora, para o grande final, minha bela assistente Angela entrará nesta caixa...! — Ele ofereceu a mão para a mulher que, sem pressa alguma, entrou no caixote arrumado no centro do palco.

As crianças nas arquibancadas arregalaram os olhos quando Vittorio ergueu um serrote de aparência ameaçadora e sorriu sedutoramente para suas mães.

—...E usando meus incríveis poderes, irei serrá-la em três partes iguais bem diante de seus olhos!

Em um movimento calculado, ele desceu a lâmina e cortou Angela, separando os pedaços das caixas teatralmente para que todos soltassem exclamações assombradas. Daquela vez sentiu que havia exagerado um pouco e quebrou um osso da esposa. Mas não havia problema, afinal, a noite ele sempre podia costurá-la de volta.


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