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Kagemasa
Conto

Kagemasa

A história se repete. Uma grande paixão, há muito adormecida, pode trazer grande dor e sofrimento a todo um vilarejo.

Vitor de Lerbo
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Áudio drama
Kagemasa
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Shigeru aprendeu a temer o frio já adulto.

Nascido no Inverno e criado em Sakura, uma pequena vila famosa por geadas constantes e mudanças climáticas bruscas – atribuídas ao poder místico da cerejeira no centro da região, que dava nome ao local –, Shigeru apreciava o clima desde a sua infância; mesmo após ficar soterrado pela neve por cerca de dois minutos, quando tinha seis anos de idade.

- Não lute contra as forças da natureza. Respeite-as e elas não irão ferir-te. Se assim for, serás livre.

Essas foram as palavras de seu pai, o antigo daimiô do vilarejo, ao retirá-lo, debatendo-se, de sob uma espessa camada de neve.

Mais do que respeito, Shigeru sempre teve uma relação próxima com o Inverno. Suas lembranças mais doces envolvem a fina camada de algodões congelados caindo dos céus para encontrar sua pele.

Era essa a estação quando seu pai fez sua honrosa passagem, em uma linda cerimônia sob a cerejeira, deixando a liderança do vilarejo para Shigeru.

Branca também era a moldura do quadro mais colorido pendurado no rol de lembranças de Shigeru. Foi nas montanhas, próximo ao ponto em que foi soterrado na infância que, voltando de uma viagem política, ele conheceu Yuki.

De alguma maneira, a pele da moça parecia fundir-se à neve; ambos os elementos possuíam o mesmo tom. Seus olhos, semicerrados, apresentavam-se como duas pérolas enclausuradas por conchas egoístas, escondendo do mundo suas joias mais preciosas. Seus lábios vermelhos, em meio à tempestade, destacavam-se na alvura do cenário, como um alvo que, se necessário, seria perseguido por Shigeru pelo resto de sua vida.

Não foi necessário.

Sem palavras, Yuki aproximou-se de Shigeru. Seus olhos atraíram-se magneticamente. O polo dele, positivo, quente; o dela, negativo, frio. A dualidade que não afasta, une.

A mão dela tocou sua face e, tal qual o gelo é frio e queima ao mesmo tempo, de seu contato uma quentura nasceu; não apenas em seu rosto como em seu coração.

Em sua memória, o fechar dos olhos dela foi ainda mais esplendoroso que o brilho azul oceano de suas íris, pois nesse momento ela beijou-o. Ela era o frio que acalentava suas antigas paixões, quentes e instantâneas. Aquele espectro era a ponta de um iceberg cheio de sensualidade, harmonia e amor. Era os flocos de neve que tornavam uma edificação rústica e inacabada como ele em algo atraente e interessante.

No mesmo Inverno, casaram-se.

No Inverno seguinte, ela contou-lhe sobre sua gravidez.

Mas foi o terceiro e derradeiro Inverno compartilhado pelos dois o responsável por fazer Shigeru temer o frio para sempre.



Dezoito anos após a revelação de Yuki, lá estava Shigeru, insone em seu quarto. Em sua mente, Yuki entraria pela porta. Tomaria sua mão novamente. Beijá-lo-ia novamente. Fá-lo-ia sentir-se vivo novamente. Destruiria sua vida novamente.

Mais uma vez, ela não apareceu. Mais uma vez, ele decepcionou-se.

Outro retorno acontecia, entretanto.


Nas mesmas montanhas em que seu pai quase perdera a vida, Kagemasa, filho de Shigeru, retornava de uma viagem que já durava 7 anos para uma etapa derradeira de seu Shugyosha, o caminho do Guerreiro Peregrino. Trazia consigo o pergaminho escrito pelo monge Myōan, com as palavras:


Funda os fundamentais elementos;

Una Yin e Yang;

Reviva os mais derradeiros momentos;

Abrace o destino em sangue.

Se assim for, serás livre.


Sua viagem era apressada; ele deveria chegar antes de seu rival.

Era ele, afinal, o motivo de Kagemasa voltar para casa. O garoto deveria enfrentar um guerreiro invencível. Um gigante entre os homens, o exterminador de vilarejos. Um outro peregrino que fez de seu caminho uma trilha de cadáveres. E seu pai era a próxima vítima.

Quando Sakura já era visível à distância, entre os pesados flocos de neve que atingiam seu rosto com força, ele vislumbrou lábios vermelhos em meio à união de todas as cores.



Sakura, aos olhos de Kagemasa, permanecia idêntica após sete anos. Os pinheiros, cobertos pela neve, serviam como uma proteção contra os ventos do Sul, abandonando o pequeno vilarejo entre as árvores e as montanhas. As edificações, simples e praticamente sem ornamentos, aglomeravam-se como que para proteger-se do Inverno mutuamente.

No centro da vila, sua estrela; a cerejeira de tronco recurvado, galhos sempre fartos de flores e cores vivas cada dia mais realçadas pela branquidão da região. Um oásis roxo em meio a areias de neve. O milagre da vida. A maior fonte de beleza, lendas e energia que ele vira em todas as suas viagens residia em seu próprio lar.

Ele não pretendia voltar, mas lutaria para que tudo se mantivesse daquela maneira.

Yoshino, sua antiga e única amiga, foi a primeira a avistá-lo, deixando suas ferramentas de lado para recebê-lo. Ela aproximou-se e fez uma reverência formal.

- Kagemasa, que ótima surpresa! Achei que não tornaria a vê-lo.

Kagemasa retribuiu a reverência. A garotinha que ele deixara há tempos se tornara uma linda mulher.

- É muito bom revê-la também, Yoshino. Quisera eu que as circunstâncias de minha visita fossem benéficas.

- Como assim?

Kagemasa não precisou responder. O clima, gélido, tornou-se praticamente insuportável em uma fração de segundos. A dança tresloucada das copas das árvores, gerada pelo vento uivante repleto de imensos flocos de neve, assustou os moradores de Sakura.

Na Estrada do Leste, podia-se ver um ponto escuro em meio à imensidão alva. Lentamente, ele marchava em direção ao vilarejo. E crescia.

- Kurayami – disse Kagemasa, apontando para o homem que se aproximava da vila.

- Eu não acredito! Por que ele está aqui?

- Não sei. Mas eu estou aqui por ele. Chame meu pai – Yoshino se afastou em direção à casa do daimiô. Kagemasa se dirigiu a seus antigos vizinhos

- Amigos, não ei de temer. Sou eu, Kagemasa, que retorno de minha longa viagem para mantê-los em segurança. Por muito tempo, esse vilarejo e seus líderes agiram como se o perigo não fosse encontrar-vos; mas as trevas sempre buscam a luz. Meu pai é um líder político; eu sou um líder guerreiro. Aquele gigante não os fará mal enquanto eu estiver aqui.

As palavras não pareceram tranquilizar o povo, formado basicamente por artesãos e comerciantes.

- Nesses anos de viagem, participei de vinte e dois duelos sem nenhuma derrota. Extingui respeitadas escolas de nosso país derrotando todos os seus herdeiros e participei da épica Batalha de Sekigahara. Aprendi técnicas de luta sobre as quais vocês ainda nem ouviram falar, conheci alguns dos maiores daimiôs das nossas ilhas e treinei com os mais respeitados monges; um deles, por sinal, profetizou que serei eu o responsável por exterminar esse grande oponente.

Dessa vez, as palavras de Kagemasa pareceram surtir efeito, com sinais de aprovação de seu povo.

- Refugiem-se em suas casas. Em breve, o embate estará encerrado.

Obedecendo ao filho de seu líder, o povo de Sakura se escondeu, a maioria buscando um ângulo de visão para o combate.

A única pessoa ausente no vilarejo era Shigeru, como constatou Yoshino ao procurá-lo em seus aposentos.



O dia que Shigeru temeu por dezoito anos havia chegado.

No sopé da montanha em que havia conhecido sua antiga esposa, ele era mantido como refém; seus pés estavam presos ao chão por dois grossos blocos de gelo, mesma matéria que mantinha suas mãos unidas, imóveis. Ele congelaria em minutos.

Yuki estava ao seu lado. Seu rosto era outro, mas ela estava linda, como sempre. Sua voz era suave como uma brisa, mesmo em meio ao intenso vendaval.

- Ó meu querido Shigeru; dentre todos os homens que já possui, de todas as eras, você foi o que mais amei. E o que mais me decepcionou.

Shigeru batia os dentes enquanto ela falava, com calma, ao pé de seu ouvido.

- Dentre todos, eu realmente acreditava que você era o mais apto a conviver comigo e aceitar a minha condição. Você me amava por quem eu sou sem saber toda a verdade, e me amaldiçoou por quem eu sou quando a descobriu. Pobre de alma.

Do ponto em que estavam, era possível vislumbrar toda Sakura. Ao lado da cerejeira, Shigeru via seu filho, firme como uma rocha, de frente para um homem com o dobro de seu tamanho.

- Seu primogênito bastardo realmente acha que sairá com vida – a pele de Yuki tornou-se translúcida; apenas seu quimono vermelho era visível. – Shigeru, eu não sou nem nunca serei o que vocês chamam de má. Eu apenas sigo os meus instintos e busco equilíbrio.

Seu rosto reapareceu a milímetros de Shigeru.

- Você feriu meu coração, agora eu vou ferir o seu – com um simples toque de sua mão, o peito de Shigeru parecia congelado. – Não é justo que dois filhos teus caminhem por esta terra, sendo que um teve todo o teu afeto e o outro nunca ganhou um mísero abraço do pai. É hora de fazer justiça.

Ela se afastou. A batalha em seu lar havia começado.

Kagemasa era ágil; seus movimentos felinos deixavam aturdido seu imenso rival, que não conseguia golpeá-lo. Mesmo com o frio intenso, o garoto pulava e rodopiava sem esforço, acertando o inimigo diversas vezes.

O gigante parecia não acusar os golpes; pelo contrário, a cada pancada recebida por uma das duas espadas de Kagemasa, ele parecia fortalecido. Yuki gargalhava.

- Que guerreiro, esse garoto! Quanta fibra. A história dele seria marcante, não fossem os erros do pai.

Shigeru notou, mesmo à distância, que o garoto começava a cansar-se. Golpear e esquivar-se de braços tão longos, tantas e repetidas vezes, estava consumindo sua energia.

A luta estendeu-se.

Até que, em uma acrobacia perfeita, Kagemasa desviou-se de um pesado golpe da espada de seu rival e agarrou-se ao braço dele; utilizando-o como uma alavanca, quando o gigante puxou sua espada para cima, Kagemasa desferiu um golpe certeiro, com as duas espadas, cortando a parte de cima de seu capacete e o que havia embaixo dele. Um pedaço de sua cabeça foi ao chão.

Seu filho derrotara o gigante. Nunca antes Shigeru sentira tanto orgulho.

De frente para o inimigo, Kagemasa relaxou. Nesse momento, o gigante, ainda de pé, acertou o pescoço do garoto com força com sua lâmina enorme. Apenas um golpe foi suficiente para decapitar o herdeiro de Shigeru. Sua cabeça rolou e repousou junto às raízes da cerejeira.

Os blocos de gelo que prendiam os pés e as mãos de Shigeru desfizeram-se. Ele não sentia mais frio.

Yuki, de costas para ele, assistindo ao embate, virou-se; seus olhos eram duas pedras de gelo derretendo-se, inundando seu rosto alvo com lágrimas.

- Equilíbrio.

Essa foi sua última palavra antes de esvanecer-se ao vento, juntando-se aos suaves flocos de neve que rodopiavam ao redor de Shigeru.

Nas mãos de Shigeru, onde antes havia um bloco de gelo, um pergaminho aparecera. Ele abriu-o e leu-o com dificuldade.


Funda os fundamentais elementos;

Una Ying e Yang;

Reviva os mais derradeiros momentos;

Abrace o destino em sangue.

Se assim for, serás livre.



Yoshino assistiu, estupefata, a um gigante sem um pedaço da cabeça decapitando Kagemasa, seu primeiro e único amor. Sua tristeza, aliada ao surrealismo da cena, deram a ela uma força desconhecida.

Em um ato impensado, ela pegou uma enxada no chão e caminhou até o forasteiro, a poucos metros do corpo de seu amigo.

- Seus feitos são famosos, desgraçado. Histórias de um gigante sem palavras que chega a vilas e aldeias junto com a fria tempestade e destrói sua população e suas casas. Um guerreiro que não se abala com golpes recebidos e que, pelo jeito, não precisa de uma cabeça para continuar a matança.

O gigante permanecia imóvel.

- Eu não sei que tipo de maldição é você e aposto que já perdeu as contas de quantos homens aniquilou; mas hoje, você cairá pelas mãos de uma mulher!

Yoshino levantou a enxada sobre a cabeça e preparou-se para cravá-la com todas as forças no gigante.

- NÃO!

O grito distante interrompeu o movimento da garota. Ela reconhecia aquela voz.

Yoshino avistou, aproximando-se cambaleante, o daimiô. Mesmo com a iminência de seu golpe, o gigante continuava parado, com os braços ao lado do corpo.

- Não ataque-o! – Shigeru, mais perto, corria ao seu encontro.

Ela afastou-se do gigante. Toda a pequena população do local saíra de suas casas e assistia à cena, vagamente escondida.

Yoshino foi ao encontro de Shigeru.

- Onde o senhor estava? O quê...

- Yukinko – Shigeru interrompeu a garota, apontando para o gigante, que virou-se em sua direção.

- O quê? Então as lendas são...

- Sim. Este ser é filho de Yuki-onna. E eu sou o pai dele.

Yoshino e toda a população não conseguiram abafar sua manifestação de surpresa.

- Fui eu quem trouxe o desequilíbrio às nossas terras; cabe a mim recuperá-lo – Shigeru olhou para a garota. – Você demonstrou grande coragem, Yoshino. Por isso, perante toda a população de Sakura, declaro-a, agora, senhora destas terras. Que você possua mais sabedoria que seu daimiô anterior.

Sem armas, Shigeru dirigiu-se ao gigante. Ele ajoelhou-se diante do corpo de seu primogênito, fazendo uma grande reverência. Com lágrimas nos olhos, encarou a cerejeira.

Quando levantou-se, virou-se e falou com Yoshino pela última vez.

- Não lute contra as forças da natureza. Respeite-as e elas não irão ferir-te. Se assim for, serás livre.

Yoshino não entendeu o que o daimiô quis dizer; entendeu menos ainda o seu próximo ato.

Shigeru abriu seus braços amplamente. Com um passo à frente, ele deu um forte abraço no gigante, impassível.

Após alguns instantes, o gigante pareceu ficar ainda maior. E cresceu ainda mais. A garota prendeu a respiração com aquele espetáculo.

Quando o gigante parecia ter cerca de quatro metros de altura, ele simplesmente desmoronou; toda a sua massa tornou-se neve, soterrando Shigeru e o corpo de Kagemasa.

A nevasca cessou.

Uma pequena montanha de neve formou-se no local aonde, segundos antes, havia três pessoas, aos pés da cerejeira.

Alguns minutos se passaram e, recuperada do susto, Yoshino utilizou sua enxada para escavar os tufos de neve. Alguns vizinhos ajudaram-na.

Eles encontraram, na base do monte de neve, os corpos de Shigeru e Kagemasa, lado a lado. Na mão do daimiô havia um pergaminho que a nova senhora daquelas terras guardou para sempre.



Nas montanhas, Yuki-onna assistia à cena, sem emoção. Ela sentia-se só, é verdade; mas, sabia que, em breve, uma nova criança sairia de seu ventre para lhe fazer companhia.


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