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Áudio drama
Lux Tenebris
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

A chuva cai levemente na noite sem luar. As gotas de água se iluminam ao meu redor. Minhas asas brilhantes irradiam luz enquanto eu flutuo sobre a cidade. As ruas estão escuras, e já passa da meia-noite. Os poucos humanos lá embaixo se movimentam com passos apressados. Entretanto, dentre eles há um rapaz parado calmamente numa esquina e, de tempos em tempos, alguém sai de um beco escuro, o aborda e é feita uma troca. Claramente se trata de venda de entorpecentes. Mas o meu alvo não é ele.

Após alguns minutos um homem sai de um dos becos, mas este se move diferente. Apesar de não se esforçar para ser furtivo, seus passos não fazem barulho e ele facilmente se posiciona atrás do traficante. O rapaz que passava drogas boceja e, com um movimento rápido, o homem enfia algo na boca dele, tampando-a para abafar qualquer barulho. O traficante rapidamente amolece. O homem o coloca sentado, encostado na parede da esquina, voltando pelo mesmo beco de onde saiu, tão silenciosamente quanto antes.

Penso em como o Senhor age de forma misteriosa. Eu poderia ter vindo atrás desse assassino antes, mas Deus deixou que ele fizesse um último ato útil às pessoas de bem. Agora eu o sigo pelo alto, esperando a melhor oportunidade de tirar a vida deste perigoso meliante. Meus irmãos têm os mais variados métodos, mas eu prefiro fazer com que os meus alvos passem para o outro mundo enquanto dormem. A casa dele não está longe, logo a vontade do Senhor será feita.

O homem adentra a casa e eu o sigo. Atravesso a parede com meu corpo imaterial, o ambiente se ilumina. Esta luz não é visível, exceto em alguns raríssimos casos de humanos extremamente iluminados. Alguns poucos sentem uma presença divina, mas a esmagadora maioria sequer desconfia da presença de um anjo próximo de si. Enquanto eu aguardo o assassino se preparar para deitar, uma moça de seus 16 ou 17 anos adentra o recinto, eles começam um diálogo:

— Pai! Você me prometeu!

— Sim. Prometi. E minha promessa está cumprida. O Senhor é testemunha de que essa foi a última vez que matei. Recebi o pagamento adiantado, temos o suficiente para sair daqui e começar uma vida nova. — Ele se ajoelhou quando falou “Senhor”.

Ora - eu penso - Não é uma visão incomum, criminosos com fé, mas este soa bem diferente dos outros. Os dois se abraçam e se dirigem a um nicho no canto da sala, para o qual eu não havia prestado atenção. Um genuflexório de madeira com a Bíblia aberta e uma vela acesa sobre um pires de vidro. Nenhuma imagem, conforme demanda a palavra do Senhor. Ambos caem juntos de joelhos e recitam o Salmo 51. Nada que me seja desconhecido, mas as vozes exultantes mexem com meu coração:

— (...) Livra-me da culpa dos crimes de sangue, ó Deus, Deus da minha salvação! E a minha língua aclamará à tua justiça. Ó Senhor, dá palavras aos meus lábios, e a minha boca anunciará o teu louvor. Não te deleitas em sacrifícios nem te agradas em holocaustos, senão eu os traria. Os sacrifícios que agradam a Deus são um espírito quebrantado; um coração quebrantado e contrito, ó Deus, não desprezarás (...).

Aquele louvor aquece meu coração. Diante de mim está um arrependimento sincero e verdadeiro. Uma fé que não se vê sequer dentro das igrejas e nos ditos homens de bem. Um pai que cometeu o mal, é verdade, mas que tinha um propósito bom e que se arrependeu no final. Ele não sabia que iria morrer hoje. Não foi um arrependimento forçado, uma tentativa pífia de ganhar o Reino do Céu no último suspiro de vida, como tantas vezes presenciei. A força daquela oração tomou conta de mim e me senti incapaz de completar a minha missão. “Pois não me agrada a morte de ninguém. Palavra do Soberano, o Senhor. Arrependam-se e vivam”, Ezequiel 18:32.

Eu retiro um pequeno recipiente preso à minha cintura, ungindo, com o óleo de oliveira benzido, as mãos postas e a testa daquele pecador arrependido.

— Eu lhe concedo a Sacram Unctionem Infirmorum, que minhas palavras cheguem aos ouvidos do Senhor. PER ISTAM SANCTAM UNCTIONEM ET SUAM PIISSIMAM MISERICORDIAM ADIUVET TE DOMINUS GRATIA SPIRITUS SANCTI, UT A PECCATIS LIBERATUM TE SALVET ATQUE PROPITIUS ALLEVET.

As expressões dos dois mudam drasticamente, como se tivessem percebido a energia que se desprende do meu corpo neste instante. Seus semblantes enlevados como se sentissem o toque do Espírito Santo. Suas preces elevam-se, eu me retiro neste momento iluminado que os mudará para sempre. “Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie”, Efésios 2:8-9.

Saio daquela casa extremamente feliz. Mesmo dentre os anjos, não se contam histórias assim. Eu subo graciosamente ao Céu. Minhas asas com uma luz tão forte… Nunca haviam brilhado tanto. Com o coração radiante, eu digo as palavras que abrem o caminho do Céu para os anjos: 

— Ensina-me o Teu caminho, Senhor, para que eu ande na Tua verdade.

Em meio à noite escura, nuvens brancas como a neve se abrem, e a luz do sol desce sobre mim. Transformo-me num raio que se dirige velozmente à escadaria prateada que desponta por entre as nuvens.

Os anjos que guardam os Portões do Paraíso há milênios se surpreendem com o brilho que irradia do meu corpo. Entreolhando-se, eles abrem passagem para mim e pedem que eu vá até São Pedro. Assentindo com a cabeça, eu passo por entre eles e quase não noto o pesar em suas faces. Dou de ombros e sigo caminho.

O Paraíso com certeza é o lugar mais lindo de todos os planos. As construções são brancas como o mármore, os detalhes e arabescos são prateados, e a luz solar incide agradavelmente, de forma que mesmo com essas cores tão claras o seu reflexo não é incômodo aos olhos. Os cânticos ao Senhor ecoam por todos os cantos, elevando a alma de qualquer criatura que aqui esteja. Divino. Nenhuma outra palavra pode definir este lugar criado pelo Senhor com as Suas próprias mãos.

No ponto mais alto do Paraíso, sobre as nuvens mais alvas deste magnífico lugar, está a única construção dourada, a Morada do Senhor, onde Cristo vive ao lado de Deus e Nossa Senhora. O vigia é São Pedro, que está sempre postado no alto da escadaria prateada que leva até os portões da residência do Todo-Poderoso. Voo parcimoniosamente até pousar nos pés da escadaria. A partir dali, devemos andar, pois todos sabemos que nenhum de nós pode estar acima de Deus.

— Zaniel! Seja bem-vindo. O Senhor deseja falar-lhe.

Com um aceno de São Pedro, os portões se abrem e uma luz cegante invade meus olhos. Rapidamente, o brilho ameniza e eu continuo a caminhar por entre os grossos pilares que alcançam um teto feito de nuvens a mais de cem metros do chão. A decoração é austera, mas muito bela. Em uma das paredes há uma grande pintura, que se estende por todo o corredor, retratando a queda de Luciferius. Do outro lado, de igual magnitude, outra pintura, retratando o sacrifício de Cristo pelo bem dos humanos.

No fim do corredor, a luz invade o ambiente através do umbral que leva até o Salão do Reino, onde Deus se senta no trono, ao lado de Cristo. Eu atravesso a passagem e vejo Cristo de pé, ao lado do Pai, que está sentado, como se estivessem conversando algo muito sério. Ao notar minha presença, Deus levanta Sua mão direita e Jesus se cala. O silêncio toma conta do recinto. Eu me aproximo mais alguns passos e me prostro diante do Pai:

— Senhor, deseja falar-me, e Seu desejo é uma ordem. Aqui estou, diante de Ti, para ouvir Tua palavra.

— Zaniel… Vês que teu corpo está coberto de luz como nunca esteve? — pergunta Deus.

— Sim, Senhor! Presenciei um milagre, uma verdadeira redenção e, arrebatado pelo arrependimento sincero do mortal, meu corpo se encheu de luz.

— Não, Zaniel! Essa luz que o cerca é a marca do traidor! — Deus aponta para mim.

Um frio percorre minha espinha; esperava ouvir qualquer outra coisa, mas não ser apontado como traidor. Fui fiel à palavra do Senhor. Como assim?! Traidor?!

— Mas, Senhor…

— Ainda agora ousa contestar-Me? — Deus levanta a voz um tom.

— Pai… — Jesus intercede. — Tu vistes que Zaniel seguiu Vossos ensinamentos ao pé da letra. Não houve má-fé no ato deste honorável anjo.

— Cala-te, Jesus! Desde que desceste ao mundo dos humanos a Terra se tornou caos. Tu te sacrificastes pelo bem deles, veja o resultado! — A expressão naquele rosto divino é de angústia e pesar.

— Minhas palavras, naquele momento de dor, eu as repito ainda agora: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.”

— Jesus… Por respeito a Teu sangue que foi derramado naquele dia, Eu deixei os humanos seguirem seu livre-arbítrio. Por respeito a Teu sangue sagrado, Eu assisti incólume às atrocidades que vêm sendo cometidas em Meu e Teu santo nome. Assisti às religiões se tornarem a única coisa que tiraste Tua paz. Quase não há mais igrejas de fé. Os vendilhões tomaram conta dos grandes templos. Os humanos colocam o dinheiro acima de Minha palavra!

— Pai… — Jesus tenta falar, mas Deus o interrompe.

— Não! Nem que Vossa sagrada mãe intercedesse por Zaniel eu não o perdoaria! Ele desobedeceu a uma ordem direta! Um mero anjo! Sentindo-se capaz de julgar! Em quantos e quantos versículos da Bíblia está claro que apenas a Mim cabe julgar?!

Por sorte, ainda estou prostrado. Minha testa sua copiosamente; como eu poderia saber que meu ato de misericórdia traria tantos problemas? Mas Deus está certo! Claro, Ele sempre está… Quem sou eu para julgar? O que passou na minha cabeça pra cometer um ato estúpido como aquele? “Ó, Deus, eu Lhe rogo: perdoa-me!” Penso nisso repetidamente, mas não consigo sequer abrir a boca para orar baixinho. O terror tomou conta de mim. Com certeza receberei o castigo divino. Fecho os olhos com força, meus lábios se mexem, mas nenhum som sai deles.

— Zaniel! — Deus chama meu nome. — Levanta-te.

— S… Sim… Senhor… — Tento levantar, mas minhas pernas parecem feitas de gelatina. Jesus se aproxima e me ajuda a ficar de pé.

— Sabes o que significa teu nome, Zaniel?

— Sim, Senhor. Significa: “o Senhor é meu juiz” — eu falo, mas não levanto os olhos.

— Tu estás diante de Mim agora. Tu fostes um bom anjo por incontáveis milênios e agora, neste exato momento, o teu nome faz sentido. Compreende a profundidade do Meu saber, Zaniel?

— Sim, Senhor. Fui tolo em desobedecer-Te e aqui estou, diante de Ti, o Juiz dos Juízes.

— Reconheces a tolice de desobedecer a Minha palavra? Vês que teu vislumbre momentâneo não arranha a superfície do mar de vidas que se enredam em Meu plano?

— Sim, Senhor.

— Pelo menos aceitará tua punição obedientemente.

— Sim, Senhor.

O tom de voz do Pai se acalma cada vez que acato Suas palavras. Talvez… Talvez a punição seja uma provação. Um teste para que eu prove meu valor. Ele mesmo disse que O servi bem por incontáveis milênios. Me entrego a esta ponta de esperança, mas faço o possível para não a transparecer.

— Olhe para Mim, Zaniel! — Deus ordena, e eu levanto os olhos.

— Senhor… — eu respondo humildemente.

— Pelo pecado de desobedecer à Minha palavra, Eu o despojo de tua luz! Eu o expulso do Paraíso!

Aquelas palavras atravessam meus ouvidos como um raio! Meu corpo todo estremece, vejo Deus levantar a Sua mão direita mais uma vez. A luz brilhante que me cercava se concentra no meu abdômen, deixando de se irradiar. Sinto essa bola de luz, quente e brilhante como uma estrela, se movendo dentro de mim, subindo para o peito e então para a cabeça. Até que finalmente ela deixa meu corpo e voa para a mão estendida do Senhor. Eu caio de joelhos mais uma vez, pois minhas forças se foram junto com aquela luz.

— Zaniel… — Jesus, com uma expressão doída, põe a mão no meu ombro. — Por ter servido ao Pai por tanto tempo, alguma luz se tornou parte íntegra de teu corpo, mas sem a proteção divina ela diminuirá a cada dia e, no fim, tu perecerás…

— Tu és piedoso por demais, Jesus… — Deus fala. — Zaniel! Teu corpo durará trinta dias. Tu fostes expulso do Paraíso. Agora vai. Faz o que tu queres, pois é tudo da lei.

Com a mão estendida, Deus levanta um único dedo e meu corpo flutua. Ele flexiona o indicador e eu me movo contra a minha vontade em sua direção. Deus olha nos meus olhos, e eu vejo a profundidade do Universo neles… Com mais um gesto displicente, um pequeno aceno de mão, eu sou arremessado para trás, atravesso o corredor numa velocidade estonteante, as colunas viram um borrão. Passo pelos portões da Morada do Senhor tão rápido que São Pedro sequer nota, voo bem próximo aos degraus da escadaria prateada que leva ao Paraíso e volto para o plano da Terra. Depois de mais alguns segundos no ar, eu atinjo o chão com violência e perco os sentidos.


***


Antes mesmo de abrir os olhos, sinto a cabeça latejando furiosamente. Todos os músculos do meu corpo doem, e meus ossos parecem ter se quebrado em vários lugares. Finalmente, me acostumo à claridade e vejo que estou cercado por cinco anjos de asas negras. Estremeço. São anjos caídos! Minha memória volta como um turbilhão e eu me lembro que também sou um anjo expulso do Paraíso. Alguns minutos se passam e, então, um dos anjos caídos, o que parece ser o líder do grupo, fala:

— Você é Zaniel, correto?

Me recuso a responder, fico em silêncio, apenas olho para os anjos à minha volta. O anjo caído continua a falar:

— Não se preocupe. Não lhe desejamos nenhum mal, se assim fosse já o teríamos feito. Tu estás desacordado há cinco dias.

Um alarme soa na minha mente. Deus disse que eu só tinha trinta dias de vida; cinco já se foram. Cada dia que passa diminui minha chance de conseguir a redenção. O anjo caído torna a falar:

— Como tu já deves saber, ao ter tua luz retirada de ti, perecerás em alguns dias. Todos nós fomos expulsos do Paraíso e passamos por isso. Meu nome é Samyaza, eu sou um dos dez anjos que caíram junto com Luciferius.

Samyaza fala pausadamente, como se esperando uma resposta minha, mas eu não encontro forças para responder. Ele continua:

— Cada anjo tem um tempo de vida diferente sem a proteção divina, mas, como vês, estamos vivos. Podemos fazer com que vivas sem a proteção divina, também.

Eu ouço tudo o que Samyaza diz, mas, mesmo após o julgamento de Deus, mesmo após ter caído, confio plenamente no Senhor; e acredito piamente que se me dedicar à palavra do Altíssimo eu poderei voltar ao Paraíso. Acho que essa esperança brilha nos meus olhos, pois a expressão de Samyaza muda, um misto de tristeza e resignação. Eu finalmente quebro meu silêncio:

— Não sei por que viestes até mim, Samyaza. Agradeço-lhe os cuidados por esses cinco dias, mas eu jamais me juntarei ao exército de Luciferius.

— Sempre ouvimos essas mesmas palavras de todos os anjos abandonados pelo Pai. Acredito que, dentro de ti, pensas que é uma provação. Mas aviso-te desde já: Não é! Como eu disse, sou um dos dez anjos que caíram com Luciferius, estou vagando na Terra há milênios e, nem uma única vez sequer, vi um anjo voltar às graças do Pai.

— Samyaza, tu és um dos anjos mais inteligentes de todos. Trabalhas para Luciferius, tenho certeza que já deves ter contado essa mentira a muitos anjos para arrebanhá-los às tuas fileiras. Não serei enganado!

— Não sejas tolo, irmão. O Pai te abandonou! Tu vais morrer! Nós vimos o brilho no teu corpo quando voastes de volta ao Paraíso. É a marca do traidor. Desobedeceste à palavra divina e ainda agora duvidas do que Ele disse na tua sentença?!

— Deus escreve certo por linhas tortas, Samyaza. Vai! Vade retro! Não me convencerá!

— Diferentemente do “misericordioso” Pai, nós não exigimos obediência cega! Não ficamos nos agarrando a interpretações dúbias de um livro mal escrito, cheio de contradições! Me dizes se puderes, tu achas que teu julgamento foi justo? Tu achas que traiu os ensinamentos do Mestre?

— …

— Aposto que até o último instante do teu ato estava a recitar versículos…

— …

— Não precisas responder. Teu silêncio é prova da razão que tenho.

Não consigo responder. Não consigo mais pensar. Não! Não! “O Senhor é meu pastor e nada me faltará!”; “Meu filho, se os maus tentarem seduzi-lo, não ceda!”, Provérbios 1:10. Não cairei em tentação. Minha fé não será abalada!

— Samyaza, já dissestes tudo que tinhas a dizer? Te aviso que não cederei… Perdes teu tempo tentando a mim. Se vais acabar com minha vida, o faça. Se vais me deixar, me deixe…

— Por que eu iria matá-lo? Tua sentença de morte já foi exarada. Com sorte, nestes teus últimos dias, verás que tua esperança é vã e aceitará a mão amiga que te estendo... Lembra-te, teus irmãos caídos estarão à tua volta. Quando mudares de ideia, apenas clama por ajuda e nós o ajudaremos.

Samyaza apenas olha para os outros anjos caídos, todos me fitando com uma expressão de pesar. Um aceno com a cabeça e eles desaparecem nas sombras, sem deixar vestígios. Eu me levanto e analiso o cubículo onde estou deitado. Parece ser uma casa abandonada em alguma periferia. Dirijo-me até a porta e vejo o sol no céu. “Espere no Senhor. Seja forte! Coragem! Espere no Senhor.” Salmos 27:14. Tento abrir minhas asas, mas elas estão em frangalhos. Por isso, eu caminho pelo bairro, esperando por algum sinal, qualquer sinal, sobre qual caminho devo seguir.

Depois de pouco tempo, vejo um grupo de pessoas amontoadas. Alguns humanos gritam, organizando uma fila. No fundo do caminhão parado estão caldeirões enormes e eles começam a distribuir comida para as pobres almas que ali vivem. Um estalo na minha mente! Eu me materializo em um beco vazio e caminho até eles, oferecendo ajuda. As pessoas não opõem resistência, rapidamente me arrumam uma concha para que eu possa servir sopa às pessoas na fila. Após algum tempo, os caldeirões estão vazios e as barrigas dos necessitados estão forradas e aquecidas.

— É gratificante poder ajudar — eu digo.

— E é gratificante receber ajuda — um dos rapazes responde.

— Zaniel. Prazer em conhecê-lo. — Eu estendo a mão.

— Lucas. — O rapaz pega minha mão e me puxa para um abraço caloroso.

— Thiago. — O outro rapaz se junta a nós no abraço.

— Vanessa.

— Mara.

— Jú.

Num instante, todos se abraçam. Fico um tanto perplexo, mas parece ser algo comum entre eles. Eu os ajudo a recolher os caldeirões e organizar os pratos e talheres. Logo, estão prontos para partir.

— Ei, irmão! Quer uma carona? — Lucas pergunta.

— …

— Eu sei que é estranho andar no fundo do caminhão, mas não tem problema, não, Zaniel. Os policiais sabem que nós só estamos ajudando os pobres, ninguém vai falar nada. — Thiago acena com a mão para que eu suba.

— Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus. Mateus 5:9. Desculpem, irmãos, mas não tenho para onde ir.

— Oh! — Vanessa olha para mim e depois para os amigos. — Olha, se você tá sem um lugar para dormir, tem um abrigo legal que a gente conhece. Podemos te deixar lá. Estão sempre precisando de alguém disposto a ajudar. Vem com a gente…

Eu cedo, subindo no fundo do caminhão. Mantenho-me calado, ouvindo-os conversar animadamente. Depois que eu disse que não tinha aonde ir, eles respeitaram meu silêncio e não puxaram conversa. Alguns minutos depois, Thiago e Mara descem e se despedem. Eu apenas aceno. Um pouco mais à frente, Jú para o carro e vem até mim.

— Zaniel. Chegamos! Vem comigo, vou te apresentar ao pessoal.

Eu desço do caminhão com um sorriso e a sigo pelo portão de metal aberto. A construção parece uma igreja antiga. No alto da porta dupla de mais de dois metros, leio os dizeres: “Abrigo dos Enfermos.” Meus olhos se enchem de luz.

— “Porque sou Eu que conheço os planos que tenho para vocês, diz o Senhor, planos de fazê-los prosperar e não de causar dano, planos de dar a vocês esperança e um futuro.” Jeremias 29:11.

— Tu é bem religioso, hein? — Jú me olha com uma expressão respeitosa. — Tu era padre?

— Sou tão religioso quanto se pode ser. E, apesar de seguir os ensinamentos do Pai, eu não era padre, nem pastor, apenas um servo fiel…

 — Nêssa, Lucas, eu já volto, tá? — Ela segura minha mão e me puxa para dentro do abrigo.

Eu a deixo me puxar e adentro o recinto. Realmente se trata de uma igreja antiga, provavelmente abandonada em algum momento. O átrio está com o centro livre até o altar, mas os bancos da igreja foram removidos, bem como os genuflexórios. Nas laterais dos átrios, estão organizadas, em duas grandes fileiras, várias camas com biombos e cortinas. Jú continua me arrastando até o altar, que provavelmente foi reformado, pois está em bom estado. Tem um homem em pé, atrás do altar, vestido com a tradicional batina destinada aos padres.

— Padre Fábio. Este é Zaniel.

— Jú! Seja bem-vinda. Zaniel, seja muito bem-vindo, também — o padre responde, com um sorriso caloroso.

— Olha, Padre, o Zaniel está sem lugar para ficar, mas ele é de grande ajuda. Nós o conhecemos lá nas casinhas. Estávamos dando sopa ao pessoal lá e ele nos deu um bem-vindo auxílio.

— Nossa casa está sempre aberta a quem quer que precise; e ajuda é algo que não estou apto a negar. — O padre faz um gesto com a mão, indicando os leitos espalhados pelo átrio.

— “Por onde forem, preguem esta mensagem: o Reino dos Céus está próximo. Curem os enfermos, ressuscitem os mortos, purifiquem os leprosos, expulsem os demônios. Vocês receberam de graça; deem também de graça...”

— Mateus 10:7-8 — o Padre Fábio completa. — Será um prazer ter a sua ajuda.

Nos cinco primeiros dias, eu faço tudo que posso. Me doo inteiramente à cura daquelas pessoas que ali chegam, precisando de auxílio. Dou-lhes alimento material e espiritual. Prego as palavras do Senhor. Mostro o caminho quando posso. Conto parábolas à noite. Logo eu estou completamente ambientado no abrigo. Mas mais cinco dias se esvaíram. Nada de diferente aconteceu. Tento deixar isso de lado e continuo ajudando como posso.

No sétimo dia no abrigo, Jú aparece novamente e eu lhe peço que me leve para dar comida nas “casinhas”. Ela me apresenta várias pessoas que alimentam o pessoal, e passo a ajudar todo dia. É um rodízio semanal, por isso que só vi a Jú uma semana depois. Agora, eu ajudo os doentes e alimento os necessitados. Mais oito dias se passam, e nada acontece. Passo a frequentar uma igreja. Às vezes, eu vejo os anjos de asas negras por perto. Eu sei que eles estão por aqui, mas nunca me abordam.

Quinze dias se passam.

Nenhum sinal divino.

Soube por Thiago que havia um lugar em que auxiliavam usuários de drogas. Peço que me leve até lá e passo a pregar também para aquelas pobres almas. Eu pratico todo o bem que eu posso. Durmo pouco. Como pouco. Jejuo com frequência. Padre Fábio se mostra preocupado, mas eu sempre o tranquilizo.

Vinte dias se passam. Eu repito para mim mesmo que, se eu estiver praticando caridade esperando um sinal divino, a caridade não é verdadeira. Tento tirar isso da minha mente. Cada dia que passa vejo mais anjos de asas negras pelas esquinas, olhando para mim com tristeza, esperando que eu vá até eles. Mas eu não irei. Eu não irei! “Meu filho, se os maus tentarem seduzi-lo, não ceda!”, Provérbios 1:10. Mas não vejo uma luz, não vejo um anjo de asas brancas vindo até mim para trazer o perdão.

Vinte e cinco dias se passam. Minha mente está em frangalhos. Não consigo dormir. Sinto a morte se aproximando, sinto os últimos resquícios de luz se esvaindo. Quando eu fecho os olhos, vejo as asas negras e ouço as palavras de Samyaza: “O Pai te abandonou! Tu vais morrer!”. Procuro na minha mente palavras que atenuem meu sofrimento. E digo baixinho:

— “Por que você está assim tão triste, ó minha alma? Por que está assim tão perturbada dentro de mim? Ponha a sua esperança em Deus! Pois ainda o louvarei; ele é o meu Salvador e o meu Deus”, Salmos 42:11.

Vinte e seis dias.

— “Por que você está assim tão triste, ó minha alma? Por que está assim tão perturbada dentro de mim? Ponha a sua esperança em Deus! Pois ainda o louvarei; ele é o meu Salvador e o meu Deus”, Salmos 42:11.

Vinte e sete dias.

— “Por que você está assim tão triste, ó minha alma? Por que está assim tão perturbada dentro de mim? Ponha a sua esperança em Deus! Pois ainda o louvarei; ele é o meu Salvador e o meu Deus”, Salmos 42:11.

Vinte e oito dias.

— “Por que você está assim tão triste, ó minha alma? Por que está assim tão perturbada dentro de mim? Ponha a sua esperança em Deus! Pois ainda o louvarei; ele é o meu Salvador e o meu Deus”, Salmos 42:11.

Vinte e nove dias.

— “Por que você está assim tão triste, ó minha alma? Por que está assim tão perturbada dentro de mim? Ponha a sua esperança em Deus! Pois ainda o louvarei; ele é o meu Salvador e o meu Deus”, Salmos 42:11.

Trinta dias. Trinta dias. Trinta dias… Eu vou morrer… Não! Não! Não vou perder a fé, não vou me entregar! Eu vou até os fundos da igreja e me torno imaterial. Abro minhas asas despedaçadas e alço voo em direção ao Céu, gritando:

— Ensina-me o Teu caminho, Senhor, para que eu ande na Tua verdade.

Nenhuma luz, nenhuma nuvem branca, nenhuma escadaria prateada. Nada. Nada. Nada! Olho para baixo e vejo uma horda de anjos caídos vindo em minha direção. Samyaza à frente, gritando:

— Zaniel, meu irmão! Vem conosco! Não pereças assim!

Meu corpo começa a ficar translúcido. Gotas de luz se desprendem da minha pele. As asas negras do anjo caído batem com mais força, ele acelera para tentar me alcançar, mas eu sei que meu fim chegou. Quando Samyaza se aproxima o suficiente para me tocar, eu já desvaneci. Tudo que resta são minhas últimas palavras, que ainda ecoam no ar:

— Senhor… Confiei em Ti até o fim! Por que não me perdoastes?


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