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Ladrão de corpos
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Ladrão de corpos
Áudio drama
Ladrão de corpos
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

As mãos ainda tremiam. Os dedos, tingidos de vermelho, eram incapazes de conduzir a chave até a ignição.

"Calma!", sussurrou para si mesmo quando as chaves caíram no assoalho. "Calma", sussurrou mais uma vez se esforçando para não soltar um palavrão enquanto tateava o tapete do carro.

Quando se ergueu, com as chaves em punho, viu um homem colado à janela.

Soltou um audível palavrão e colocou a mão sobre o peito.

— O senhor poderia sair do carro? — disse o policial no que não era um convite.

Pedro ergueu os braços ao sair. As mãos, a camiseta branca, o jeans e o rosto estavam sujos de um sangue que não era dele. 

— Senhor, deite-se no chão.

Ele obedeceu. Logo um homem uniformizado com mãos grandes certificou-se que não havia armas e o algemou.

Enfiaram-no numa viatura. O carro seguiu pela estradinha. O giroscópio, mais adiante, indicava que tinham achado o velho Ernesto. Um dos policiais na viatura olhou para o passageiro. Eles sabiam o que ele tinha feito.


— A quanto tempo vocês se conheciam? — perguntou um homem grande que ocupava quase toda minúscula sala de interrogatório.

— Há alguns meses. — Pedro respondeu.

— Vocês brigaram?

— Não exatamente.

— E como brigar de forma "inexata" leva a um assassinato? — O policial encarou o rapaz.

Pedro deu de ombros.

— Cigarro? — O policial ofereceu.

— Isso dá câncer, sabia?

O policial sorriu e observou:

— Câncer mata e mais de cinquenta facadas também. 

Pedro ficou em silêncio. Ainda sentia o corpo dolorido e as mãos não paravam de tremer.

Bateram à porta. O homem corpulento se levantou e pouco depois voltou dizendo:

— Sua advogada chegou.

— Eu não chamei ninguém! — reclamou o rapaz, mas já era tarde, o homem saía e a mulher de cabelos curtos entrava na sala.

— Não se fala sem a presença de um advogado! — Raquel reclamou.

— Eu sabia que você viria.

A mulher se sentou com um rosto severo:

— É mesmo?!

— Você sempre aparece quando tenho problemas. — Ele ensaiou um sorriso.

— As coisas não estão bem pra você! — Afirmou ela séria.

— Não acho que estejam tão ruins. 

Ela olhou para o braço do irmão caçula. Quatro linhas vermelhas se estendiam ali.

— O que foi isso? — Ela questionou apontando o ferimento com o queixo.

O rapaz olhou para o braço, mas não respondeu. Tamborilou os dedos na mesa.

— Você agiu em legítima defesa? 

Pedro olhou para o teto.  

— Você está encrencado. Cinquenta e sete facadas encrencado. Me diz que não foi você que fez isso.

— Eu não quero mentir pra você. 

— Eu conheço você e sei que você não faria isso.

— Mas eu fiz.


Raquel chegou ao apartamento e ligou a TV. No noticiário o rosto do velho Ernesto, ex-patrão do irmão, era destaque. A mídia adorava mortes brutais. Desligou o aparelho antes que começassem a falar sobre Pedro ou que visse o próprio rosto na tela defendendo o irmão. 

Estava tomando banho quando o telefone tocou. Raquel, molhando o piso da sala, atendeu. Suprimiu o grito quando ouviu dizerem do outro lado da linha: "Pedro está morto".


Ela era a única que poderia reconhecer o corpo de Pedro no IML. Havia enterrado os pais, mas nunca imaginou que teria que fazer o mesmo com o irmão caçula.

O médico legista, sem expressão, levantou o lençol. Pedro era um boneco de cera e as marcas no antebraço pareciam ainda mais rubras. 

Raquel meneou a cabeça e saiu da sala com as mãos na boca, estrangulando o grito.

Chegando em casa, deitou-se na cama e chorou até pegar no sono. O irmão estava morto e ela não foi capaz de protegê-lo. 


Mesmo após a morte de Pedro, Raquel não deixou de ir ao escritório. Sob protestos de seus sócios, ela cumpriu todo expediente. O trabalho era o único escape.

Depois de um dia exaustivo, a advogada chegou ao apartamento. Na escuridão viu um vulto se mexer na poltrona.

— Quem está aí? — Ela questionou.

A pessoa não se levantou do sofá ou se moveu. Raquel acendeu as luzes e encarou o rosto pálido do irmão.

Pedro estava nu, sentado ali. O corpo tremia e os lábios roxos se mexiam sem pronunciar uma palavra. No tórax era possível ver a costura grosseira do corte em T.

Ela ficou segurando a porta. O corpo paralisado. A boca dele ainda mexia, enquanto os olhos baços a encaravam.

Raquel colocou a mão sobre o nariz e se aproximou do rapaz. Sentou-se ao lado dele. Pedro se virou para ela de forma mecânica, os lábios ainda se movendo sem som. A advogada, tentando desvendar o que ele dizia, não percebeu a sombra que se agigantava na direção dos dois. Uma mão a agarrou pelos cabelos e a arrastou pela sala. Ela gritou por ajuda, mas Pedro continuava imóvel.


Raquel acordou sacudindo pernas e braços no sofá. Estava sozinha. Sentia o couro cabeludo dolorido e não conseguia controlar a própria respiração. Encarou o breu da sala. O celular vibrou ao seu lado, fazendo com que ela pulasse do sofá. Pegou o aparelho e ouviu que o corpo de Pedro tinha desaparecido. O cheiro podre ainda enchia suas narinas.


— Você vai ter que dar um jeito nisso! — ameaçou Raquel com o dedo indicador próximo ao nariz de Alexandre, o médico legista responsável.

— A polícia já está cuidando disso.

— Você tinha o dever de cuidar dele.

— Eu sei que ele não saiu daqui andando.

Alexandre tamborilou os dedos na mesa e o telefone dele vibrou no bolso do jaleco. O médico fez sinal para que ela esperasse e, dando as costas, atendeu.

Quando desligou, Alexandre veio com a notícia: o corpo de Ernesto também desapareceu.


Antes de alcançar a porta para sair do IML, a advogada foi parada pelo chefe da polícia civil, Rogério. O homem apresentou-se pedindo para falar com ela em particular. 

— A situação é um pouco complicada. — constatou o homem. 

— O senhor sabe que vou processar o Estado. — Ela ameaçou.

— Senhora, o corpo do seu irmão será encontrado. — O chefe falou no tom monôtono que tem os discursos ensaiados. 

— Já verificaram as câmeras de segurança? — A mulher questionou. 

— Ainda não. 

— Então vocês não estão trabalhando. 

Rogério suspirou e concluiu:

— Pedimos que não dê informações sobre o caso para os jornalistas. Isso pode atrapalhar as investigações. 


A mídia passou a noticiar o desaparecimento dos cadáveres, intitulando-o de "caso do ladrão de corpos". Isso fez Raquel lembrar de um filme dos anos 90 que assistiu quando era adolescente e Pedro ainda um garotinho. Os dois sentaram juntos no sofá e o irmão se agarrava em seu braço a cada susto. Ele a olhava na certeza de que a irmã mais velha o protegeria. As coisas eram mais simples naquela época.


Os repórteres cercavam o prédio onde Raquel morava. Conseguira desviar de todos, porém um a aguardava na esquina onde ela tinha estacionado o carro. Era um homem alto e negro que ela já vira com o bando de jornalistas. 

— Desencosta do meu carro! — Ela gritou para ele.

— Tudo bem. — O homem disse erguendo os braços, mas sem se mover. 

Ela entrou no veículo e, colocando a cabeça para fora da janela, ordenou:

— Desencosta a bunda daí!

— Me deixa te pagar um café e ouvir a sua versão da história. 

Raquel pisou no acelerador apenas para fazer barulho. 

— Você pode ajudar a inocentar o seu irmão. — O homem gritou para se fazer ouvir acima do barulho do motor. 

Ela destravou a porta do carro. 


A cafeteria de frente para o escritório onde Raquel trabalhava era pequena. Os dois se sentaram nos fundos. 

— Eu não sei se o que eu vou te contar fará diferença. 

— Claro que fará. Você é a única parente do assa…

— Do Pedro. — Ela o interrompeu. — Eu sou a única família do Pedro. 

— Sim. — afirmou o jornalista tomando um gole de café. 

— Nossos pais morreram quando eu tinha 19 anos e o Pedro 11. Desde então me tornei responsável por ele. 

— Que barra! 

— Sim, mas estávamos juntos. 

— Eu ouvi dizer que fazia anos que vocês não se falavam. 

— Suas fontes estão certas. 

— Quanto tempo? — O jornalista perguntou.

— Uns três anos. Eu o expulsei de casa. 

— Drogas? 

Raquel apenas meneou a cabeça. Quando descobriu que o irmão era usuário, ele já tinha levado dela um notebook, uma televisão e mais de mil reais em dinheiro, o primeiro honorário que ela recebera como advogada. Expulsar Pedro de casa foi também afirmar que tinha falhado. 

Ela se levantou:

— Preciso ir ao banheiro. 


Raquel se debruçou na pia e lavou o rosto. Mirou o próprio reflexo no espelho e viu que, apesar dela não sorrir, aquela que a encarava no espelho sorria e seus dentes estavam vermelhos. Ela colocou as mãos sobre o rosto e fechou os olhos. Quando voltou a encarar o reflexo, viu apenas uma mulher apavorada. 


— Tenho que ir. — Ela disse ao retornar para mesa. 

— Está tudo bem? 

— Está, mas preciso ir. 

— Fica com o meu cartão, para conversarmos depois. — Ele disse estendendo o retângulo preto de papel brilhante no qual lia-se “Joaquim Mota, jornalista investigativo”. 


Na tela do computador do escritório, a advogada rolou a página de notícias. Nenhuma menção a quase entrevista que havia concedido a Joaquim. Todos os outros jornais, entretanto, falavam sobre o “ladrão de corpos” e a dificuldade da polícia em achar um culpado. Acessou mais portais de notícias e alguns a apontavam como uma potencial suspeita. Era necessário ouvirem a versão dela. 


Raquel saiu do trabalho ainda pensando nas palavras que tinha lido sobre si mesma: “Uma mulher de frieza suspeita”. 

Abriu a bolsa e tentou pescar as chaves do carro. “Merda!”, disse contendo as lágrimas. Encontrou ali o cartão do jornalista. 


— Está pronta para contar sua versão? 

— Sim. 

Os dois se encontraram no restaurante de massas que tomava todo andar térreo do prédio onde a advogada morava. 

Raquel relatou ao jornalista a dificuldade que teve para criar Pedro. Somava-se a isso as complicações financeiras e a luta diária para conquistar o sonho de se tornar advogada. Quando ela se formou em direito, Pedro tinha 23 anos, mas não trabalhava, nem estudava. Depois descobriu o vício dele. Primeiro, tentou ajudá-lo. Mas não foi capaz de aguentar. 


— Deve ter sido difícil. — disse Joaquim solidário. 

— Muito. — Ela abaixou os olhos. 

— Você faz ideia de quem pode ter roubado os corpos? 

— Estávamos muito afastados. — Ela deu de ombros. — Não tem como eu saber. 

— Você considera seu irmão inocente no caso do Ernesto? 

— Sim. — A advogada encarou Joaquim. — Meu irmão jamais faria aquilo. 

— E como você tem certeza? 

— Eu conheço meu irmão. 

— Vocês passaram anos afastados.

— Eu conheço meu irmão. — Ela reafirmou.

— Ele estava limpo? 

— Isso não importa. — Raquel sacudiu a cabeça. — Eu apenas quero enterrar meu irmão. 

— Como Antígona. 

— Sim e os jornais ainda me descrevem como “fria”. 

— Você se importa com o que os jornais acham de você? 

— Não, eu não ligo para o que dizem. 

— Você se importa, ou não estaria aqui falando comigo. 


A principal matéria na Gazeta da Manhã era assinada por Joaquim. Ele transcreveu trechos da conversa entre os dois. 

Raquel lia no smartphone enquanto tomava café. Joaquim tinha sido generoso ao descrevê-la como uma “Antígona contemporânea”. Em nenhuma linha ele se referiu a Pedro como assassino. 

Raquel abriu os comentários da página. Dezenas deles atribuíam a índole assassínia do irmão a incapacidade dela como mãe postiça. 

O telefone vibrou e na tela apareceu a mensagem de Joaquim: “Gostou da matéria?”. Raquel desligou o aparelho sem responder. 


Havia sido chamada para depor. A advogada esperava ser interrogada pelo próprio chefe da polícia civil, mas passou a manhã inteira respondendo perguntas de um policial pouco simpático, o mesmo que falara com Pedro. Ela desconfiava, no entanto, que do outro lado do espelho da sala de interrogatório, Rogério a observava. 

— Nome completo?

— Raquel Dias Menezes.

— Profissão?

— Advogada.

— Como era sua relação com Pedro Dias Menezes?

— Complicada.

— Vocês estavam brigados?

— Afastados.

— Há quanto tempo?

— Uns três anos eu acho.

O policial fez uma pausa e encarou o espelho, depois, voltou a olhar para Raquel:

— Qual foi a última vez que você o viu?

— Vivo ou morto?

— Vivo.

— Aqui nesta sala.

Ela olhou para aquele lugar apertado, lembrando-se do irmão sentado ali, onde ela estava agora.

— Por que se afastaram? — O policial questionou.

— Pedro tinha problemas.

— Problemas com drogas, eu suponho.

Raquel se restringiu a menear a cabeça levemente.

— Tem um boletim de ocorrência feito pela senhora há uns três anos. 

— Sim, assaltaram minha casa nesta ocasião.

— A senhora disse não saber quem eram os assaltantes.

— Sim. 

— Suponho que o assaltante era seu irmão.

A advogada olhou para o teto:

— Suposição errada.

— Então é apenas coincidência que você e seu irmão tenham brigado na mesma época do assalto?

— Sim.

O policial a encarou. Ambos sabiam que ela estava mentindo.

— Está bem. — Ele disse sem ser convencido.

— Mais alguma pergunta?

— Você tinha conhecimento da doença do seu irmão?

— Pedro estava doente? — Raquel franziu as sobrancelhas.

O homem meneou a cabeça:

— O laudo apresentou um tumor estromal gástrico. Câncer no estômago com metástase para os pulmões. 

Raquel abriu a boca, mas as palavras não saiam. O irmão estava morrendo e não a procurou. 

— Quer uma água? — O policial ofereceu percebendo o estado dela.

Raquel aceitou e foi um intervalo bem-vindo, antes do policial continuar:

— Seu irmão já manifestou atitudes homofóbicas?

— Não.

— Você sabia que Ernesto Gouveia era homossexual?

— Eu não o conhecia.

— Suponho que seu irmão tenha cometido um crime motivado por ódio.

— Pedro não cometeu crime algum. — Ela sacudiu a cabeça. — E ele não era homofóbico.

— A senhora tem certeza? 

— Eu conheço o meu irmão.


Antes de ir para casa, Raquel pegou os pertences de Pedro que ainda estavam na delegacia. Tudo o que tinha ali era uma carteira e algumas chaves. O celular ficaria retido com a perícia.

Ela abriu a carteira de Pedro e encarou a foto da habilitação: um rapaz magro, de cabelos negros, rosto mal barbeado e sobrancelhas grossas como as dela. 

Não havia qualquer dinheiro na carteira. Dois cartões de crédito de bandeiras diferentes e alguns cartões de visita do próprio Pedro completavam o conteúdo. Raquel puxou um dos cartões e viu o endereço da loja onde o irmão trabalhava.


Raquel dirigiu alguns quilômetros até o centro comercial indicado no cartão. 

— Boa tarde! — disse a advogada entrando na loja de roupas.

— Não podemos falar com você. — respondeu a vendedora atrás do balcão.

— Vocês tratam todos os clientes assim?

— Você não é cliente!

— Você conhecia o Pedro? — Questionou Raquel se aproximando do balcão.

— Não podemos falar com você. — A vendedora repetiu.

— Você pode ao menos me passar o endereço dele?

A mulher olhou para os lados. Rasgou uma folha do bloquinho que estava em cima do balcão e rabiscou algumas palavras. Entregou para ela:

— Para o seu bem, não volte mais aqui.

Raquel saiu da loja com o endereço do irmão nas mãos e encarou a rua que se estendia com dezenas de estabelecimentos comerciais. Todos tinham um único dono: Ernesto Gouveia.


A advogada entrou no carro e digitou no GPS o endereço. Eram cerca 45 minutos até a casa de Pedro. Percebeu que o irmão estava vivendo a apenas duas quadras do apartamento dela.

Quando chegou ao lugar, viu Joaquim encostado no muro:

— Você demorou. — Ele disse vendo Raquel se aproximar.

— Está me seguindo?

— Se eu estivesse te seguindo, teria chegado depois e não antes.

— Como você encontrou esse lugar? — perguntou Raquel testando a primeira chave no portão.

— Você leu o meu cartão? Eu sou jornalista investigativo.

Raquel meneou a cabeça. Tentava a terceira chave sem sucesso.

— Deixe-me tentar. — pediu Joaquim estendendo a mão.

Ela passou as chaves para ele. O jornalista abriu o portão na primeira tentativa.

— Sorte. — Disse ele dando de ombros.


A casa era uma construção antiga. Azulejos portugueses mal conservados cobriam a frente e a grama crescia alta na varanda. Alguns tijolos e material de construção sugeriam que a casa passaria por reparos em breve.

Raquel viu algo próximo a janela. Ela colocou o indicador sobre os lábios e indicou com o queixo a sombra.

— Acho que tem alguém na casa. — Joaquim constatou.

O jornalista pegou um tijolo antes de testar as chaves na fechadura.

— Isso não vai nos proteger. — Reclamou Raquel.


Joaquim empurrou a porta e um gato pulou sobre eles. Ela colocou a mão sobre o peito e soltou um palavrão.

— Acho que encontramos nosso invasor. — Disse o homem pegando o gato rajado.


A casa era pequena e entulhada de objetos. Era uma quitinete cujo um único cômodo cumpria a função de sala, quarto e cozinha. Raquel não encontrou o notebook do irmão. Esse também deveria estar com a perícia.

Num canto da sala, Joaquim mexia numa pilha de livros:

— Você não me disse se gostou ou não da matéria.

Raquel agachou e pegou alguns papéis que estavam embaixo da cama:

— Gostei...

— Mas?

— Eu li os comentários.

— Nunca leia os comentários. Principalmente se a matéria for sobre você.

Raquel sorriu e olhou para ele que tinha nas mãos dois livros:

— Seu irmão tinha um gosto peculiar. 

Na capa de um lia-se as palavras “Transmigração” e do outro “Metempsicose: viva além”, ambos da mesma autora: Eleonor Machado. 

— Deixa eu ver isso. — Disse Raquel pegando um dos livros.

Ela correu os olhos por algumas páginas.

— Isso não pertence ao Pedro.

— Por quê?

— Ele sempre foi cético.


Joaquim colocou alguns livros e envelopes dentro de uma caixa de papelão para Raquel levar para casa. Ela colocou ali, também, alguns objetos pessoais do irmão como porta-retratos e cadernos de anotação. 

— Você acha que os mortos podem falar com os vivos? — Ela perguntou fazendo Joaquim erguer os olhos para encará-la. 

— Pensei que isso fosse uma investigação séria.  

A mulher deu de ombros e continuou a colocar objetos na caixa. 

— Você tem visto seu irmão? — O jornalista indagou. 

— E se eu disser que sim? 

— Não costumo julgar. 

— Eu acho que o Pedro está me pedindo ajuda. 

O gato passou pela perna dela e Raquel o olhou irritada. 

— Acho que ele gosta de você. — Afirmou Joaquim apontando para o gato. 

Ela se afastou do animal:

— Verei se há algo no banheiro para levar.

 

A advogada tentou acender a luz, mas a lâmpada estava queimada. Abriu a espelheira e ouviu algo movimentar a cortina plástica do box atrás de si.

— Maldito gato! — Ela exclamou alto.

— Tem outros gatos na casa? — O jornalista perguntou do outro cômodo.

— Deve ser o mesmo maldito gato. — Raquel disse com as mãos próximas da cortina.

— O gato está comigo. — Revelou ele.

Raquel viu uma sombra volumosa se mover atrás do plástico e quando ela pensou em se afastar, uma mão a segurou pelo pulso.

Ela gritou.

Joaquim entrou no banheiro, armado com o tijolo. Encontrou Raquel caída no chão e a cortina plástica enrolada em seus pés.

— Tinha algo ali. — Ela apontou para o espaço onde só se via uma chuveiro elétrico.

O jornalista encarou o vazio e depois a mulher.

— Algo me agarrou. — Ela insistiu mostrando o pulso marcado por arranhões.


Quando chegou em casa, viu uma mensagem de Joaquim no display do celular:

“Você está bem?”

“Acho que sim.”

“Eu não deveria te falar isso, mas amanhã sairá uma nova matéria sobre o caso do seu irmão”

“Que tipo de matéria?”

“Com as motivações do crime”

“E…?”

“Vão alegar crime de ódio, homofobia…"

“Meu irmão não é homofóbico!”

“Como você pode ter certeza?”

“Ele foi o primeiro a me apoiar quando me assumi.”

Raquel encarou a tela do celular, mas Joaquim não enviou outras mensagens.


Como havia sido previsto pelo jornalista, diversos sites noticiaram, naquela manhã, a motivação do crime. Nenhuma das matérias era assinada por Joaquim. Muitos textos abordavam extensamente o envolvimento de Pedro com drogas, as dívidas contraídas e a falta de suporte familiar. Raquel suspeitava que o chefe da polícia civil vinha vazando informações sobre o caso desde que ela concedeu a entrevista a Joaquim. A advogada lia as matérias com o notebook sobre a mesa, enquanto tomava café.

Ela rolou a página até os comentários. Deveria tê-los evitado. Muitos condenavam o irmão e, até mesmo, Ernesto. Xingamentos homofóbicos eram repetidos ao longo das páginas. Raquel copiava cada um dos nomes, processaria todos se fosse necessário. Provaria a inocência do irmão. Estava concentrada quando sentiu uma respiração ofegante perto do ouvido. Ela olhou para o reflexo na tela do notebook e viu Pedro se aproximar de sua orelha. Virou-se, mas estava, outra vez, sozinha. 


Durante o almoço, o telefone tocou. Raquel buscou o aparelho que havia se perdido dentro da bolsa. Atendeu pouco antes do último toque. Esperava ouvir Joaquim ou Rogério, mas a voz que ouviu era de outra pessoa:

— Raquel? 

— É ela.

— Alexandre do IML. Lembra de mim?

— Sim, aquele que perdeu o corpo do meu irmão.

— Eu não perdi, está bem? — Ele se defendeu. — Ele foi sequestrado.

Ela permaneceu em silêncio e Alexandre continuou:

— Queria te encontrar mais tarde para te passar alguns dados do laudo, antes de sair o oficial.

— Você vai expedir um laudo sem o corpo?

— Eu já tinha realizado a autópsia. — Alexandre explicou. — Posso te encontrar pessoalmente para explicar melhor?


Depois do expediente, Raquel encontrou com o médico legista na cafeteria próxima ao escritório. Sentaram na mesa dos fundos. 

— Eu não conhecia esse lugar. — Afirmou Alexandre observando o espaço.

— Poucos conhecem, por isso gosto dele.

O médico pegou o cardápio e disse:

— O laudo do seu irmão sairá nos próximos dias.

— Não é correto um laudo da perícia sem um corpo. 

— Havia um corpo quando o laudo foi feito. — O médico a encarou por cima do cardápio.

— Um laudo que não poderá ser contestado com um pedido de nova autópsia? — Raquel questionou.

— Vocês vão querer alguma coisa? — Interrompeu a garçonete.

Raquel pediu um expresso e Alexandre a seguiu pedindo o mesmo.

— Algo para acompanhar? — A garçonete insistiu.

— Apenas isso. — Raquel respondeu dispensando a moça.

— Você é sempre tão grosseira. — Afirmou Alexandre vendo a garçonete se afastar.

— Você não me conhece para dizer que sou sempre grosseira.

Ele deu de ombros e a advogada continuou:

— Eu não vou aceitar o que estiver no laudo.

— Suícidio. — O homem disse secamente.

— É isso que seu laudo diz?! — A mulher exclamou.

— Sim, foi isso que aconteceu. Seu irmão não aguentou a pressão.

— A pressão de ser acusado injustamente?

— Não, a pressão de ter sido abandonado pela irmã e estar com câncer terminal. — Ele a encarou.

— Você não sabe nada sobre nós. — Raquel expirou. 

— Não, eu não sei. Mas leio jornais. — Ele refutou. 

— E os jornais pintam a mim e ao meu irmão como monstros.

— Talvez um de vocês realmente seja. — O médico sugeriu.

Aquela conversa estava encerrada. Raquel levantou batendo as duas mãos espalmadas sobre a mesa e saiu antes do café chegar. 


A advogada chegou  ao apartamento e sentou-se no sofá. Tentou zapear os canais, mas muitos ainda falavam sobre o “ladrão de corpos”. A mídia descrevia o caso como se fosse a ação de algum tipo de serial killer

Sentiu algo roçar em sua perna e assustou-se vendo o gato rajado ronronando ao seu lado.

—  Como você entrou aqui?

O gato soltou um longo miado. Raquel encarou a porta e viu que estava semiaberta. Levantou-se para trancá-la.

— Você não vai ficar aqui. — Falou para o gato que a seguia.

Ela segurou o animal e o reconheceu da quitinete do irmão.

— Você me seguiu?

“Miauuuu”, o gato respondeu, arranhando-a e correndo em disparada para o quarto.

— Desgraçado! — Ela exclamou.

Na televisão, o rosto de Pedro aparecia, destacando o brutal assassinato e o misterioso sumiço do corpo do rapaz. A reportagem, no fim, anunciava que não existia filmagem do dia em que os corpos foram levados. As câmeras de segurança estavam desligadas há meses por falta de verba. 


Em menos de uma semana os jornais publicaram o laudo. Alguns psicólogos consultores afirmavam que a brutalidade do assassinato cometido por Pedro estava relacionada ao sentimento de abandono, ao desespero diante da doença terminal e aos problemas com a sexualidade. Raquel abriu a caixa de comentários de algumas das notícias, a grande maioria citavam a ela e ao irmão com palavras de baixo calão. Alguns diziam: “Vai queimar no inferno!”, “Abraça o capeta”, “Um bandido a menos”.


Naquela tarde, os telefones do escritório não paravam de tocar. A advogada havia desligado o celular para evitar qualquer contato, mas de alguma forma, os jornalistas tinham conseguido o número do escritório. A secretária não repassava às ligações, segundo ordens de Raquel, mas a olhava de cara feia toda vez que o telefone tocava.

Não era apenas a secretária que se mostrava insatisfeita com a presença dela ali. Os outros advogados evitavam ser vistos junto com ela e dois, dos três sócios, já a haviam excluído das redes sociais. Desde a prisão de Pedro não recebia mais convites para o happy hour de sexta-feira.


— Acho que será bom para todos se você se afastar durante algumas semanas. — Disse Bruno, um dos sócios do escritório.

— Eu estou sendo retirada da sociedade? — Indagou Raquel.

— Vamos esperar a poeira baixar. — Ele buscou acalmá-la.


Tentando afastar o fantasma do desemprego iminente, Raquel abriu uma latinha de cerveja, ao chegar em casa. Sentou-se no sofá, jogando as pernas sobre a mesinha de centro. O cheiro do apartamento continuava horrível. 

Puxou para perto de si uma das caixas retiradas da casa do irmão e começou a mexer no conteúdo. No fundo estavam os dois livros de Eleonor Machado.

A mulher pegou o smartphone e pesquisou o nome da escritora. Apareceram centenas de páginas, muitas de homônimos. Experimentou pesquisar usando os termos Eleonor e transmigração. Os resultados foram reduzidos para pouco mais de uma dúzia.

Passou a tarde inteira lendo sobre aquela mulher que, além de escritora, terapeuta holística, era dona de diversas lojas comerciais na década 70. Raquel clicou no último link da página que dizia “corpo desaparecido”. Ali a advogada leu sobre o misterioso sumiço do cadáver de Eleonor Machado e como ele reapareceu, semanas mais tarde, num casebre às margens da rodovia interestadual. 

Uma mensagem de Joaquim apareceu na tela do smartphone:

“Você está aí?”

“Estou.”

“Desculpa não ter respondido sua última mensagem.”

“Faz dias que te mandei aquela mensagem!”

“Desculpa”

“Você interpretou errado os sinais”

“Sim. Sou um péssimo investigador!”

“Você é bom em investigar crimes, péssimo para distinguir flertes”

Touché!”

“Eu descobri algo curioso”

“O quê?”

“O corpo da escritora daqueles livros que o Pedro andava lendo também ficou desaparecido.”

“Talvez sejam as mesmas pessoas.”

“O corpo dela desapareceu em 1972.”

“Algum suspeito preso na época?”

“Não sei!”
“Vou investigar isso. Talvez encontremos seu irmão!”


Ela passou a folhear o livro cujo título era “Metempsicose: viva além”. As ideias ali não faziam sentido, porém corroboravam com o que estava escrito nos fóruns. O texto iniciava refletindo sobre a cultura hindu  e, num salto, passava a falar sobre alma e alienígenas, rituais e ordens secretas. 

Alguém bateu à porta fazendo a mulher sobressaltar. Não deveria estar tão assustada, mas algo naqueles textos lhe dava calafrios. 

Raquel levantou equilibrando aquela que já deveria ser a quinta latinha de cerveja. Quando abriu a porta, encontrou o corredor vazio. Olhou para um lado e para o outro, antes de encarar no chão um envelope vermelho. Ela o pegou e leu o conteúdo. Um endereço, um horário e uma ordem: "Venha pegar o seu irmão".


Raquel enviou uma mensagem para Joaquim com a foto do bilhete. Enfiou o telefone e os documentos na bolsa e saiu para buscar o caçula.


O endereço indicado era de um sobrado numa rua afastada na periferia da cidade. Raquel encarou o breu da construção. Empurrou o portão que abriu com um rangido. A porta já estava destrancada. Quem quer que estivesse lá dentro esperava por ela.

Um cheiro podre e familiar atingiu suas narinas. Chegou numa pequena sala e viu um vulto sentado no sofá. Ligou a luz com a sensação de déjà vu. O irmão estava sentado, nu, com marcas da incisão da autópsia e com a boca movendo sem som. 

No chão, o corpo inerte de Joaquim estava deitado de bruços, com uma dúzia de cortes.

Raquel gritou e caiu de joelhos olhando o cadáver do jornalista. O irmão a encarou com os olhos opacos e estendeu a mão para ela. Raquel ficou reticente, mas se aproximou do caçula que sofria os efeitos da decomposição.

Ela levou a orelha perto da boca de Pedro, tentando compreender o que ele dizia. Repelia a vontade de vomitar.

"Ar", era a única coisa que ela conseguia compreender. "Ar" ele continuava dizendo.

— Armadilha. — Disse Alexandre observando os dois de uma certa distância.

— O que você faz aqui? — Ela questionou.

— Negócios. — Respondeu o homem avançando sobre ela e a golpeando na nuca.


Raquel piscou, adaptando os olhos à luz. Os braços e pernas estavam amarrados e todo corpo estava envolvido em gaze, como uma múmia. Deitada no chão, não conseguia levantar. Virou a cabeça para a esquerda e viu o corpo inerte do irmão. Morto, realmente morto. Virou para o outro lado e viu os tênis brancos do médico legista. Ao lado deles, dois pés inchados e descalços.

— Faça como quiser. Vou esperar lá fora.— Ela ouviu Alexandre dizer antes de sair do cômodo.


O homem se agachou ao lado de Raquel, deixando que ela visse seu rosto com uma dúzia de cortes. Ele sorriu com a arcada sangrenta. Os olhos de Ernesto eram opacos como os de Pedro.

— Você matou meu irmão! — Ela disse sacudindo-se inutilmente para se livrar das cordas.

— Não. O seu irmão foi quem me matou. — O velho explicou.

— Mentira! — A advogada vociferou. 

— Morrer é necessário. — O velho explicou.

— Você o matou! — Raquel insistiu sentindo as lágrimas correndo pelo rosto.

— Ele não está aí. — Ernesto disse como um profeta. — Ele acabou de sair da sala com o corpo saudável que ele comprou.

Raquel respirou fundo e olhou para o cadáver de Pedro:

— Qual foi o preço?

Ernesto aproximou o rosto do de Raquel e, com o hálito putrefato, disse:

— Eu quero ser mulher outra vez.


Raquel admirou-se no espelho. Passou as mãos ao longo da própria silhueta. As notícias sobre o "ladrão de corpos" e os dois cadáveres encontrados no subúrbio já tinham esfriado. A misteriosa morte do jornalista Joaquim Mota ainda gerava algum burburinho. Logo isso esfriaria também. 

Ao longo dos últimos séculos, possuiu muitos corpos, mas sempre preferiu os de mulher. O corpo masculino de Ernesto causava repulsa. Não suportava mais estar presa ali. 

Piscou para o próprio reflexo no espelho vendo-se naquele corpo sinuoso. Sorriu satisfeita e saiu do apartamento que, agora, exalava um suave cheiro de jasmim.


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