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Monstros permeiam a imaginação e pesadelos de tantas e tantas crianças, independente da cidade onde crescem. Por isso, quando já é bem noitinha, todas elas rezam para serem livradas antes de dormir.

Giovana Mazaro
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Áudio drama
Malamem
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Antes que eu comece o retorno para o lugar mais sombrio do meu passado, quero deixar claro que todas as decisões tomadas na época vieram de uma psique ainda em formação. Talvez não consiga seguir fielmente a ordem cronológica, mas tudo o que vou contar, tenha certeza, foi real.

 Lugar Nenhum, a princípio, era como uma cidade do interior qualquer: as pessoas se sentavam nas portas para “tomar uma fresca”, quase a maioria era da mesma família- todos se conheciam, então-, não havia pressa, sujeira, violência e nem semáforos. A paz naquele lugar era irritantemente tranquilizadora. Porém -um imenso porém - as crianças eram diferentes: elas não brincavam nas ruas, não saíam para ir ao mercadinho ao lado, não iam sozinhas à escola, ou a qualquer lugar. Você deve estar pensando “Ah, mas deve ter sido uma cidade super protetora, com pais extremos! O perigo pode aparecer  em qualquer lugar!...” Não, meu amigo, não. Eu vejo isso pelo ponto de vista dos meus pais (espertos em alguns quesitos, estúpidos para outros)  que nasceram e foram criados em grandes metrópoles, vivendo uma infância inteira dentro de um apartamento. Eles não perceberam essa peculiaridade. Eu sim.

 Bom, vamos pelo começo! Mudamos para aquele lugar por questões financeiras; houve uma crise em nível nacional assolando tudo e todos naquela época, e os empregos estáveis dos  meus pais -até onde eles achavam! -também foram afetados. Logo seria nosso carro ou o apartamento. E surgiu uma oferta de emprego para ambos, como passe de mágica(!);o jeito foi arrumar as malas e partir, ainda sem certeza de nada. Eles adoraram Lugar Nenhum assim que entramos na cidade. O novo emprego garantiu nossa instalação em uma casa bem simples e meus pais começaram a trabalhar. E eu, sozinha, tive que me virar com todo o restante.

 Já no meu primeiro dia de aula, tive que cruzar as ruas desertas até a única escola daquele lugar. E vi a primeira peculiaridade dele: pequenos e grandes grupos de crianças andando na mesma direção que eu estava indo. Todas elas estavam com olheiras profundas e andavam rápido. “Porque a pressa?”, pensei, e continuei andando, ainda sonada. E achei que realmente estava sonada porque senti que alguém caminhava junto comigo, dando risadinhas- entenda, não eram as crianças! Era uma voz adulta!

 Na sala, enquanto esperava a professora, dois colegas- uma menina e um menino- chegaram perto da minha carteira. Pareciam ser irmãos, pela semelhança do rosto. Eram bem matutos.

-Você já o viu?- perguntou o menino para mim.

-Vi quem?- respondi

-O Malamém. O homem que aparece de noite…. às vezes ele ri, mas também grita. Eu odeio quando ele grita.- respondeu a menina.

“Malamém?”, foi isso mesmo que tinha ouvido.

-Você já deve ter ouvido falar dele, pelo menos. Quando rezamos o Pai Nosso, sempre pedimos a Jesus que nos livre dele, sabe?

 Eu não era convertida a nenhuma religião na época, mas conhecia a oração, e não havia nenhum nome esquisito nela...então, lembrei do verso final, e tentando parecer simpática (achando que era uma brincadeira), ri e respondi.

-Saquei a piada, gente!Mas o final é “… livrai-nos do mal, amém.”

 Como se eu tivesse xingado a mãe de alguém, todos na sala me olharam. Alguns assustados, outros com raiva. A menina na minha frente tentou dizer algo, mas o garoto, com ar de desprezo, grunhiu para que ela ficasse quieta. Virou-a na direção das outras crianças e saíram.

-Ela ainda não o viu, mas vai ver!- ele disse.

 Uau! Só queria entender o que eu tinha dito demais: juntar duas palavras não invocava um bicho papão ou algo do tipo. Ou invocava? Sei que parece tolice de criança. Quem nunca ouviu essa “piada” e riu que atire a primeira pedra…,mas eles levaram a sério. Era sério o medo/raiva daqueles rostos sofridos de sono. ‘Será que eles iam me odiar pro resto da vida?’, pensei.

 Algum tempo se passou depois disso. Continuei minha rotina solitária, vendo meus pais apenas de noite e tentando me ajustar- preciso confessar que era muito difícil me enturmar com aquelas crianças. Todos os dias eu ia e voltava da escola sozinha, sempre com a sensação de ser seguida, e ouvindo risadinhas ao pé do ouvido- ou dentro da minha cabeça. Quanto ao tal  Malamém, não ouvi mais seu nome. As outras crianças, no entanto, o que quer fosse esse nome, continuava assombrando elas; suas olheiras cresciam, muitas dormiam durante a aula, e não demoravam para ficar doentes. E nenhum adulto se importava com isso!

 Pois bem! Em algum momento, durante uma madrugada, acordei assustada com um barulho. Demorei alguns segundos para entender que ainda estava no meu quarto, na minha cama e a luz do corredor entrava pela porta. Só que algo estava parado na minha porta. Não era meu pai, mas parecia ser um homem. Era pequeno, muito pálido, usava um chapéu antigo e roupas pretas. De braços cruzados, olhava sob a aba do chapéu com olhos que pareciam bolas de prata. Se só isso já botava medo nas crianças de Lugar Nenhum, havia sua ‘aura’ também. Dava para sentir a maldade que ela exalava.

-Ora, ora, ora. O que temos aqui?- ele disse, mas isso estava dentro da minha cabeça. Seus lábios não se moviam.- Uma meninica!!

Um pequeno comentário: descobri que para cada criança atormentada, esse bicho papão colocava um apelido. Meninica seria o meu. Até hoje, escuto essa palavra e fico arrepiada. Como qualquer criança, minha reação foi me cobrir com o lençol, onde seria “seguro”. Mas isso nunca nos tornou invisíveis aos monstros, não é verdade?

Ouvi pequenos estalos no assoalho do quarto que partiram da porta até ao lado da minha cama. Meu coração acelerou. Suava frio. Fez-se um silêncio incômodo; eu sentia ele ao meu lado, chegando cada vez mais perto. Um riso. Depois um grito, que disparou como uma sirene na minha cabeça. Percebi depois que eu também gritava. Tive coragem suficiente para sair correndo do quarto, e me jogar no meio da cama dos meus pais, que acordaram assustados comigo. 

 O que se seguiu depois foram noites de pânico noturno, idas ao médico que só diziam que era algo passageiro, e algumas surras- não dá pra dizer que meus pais eram maus por terem perdido a paciência com a filha por ela não deixá-los mais dormir à noite. Concluí que essa era a justificativa geral das outras crianças de Lugar Nenhum: você não consegue explicar como o bicho papão assusta tanto aos adultos, porque para eles Malamém são palavras mal ditas, que em algum momento tomou forma para justificar o estresse infantil que todas passavam naquele lugar. A maioria dos pais trabalhavam o dia inteiro, deixando as crianças sozinhas em casa. Não havia perigo; Lugar Nenhum era a tranquila cidade do interior onde nada acontecia. Para eles, nós estávamos tentando chamar atenção, e só.Mas todas as noites o Malamém aparecia; às vezes rindo, às vezes gritando. Me assustando e me fazendo gritar. Em pouco tempo me tornei mais uma criança-zumbi daquele lugar.

 Acontece que eu não sou de temer algo por muito tempo. Mesmo criança, meu gênio nunca foi submisso. Respeitava muito meus pais e professores, mas nunca abaixei a cabeça pra eles. 

E se eles, que eram os responsáveis por me ensinar os caminhos do mundo, diziam que o Malamém não era real, porque deveria então temer algo que só estava na minha imaginação, na concepção deles?

 Na mesma noite, como de costume, acordei de algum sonho agitado ou com algum barulho. “Meninicaaa!”, ele me chamou do seu posto, parado na porta do quarto. Ao contrário do que eu sempre fazia, me esconder sob o lençol, encarei-o. Ele retribuiu o olhar e avançou, flutuando para dentro do quarto. “Não convidei você para entrar!”, eu disse e ele parou. “Volte de onde você veio, e não me amole!”, completei. Ele não demonstrou perplexidade, ou raiva com isso. Simplesmente se desfez no ar, como vapor, seguido de um rosnado baixo. Levantei da cama e acendi a luz. Ele realmente havia sumido. Mesmo com essa pequena vitória- e me permiti sorrir por isso- não consegui dormir. Eu sabia que haveria troco. E o preço, acredite, foi alto demais.

 Pela manhã, na escola, perdida nas conclusões da noite anterior, não percebi que meus coleguinhas me encaravam e cochichavam entre si. A menina do primeiro dia, Marcelina, mesmo muito abatida pelo sono, sentou-se do meu lado, sorrindo.

-O que você fez pra ele?- perguntou.

-Ele quem?

-Papai Noel, dããã! O Malamém, quem mais?

-Como você sabe?- fiquei perdida: se ela sabia, como ela sabia?- Mandei-o embora, só isso. Minha mãe sempre diz que só entra em casa quem a gente convida.

Marcelina analisou a ideia, e em seguida riu. Os outro colegas se aproximaram da minha mesa, curiosos. Pelo jeito, o que eu havia feito, causou um impacto na visita noturna de todos também. O fato de ninguém comentar sobre o Malamém, mas todos serem visitados na mesma noite pelo mesmo monstro era o que me deixava mais intrigada. E fiquei ainda mais ao saber que ninguém havia sequer cogitado a ideia de expulsá-lo. Como me contaram depois, claro.

-Ele ficou bravo! Devia ter visto os olhos dele….- disse a Marcelina, junto com o balanço das cabeças dos colegas, confirmando.

- Tá. Mas o que é ele?- perguntei.

Todos ao mesmo tempo começaram a explicar por seu ponto de vista; era um falecido padre de Lugar Nenhum que não conseguiu catequizar, um menino que foi enterrado sem ser catequizado, uma praga de alguma beata para as crianças que atrapalhavam seu rosário, o Homem do Saco, o Homem do Chapéu, um demônio e até mesmo ‘O seu Dirley que morreu durante a missa e só notaram no final.’ Todas com cunho religioso, que justifica o final do Pai-Nosso, mas nenhuma cem por cento confirmada. Ninguém soube dizer quando começou, o porquê e com quem. Mas eram as crianças as suas vítimas.

-Ei, você acha que eu consigo despachá-lo também? Eu não sou tão corajosa como você, mas acho que talvez eu consiga, né?- disse Marcelina.

O que eu poderia ter dito? “Não faça isso, sua caipira, se você não tem coragem pra isso, não invente moda!”? Fico remoendo essa conversa desde aquele dia, procurando respostas melhores (e mais educadas) que eu poderia ter dado para desencorajá-la. Mas, por Deus, o que uma menina- Meninica! - poderia ter previsto?

-Ué? Tenta!- eu disse, por fim.

Marcelina e alguns outros colegas ficaram entusiasmados com a ideia, outros preferiam um sorriso amarelo a pensar na hipótese de enfrentar o Malamém. E teve o Josué, que era realmente o irmão de Marcelina.

-Você deve ser louca, menina!- disse, me recriminando.

Era o mais velho da turma, e acredito que repetente da mesma série por alguns anos. Por ser alto, botava medo em todos da sala, com preferência especial sobre a Marcelina. Juntou-se a roda em volta da minha mesa.

-Não importa o que ele é ou deixa de ser. Se ficar quieta e deixar ele pegar o que quer, ele te deixa em paz.- curvou-se até a altura dos meu olhos me encarando. Era desconfortável.- Não se brinca com o cramunhão!

Mas acredito que já tenha dito que não tenho medo por muito tempo, certo? Antes que meu momento de bravura acabasse, retruquei.

-Acho que o Malamém só precisa que alguém bote ele no lugar dele! Que seja a menina da cidade grande então, já que os meninos bundões de Lugar Nenhum não fizeram!

Todos congelaram. Josué, franziu o rosto, de forma que suas pupilas foram engolidas pelas olheiras, ficando parecido com um crânio.

-Há um ditado aqui em Lugar Nenhum que diz “que o peixe morre pela boca”. Acho melhor você tomar cuidado hoje à noite!-  e sob o efeito disso, todos voltaram aos seus lugares. Vi Marcelina passar do seu lado e Josué dizer “Não se atreva!”, mas não preciso dizer que era tarde demais para voltar atrás.

 Sabendo que minha atitude ia me colocar em apuros, fiz minhas orações e esperei o Malamém acordada naquela mesma noite. Bom, pelo menos até a madrugada. Então pude ouvi-lo, dentro da minha cabeça. “Ah, Meninica, Meninica, o que você andou falando?”, seguido de risinhos. Abri meus olhos, meu quarto estava completamente escuro- a luz do corredor já era- e ele estava na porta, parado e me encarando. Mas seu semblante, que sempre era estático, era uma careta medonha. Seus olhos estavam vermelhos . “O que você fez, sua enxerida arrogante?”, gritou. Ele se deslocou da porta até minha cama e se sentou sobre mim. Não era mais o homem de chapéu: era um animal enorme, pronto para atacar, rosnando e bufando.

Comecei a me sentir sufocada. Não conseguia me mexer.

-Quer bancar a durona da cidade grande, fique à vontade. Mas deixe os outros melequentos do jeito que estão! Quero que diga aos outros que é uma péssima ideia mexer comigo. E vou deixar isso bem claro, para o caso de você esquecer!

Devo ter desmaiado, ou caí no sono, porque só acordei no dia seguinte com os meus pais me chamando, o que era raro, já que saíam de casa antes de mim. Muito embaraçados, tal qual uma criança que apronta(!), me disseram que eu não iriam na escola aquele dia, já que estaria fechada. Assim como a fábrica e a cidade inteira. Infelizmente, algumas crianças haviam morrido durante à noite, e algumas eram da minha sala. Não me lembro de chorar, mas comecei a tremer. Esse era o sinal do Malamém para me lembrar de não mexer com ele. O que eu havia feito?

 Fomos ao velório, que foi no pátio da minha escola. Pela primeira vez vi toda a população de Lugar Nenhum reunida. Como é comum em uma cidade pequena, quase todos eram parentes; então a tristeza e o choro eram coletivos. Não quis me aproximar dos caixões postos um ao lado do outro. Sentei-me em um canto mais afastado e aguardei meus pais, que davam seus pêsames aos colegas de trabalho. 

Dez crianças-sete eram da minha sala- morreram na calada da noite, aparentemente dormindo, por uma parada respiratória, conforme ouvi algumas pessoas falando. “Mas os seus olhos estavam abertos, como se tivessem visto algo tenebroso antes de morrer.”, disseram os fofoqueiros. Não preciso dizer que a Marcelina era uma dessas crianças. Ela tentou, assim como eu, enfrentar o próprio medo, mas não teve tanta sorte. Nem ela, nem os outros colegas.

Quando senti o choro subir na garganta, Josué, parou ao meu lado, colocou uma mão no meu ombro e apertou, me obrigando a encará-lo. 

-Tá contentinha agora, tá?- ele perguntou- Eu sabia que a Marcelina era bem retardada pra imitar a metidinha da cidade grande, mas não que os outros também fossem! Que baita…baita….merda você fez!- bateu em sua própria boca por ter dito um palavrão.

-Me desculpe!- gemi.

Josué, franzindo o cenho, e bufou.

-Eu só não te bato, porque você é menina…! - olhou para os lados, se certificando que nenhum adulto estava olhando - Mas os outros querem! Estão com medo que o Malamém também os peguem!

Também olhei em volta. As outras crianças, sozinhas ou em grupinhos, nos olhavam. Havia um combinado entre eles; e Josué quem tomava a frente, como sempre.

-Você vai desfazer toda essa lambança, ou vai ficar muito pior pro seu lado daqui pra frente.

Encontre um bom argumento, eu sei que você pode se sair melhor que a minha irmã...- ele tentou segurar o choro e não conseguiu- A Marcelina, quando viu que ele não ia embora, chamou ele de “Bundão”.....igualzinho a você na sala…..e eu não consegui impedir….

Foi minha vez de chorar. Tentei me desculpar mais uma vez. Josué enxugou o rosto no braço e me encarou.

-Como eu disse: se vira!- e me deixou sozinha.

Pensei no que eu iria fazer se caso o Malamém aparecesse naquela noite, e conclui que era melhor que ele me “levasse embora”. Fora eu que tinha encorajado aquelas crianças a se rebelarem. Que terminasse no ponto de partida, então.

Abracei e beijei meus pais, e eles retribuíram o carinho, me levando até a cama. Tentaram explicar de maneira meio boba sobre a morte- como se já não soubesse o que poderia ter “do outro lado”-e prestei atenção. Me deram boa noite. E antes que minha mãe saísse do quarto, pediu:

-Faça uma oração aos seus coleguinhas antes de dormir.

Ela fechou a porta. E atrás dela estava o Malamém.

Senti todos os pelos da minha nuca ficarem arrepiados. Ele riu.

-Recebeu meu recado, Meninica?

Afirmei com a cabeça.

-Então você aprendeu a lição?

Afirmei com a cabeça mais uma vez.

-E seus coleguinhas? Vão tentar te imitar de novo?

-Não. Eles estão com medo!

Ele riu, não a risadinha comum, mas uma grave e sarcástica, com tom de “eu já sabia”, e parou de frente para minha cama.

-Imagino! Confesso que fiquei muito bravo com você; chegando e dando ordens, alguns pestinhas me desobedecendo...imagine até onde isso chegaria...se eu não tivesse apelado! Me diga, Meninica, de onde você vem, todas as crianças têm a mesma audácia, ou é exclusivamente sua?

Fiquei enjoada. A culpa era toda minha mesmo. 

-Mas também preciso te agradecer, Meninica. Graças a você, minha perspectiva sobre como tenho me alimentado todos esses anos foi alterada!- e riu de novo.

E realmente ele estava diferente: o tamanho, a aparência, a presença, mas principalmente, seu riso estavam diferentes. Seus olhos estavam vermelhos. Aquela maldade que ele exalava ficou grande, de tal forma que o teto do quarto pareceu estar descendo sobre mim. O ar estava quente e espesso. 

-Já tinha saboreado desespero antes. Aquele seu amiguinho, o Mijãozinho, sempre me proporciona isso! Mas o desespero, seguido da agonia e da dor….ah!

Pulei da cama e corri até a porta. Ela se abriu sozinha. Os fantasmas de Marcelina e das outras crianças estavam ali, paradas. Pareciam nuvens. Não tinha olhos, e nem expressão, mas transmitiam medo e tristeza.

-Ah, sim! Os fantasminhas….-disse o Malamém-Preciso ver o que vou fazer com eles muito em breve!... Mas, Meninica, olhe para cá! Deixe-me terminar.

Eu me virei, desanimada. Estiquei meus braços e fechei os olhos, sem esperança. Silêncio. Depois uma gargalhada, seguida de outras, parecendo de crianças.

-Não é assim que funciona, e você sabe disso!- ele disse.

Abri os olhos. Nós estávamos na porta da minha casa. Não me lembro de ter saído do quarto. Só poderia ter sido o Malamém, agora que estava mais forte.

-Como eu devo isso a você, e não sou mal-agradecido, vou permitir que você saia disso ilesa. Não vou tocar em você, e nem permitir que os outros pestinhas façam isso.

-Espere!- refleti, e olhei pra ele- Tenho que ir embora? Mas, mas….e meus pais, eles...

-Você já se despediu deles. Você mesma já se permitiu partir. Lembra?

-Não posso fazer isso!- me desesperei. 

-Não tem barganha, Meninica. Se ficar, logo vai se juntar aos outros. Eu não sou bonzinho!

-Meus pais? O que vai acontecer com eles?

A porta se abriu. Não havia fantasmas dessa vez. Do lado de fora, Lugar Nenhum era a de sempre: irritantemente tranquila.

-Nada vai acontecer com eles. São adultos! Vão te procurar e chorar, mas com o tempo vão te esquecer! Como os outros daqui… vá embora, minha hora está chegando, e não posso responder por sua segurança.

-Mas você disse que não ia me tocar!

Ele riu, depois rosnou.

-Vou contar um segredo ainda maior de Lugar Nenhum: eu sou só uma ramificação de um longo, longo galho da escuridão desse lugar. Só há um único Onipresente-Onipotente-Onisciente. É melhor você começar a rezar por ele enquanto corre!

Senti um empurrão. Fui arremessada para fora de casa, e caí na rua. A porta se fechou. Não tinha mais volta.

Segui o conselho do Malamém e comecei a correr. Vi, uma por uma, as luzes dos postes se apagarem. Uma fina névoa cobriu as casas. Silhuetas não-humanas surgiram dos becos, das ruelas e dos bueiros. Imagens que só vemos nos nossos pesadelos, deixando uma marca no subconsciente. Então começaram os choros e os gritos das crianças de Lugar Nenhum.

Corri, e rezei. Ouvi risos, uivos, e outros barulhos dos outros monstros. Em hipótese nenhuma me permiti olhar para trás. Não lembro de onde tirei minhas forças ou o quanto devo ter corrido, mas lembro que o sol nascia quando passei pelo último arco de Lugar Nenhum, que deseja uma boa partida aos viajantes. Então houve um barulho, como se o ar estivesse preenchendo o vácuo, um imenso vácuo. Olhei para trás, e Lugar Nenhum havia desaparecido. Não havia qualquer sinal de que já estivesse lá alguma vez.

Atônita, cai no asfalto e chorei. Dessa vez, o choro era pra valer. Havia dor, tristeza, e um imenso alívio. Fiquei ali, deitada, por algum tempo.“-Ora, ora. O que temos aqui? Uma meninica!”,ouvi e comecei a gritar. Só parei depois de tomar uma bofetada do guarda rodoviário que me encontrou.

Depois disso, não vem mais ao caso. Deixo que pensem o que quiserem, e se me julgarem, não vou me importar. Sim, eu condenei as crianças de Lugar Nenhum para sempre. Tenho vergonha de pensar o quê meus pais pensariam sobre isso. Mas, só eu sei o que passei. E agora, você também!


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