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Levante-se

As vezes, um dia de fúria pode ser muito pior do que o esperado, ainda mais quando você consegue ter plena noção de tudo o que acontece.

Osvaldo Eugênio
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Áudio drama
Levante-se
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Era hora de acordar. Após o despertador de seu celular tocar indicando que já eram dez para as seis da manhã, o jovem Gumercindo, com seus quase dezoito anos e cem quilos, decidiu levantar. Não que essa decisão tivesse sido tomada de forma consciente… a verdade era que parte de sua mente ainda lutava para continuar na cama. 


A frase clássica “Levante-se, o dia não liga para a sua preguiça” dita por Jair, o dono do sítio e também pai nas horas vagas, motivava e forçava-o a acordar, mesmo em dias frios como aquele dia em específico. Era como uma palavra mágica que ecoava em sua mente quando a vontade de permanecer na cama começa a dominá-lo. 


Ele se vestiu com uma calça jeans surrada que estava jogada embaixo de sua cama, uma camisa branca de mangas compridas e a jaqueta clássica de couro de seu pai. Enquanto calçava as botas, sentado na cama, começou a traçar o plano para o dia:


“Ir até a Vila vender o leite retirado no dia anterior, passar na casa do senhor Clóvis para cobrar uma dívida e voltar para o sítio. Verificar a cerca e consertá-la, acompanhar a doutora Cícera -veterinária da família- nos cuidados dos animais e voltar para a Vila. Na Vila, já no fim de tarde, iria até a mercearia do Alemão receber o pagamento dos ovos e queijos vendidos e relaxar no bar do próprio Alemão até a hora de voltar para o Rancho. Dormir e acordar mais uma vez para um novo dia e uma nova lista de afazeres.”


Os dias de Gumer (como Gumercindo costumava ser chamado em seus momentos de lazer), eram sempre bem planejados, seguindo uma lógica simples. Se ele fizesse bem suas tarefas, seu pai não iria importuná-lo e ele estaria livre para fazer o que desejasse durante a noite. Todos os dias a mesma regra e ele gostava dela. O trabalho no Sítio tornava-o útil, enquanto as noites na Vila tornavam-no feliz. De dia ele era e fazia exatamente o que seu pai queria, em troca de algumas horas de felicidade a noite. Parecia que no auge de seus 17 anos ele havia encontrado o algoritmo perfeito de sua vida.


Gumercindo saiu de casa assim que terminou de tomar o seu fraco e gelado café preto. O leite que fora coletado no dia anterior já estava na velha Ford Rural 1966 de seu pai, armazenado em duas vasilhas de 5 litros cada uma, tornando sua saída muito mais ágil. Ele então dirigiu a Rural para a Vila, seguindo exatamente o curso traçado.


Gumercindo e seu pai já possuíam uma carteira de fiéis clientes para seu leite. O que sobrava era vendido sob-demanda e o que não fosse vendido até as 9:00 era doado para algum pedinte disponível no local.  Para a sorte de Gumercindo e azar dos moradores de rua que estavam por perto e torcendo pelo fracasso comercial, tudo fora vendido antes mesmo das 8:30.


Saindo de lá, Gumercindo seguiu para a missão mais chata e cansativa do dia: cobrar o Clóvis.


Clóvis era um senhor de 65 anos que ostentava o melhor estilo de vida da Vila. Ele recebia uma aposentadoria magra do governo e uma mesada gorda de seus filhos como complemento, dando a ele a possibilidade de trocar de carro todo ano e não deixar um único fio grisalho sair em sua cabeça, colorindo-os semanalmente no salão da dona Nilza. Apesar de tudo isso, não possuía os cento e vinte e dois reais para quitar a dívida que tinha com Jair.


-Senhor Clóvis! - gritava Gumercindo enquanto batia palmas em frente a linda casa de Clóvis - Eu sei que o senhor está aí, apareça!

-Calma garoto! Já estou indo. - gritou o senhor Clóvis lá de dentro.


E toda vez era a mesma coisa...


*Senhor Clóvis avisa que está saindo mas demorará 20 minutos para efetivamente sair;

*Antes de sair, ele vai dar uma olhada através do vitrô da cozinha, só para garantir que o garoto ainda estará lá;

*Ele então sairá demonstrando alguma dor física. As dores clássicas são nas costas ou no quadril;

*Dirá então que estava com o dinheiro reservado mas teve que gastá-lo com remédios;

*Pedirá para voltar na próxima terça-feira

*Voltará andando normalmente para dentro de casa, como se tivesse sido curado milagrosamente da dor aguda que estava sentindo.


E assim foi. A dor do momento era na lombar. Nem tão alta para ser nas costas e nem tão baixa para o quadril. Esse pensamento passou pela cabeça de Gumercindo e fez com que ele desse um breve sorriso em meio as desculpas esfarrapadas dadas por Clóvis.


-Tudo bem senhor Clóvis, passarei na próxima terça-feira. Se cuida! - interrompeu Gumercindo. O roteiro era tão previsível que não se deu ao trabalho de esperar a finalização.


Como havia economizado meia hora na venda do leite e quase a mesma coisa interrompendo as desculpas do velho caloteiro, resolveu então dar uma passada na mercearia do Alemão e receber antecipadamente alguma coisa.


Alemão e Gumer possuíam uma amizade de longa data, se é que exista longa data para jovens de 17 e 18 anos. Eles se conhecem desde sempre graças a seus pais que eram amigos e parceiros de negócios. Com a morte de Tonhão, pai de Alemão, este assumiu os negócios e continuou com a parceria.


-Fala Coisa-Feia - disse Alemão quando viu Gumer passando pelos corredores da mercearia, indo em direção ao caixa - que bom que recebeu a minha mensagem - completou, tirando o dinheiro já separado em seu bolso e entregando para Gumer.


-Mensagem? - perguntou Gumer já tirando o celular do bolso. A tela preta padrão dos celulares modernos já dava uma dica do que poderia ter acontecido -Essa bosta já está descarregada. O que você mandou?


-Mandei uma mensagem pedindo para você passar aqui durante o dia e receber a sua parte. A noite vou com a Alice no Circo. Sabe como é né? Fazer uma média com a patroa. Tá afim de ir também?


-Circo? Onde? - perguntou Gumer “por perguntar” enquanto conferia o valor recebido.


-Aqui na Vila, só não me pergunte “quando chegou” porquê eu não sei. Na verdade, quando acordei ele estava lá mas a Alice me disse que ele chegou a alguns dias já. A verdade é que o povo daqui da Vila é desligado demais para perceber a chegada de um circo.


Esse foi um fato curioso para Gumer. Ele andou pela Vila durante a manhã toda e não havia visto nenhum circo. Concordou então em acompanhar o amigo e a namorada na noite do circo (já que o bar estaria fechado por falta de quorum) e também pela curiosidade que tomou sua mente por completo.


Resolvidos os afazeres da manhã e também os da noite, Gumercindo voltou para o Sítio. Havia ainda uma tarde inteira de tarefas que deveriam ser completadas.


No sítio, tudo era muito bem organizado e dividido entre o garoto e seu pai. Eles só se viam uma vez ao dia e às vezes até menos que isso. Apesar da ausência sistemática que seu pai praticava diariamente, Seu Jair não era um homem ruim.


Jair foi uma criança como todos os outros homens da família, cuidado pela mãe até os 7 anos e moldado pelo seu pai a partir disso. O lema “os homens fazem coisas de homens e as mulheres fazem o resto” era passado de geração em geração.


Cresceu, herdou o Sítio após a morte de seu pai e no mesmo ano descobriu que Kelen, ou Penélope, ou Bianca (uma prostituta que trabalhava no único bordel da Vila e que sempre se apresentava com um nome diferente) estava grávida. Quando Verônica, ou Luiza, ou Janete foi até o sítio contar que Jair era o pai do bebê que ela esperava, ela com certeza não contava com a resposta que ouviria.


Sem hesitar, Jair disse que ela deveria morar com ele no sítio, tendo todos os cuidados e o auxílio necessário durante a gravidez. Após o período lactante, Felícia, ou Ruth, ou Yasmim deveria ir embora. Levaria consigo tudo o que conseguisse carregar e nunca mais voltaria a ver a criança. 


E assim ela fez. Nem um dia a mais, nem um dia a menos.


Por seu filho, Seu Jair fez as coisas de homem e também todo o resto. Cuidou e criou Gumercindo, ensinando-o todas as tarefas que envolviam o Sítio. Da manutenção ao comércio.


Quando o garoto completou 14 anos, Seu Jair deu de presente um jogo de martelos em uma caixa de madeira feita à mão. 


-A partir de hoje você é um homem! A manutenção do sítio é por sua conta.


Na caixa, Gumercindo encontrou um martelo de carpinteiro, uma marreta pequena, um martelo de borracha e um martelo-unha. Mas o que realmente chamou a atenção do rapaz foi a frase “A partir de hoje você é um homem!”.


Aquela frase soou como música para os ouvidos de Gumercindo. Ser responsável por algo era a comprovação da aprovação de seu pai. 


E tão pesada quando a caixa de martelos, era essa responsabilidade que ele carregava a cada dia. Com 16 anos ele já cuidava das tarefas da Vila e também de boa parte das atividades do Sítio.


Assim que chegou ao sítio, depois de uma manhã super produtiva, atípica e estranha na Vila, Gumercindo pegou sua caixa de martelos e circundou todo o território. Durante as próximas 3 horas, ele consertou os pedaços da cerca que foram quebrados pelos animais e a porta do celeiro que estava emperrando a pelo menos uma semana. Pensou em parar um pouco e descansar antes da chegada da doutora Cícera.


No caminho entre o armazém e a casa, Gumercindo cruzou com seu pai, que estava com um saco de feno nos ombros e um outro sendo arrastado com uma das mãos, levando em direção curral.


-Gumercindo, pode emprestar um pouco da sua juventude para seu velho?


Ele foi até seu pai, pegando o saco que estava no chão e colocando-o sobre os ombros. Durante a caminhada até o curral, não houve nenhuma conversa. Toda hora Seu Jair olhava para seu filho querendo dizer alguma coisa mas nada dizia. Gumercindo percebeu isso mas não soube discernir se a ausência de fala era derivada do cansaço ou outra coisa.


Chegando no curral, os dois deixaram os sacos em um canto e, quase como um vulcão em erupção, Jair soltou ‘Você sabe que ficará com você, né?”


A frase solta não fazia sentido algum, mas Gumercindo sabia que seu pai estava falando sobre o sítio. A única coisa que Gumercindo não sabia era se a frase fora dita esperando uma resposta ou não.


-Esse Sítio foi do meu pai, antes disso foi do pai dele - disse Jair, complementando a frase solta ao vento - e hoje é meu, é nosso. Amanhã poderá ser só seu e no futuro será do seu filho. Você tem consciência disso?


Gumercindo não sabia o que dizer. Eles nunca tiveram nenhuma conversa sobre esse assunto. Era implícito que esse era o destino, o caminho padrão, mas eles nunca haviam falado sobre o assunto. Gumercindo sabia disso mas não sabia o que dizer.


- Pode descansar por hoje, deixa que eu acompanho a doutora- completou o monólogo, já que seu filho nada dissera durante esse tempo todo.


Gumercindo só acenou com a cabeça e saiu. Durante o caminho até a casa as frases “Hoje é meu… é nosso” e “Você tem consciência disso?” ficavam ecoando em looping em sua cabeça. Chegando em sua casa, deitou a cabeça em seu travesseiro e antes mesmo de tirar seus sapatos, dormiu.


As 8 em ponto, Alemão e Alice chegaram no Sítio para buscar Gumer. Menos de cinco minutos depois os três já estavam no carro em direção ao tal Circo.


“Bem vindo ao Circus Capella”, era o que dizia o enorme letreiro luminoso, mas o que mais chamou a atenção de Gumer foi o fato do Circus ficar logo na entrada da cidade, único caminho possível entre o Sítio e a Vila, e ele ter passado por lá duas vezes sem perceber aquela enorme tenda vermelha com listras brancas.


Música alta e alegre, crianças correndo e adultos conversando e sorrindo. Alice e Alemão pareciam animados por estarem alí. Gumercindo não. Ele ainda estava cabreiro com as frases de seu pai, então resolveu se afastar um pouco do casal. “Cuidado que seu mau-humor contagia” - essa era mais uma das muitas frases de seu pai.


Enquanto olhava tudo o que acontecia à sua volta, um senhor branco e baixo, com a barba e os cabelos grisalhos se aproximou.


Esse homem possuía um grande sorriso no rosto. Um sorriso tão grande que chegava a assustar quando se olhava mais de perto.


-Achou o que procura? - Perguntou o homem.


-Não. Eu não estou procurando nada na verdade. Só estou… olhando - respondeu Gumer, um pouco desconcertado com o imenso sorriso do homem.


-Todos nós procuramos alguma coisa - disse o homem, alargando e forçando um pouco mais o sorriso - o que procura?


Aquilo tudo perturbou um pouco mais a cabeça de Gumercindo. A estranheza no olhar combinada com aquele sorriso… aquela frase… Antes que pudesse dizer qualquer coisa, o sorriso do homem se desfez.


-Venha comigo... - disse o homem, com uma voz um pouco mais grave e séria, enquanto olhava fixamente nos olhos de Gumercindo.


O estranho senhor apontou com a cabeça para uma parte menos iluminada do circo. Havia uma placa de madeira com os dizeres “A incrível sala dos espelhos”.


-Venha… - sussurrou o homem, colocando uma das mãos nas costas de Gumercindo, conduzindo-o até a entrada.


Gumercindo foi. Não sabia porquê, mas foi.


Enquanto se aproximava da porta espelhada ele pôde ver no reflexo que aquele senhor baixinho que estava conduzindo-o sorria, aquele mesmo sorriso perturbador do início da conversa dos dois.


Os dois chegaram até a porta espelhada. O velho não fez menção alguma de abrir a porta, permanecendo imóvel por vários segundos em frente ao próprio reflexo.


-A partir de agora você será a sua única companhia - disse o homem e abriu a porta espelhada. 


Assim que Gumercindo colocou o primeiro pé para dentro da sala, o sorriso aumentou no rosto do velho. Com um leve empurrãozinho, Gumercindo finalmente entrou na sala e a porta se fechou.


Imediatamente um enjôo tomou conta de Gumer. Ele não sabia se o enjoo era causado pela luz avermelhada do local ou por todos os espelhos que cercavam toda a parede. O som ambiente de pessoas conversando entre si também poderia ser o culpado por esse enjôo. O jovem não conseguia interpretar o que diziam e também não sabia dizer se as vozes vinham de dentro ou de fora da sala. Era um som extremamente perturbador e íntimo.


Apesar dessa péssima sensação física e mental que o local causava, algo em meio a tudo aquilo chamava a atenção do garoto. Não eram os diversos espelhos de curvatura estranha. O que mais chamava a atenção de Gumer era um espelho plano, normal e limpo que ficava no outro lado da sala, ocupando a exata largura de uma porta.


Gumercindo foi caminhando pelas bordas da sala. A cada passo que ele dava, aumentava a sensação de desconforto e vertigem. Foi caminhando... caminhando… até chegar ao bendito espelho que se destacava dos outros justamente por ser tão normal.


Gumercindo estava pior do que imaginava. As conversas paralelas ainda estavam baixas mas já consumiam a mente daquele garoto. Gumercindo não conseguia erguer os olhos e mirá-los em direção ao espelho. Estava prestes a gritar por socorro, pedindo ajuda á aquele velho senhor do sorriso estranho quando ouviu uma voz dizendo:


-Gumercindo? Gumer?


A voz era muito parecida com a sua própria voz, porém com um pouco mais de imponência e agressividade.


-Gumercindo!? Gumer!?


Gumer começou a levantar vagarosamente sua cabeça. Ele sabia que deveria olhar para o espelho mesmo percebendo que a voz que ouvira não estava vindo de sua frente. Era como se a voz estivesse em todo lugar.


Quando o garoto finalmente olhou no espelho, tudo o que viu foi seu perfeito reflexo. Sem nenhuma distorção, sem nenhum risco ou mancha. Enquanto admirava a perfeição daquele espelho, a voz irrompeu o silêncio:


-Eu tenho a solução…


-Bom truque- interrompeu Gumer, ainda olhando no espelho- quem está falando?


-Você sabe - respondeu a voz - você pode não me conhecer mas você sabe quem eu sou. Eu fui parte de você. Eu te acompanhei durante anos. Eu vi Gumercindo acordar cedo todos os dias para satisfazer as vontades do pai. Eu vi Gumercindo ser enganado por um velho caloteiro durante meses. Eu vi Gumer começando a beber cedo para preencher um vazio.


Gumer sentia cada palavra rasgar sua alma. Ele não acreditava que aquilo pudesse ocorrer mas sabia que era exatamente isso que estava acontecendo.


-Eu sou o vazio e eu sou o preenchimento. Eu vivi subjugado pela mente de Gumercindo e pelo coração de Gumer… Eu vi tudo o que vocês tentaram e nada funcionou. Agora vamos fazer do meu jeito. Nem Gumer, nem Gumercindo. Agora vamos viver no estilo Gum.


Não havia o que pensar. Gumercindo tentou gritar e até gritou mas seu maxilar não estava se movendo. Era como se estivesse gritando dentro de si, e em meio a esses gritos de “socorro”, Gumercindo começou a sentir os seus músculos faciais se movendo e percebeu no espelho que um estranho sorriso estava se formando em seu rosto.


Com o sorriso formado, sua mente desligou, como se tivesse desmaiado.


Era hora de acordar. Após o despertador de seu celular tocar indicando que já eram dez para as seis da manhã, o jovem Gumercindo, com seus quase dezoito anos e cem quilos, decidiu levantar. Mas dessa vez não levantou.


Ele não sabia como havia parado ali. Ele não sabia se aquilo tudo havia realmente acontecido. Na verdade, essa segunda parte ele com certeza sabia. Gum sabia, então Gumercindo sabia. 


As vozes conversando no ambiente permaneciam, um pouco mais altas, mas ainda indecifráveis porém a vertigem não estava mais presente naquele corpo.


Seu Jair foi até a porta do quarto e gritou “Levante-se, o dia não liga para a sua preguiça”. Um sorriso saltou no rosto de Gum. Um sorriso que foi percebido mas não sentido por Gumercindo.


“O que você vai fazer?” - Perguntava Gumer sem obter resposta alguma de Gum, que agora controlava totalmente o corpo.


Gum levantou e foi até o banheiro. Tomou um banho tranquilo, vestiu a mesma roupa que usava no dia anterior, pegou sua caixa com martelos e saiu com a Rural de seu pai.


A primeira parada de Gum, foi na casa do senhor Clóvis. Mais cedo do que costumava passar, o garoto bateu palmas e chamou pelo velho.


-Já falei para passar semana que vem, moleque! - disse Clóvis, ainda de pijama, do vitrô da cozinha. Ao ver Gum voltar para a Rural, Clóvis resolveu também voltar para sua cama. Quando estava no meio do corredor que interliga os quartos à sala de jantar, Clóvis ouviu de novo:


“Senhor Clóvis!”


Quando Clóvis se aproximou do vitrô novamente, se deparou com o garoto já em seu quintal.


- Posso usar o seu banheiro? - disse Gum, sorrindo. Clóvis não pôde negar esse pedido. Destravou a porta e deixou o garoto entrar.


-Vai logo. Final do corredor a direita - disse o homem, olhando para a caixa de madeira que estava nas mãos de Gum.


Gum foi direto ao banheiro. Cinco minutos depois voltou com a caixa de madeira em uma das mãos e um rolo de papel na outra.


-Vou precisar - disse Gum, mostrando o rolo de papel para o Seu Clóvis, que esperava-o na sala de jantar entre o corredor e a cozinha.


-Tudo bem! Vou descontar da dívida! - Disse Clóvis, com um sorriso. Gum não sorriu, ao invés disso apoiou a caixa na mesa da sala de jantar, abriu-a e começou a analisá-la. Então perguntou, ignorando completamente o que o velho havia falado:


-E as dores?


Antes que Clóvis pudesse responder, Gum pegou a marreta e com um único movimento, golpeou o senhor no peito.


“Não!” - Gritou Gumercindo. - “O que você está fazendo?” - Gritava, sem ao menos ser notado por Gum.


Senhor Clóvis foi jogado para trás com o golpe. A falta de ar causada pelas costelas quebradas impediram Clóvis de gritar.


-Dor no tórax...- disse Gum, acompanhada por mais uma marretada, um grito de “Não” vindo de Gumer e um grito abafado de dor vindo de Clóvis.


E assim seguiu:


-No ombro…

“Não! Para!”


-No braço…

“Pelo amor de Deus! Para!”


-Dor de dente…

“Você é louco! Não!!”


E quando Clóvis já estava desacordado, mas ainda respirando, Gum sorriu e disse?


-Dor de cabeça?


E no mesmo instante em que Gumer gritou “Não”, o som abafado da marretada no crânio de Clóvis rompeu. O sangue espalhou pela parede daquela linda sala de estar. O chão já estava coberto pelo mesmo líquido vermelho. O silêncio permanecia no local. Gumer chorava. Gumercindo chorava. O corpo permanecia em silêncio. Aos poucos esse silêncio foi sendo interrompido pelo som das pessoas conversando na cabeça deles… e Gum sorriu.


Antes de sair da casa de Clóvis, Gum tentou, sem sucesso, limpar o sangue com papel higiênico. Depois disso descansou um pouco no sofá da sala. 


Saiu de lá cerca de meia hora depois. Gumercindo ainda estava quieto e Gumer chorando. “Por quê?” era a única frase que eles diziam. Gum não levou nada da casa, a não ser o papel higiênico e o sorriso no rosto.


Quando estava entrando na Rural para voltar ao sítio, sentiu alguém puxando sua camisa.


-Nossa! Hoje é o meu dia de sorte! Me dá uma carona? - disse uma voz grossa.


O sorriso que já existia no rosto de Gum ficou ainda mais largo.


-Fala Coisa-Feia. - “Não! O que você vai fazer?” - “Não entra! Alemão!! Não entra!” - Qual o seu destino?


Alemão achou engraçada a pergunta mas muito mais engraçado o sorriso do amigo. Ele nunca tinha visto ele tão feliz quanto naquele dia. Ao mesmo tempo, Gumer assistia a tudo aterrorizado e percebia que quanto mais gritava, mais alto ficava o som das pessoas que conversavam no fundo de sua mente.


-Estou indo pra casa. Se você estiver indo para o sítio, pode me deixar na esquina da estradinha velha e seguir seu caminho… - disse Alemão, enquanto passava pela frente da Rural, indo em direção à porta do passageiro.


E logo que terminou de falar, o amigo ouviu um grito dizendo “NÃO!”. Não era apenas um “não” gritado, era uma palavra acompanhada por um sopro de vida. Era como se Gumer estivesse se afogando e, subitamente, toda a água estivesse sido retirada de sua garganta.


Gumer respirou. Fazia tempo que ele não sentia o ar em seus pulmões. Percebeu que não haviam mais vozes conversando nos bastidores de sua alma, havia apenas o barulho natural da Vila.


-Tenho que ir. - completou o rapaz já entrando apressadamente no automóvel. Ele ouviu Alemão dizer algo mas não soube decodificar as palavras, naquele momento o que realmente importava era a retomada do controle.


Dirigiu em direção à fazenda. Havia medo em seu rosto e a adrenalina correndo em seu corpo estava tão forte que era possível ouvir o seu coração batendo. Ao mesmo tempo, em sua mente, havia a sensação de alívio. Sua respiração começou a se normalizar. Seu coração voltou ao ritmo habitual. Gumercindo suspirou e o som da liberdade soou em seus ouvidos… ao mesmo tempo as vozes que conversavam quando Gum estava no controle votaram a soar em sua mente.


-Não… não… não pode ser… - dizia o garoto consigo mesmo. O alívio estava dando lugar ao medo. O coração voltava a acelerar. O som das vozes ficava cada vez mais alto.


“Concentra, Gumercindo… Concentra…“. A respiração já não estava como uma maré branda e as vozes estavam ainda mais altas.


Quando percebeu, ele já não estava no controle. Ele era novamente espectador de si mesmo. Gum estava lá e estava muito, muito bravo.


Gum não fez menção de dizer nada durante o caminho. Não haviam provocações e Gumercindo não tinha idéia do que Gum iria fazer, tudo o que ele tinha certeza era que, não importava o que fosse, não seria nada bom.


Sabendo que a gritaria não surtiria efeito algum, Gumer tentava se concentrar. Fechou os olhos para reforçar os outros sentidos. Ele conseguia ouvir a respiração de seu corpo mas não conseguia sentí-la. Conseguia ouvir o barulho do carro na estrada mas não conseguia conduzi-lo. Ele conseguia perceber, mesmo sem olhar, tudo que ocorria a sua volta mas sabia que não conseguiria influenciar em nada.


“Pelo menos as vozes não estão tão altas” - pensava, enquanto continuava sua sessão de meditação. 


De repente ele percebeu que o carro havia parado. Ele havia conseguido alcançar, pela primeira vez durante todas as horas daquele dia, paz. Permaneceu de olhos fechados. As vozes estava ficando cada vez mais silenciosas.


Gumer ouvia os passos e conseguia até sentí-los. Percebia como cada passo causava um impacto em todo o corpo. As vozes ainda estavam lá mas o volume era tão baixo que era possível ouvir o vento batendo na folhagem das árvores.


“Estamos na fazenda. Conheço esse clima” - pensou, enquanto permanecia de olhos fechados.


Ouviu uma porta se abrir… pelo som das dobradiças antigas, era a porta da sala. Continuou ouvindo os passos e, de repente os passos pararam.


Silêncio.


O silêncio era tão intenso que se tornava ensurdecedor. Gumercindo se sentiu tentado a abrir os olhos. “Será que retomei o controle?” era a dúvida que tomava sua mente mas que era desmentida pelo “velho” som de pessoas conversando em seu interior.


Ouviu, então, o barulho da caixa de madeira cheia de martelos sendo colocada no chão. Ouviu ela se abrindo.


O medo estava tomando-o novamente. Ouviu o som dos martelos batendo entre si, como se Gum estivesse procurando um em específico. Gumer tentou manter a calma mas, quanto mais tentava, mais o medo o dominava. As vozes estava voltando, estavam se intensificando.


Até que, em meio às vozes, Gumercindo ouviu uma velha frase: “Levante-se, o dia não liga para a sua preguiça”. Dessa vez, a frase vinha da boca de Gum.


Gumer abriu os olhos e pôde ver seu pai cochilando no sofá da sala enquanto Gum segurava o martelo de carpinteiro. Um grito de “NÃO” sem efeito foi acompanhado da primeira martelada nos joelhos esquerdo de seu pai.


Jair instantâneamente, como era esperado, acordou assustado. Um grito de dor preencheu toda a sala e antes mesmo que este chegasse ao fim, Gum deu uma segunda martelada, no mesmo joelho.


Gumercindo gritava, tentava a todo momento retomar o controle como havia ocorrido a algumas horas atrás na Vila. 


Uma terceira martelada, mas agora no joelho direito enquanto Jair tentava proteger o joelho que já estava muito machucado.


-Para, filho! Por favor! - implorava. Seu rosto era uma mistura de dor, confusão e medo.


-Estou só começando - dizia Gum com um sorriso enquanto pegava o martelo-unha da caixa.


-O que eu te fiz filho? Vamos conversar!


Uma nova martelada no braço esquerdo. Dessa vez não pegou com tanta força mas foi o suficiente para tirar sangue. Mais um grito de dor e mais uma martelada no mesmo local, mas dessa vez o golpe foi certeiro.


-Por que filho? Me diz “porquê”? - dizia chorando. O medo da morte estava externalizado em seus olhos. Suas lágrimas eram tão reais quando o oxigênio naquele lugar.


Nesse momento o filho começou a lembrar de toda sua infância com seu pai, enquanto Gum escolhia um novo martelo da caixa. 


Gumer lembrava de todas as dificuldades que seu pai havia passado por ele e como aquilo tudo havia influenciado em seu crescimento. 


Gumercindo lembrava de todas as suas habilidades que haviam sido forjadas por seu pai. Pensava em como Jair havia sido paciente e ao mesmo tempo disciplinado para ensinar tudo o que sabia á ele.


Gumer lembrava da força de seu pai para assumir um, literalmente, “filho da puta”.


Gumercindo lembrava do seu último momento com seu pai, quando titubeou e teve medo de dizer qualquer coisa.


Nesse momento as vozes internas pararam. Gumer sentiu novamente o ar em seus pulmões. Olhou para o pai ensanguentado no sofá, implorando pela vida. Sentiu o peso da marreta em suas mãos.


Ele estava livre.


Fechou o olho e respirou fundo, sentindo cada pequeno prazer que aquele momento reservava.


O rapaz olhou nos olhos de seu pai. Jair pôde sentir a mesma paz que seu filho sentia naquele momento e suspirou.


-Filho… - disse Jair, esforçando-se para levantar uma das mãos.


Ele estava novamente no controle. O medo que Jair sentia começava a dar lugar à esperança. O semblante de seu pai começava a relaxar enquanto Gumer sentia novamente cada uma de suas articulações. 


Após alguns segundos, olhando seu pai ainda com a mão estendida em sua direção, o rapaz finalmente disse algo.


Pai, nunca quis o sítio, me desculpa...- e com uma única marretada no topo da cabeça do pai finalizou o trabalho que Gum havia começado.


O corpo no sofá já não tinha vida. 


O golpe foi tão forte que fez com que a marreta se desprendesse do cabo. 


Havia paz em Gumer e uma satisfação que ele nunca havia sentido. Havia também um cansaço absurdo. Ele então subiu as escadas em direção ao seu quarto e deitou em sua cama. Dormiu bem, como a muito tempo não dormia. 


Gumercindo acordou sem saber por quanto tempo havia dormido. Ele percebeu que algumas coisas estavam diferentes. As vozes tinham voltado, o que significava que Gum estava novamente no controle, mas ele não estava mais na casa.


O ambiente em que estava era frio e com uma luminosidade precária mas estranhamente familiar. Diferente do dia em que Gum tomou conta de seu corpo, alí Gumercindo conseguia se mover. Outra grande diferença é que dessa vez as vozes não vinham de dentro, mas sim de fora.


Gumercindo decidiu então seguir as vozes. Quanto mais andava, mais claro ficava o ambiente. Quanto mais andava, mais clara ficava a percepção de que as vozes vinham de todas as direções.


Ele então decidiu seguir em direção a um único ponto de luz que havia alí. Era uma porta localizada a alguns metros. Ao caminhar para a porta, percebeu a presença de duas pessoas, até que uma delas disse:


“A partir de agora você será a sua única companhia…”.


Gumercindo conhecia aquela voz. Gumer conhecia aquele rosto. Gum estava alí, conduzindo o jovem desconhecido até aquela porta.


O jovem entrou, a porta então se fechou e uma luz vermelha se acendeu. Gumercindo olhou a sua volta e percebeu que estava em um lugar cheio de pessoas, algumas falando sozinhas, outras lamentando, outras chorando.


“Me tire daqui!” era a frase mais repetida pelas pessoas e, a partir de agora até a eternidade, também seria repetida diversas vezes por Gumercindo.


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