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Algumas portas acabam se formando em nossas mentes, podemos escolher se queremos entrar através delas ou apenas continuar nosso caminho.

Caroline Trevelin
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Inferno
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Olho para minhas mãos. Minha pele flácida, frágil e fina revela minha idade já avançada. Reparo em meus relevos, nas veias grossas que se revelam em minha epiderme, nas manchas provocadas por anos de árduo trabalho. Tento recordar de algo que me diga como cheguei aqui, mas minhas tentativas falham uma após a outra. Me sinto uma estranha em minha própria casca, como se esse corpo não pertencesse a mim. O desconforto se apossa de meu peito e posso sentir minha cabeça girar, lutando para resgatar minhas memórias.

Deito minha cabeça suavemente no encosto do sofá e fecho os meus olhos. Meu nome está na ponta de minha língua pedindo desesperadamente para sair, tentando se libertar das amarras que o prendem tão fortemente. Não consigo lembrar de quem sou. Sei que gosto de sentar na varanda aos domingos de tarde enquanto observo as crianças brincarem no quintal. Também sei que gosto de tomar uma xícara de café todos os dias assim que acordo. No entanto, os aspectos mais elementares de meu “eu” se apagam de minha memória como se fossem palavras escritas na areia da praia e levadas pelas ondas.

Viajo por minha mente buscando a porta adequada que me leve a descobrir quem sou. Encontro uma pequena porta de coloração roxa, tão pequena que sinto a necessidade de me agachar para alcançá-la. Pego o molho de chaves em meu bolso e analiso o objeto com calma até encontrar uma discreta chave prateada que se encaixa perfeitamente na fechadura. Em seguida, espio a cena que se passa além da porta, deparando-me com uma menininha risonha brincando com uma boneca, seus cachinhos moldando seu rosto, a boneca aninhada em seu colo em um gesto protetor. Sorrio ao observar o acontecimento, mas fecho a porta e decido continuar por meu caminho.

Neste labirinto há portas de todas as cores, tamanhos e formatos. Vagando por minha mente, encontro uma porta alta de cedro que chama minha atenção. Testo diversas chaves até encontrar a ideal, me sentindo cada vez mais próxima de minha descoberta. No entanto, a maçaneta emperra. Uso toda minha força para tentar abri-la pois sei que as respostas que procuro estão atrás daquela porta, mas ela é pesada e luta contra mim. Finalmente aceito que não conseguirei entrar e resolvo seguir meu caminho, apesar de minha frustração.

Me distraio quando vejo uma linda porta de vidro fosco, através da qual consigo notar vultos e sombras em movimento. Procuro a chave adequada e quando finalmente a encontro, abro apressadamente a porta, entrando no ambiente. Uma luz vívida cai sobre meus olhos me deixando sem enxergar por alguns segundos. Quando finalmente minha visão retoma o foco, sinto a areia engrenhando-se pelos dedos de meus pés e o cheiro salgado do mar preenchendo minhas narinas. Olho em volta e vejo um grupo de jovens rindo e conversando. Será que algum deles saberá o meu nome? Antes que possa me aproximar, seus corpos começam a evaporar diante de meus olhos como se fossem feitos de fumaça. A areia, o sol e o mar somem, me trazendo de volta ao meu labirinto particular. Estou perdida de novo.

Percorro o trajeto que me leva até uma nova porta que cheira a primavera. Rosas, margaridas, tulipas e lilases formam um belo arco de flores sobre a entrada, convidando-me a adentrar. Não tenho dúvidas de qual é a chave correta para que ela seja aberta, já que uma chaveta com adornos floridos se encontra em meu molho. Quando finalmente consigo entrar, vejo duas crianças e um casal brincando no jardim de uma grande casa. Me reconheço naquela mulher, em suas rugas, em seus cabelos, em seus gestos e em seus movimentos. Essa sou eu. O homem se aproxima dela, depositando um beijo em sua bochecha. “Laura, fique aqui com as crianças enquanto coloco o jantar na mesa”, disse ele. Ao ouvir aquela simples sentença, reconheço meu nome e suspiro aliviada, sentindo uma lágrima cair por minha bochecha. Sim, essa sou eu. Sou Laura.

Saio do local sentindo um peso sair de meus ombros, destinada a sair daquele labirinto. Em meu percurso de volta, me deparo com uma nova porta que nunca vi antes. Simples, de madeira e sem grandes adornos. Sinto que devo seguir em frente, mas a porta me chama para explorá-la e transpor o espaço que existe entre nós. Desta vez, a chave está no chão, um convite ao qual não consigo resistir. Ao entrar no espaço, vejo minha própria figura sentada no sofá, olhando para suas mãos, uma expressão de desconforto passando por seu rosto. Me inclino em minha própria direção, olhando para mim mesma e notando que vivenciei essa cena minutos atrás, quando meu nome sumiu de minha memória. “Você é Laura”, eu digo, mas ela não me escuta. “Por favor, me ouça. Seu nome é Laura.”, eu imploro para minha própria lembrança. Nada surte efeito. Ela não é capaz de me ouvir. Sinto vontade de chorar. “Laura, Laura, Laura, Laura, Laura”, repito mil vezes em meu pensamento.

De súbito, abro meus olhos desesperadamente, encontrando-me novamente no sofá. Volto o olhar para minhas mãos e reconheço minha pele idosa. Meu nome já não se encontra mais em meus lábios. Estou presa em meu próprio inferno.

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