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Injeção letal de culpa
Conto

Injeção letal de culpa

Erick Alves
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Áudio drama
Injeção letal de culpa
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Lady Fox se esticou o máximo que as algemas permitiram e escarrou na cara da policial. Os punhos, cobertos de pulseiras eletrônicas e implantes, já estavam feridos, mas, é claro, ela não se importou.

Sentada a sua frente, a oficial tirou do bolso de seu colete um lenço, limpou o rosto pacientemente e repetiu a pergunta:

― Quem plantou as bombas na estação espacial da Generator Company?

― Já disse que não sei!

Norene manteve o olhar fixo em sua prisioneira por alguns segundos, pressionando-a; “Como um touro fitando a bandeira vermelha em uma arena”, diziam os policiais do seu departamento.

Tentando uma nova abordagem, a oficial se levantou e andou até o vidro da parede à direita. O rosto que a superfície espelhada refletia era o extremo oposto de Lady Fox: vigor, paciência e disciplina. O uniforme preto e amarelo da polícia caía impecável no corpo de Norene. Era quase tão alinhada quanto um android.

Lady Fox, por outro lado, tinha os hábitos típicos dos rebeldes. As roupas rasgadas e cavadas deixavam à mostra uma pele alva marcada por um emaranhado de tatuagens, como se para esconder a estrutura frágil da criminosa. O ca- 115 belo era de um azul fluorescente, a marca da Corte: a facção revolucionária que se tornara o maior problema da cidade nos últimos anos.

― Ande logo, me deixe sair. Eu pago as horas de trabalho e dou o fora― disse Lady Fox.

― Não dessa vez.

Voltando à mesa, Norene digitou um código na tela preta que mostrava um pequeno teclado numérico. A superfície do vidro na parede se acendeu em uma série de dados e imagens. No canto, podia-se ver o rosto de Lady Fox.

― Sua ficha parece só aumentar. Quantas vezes já passou por aqui nos últimos dois anos? Seis ou sete?

Norene rolou a tela, percorrendo a lista. Várias fotos indicavam as passagens da garota pela prisão. A primeira exibia uma menina comum ― sem cabelos azuis ou tatuagens. As próximas imagens mostravam uma progressão, a formação de uma criminosa.

Com um aceno, a policial selecionou uma das imagens e um vídeo se iniciou.

― Que porra é essa? ― A expressão de surpresa foi rapidamente ganhando lugar no rosto da prisioneira.

A sequência de imagens mostrava uma estrutura industrial. Mais precisamente, um corredor de uma estação de lançamento. O logo da Generator Company estampado em cada equipamento só fazia com que a surpresa de lady Fox parecesse falsa. Ao voltar os olhos para a gravação, ambas viram uma figura surgir na tela, se esgueirando pelo lugar. Tinha uma mochila nas costas e o cabelo azul.

― Não está se reconhecendo? ― disse Norene, apontando para o vidro. ― Isto, é você plantando a bomba.

― Que bomba? Já disse que não sei de bomba nenhuma! ― gritou.

― Não teste minha paciência. É você ali. ― Apontou para tela. ― Acha mesmo que o sistema de reconhecimento da polícia não te pegaria?

As imagens trocavam de câmera em câmera, mostrando o percurso da mulher no vídeo até o centro da estação. Usava uma máscara no rosto e um uniforme da indústria, mas não havia dúvidas. Os acessórios no cabelo, a estatura e até o modo de andar eram compatíveis. Era Lady Fox.

― Aquilo nem sequer mostra um rosto. Pode ser qualquer um da Corte.

― Então você assume que a Corte está por trás dos atentados? ― Norene sorriu. Te peguei agora. ― Isso já resolve muita coisa.

O rosto de Lady Fox exalava raiva, os lábios tremiam ― um hábito inconsciente que a entregava ―, e os olhos semicerrados fuzilavam Norene.

― Sabe, agora poderemos pedir à juíza para nos dar a honra de fazer uma visita em seu “quartel”.

― Não vão achar nada lá.

― Bem, tenho certeza que seus amigos já esconderam tudo, assim como fizeram depois dos ataques às clínicas de fertilização externas e aos processadores de alimento.

A policial trouxe à tona os protestos e ataques do último ano; polêmicas sobre a influência do estado na natalidade de extraterrestres. Na verdade, era mais profundo que isso, Norene era uma das poucas pessoas que sabiam da ligação de Lady Fox com as clínicas de fertilização. Chegava a ser cruel mencionar o fato.

― Não foi na mesma época em que você... A expressão da garota à mesa vacilou.

― Não tem o direito de falar disso ― cortou Lady Fox.

Palavra alguma precisava ser dita; a pressão psicológica implícita era o suficiente. Norene sabia que a rebelde havia perdido uma criança em meio ao caos das revoluções ― oito meses de uma gravidez de risco que trouxera ao mundo um natimorto. Tocar no assunto era pressionar o dedo sobre a ferida. Uma ferida na alma.

Entretanto, para Norene, O Touro, tudo era válido quando o objetivo era deixar sua prisioneira desconfortável.

― Onde está sua coragem agora? Acabou sua saliva? Lady fox baixou a cabeça na mesa, derrotada. Fora o sinal de negativa com a cabeça, apenas o silêncio amargo pairou na sala de interrogatório, trazendo o resultado de uma hora e meia de trabalho: nada.

― Como foi lá dentro? ― perguntou o parceiro de Norene ao vê-la sair da sala.

― Nada bem, ela não confessou. ― Chegando em sua mesa, a policial enviou os registros do primeiro interrogatório para o Sistema. ― É bem típico dela, se fechar e não dizer nada.

Norene tentaria falar com ela pelo menos mais uma vez; Lady Fox não era do tipo que entregava tudo de primeira. Para uma garota franzina como ela, a dureza lhe garantia alguma segurança nas ruas.

― Até parece que vocês marcam esses encontros. Já a prendeu quantas vezes este ano? ― brincou Daniel, ajeitando o uniforme preto e amarelo.

Norene hesitou. Fora quase imperceptível, mas, por um momento, a oficial tremeu. Afastou rapidamente do parceiro, caminhando pelo departamento em direção à cozinha.

― Depois de tudo isso, preciso de um café ― disse Norene, desviando do assunto.

Ela sabia o que viria pela frente: dois ou mais interrogatórios até que a garota confessasse os crimes, o sistema emitiria uma sentença e logo ela estaria de volta às ruas. Vai ser um mês complicado, pensou.

Naquele momento, Norene não fazia ideia de quanto estava certa.

Depois do terceiro depoimento, Lady Fox teve certeza de que seria condenada. É claro que toda a desordem, drogas e vandalismo era de sua total responsabilidade; tinha plena consciência disso. Mas e quanto a bomba? Sim, ela realmente a havia plantado. Porém, a questão era maior que isso. Ela não era, de fato, a culpada.

A garota poderia argumentar e admitir que estava sendo usada. Que fora obrigada ao ataque por outros dois arruaceiros, que ela tinha certeza serem agentes disfarçados ― membros do ramo industrial que desejavam impedir o comércio com os planetas vizinhos. O mesmo tipo de pessoa que condenava a interação humana com as espécies exteriores, pensou ela.

Mas, sem prova alguma, não havia muito o que fazer enquanto estivesse presa ali. Já aceitara seu destino, cumpriria o tempo de trabalho que fosse designado, afinal, não seria a primeira vez. Entretanto, sentiu um tremor ao se lembrar das palavras dos agentes quando a ameaçaram: “Você não faz ideia de quão longe nossa influência pode ir. Nem pense em fazer besteira.”

Se ao menos ela soubesse de que corporação eles eram...

Olhando para o teto de aço em sua cela, Lady Fox pensava no que havia se metido. Nunca havia revelado a ninguém que apenas se juntara à Corte para interromper os crescentes ataques a um parente próximo. Não que agora importasse; os anos haviam incutido os ideais rebeldes em sua personalidade. Fora assim que abandonara o antigo nome e se tornara Lady Fox.

É nisso que dá tentar proteger a família, se repreendeu.

Sentada em sua mesa, Norene olhou a tela que mostrava os dados do caso de Lady Fox. Ainda não sabia o que pensar sobre a situação. Embora a estação de lançamento fosse um alvo declarado da Corte, tudo parecia limpo demais. Não era assim que o grupo rebelde agia, e, principalmente, não era assim que a garota agia. Norene achava que conhecia ela. Ou estou me enganando?, se questionou.

Olhando o registro da primeira prisão de Lady Fox, Norene contemplou sua foto. Os cabelos, negros como o seu, caíam sobre o ombro. Quase conseguia ver a própria juventude na garota. Quantas escolhas erradas nos separam? Quantas decisões mal tomadas nos torna tão distintas?, refletiu.

Estava cansada, a madrugada já chegava ao fim e a troca de turnos deixava o departamento quase vazio.

Revisou o terceiro depoimento da garota, digitou seu relatório e enviou ao Sistema. Não havia nada a favor da prisioneira, o que faria com que o caso fosse encerrado por ali. Entregando todos os dados, o Sistema logo emitiria a condenação. Não que aquilo fosse tirar toda a história da mente de Norene.

De todo aquele tempo que conhecia Lady Fox, nunca vira a garota totalmente como uma criminosa. Tinha o pensamento, um pouco inocente, de que a garota acabaria por tomar decisões certas na vida. É só uma fase, dizia a si mesmo. Mas já faz mais de dois anos que estamos nessa fase...

Aquilo remoeria dentro dela por dias até que a rotina empurrasse tudo ainda mais para dentro dela, enterrando tudo com preocupações e coisas a fazer.

Era assim que a oficial reagia com tudo.

O barulho da cela se abrindo a tirou de seus devaneios. Pressionando a digital no sensor da parede, Norene a encarava. Por um momento, a prisioneira pensou ter visto uma expressão de medo na policial. Nada mais do que um piscar de olhos, mas que a entregava.

― Venha, você vai ser transferida.

― Mas, já?

― Ordens do Sistema, sua pena deve sair logo ― disse Norene, evitando olhar a garota nos olhos.

Está mentindo, pensou Lady Fox.

Ao cruzar a porta, as algemas da prisioneira foram ativadas, ligando-se uma na outra com a atração dos imãs.

Cruzaram o corredor da delegacia. Os olhos observadores da garota se prendendo a cada detalhe. Nem sequer fazia ideia de que seria a última vez que faria aquele percurso.

― Vão me dar mais trabalho? ― perguntou a prisioneira.

Novamente, a face de terror dominou a policial, dando um vislumbre momentâneo da verdade à Lady Fox.

― Provavelmente, sim ― tentou soar tranquilizadora, mas era impossível. ― Não é sua primeira vez, sabe como é.

Está mentindo, Lady Fox tinha cada vez mais certeza. Minha pena já saiu.

Havia se passado cinco semanas desde que Lady Fox fora capturada. Não muito tempo se comparado ao sistema carcerário do passado ― dizem que, no século vinte e um, poderia se levar anos para que alguém fosse julgado. Agora, todo o processo era acelerado. O Sistema distribuía a duração e o tipo de serviço que cada acusado deveria cumprir, direcionava às instituições de tratamento ou sentenciava ao “sono”.

O sono nada mais era do que o nome amigável da injeção letal, um nome corriqueiro para a morte.

Lady Fox fora sentenciada ao sono.

Quando entrou pelo corredor branco que a levaria para sua cadeira, a garota não era mais a mesma. O cabelo azul havia sido raspado duas semanas antes, não havia adorno algum em seus braços e a maquiagem pesada já não escondia sua face. Mais do que sua aparência, não era mais a mesma em seu interior. A consciência de sua sina podia ter domado seu espírito rebelde, mas havia coragem em seus olhos. Coragem e serenidade.

Não vacilou sequer um pouco ao sentar na poltrona que acabaria com sua vida. Se existia medo em seu interior, fez questão de não mostrar às poucas pessoas que assistiam à execução. Fez questão de não mostrar para Norene, sentada na primeira fila.

A policial também havia mudado. As roupas do dia anterior denunciavam seu desleixo. Olheiras e perturbação marcavam seu rosto. Por mais que Lady Fox procurasse, não encontraria um traço sequer de vigor na policial. O Touro morrera.

A sala de parede brancas e vidros mostrava à prisioneira o mesmo que ela pensava lhe esperar depois da morte: nada. Era a poltrona, seus monitores e equipamentos e a garota. Nas quatro paredes que rodeavam a sala havia vidros que separavam três outros quartos. Aqueles, eram para os espectadores da morte. Dois deles estavam vazios. Não havia tantas pessoas assim que se importavam com ela.

Para qualquer um que não estivesse ali, Lady Fox era apenas mais uma rebelde, fora da lei e arruaceira que seria executada. Aos olhos do mundo fora daquela câmara, não existia mais uma defensora dos direitos entre espécies, uma revolucionária, uma mãe com um filho natimorto ou sequer uma garota.

A tela se acendeu ao lado da poltrona de Lady Fox. Não havia enfermeiro, técnico ou supervisor ali com ela. Aquela era uma jornada que ela deveria realizar sozinha.

O Sistema travou a porta e a cadeira; um sistema de segurança para os detentos mais violentos pois nem todos encaravam a morte com tanta tranquilidade. Uma abertura no encosto da cadeira liberou uma pequena haste que se estendeu até a nuca da garota. Na ponta do equipamento, uma fina agulha sobressaía. A menina sentiu o frio metal lhe tocando a pele. Tão fria quanto estarei daqui a pouco, pensou ela, sentindo um arrepio subir pelas costas. O desconhecido destino lhe causava uma sensação de estranhamento.

Medindo a pulsação da garota, o gás calmante foi dispensado pelo programa. O monitor a sua frente se acendeu, revelando as informações de seu corpo. Apenas coragem e serenidade, lembrou ela. No fundo da mente de Lady Fox, uma lembrança ressoava, acalmando-a.

A contagem se iniciou, os últimos dez segundos de sua vida.

De olhos fechados, Lady Fox viu uma garotinha, tinha a pele de tons brancos e azulados. A criança corria por ruas tranquilas, ruas que não existiam naquela cidade. A prisioneira sorriu. Não era uma memória real, é claro; sua filha nunca nascera. Mas, de algum modo, Lady Fox pensou que estava prestes a encontrá-la.

Os dez segundos se estendiam pelo que pareceu uma eternidade.

Outras lembranças vieram à tona: os dias de revolução, seu primeiro namorado, o planeta natal e sua primeira casa. Lembrou da infância, onde a inocência permitia que brincasse despreocupada com sua irmã. Mas ambas haviam crescido, separadas por vidas e ideais diferentes. Queria ter me aproximado mais de você, irmã, pensou ela. Também recordou de sua mãe. Por mais que a saudade lhe cortasse o peito, não desejou que ela estivesse ali; nenhuma mãe deveria sentir a perda de uma filha.

Mamãe...

Lady Fox abriu os olhos, a expressão de pressa cortando a paz que sentia. Faltavam três segundos. Correu a vista pela sala, encontrando Norene. Ao detectar o movimento da prisioneira, o sensor ativou o microfone de sua poltrona.

― Cuide bem da mamãe, irmã. ― Ressoou os alto- -falantes do outro lado do vidro, um instante antes da contagem chegar ao fim.

As últimas palavras da irmã se gravariam na mente da policial, sem que rotina alguma fosse capaz de enterrá-las. Algo se quebrou em seu interior, liberando um sentimento que cresceria a cada momento, corroendo seu ser até seu último dia de vida.

Juntamente com a irmã, Norene recebera sua sentença.

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