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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

— Então, meu jovem, o que vai ser? — o taberneiro perguntou para o homem de pele morena e cabelo curto que havia acabado de se sentar. — Conheço esse tipo.

O taberneiro já ia se decepcionando com a escolha de bigode e cavanhaque, contudo, as expectativas do servente com o pedido de suco de laranja foram interrompidas. 

— As duas maiores canecas de vinho na última mesa — exigiu uma garota de cabelos pretos e lisos antes de arrancar o homem do pé do balcão e lhe apontar uma direção. Sua voz, eufônica e segura de si, combinava com a cota de malha feminina sob roupas de linho. Com certeza eram feitas sob medida. Não portava espada, apenas o suporte na cintura. — És um tolo? Não se conversa na Bode Mágico aos pés do balcão.

— Não era minha intenção, apenas cheguei cedo — explicou com uma voz aguda enquanto observava a taverna de dois andares talhada em pedra e madeira. A maioria das mesas era disposta a formar corredores, e seus bancos eram todos pregados.

Fiquei sabendo que é uma medida contra brigas, pensou enquanto observava também as lamparinas dispostas no teto. Isso também, as pessoas tendem a arremessar tudo que está ao alcance das mãos. Observou que um palco provisório estava sendo montado sem pressa, então agradeceu por ter se adiantado no compromisso que sequer havia sido marcado por ele.

— Osama, o escritor incompreendido. Não é necessário que prove sua identidade; és exatamente como te descrevem. — A garota interrompeu o que quer que ele planejasse fazer mexendo nas roupas, mas isso não o impediu de retirar uma escriba, uma pena e o tinteiro. — Estais com pressa ou apenas curioso?

— Curioso. A chefe da guarda! É raro o relato de alguém que não perderia seu tempo com inverdades. — A pele branca próxima aos seus olhos negros se estreitaram, analisando-o. — Pois é, Terella, você também é exatamente como as pessoas descrevem. Especialmente o modo de falar.

— És tu quem fala estranho. Algo além do nosso tempo... Mas compreendo esse atributo nos escribas. Porém, não lhe confessarei relato algum, e sim uma história. Portanto, o que planeja fazer com o conto que lhe hei de contar?

— Caso me certifique da veracidade, publicarei! Embora prefira que não, podemos ocultar sua identidade. Entendo que é complicado se expor em sua posição.

— Perfeito. És livre para decidir quanto à minha identidade. — Terella aceitou e logo bebeu da caneca que, de tão cheia, derramava. Mais sagaz que do que aparenta ser, pensou quando viu Osama pagar adiantado. Isso faria com que o taberneiro não voltasse até eles gritarem outro pedido. — O que sabes sobre o Gelo do Rei?

— Sei que é uma ilha inteiramente de gelo e que o rei decretou ser sua. Ele proibiu o saque do produto e o explora. Muitas alianças foram feitas mediante o comércio do doce denominado “sorvete”, já que ele não pode ser feito em outro lugar. As geleiras mais próximas ficam a mais de 30 luas de embarcação; não é qualquer reino que possui uma ilha com apenas três luas. Boatos vindos do mar na semana passada disseram que ela finalmente derreteu com a troca da estação.

— Sabes exatamente o que esperam; não o culpo, é um detalhe bem pensado esse de a distância ser importante. Mesmo incumbida da guarda, demorei a perceber... Contudo, é importante que divulgue a verdade sobre um dos maiores patrimônios do reino: a exploração do gelo só é de fato lucrativa por conta de seus atributos incomuns. Do contrário, qualquer reino poderia fazer o mesmo com a neve do inverno, não é mesmo? — Esperou uma confirmação de cabeça. — Prepara-te, irei começar. Espero que escreva rápido; não pretendo ajustar minha fala à tua mão, e possuo certa pressa.

— Intrigante — disse Osama, com as sobrancelhas levantadas depois de assentir. Ela não desmentiu o boato, pensou enquanto descia a pena sobre a folha amarelada. — Escreverei apenas os pontos-chave da história.


***


Após seis meses de quase completa escuridão, o Equinócio da Primavera recomeçou o seu ciclo. Contudo, a translação onde o sol aponta no horizonte, aquece e se desloca antes de sumir novamente ainda era menor que à noite. Felizmente, esse prazo de luz saudável e desejada aumentaria gradativamente com a chegada da nova temporada. Afinal, o aquecer ainda era quase que no sentido figurado, pois o inverno havia sido rigoroso por essas terras brancas. Elas ficavam tão ao Norte que os raios solares mal serviam para apaziguar o congelante ar da região.

Com um prazo tão pequeno, o máximo que o calor conseguia fazer era derreter um pouco do gelo, criando assim um finíssimo filete da água mais potável que se poderia encontrar. Infelizmente, não se encontra vida tão facilmente nessas planícies de neve para aproveitar tamanha pureza, mas, como quem não se importa com esse detalhe, o córrego segue seu rumo e desaparece entre os blocos gigantescos e subterrâneos que mais parecem ser pedra do que água congelada. Pode ser inacreditável dizer que um fenômeno tão inocente possui importância, mas a verdade é que pela primeira vez em meses algo havia derretido ali naturalmente, e todo grande acontecimento é rodeado de pequenas simbolizações: esse pequeno córrego é uma delas.

Adentrando essas frestas escuras, descemos algumas centenas de metros até alcançar certa caverna-não-natural-subterrânea. Suas longas gargantas não sobem para a superfície; elas vêm de baixo, onde o mar escuro reina, tornando-as praticamente inexploráveis. Mas, mesmo que fossem, mesmo que o homem ousasse mergulhar para procurar alguma entrada assoviada por um palpite vindo do instinto, não as acharia.

Pois algumas coisas merecem, sim, não ser descobertas. Elas não precisam de seu lugar ao mundo, especialmente quando o mundo não acredita em seu lugar nele. Logo, somente uma coisa pode garantir que algo inviolável continue inviolado: um guardião tão bom quanto o seu tesouro. Bom, ao menos seria essa a intenção.

— Que tédio — reclamou o homem baixo e branco como se houvesse companhia, mas infelizmente apenas a escuridão o acompanhava e era bem improvável que alguma pergunta partisse dela. Uma obrigação me dada, repetiu em pensamentos enquanto saía completamente da água oceânica e retirava um coral de sua bermuda de linho. 

— Me confunde escolher o pior: a necessidade desta missão ou passear por esse buraco fedorento — reclamou novamente, mas desta vez com razão, afinal, essa cavidade escura no gelo era preenchida de metano em alta concentração, e, como não havia reposição, o ar do ambiente estava tão venenoso quanto o solo vulcânico.

Obviamente, o homem de cabelos crespos e pretos sabia desse perigo, e apesar dessa perigosa adversidade ele estava tranquilo, afinal, o gelo era seu habitat.

— Acenda! Quero me infiltrar na próxima embarcação; precisamos de mantimentos — pestanejou novamente enquanto mergulhava a peça em uma pequena poça de água que possuía um pH alterado.

Mas, com isso, as bactérias termofílicas despertaram e passaram a absorver os nutrientes venenosos da umidade, o que as fez catalisar luz através de um processo químico, transformando a pedra marítima em um pulsante e alaranjado bastão de luz.

— Bom, agora é só reforçar a armadura e filtrar o ar venenoso — explicou suas ações em tom rotineiro. Sua “armadura” consistia em uma película de minúsculos cristais de gelo que flutuavam a alguns centímetros acima de sua pele.

Eles preveniam o contato com a atmosfera que, além de ácida, estava irrespirável devido ao metano. Os cristais extraíam oxigênio do ar ou do chão, pois sua armadura o cobria completamente. Então, a cada passo dado, um processo de fusão dos cristais era iniciado, deixando assim um rastro de gelo quebradiço e ressecado por onde ele andava. A quantidade de ar extraído era baixa, mas felizmente sua estatura também era. Então, suas passadas além de curtas eram rápidas, o que era favorável para a manutenção do ar puro e tão necessário para satisfazer seus pequenos pulmões.

— Parece-me que andou sonhando — matutou enquanto tocava as paredes de gelo límpido com marcas de derretimento. — Ou despertando. Ninguém saberia dizer o que motivou uma criatura dessas a estar aqui. — Deu de ombros para passar a impressão de que para ele pouco importava a diferença, o que não era verdade. Aquilo o preocupava. As chamas estão mais quentes; há algumas semanas as cavernas não eram tão largas e nem tão profundas, pensou enquanto olhava ao redor. 

O efeito do coral era realmente bonito de se ver por aquela caverna venenosa, mas o mérito desse fenômeno ia para as paredes frias que faziam questão de desafiar a lógica, pois elas transformavam tão pouca luz em um espetáculo de iluminação natural que deixaria os piromantes do Bode Mágico com inveja. O brilho pulsante do coral era absorvido e refletido ao longo da caverna, e, devido as camadas de gelo serem uniformes, o prisma fazia com que as partículas de luz ricocheteassem fora de qualquer padrão. O efeito final era fantástico. Lasers e flares, além de pequenos arco-íris, faziam parte do show.

Sob essa iluminação mágica, era possível ver nosso anfitrião, um homem que no mínimo consideraríamos um ser exótico. Seus traços lhe davam uma aparência mais velha, mas não rabugenta. Em locais frios, o corpo costuma responder à altura, então é bem normal as pessoas que vivem nesse clima criarem no mínimo barbas fenomenais. Mas em seu caso havia alguns fios escuros no rosto que poderiam ser contados, se ele tivesse essa disposição. A essa altura, já deve estar claro que ele possuía habilidades para dispersar o frio, e, devido ao abuso dessa vantagem, seu corpo nunca precisou aprender a se proteger contra o clima.

A maior prova disso era sua bermuda, que era a única peça de roupa que vestia dentro de um iceberg enquanto caminhava descalço a uma temperatura bem abaixo de zero.

Com um espírito muito mais infantil que aparentava, ele brincava com os lasers. A visão nunca cansava de diverti-lo, mas a sombra gigantesca e sem forma de uma criatura que podia ser vista nas profundezas do gelo toda vez que a luz alcançava o ápice em seu ciclo freava sua vontade de aproveitar o momento, trazendo-o à tona de suas obrigações.

— Terei que renovar todo o gelo, tapar e congelar essas cavernas e conferir externamente se houve rachaduras — falou aparentemente para a sombra que parecia flutuar no vazio congelado. — Que lugar horrível para se caminhar você criou, hein? — reclamou antes de escorregar e cair pateticamente. Seria um questionamento até aceitável, pois irregularidade era o que mais havia naquele terreno, e ainda podia-se levar em conta a escuridão, afinal, se o pulso do coral tem seu ápice ele alcançava o breu para reiniciar o ciclo. Embora isso não justificasse tropeçar a cada três passos no elemento em que domina.

— Sei que me ouve; não estou louco e falando só — sua voz aumentou automaticamente quando alcançou um lugar que parecia um domo devido ao eco. —Porém, estou muito bem com sua falta de resposta.


***


— Calma! — Osama interrompeu o fluxo da história. — Então, na ilha havia uma criatura dormindo e um mago de gelo que a mantinha assim? — Osama não havia escrito uma palavra sequer, mas a pena estava firme no manuscrito. Não... era exatamente o que esperava... e era simplesmente criativo demais para ser algo inventado, pensou sabendo que ela estava dando um tempo para ele absorver a história. — Você tem alguma prova? Não é que não acredito, pela quantidade de detalhes que me deu... A criatura acordou, derreteu a ilha e fugiu? — Sua ansiedade o fazia se adiantar aos fatos, mas aí percebeu algo. Osama parou e observou o comportamento natural de beber e contar a história. — Você a viu, não foi? Tudo me pareceu um relato pessoal, e não só um conto.

— Não és um bom detetive. Planejava revelar esses detalhes, mas entendo sua confusão. Então, irei adiantar a história para o momento no qual comecei a me envolver. Depois, voltamos para a criatura. — Conferiu sua caneca na metade e pediu mais uma para não correr o risco de ficar sem. — Aconteceu em uma madrugada... Havíamos retirado uma boa quantidade de cubos, enrolado em palhas e iniciado um transporte em filas. Porém, uma das carroças afundou as rodas na neve, um acidente rotineiro, mas o transporte de gelo não para por ninguém, logo, a escolta seguiu a caravana e fiquei para trás com três homens. Demoramos mais horas que o esperado, e, quando finalmente desencalhamos, a ilha tremeu. — Pausou para aceitar o vinho. Osama abriu a carteira e pagou por duas sem perceber que sua caneca estava intocada ainda. O taberneiro não se importou, com certeza era uma tentativa de impressionar. — Primeiro, o chão ficou amarelo... — Terella ficou negativando, sem se importar com as impressões. — Depois, veio o fogo abaixo da carroça; dois homens estavam nela, e sequer procurei restos... O outro eu não faço ideia do que aconteceu.


***


O jato percorreu por alguns metros uma trajetória lateral e desapareceu, mas logo apareceu em outro lugar com mais força, abrindo a segunda cratera. Não era exatamente fogo; era algo líquido e incandescente parecido com lava, mas esvanecia no ar como toda chama sem uma fonte direta de oxidação. Terella procurava, com giros de cabeça, um abrigo, mas já havia raciocinado que lugar algum seria seguro contra um fogo que vinha dos pés.

Sabia que restava fugir, mas havia caído do cavalo. Como não conseguiu se localizar por conta da nuvem de vapor gerada com o derretimento instantâneo do gelo, ela tomou coragem e pulou na cratera. Não diretamente; seria suicídio, com certeza. Era impossível definir a profundidade por causa da escuridão, mas mirou um sulco largo que talvez a coubesse. Foi bem a tempo de ver o último rasgo sendo feito — dito último pela clara falta de ímpeto. O fogo não estava tão alto quanto os primeiros, e o jato também correu apenas metade do gelo anterior.

Sem informações suficientes para saber se havia acabado ou se estava segura, Terella esperou. Estava assustada, claro, mas não ao ponto de parar o raciocínio. E agora, no silêncio, havia conseguido algumas conclusões bem importantes: 

— Não sou o alvo, o transporte também não era.

Eliminar a ideia de ter sido emboscada por ladrões fora tranquilizante, mas a fez bolar mais suposições do que desejava.

— Nada do que conheço faria isso. — Observou o buraco com cinco metros de diâmetro e sabe-se lá quanto de profundidade. — Por que parou e o que causou?

Seu raciocínio foi interrompido por um grito vindo da borda da cratera:

— RAZIEEEEL! 

Terella se encolheu, imaginou que fosse o terceiro homem chamando por algum dos outros, mas não o reconheceu. Estava perto o suficiente para ver o corte baixo e a barba tão rente que parecia deixar seu rosto verde. Sua boa aparência só não destacava mais que sua tranquilidade em aguardar alguma resposta.

Esse homem... Ele sabe de algo! Devo me aproximar? Notou que ele não estava armado, e ela possuía uma espada. A vantagem é minha, mas como proceder sem ser notada? Antes de imaginar como escalar até o topo sem ser percebida, ouviu uma resposta bem mais próxima que imaginou.

— Acabei aqui. — Um homem completamente mal vestido para o frio estava vindo do breu. Ele caminhava sobre uma escada que ia sendo criada no gelo sob seus pés. — Consegui congelá-lo de novo, mas preciso esperar o mar encher as cavidades para fechar os buracos — explicava, já saindo da cratera. — O que aconteceu aqui?

— Acho que uma carroça foi atingida — outro homem explicou, com um pedaço de madeira chamuscada na mão. — Localizei marcas de cavalo, mas nenhum rastro humano se afastando... viu algum corpo aí dentro?

— Não, coitados. — O homem olhou para o buraco, avaliando se valia a pena uma busca. — Deram azar, é bem incomum as chamas serem projetadas para cima, quem dirá atingir alguém... Não tem como terem sobrevivido.

— AQUI! — Terella gritou, acenando, e imediatamente os dois se viraram para ela.


***


— Você arriscou? — Osama perguntou de forma retórica. — Quer dizer, claro que eles pareciam estar interessados nos sobreviventes, mas você nem hesitou!

— Sou orgulhosa, não tola. Precisava de ajuda e de respostas, e eles poderiam me prover as duas coisas.

— Então? Quem são eles? O que é essa criatura?

— O mago se chama Raziel; seu amigo é o Dourado. — Bebeu como homenagem aos nomes. — Foram incumbidos desta missão há muitos anos por uma maga maior chamada Lilith: “Mantenham o augúrio aprisionado”. — Bebeu novamente. — Anos, acredita? Perdi anos... transportando gelo...

— O que mais sabe sobre eles? — Osama não estava muito interessado nos detalhes de ela estar insatisfeita com um dos melhores trabalhos que um guarda poderia ter naquele reino. — Você viu o que estava abaixo do gelo?

— Paciência. Acontecimentos se desenvolvem, sabia? Eles me socorreram e me emprestaram um cavalo; fizeram um pedido de segredo, e em troca prometeram explicações. Voltei para a embarcação e autorizei que partissem sem mim. Relatei que a carroça estava presa e que voltaríamos no próximo transporte, daí retornei à procura deles de imediato.

— Respeitou o pedido eles fácil assim?

— Sim, eu estava eufórica e curiosa. Dói-me admitir que àquela altura nem me lembrava de ter perdido soldados... porém, a visão do mago preenchendo o buraco me deu alguma certeza de ter feito a escolha correta. — Observou os arredores e se acalmou quando percebeu o lugar ainda estar vazio. — Quanto à criatura... Sabemos apenas o que Raziel descrevia. Era perigoso demais para qualquer um outro vê-la... — Molhou a garganta com um gole e assumiu um semblante sombrio. — Ele tem uma cabeça de lagarto com chifres retos, porém apontados para trás. Sua pele é coberta de escamas grandes de duas cores: as que ficam na linha superior do corpo são vermelhas, e as partes mais inferiores como barriga e mandíbula são brancas.


***


Sob a iluminação alaranjada do coral, as escamas superiores escarlates e inferiores brancas perfeitamente montadas umas sobre as outras refletiam a luz de uma forma angustiante. Era como se o domo em si estivesse sobre um incêndio. Nelas, escorria água com o calor exalado do pescoço descoberto da criatura. A ilusão do fogo ali afetava de uma forma tão real que não era estranho ver a gota de suor deslizar sobre a testa enrugada de Raziel, mas não por causa do calor e sim por conta de uma mistura de sentimentos de admiração, curiosidade e pavor.

A criatura dormia emitindo um ruído constante de uma respiração longa e até silenciosa para o seu tamanho. Sua cabeça era maior que uma carroça, e o gelo onde repousava chiava em uma reação instantânea de sublimação devido ao alto calor de suas escamas, pois a essa altura era fácil deduzir que ele havia arrotado recentemente alguma quantidade de fogo. O domo descongelado ao redor de sua cabeça era uma boa prova disso.

— Curioso, você se mexia mais — disse Raziel, de uma forma analisadora. — Bom, imagino que tenha achado a posição de conforto; também tenho isso quando durmo — especulou sem certeza, porém, lá no fundo, seus instintos lhe diziam que essa poderia ser uma informação importante. Ainda assim, ele não sabia o que poderia fazer para comprovar seu palpite. — Ok, está na hora de preparar sua cama. — E, com um estalo de dedo, a parede ao seu lado rachou. — Por precaução, vou adicionar um pouco mais de magia para melhorar o gelo.

Espremida entre as frestas, a água jorrava da rachadura por cima do pescoço da criatura em uma pressão gigantesca. Era de se questionar o banho não acabar despertando-a, mas o jato parecia atingir uma parede de aço no lugar de algo vivo. Além do mais, as escamas estavam tão quentes que um processo de calefação iniciou, transformando a água em vapor por meio de um chiado em uma velocidade absurda. 

Porém, o banho contínuo venceu em certo momento, e, assim, o congelamento iniciou em um processo lento porém de cristalização instantânea. Não é possível comprimir água de forma eficaz devido à sua consistência, mas o quadro muda quando entramos no estado sólido. É só eliminar o espaço entre os hexágonos ao nível molecular, criando, desta forma, uma cadeia mais concentrada, o que dá ao gelo o atributo de ganhar calor em uma taxa mais lenta que o gelo comum. O resultado final é uma pedra fria e bem sólida. Ela pesará mais que o normal, mas será muito mais difícil de derreter.

Após comprimir e congelar a quantidade prometida ao redor da cabeça, ele pensou como isso não o impediria de respirar.

— Tolice, não faço ideia de quanto tempo faz que essa criatura dorme, quem dirá suas necessidades de respirar.

Quando a cúpula que possuía algo próximo a três metros de diâmetro congelou, o trabalho foi sendo feito pelo “corredor”. 

— Não é inteligente rachar tanto gelo enquanto anda... mas é bem mais rápido. — Dito isso, a garganta bem-preenchida ia se solidificando na medida em que ele desfazia os seus passos.

Sem o procedimento de compressão, o trabalho era rápido. Ou ao menos deveria... O coitado se enrolava com seus próprios comandos e movimento com as mãos; então, uma estalagmite ou estalactite eram criadas após um tropeço ou escorregão. E, em certo momento, ele chegou ao absurdo de congelar a própria mão enquanto olhava o chão para evitar acidentes.

Mas isso nem de perto o abalava. Como uma criança tapando um buraco que cavou na areia, ele seguia atrapalhado até alcançar o ponto de partida, que era outra cúpula disforme onde a chama teve seu fim. Após ficar satisfeito com o trabalho, ele mergulhou em mar aberto. Sua armadura o grudou na parede externa e a água sequer o tocou. Assim, atendendo às próprias normas de segurança, ele terminou de preencher toda a cavidade. 

— Ah... esse velho probleminha... — lembrou enquanto caminhava nas camadas de gelo do iceberg. — Preciso aprender a nadar... os boatos dos magos não se importarem em aprender habilidades normais são reais — concluiu pateticamente enquanto se equilibrava no paredão sólido. — Agora, uma manutenção de leve aqui fora — falou enquanto fortalecia todo o gelo externo do iceberg com uma camada extra. Apesar de falar como se estivesse passando manteiga em um pão, a pedra era gigante.

Sua extensão submarina ia além de onde a vista alcançava, mas isso não era só pela falta de luminosidade, mas também pelo tamanho colossal mesmo. Com o intuito de cumprir o que dissera, ele expandiu uma bela camada no monumento. Os estalos produzidos pelo fenômeno eram assustadores de se ouvir a tal profundidade, e a falta de luz aprofundava a sensação de que algo muito anormal estava acontecendo.

— Pronto, chega por hoje — decidiu, pois o coral estava voltando para seu estado de hibernação, e, como medida para não ficar no breu a centenas de metros da superfície, ele criou um disco em forma de cone sob os pés e pegou uma carona que ia conseguindo velocidade através do empuxo para o topo.


***


— Não me surpreende que a criatura tenha fugido! Como diabos alguém confia uma missão dessas a um mago desastrado? Se ele é poderoso assim, por que não a matou dormindo? 

— Deveras era minha tolice na época que ainda me via como uma guarda defendendo o patrimônio do Rei. Considerava o trabalho como uma reunião de informações, logo, passei algumas semanas entre eles e algumas coisas ficaram bem claras. Justificavam o segredo alegando que o Rei faria alguma comoção ou movimentação de exércitos para atacar o monstro. E outro fator diretamente ligado ao primeiro seria que: levando em conta suas mais poderosas magias, Raziel julgou não conseguir causar um dano significativo, quem dirá matá-la dormindo.

— Então... eles viveram na ilha apenas adiando seu despertar?

— Vivem. A ilha perdura. Contudo, não por muito tempo. Ouviste o ditado sobre os longos invernos?

— Trazem grandes verões. Um ditado popular.

— Mesmo o rei demonstrava preocupação com o destino de sua ilha de gelo nesse verão, já que o inverno durou o dobro do que o de costume.

— Ele temia a chegada do verão... Então, o que aconteceu com a ilha já que ela não derreteu?

— Bom... Dourado quem apareceu com a ideia...


***


— De fato, já havia me perguntado o que faria quanto ao sol da meia-noite — Raziel respondeu com seriedade referente ao fenômeno no qual o sol praticamente não desapareceria do horizonte nessa temporada do ano. 

Devido a estarem localizados tão ao norte, o eixo de rotação do globo passava por uma inclinação média em climas diferentes, ou seja, uma temporada do ano possuía dias mais longos e a outra possuía noites mais longas, sendo que pelo menos um dia de cada temporada seria banhado completamente pelo sol ou pela lua. O chamado sol da meia-noite era o nome dado para o dia em que o sol abençoava o céu com um dia inteiro de luminosidade.

— Essa é uma criatura perigosa demais; precisamos de ajuda com a troca da estação. Deixe-me falar com o Rei.

— Não — Dourado respondeu satisfeito por todos estarem preocupados e interessados. — Temos uma solução teoricamente simples: vamos mover tudo isso aqui para o outro lado do mundo. 

Assim, os dois estacaram em paralisia. As perguntas que faziam com centenas de piscadas rápidas de olhos era bem clara: mover? Mover a ilha inteira? Para onde? O outro lado do mundo?

— Você consegue, Razi, já te vi fazer coisas muito mais fantásticas.

— Sim, mover! Uma pedra de gelo que não afunda é como um barco! — disse Terella após ponderar. — Mover, navegar, empurrar. Desconheço a existência de um termo melhor, mas a ideia é levar a ilha para o outro lado da Terra redonda. Se aqui é verão, lá vai ser inverno!


***


— Como diabos apoiou uma ideia dessas? — Osama perguntou, mais para si mesmo do que para sua colega de conversa. — Isso explicaria o motivo de a ilha ter desaparecido subitamente... Mas... isso aconteceu mesmo?

— Uma ideia fantástica, mas perfeita para a ocasião. Temi revelar algo para o rei e ele ordenar algum mal para com os dois, então assumi a obrigação de adquirir mapas e aprender navegação estelar. Nesse momento, eles estão testando maneiras de mover a ilha de forma menos desgastante, por isso ela sumiu.

— Já está acontecendo, então? Eu nem sou especialista, mas é tanta coisa que pode dar errado que nem sei por onde começar!

— De fato. Mesmo Dourado admitiu que estava sendo otimista, mas imagine essa criatura acordando tão próxima do reino? — Terella virou o restante da caneca e, em vez de pedir outra, apenas pegou a de Osama que ainda estava intocável. — Nem mesmo Raziel pode lutar contra o sol durante meses, e nem temos tempo para bolar outro plano.

— Mas ainda assim... ele, como mago responsável, simplesmente aceitando uma ideia dessas...

— Perdoe-me a ofensa, caso seja uma, mas é fácil incendiar a vontade da maioria dos homens. Seja ele um mago ou não. — Bebeu sem drama. — Apenas precisei perguntar se ele daria conta do trabalho.

— Que golpe baixo, dificilmente uma pessoa foge de ser desafiado — disse Osama, rindo. — Imagino que ele deva ter achado revoltante de várias formas, para no fim aceitar e mostrar que é capaz. Agradeça a experiência de sua posição de comando; nem todos sabem como motivar alguém. — Aceitou a capacidade manipulativa feminina, porque já lhe convinha, e deu continuidade à entrevista. — Então, está largando a vida de guarda para seguir essa viagem?

— Quando aquela criatura atirou fogo sob meus pés, lutei pela minha vida. — Seu copo estava vazio, mas ela não parecia ter intenção de pedir outro. — Devido ao feito de conquistar uma posição de tamanho respeito, percebi que fiz mais isso para provar que conseguiria do que por mim. — Ela olhava para o copo vazio em um semblante decidido. — Ao ver com meus olhos as escolhas daqueles dois, percebi que não estava satisfeita. Estava vivendo sem um propósito.

— Isso eu entendo muito bem. — Osama, a essa altura procurando um copo para beber, finalmente havia se achado na conversa. — Cobrir e escrever sobre pessoas com capacidades fenomenais nunca me rendeu nada além de risos nas padarias, mas meu propósito é a verdade! — Brindaram de copos vazios, detalhe que Osama pretendia mudar com um aceno de mão.

— Não! Preciso ir, me empolguei e bebi demais, preciso finalizar minha vida na cidade. — Levantou-se e arrumou as vestes de forma embolada. — Então, é isso, meu caro escritor; esse é meu conto.

— Deuses! Estou muito satisfeito, de verdade! — Osama se levantou e ofereceu a mão para ela apertar. — Uma ilha de gelo explorada por uma nação; um mago que mantinha em segredo um augúrio aprisionado magicamente, mas por temer o verão resolveu partir em uma viagem de mover a pedra para outro lado do mundo! As pessoas se perguntarão o quanto poderão acreditar nessa história, mas você é uma mulher incrível! Como protagonista, músicas serão criadas com certeza! — Terella se permitiu rir com a empolgação. — Porém... somente agora percebi que não possuo muitas informações sobre a criatura... sua espécie, costumes. Dificilmente entenderiam o nível de perigo sem uma raça ou nome no conto... Não gosto de inventar nada... 

— Concordo com todas as suas palavras, e me tranquiliza sua honestidade. — Ajustou sua cadeira e se preparou para sair. — Contudo, não será necessário contar inverdades —respondeu com claras intenções de que sua informação excluía a necessidade de outros detalhes. — Nosso augúrio é um dragão-vermelho, e ele se chama Kaos.

Deixou Osama estático e educadamente se retirou. Terella se despediu do taberneiro e outros funcionários.

— Vocês sempre me trataram como uma filha; me dói a certeza de ser minha última visita. — Aceitou cada abraço, recusou a rodada por conta da casa e, na porta pesada, olhou para trás como se fosse a primeira vez na vida. Lembrou as várias histórias que havia contado com os amigos; eram tantas que cada mesa possuía sua própria lembrança. — E será aqui que eles ouvirão minha última aventura. — Segurou a lágrima, mas permitiu a emoção aquecer seu tom de despedida. Dessa forma, foi embora se sentindo determinada como nunca.


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