Homo-Sapiens-Ferox

Sci-Fi
Março de 2020
Começou, agora termina queride!

Conquista Literária
Conto publicado em
Deles era o mundo

Prólogo

Epílogo

Conto

Áudio drama
Homo-Sapiens-Ferox
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Ursos, leões, gorilas... O que eles têm em comum além de serem mamíferos peludos, grandes, fortes e perigosos? Aposto que você vai ficar aí pensando, pensando, mas não vai adivinhar.

Eu explico. Cerca de trinta anos atrás, quando os humanos ainda brincavam de Deus, eles tiveram uma ideia brilhante, quero dizer, nem tão brilhante assim. Eles começaram a “beneficiar” humanos com genes de animais, exatamente dos três que mencionei no início dessa história

O objetivo das experiências, realizadas em diferentes laboratórios ao redor do mundo, era criar soldados maiores, mais fortes, rápidos, musculosos, resistentes, ferozes e corajosos. A experiência foi um grande sucesso. Aliás, o sucesso foi tão grande que aqueles soldados, acabaram subjugando os cientistas e os obrigando a criar mais da sua espécie, além disso, começaram a procriar com as fêmeas da sua própria raça.

Gestações mais curtas, crescimento acelerado, força fora do comum, inteligência superior, instinto de predador, agilidade e velocidade... Os seres, chamados de Homo-Sapiens-Ferox (sendo a definição ao pé da letra Homem-Sábio-Selvagem), logo se espalharam pelo mundo. Bem organizados e implacáveis, derrotavam os inimigos sem muita dificuldade onde quer que chegavam. As invasões eram brutais e rápidas, e eles usavam a nossa tecnologia a seu favor.

Não era segredo para ninguém o que queriam: tornar-se a raça dominante. E ninguém se surpreendeu quando conseguiram. Mudaram as leis e a estrutura governamental. Os seres humanos, até então os senhores do planeta, passaram a ser servos daqueles que tinham criado para servi-los. Os ferox eram vingativos, e queriam dar o troco pelos anos que tinham vivido enjaulados em laboratórios e submetidos às mais dolorosas experiências.

As leis recentemente estabelecidas esmagavam os direitos humanos. Não tínhamos mais direito a trabalhar em cargos de comando e as remunerações eram irrisórias; as crianças não podiam mais ir para a escola; manifestações públicas contra o governo eram punidas com a morte imediata dos participantes; diversos serviços de saúde foram cancelados; viagens de avião, trem, ônibus ou navios foram banidas; comunicações telefônicas e por internet foram cortadas; serviços de correios, telégrafos e rádio, banidos.

Com o passar do tempo, mais regras, mais restrições, mais punições severas, menos liberdade. Sem receberem qualquer assistência médica, os humanos oprimidos começaram a morrer de todos os tipos de doenças, até mesmo as que já tinham sido erradicadas na maior parte do mundo.

Não muito depois, com a população de humanos bem menor que a dos ferox, as pessoas foram escravizadas, às vezes até mesmo tratadas como animais de estimação. E alguns anos depois, possuir seres humanos passou a ser ilegal. Os ferox que mantinham humanos como animais de estimação ou escravos tiveram de entregar suas propriedades para o governo, que enviou as pessoas para áreas controladas e gradeadas – campos de concentração – onde as condições sanitárias eram precárias e as refeições, escassas.

Por fim, as autoridades anunciaram que os humanos eram portadores de doenças e precisavam ser dizimados. Foi aberta uma temporada de caça, e os humanos eram as presas.

Tudo isso aconteceu em apenas trinta anos, ao fim dos quais restavam apenas algumas aldeias humanas em locais remotos. Escondidos, os humanos tentaram restabelecer as populações, mas quando se tornavam numerosos o suficiente para chamar a atenção, eram localizados e exterminados sem pena.

Diziam que os ferox apreciavam carne humana malpassada. Para falar a verdade, eu nunca testemunhei os ferox caçando humanos para comer, mas nunca quis estar por perto para tirar a dúvida. Bastava saber que eles atiravam para matar e nunca erravam os alvos.

Um dia, encontraram a aldeia onde eu me escondia com mais uma dúzia de humanos. Apenas quatro escaparam do ataque. Juntos, afundamos ainda mais na floresta, na intenção de encontrarmos um lugar remoto para vivermos em paz até o final das nossas vidas.

Fizemos uma nova aldeia no coração da floresta amazônica, uma área tão isolada que nem mesmo os ferox se davam ao trabalho de ir lá. A vida era difícil. Não tínhamos acesso a muitas coisas. Água conseguíamos de um rio barrento não muito distante. De lá também tirávamos peixes. Caçar era um pouco mais difícil, mas de vez em quando, conseguíamos acertar uns macacos e pássaros com pedradas. O solo não era lá essas coisas no que diz respeito à fertilidade, mas replantamos bananeiras e mandioca que cresciam na região. Nossa casa era parecida com as taperas dos índios. No verão, sofríamos com o calor; quando chovia, ficávamos molhados até a alma; no inverno, não conseguíamos dormir por causa do frio.

Foi em um dia de chuva forte que eu acordei com um terrível pressentimento. Não havia mais ninguém na tapera. Achei estranho, mas talvez eu tivesse dormido até mais tarde e meus companheiros já estivessem do lado de fora, envolvidos com as tarefas do dia-a-dia.

Eles estavam lá fora, sim... Mas todos mortos, jogados no chão, a água da chuva espalhando seu sangue na terra.

Fui agarrado pelo pescoço. Enfraquecido pela fome e abalado com a morte dos amigos, não reagi.

— Você sabe o que você é? — o ferox questionou com sua voz rouca e profunda, deixando a mostra as presas.

Sua aparência era fascinante. Era alto e musculoso. Sua origem felina era inegável, possuía juba e rabo, além de presas e garras. Uma pelugem curta, quase dourada, recobria as partes descobertas do seu corpo, e seus olhos amendoados reluziam em âmbar.

Depois da rápida observação sobre a aparência do meu captor, considerei sua estranha pergunta. Claro que eu sabia o que e quem eu era. No entanto, não ousei falar nada, e foi ele, com grande satisfação, quem respondeu:

— Você é o último da sua raça. Não há mais fêmeas com quem possa reproduzir, não há mais machos com quem possa se juntar para tentar nos fazer mal. Agora o mundo pertence a nós.

Soltando meu pescoço, estreitou os ombros com altivez, virou-se e se foi sem olhar para trás ou dizer mais nada. A mim, o último humano na Terra, restava apenas aguardar pelo dia da minha morte.

Prólogo

Epílogo

Conto

Ursos, leões, gorilas... O que eles têm em comum além de serem mamíferos peludos, grandes, fortes e perigosos? Aposto que você vai ficar aí pensando, pensando, mas não vai adivinhar.

Eu explico. Cerca de trinta anos atrás, quando os humanos ainda brincavam de Deus, eles tiveram uma ideia brilhante, quero dizer, nem tão brilhante assim. Eles começaram a “beneficiar” humanos com genes de animais, exatamente dos três que mencionei no início dessa história

O objetivo das experiências, realizadas em diferentes laboratórios ao redor do mundo, era criar soldados maiores, mais fortes, rápidos, musculosos, resistentes, ferozes e corajosos. A experiência foi um grande sucesso. Aliás, o sucesso foi tão grande que aqueles soldados, acabaram subjugando os cientistas e os obrigando a criar mais da sua espécie, além disso, começaram a procriar com as fêmeas da sua própria raça.

Gestações mais curtas, crescimento acelerado, força fora do comum, inteligência superior, instinto de predador, agilidade e velocidade... Os seres, chamados de Homo-Sapiens-Ferox (sendo a definição ao pé da letra Homem-Sábio-Selvagem), logo se espalharam pelo mundo. Bem organizados e implacáveis, derrotavam os inimigos sem muita dificuldade onde quer que chegavam. As invasões eram brutais e rápidas, e eles usavam a nossa tecnologia a seu favor.

Não era segredo para ninguém o que queriam: tornar-se a raça dominante. E ninguém se surpreendeu quando conseguiram. Mudaram as leis e a estrutura governamental. Os seres humanos, até então os senhores do planeta, passaram a ser servos daqueles que tinham criado para servi-los. Os ferox eram vingativos, e queriam dar o troco pelos anos que tinham vivido enjaulados em laboratórios e submetidos às mais dolorosas experiências.

As leis recentemente estabelecidas esmagavam os direitos humanos. Não tínhamos mais direito a trabalhar em cargos de comando e as remunerações eram irrisórias; as crianças não podiam mais ir para a escola; manifestações públicas contra o governo eram punidas com a morte imediata dos participantes; diversos serviços de saúde foram cancelados; viagens de avião, trem, ônibus ou navios foram banidas; comunicações telefônicas e por internet foram cortadas; serviços de correios, telégrafos e rádio, banidos.

Com o passar do tempo, mais regras, mais restrições, mais punições severas, menos liberdade. Sem receberem qualquer assistência médica, os humanos oprimidos começaram a morrer de todos os tipos de doenças, até mesmo as que já tinham sido erradicadas na maior parte do mundo.

Não muito depois, com a população de humanos bem menor que a dos ferox, as pessoas foram escravizadas, às vezes até mesmo tratadas como animais de estimação. E alguns anos depois, possuir seres humanos passou a ser ilegal. Os ferox que mantinham humanos como animais de estimação ou escravos tiveram de entregar suas propriedades para o governo, que enviou as pessoas para áreas controladas e gradeadas – campos de concentração – onde as condições sanitárias eram precárias e as refeições, escassas.

Por fim, as autoridades anunciaram que os humanos eram portadores de doenças e precisavam ser dizimados. Foi aberta uma temporada de caça, e os humanos eram as presas.

Tudo isso aconteceu em apenas trinta anos, ao fim dos quais restavam apenas algumas aldeias humanas em locais remotos. Escondidos, os humanos tentaram restabelecer as populações, mas quando se tornavam numerosos o suficiente para chamar a atenção, eram localizados e exterminados sem pena.

Diziam que os ferox apreciavam carne humana malpassada. Para falar a verdade, eu nunca testemunhei os ferox caçando humanos para comer, mas nunca quis estar por perto para tirar a dúvida. Bastava saber que eles atiravam para matar e nunca erravam os alvos.

Um dia, encontraram a aldeia onde eu me escondia com mais uma dúzia de humanos. Apenas quatro escaparam do ataque. Juntos, afundamos ainda mais na floresta, na intenção de encontrarmos um lugar remoto para vivermos em paz até o final das nossas vidas.

Fizemos uma nova aldeia no coração da floresta amazônica, uma área tão isolada que nem mesmo os ferox se davam ao trabalho de ir lá. A vida era difícil. Não tínhamos acesso a muitas coisas. Água conseguíamos de um rio barrento não muito distante. De lá também tirávamos peixes. Caçar era um pouco mais difícil, mas de vez em quando, conseguíamos acertar uns macacos e pássaros com pedradas. O solo não era lá essas coisas no que diz respeito à fertilidade, mas replantamos bananeiras e mandioca que cresciam na região. Nossa casa era parecida com as taperas dos índios. No verão, sofríamos com o calor; quando chovia, ficávamos molhados até a alma; no inverno, não conseguíamos dormir por causa do frio.

Foi em um dia de chuva forte que eu acordei com um terrível pressentimento. Não havia mais ninguém na tapera. Achei estranho, mas talvez eu tivesse dormido até mais tarde e meus companheiros já estivessem do lado de fora, envolvidos com as tarefas do dia-a-dia.

Eles estavam lá fora, sim... Mas todos mortos, jogados no chão, a água da chuva espalhando seu sangue na terra.

Fui agarrado pelo pescoço. Enfraquecido pela fome e abalado com a morte dos amigos, não reagi.

— Você sabe o que você é? — o ferox questionou com sua voz rouca e profunda, deixando a mostra as presas.

Sua aparência era fascinante. Era alto e musculoso. Sua origem felina era inegável, possuía juba e rabo, além de presas e garras. Uma pelugem curta, quase dourada, recobria as partes descobertas do seu corpo, e seus olhos amendoados reluziam em âmbar.

Depois da rápida observação sobre a aparência do meu captor, considerei sua estranha pergunta. Claro que eu sabia o que e quem eu era. No entanto, não ousei falar nada, e foi ele, com grande satisfação, quem respondeu:

— Você é o último da sua raça. Não há mais fêmeas com quem possa reproduzir, não há mais machos com quem possa se juntar para tentar nos fazer mal. Agora o mundo pertence a nós.

Soltando meu pescoço, estreitou os ombros com altivez, virou-se e se foi sem olhar para trás ou dizer mais nada. A mim, o último humano na Terra, restava apenas aguardar pelo dia da minha morte.

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