Conto

Há malabares que veem para o bem

Nadezhda Bezerra
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Áudio drama
Há malabares que veem para o bem
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

- Sai da frente! Tá vendo que o sinal abriu não? Ô!

Não ele não viu. E você também não veria se como ele estivesse de costas para o semáforo fazendo malabarismo (literalmente) para sobreviver a essa vida sem graça, picadeiro ou pipoca. Foi mal moço - pensou George. E você também.

O nome veio em homenagem a George Savalla Gomes, o palhaço Carequinha. A depender da sua idade talvez você se lembre. O famoso palhaço era amigo do avô e tio de consideração do pai de George. Ainda tentaram apelidá-lo de Carequinha pra dar mais ênfase à homenagem, mas não vingou. George, negro de cabeleira black power definitivamente não combinava com um apelido desses você há de concordar. Sei nem como se ri, avalie fazer os outros darem risada – era a explicação que ele dava por não ter pego carona na profissão do tio. Não há como não sentir um aperto no peito, não é?

A bem da verdade é que George nasceu com uma coordenação motora de dar inveja e desde muito criança soube tirar proveito disso. Tinha nem tamanho e já brincava com as laranjas e os limões.

- Olha só, agora com “quatlo lalanjas”!

Tudo ia bem até ficar maiorzinho e tentar algo mais arriscado com as garrafas de vidro de refrigerante, imagine só! A mãe deu um grito da cozinha assustou o menino na sala e ele derrubou a garrafa nos pés do pastor, que estava de chinelo por conta de um machucado. Caco de vidro e sangue pra todo lado nem o cordeiro de Deus salvou o futuro circense da surra, e se não fosse pela benevolência do acidentado teria sido até crucificado. Valha-me Deus!

- Seu moleque! Olhe mesmo o que você fez, sangrou o pastor Ludovico!

- Irmã Zenaide, tenha calma, foi um acidente, o menino não fez por mal. Estava me mostrando seus dotes e olhe que ele leva jeito, viu?

- O senhor me dê licença, mas o jeito pra ele é meu chinelo.

Saiu pra dentro de um dos quartos e voltou esbaforida como quem lutou na guerra. Respirou fundo e largou o choro no ombro do líder religioso. E se você está com pena de George vai ficar também com pena da mãe dele:

- Não sei o que fazer mais com esse menino pastor. Só quer saber de jogar as coisas pra cima, estudar que é bom, nada. Que futuro há de ter!

- Tudo se ajeita minha filha, confie em Deus – Talvez você também dissesse isso pra ela.

George cresceu mais um pouco, e a vida de estudos continuou sendo levada aos trancos e barrancos, mas pelo menos passava de ano, mesmo que no aperto e por vezes apelando pro coração mole da professora. Você também se renderia a ele. Educado e doce seu defeito era não gostar dos estudos.

Prepare-se, as coisas foram piorando. O pai adoeceu feio e se aposentou por invalidez reduzindo o ordenado do mês. A mãe dobrou as faxinas e roupas pra passar, enquanto George foi obrigado a trabalhar durante o dia e mudar o turno dos estudos pra noite. Já dá pra perceber que não deu em boa coisa. Junte a falta de vontade com o cansaço e você tem um George reprovado de ano pra desgosto da família. Sem qualquer surpresa largou de vez a escola e passou a trabalhar de dia e fazer bicos à noite. Entre um e outro praticava malabares. Aí sim sua paixão. 

Aliás a primeira e de menos confusão. Talvez você nem faça ideia do que vem pela frente. 

George chegou na idade de namorar, como dizia sua mãe, sem dar bola pra menina alguma. Não achava ninguém bonita ou atraente. Não achava nada até seus olhos de inocência cruzarem com olhos de maledicência. Consegue entender?

Vulcão em plena erupção, George sentiu um calafrio percorrer a espinha e amassar a sua glote. Confuso saiu correndo pra casa e desabou no choro. George finalmente se reconheceu gay. Os prantos agoniaram o coração de mãe que se de tudo não tem certeza, desconfia certo de muita coisa. Deve ser assim com a sua também.

- Danado esse menino tem que tá chorando? Né homem, não? Vai lá ver o que é antes que me levante, e aí sim ele vai chorar com vontade!

Seu Zé Mario era homem de poucas letras. Apanhou da vida e a aposentadoria precoce foi uma surra nos seus brios cunhados no machismo. Ainda assim é um bom homem. Trata a esposa com respeito, nunca lhe levantou a voz ou foi capaz de deitar-se com outra, mas era duro com George. E aí aumenta o drama do menino. Queria que ele tivesse uma vida melhor que a dele e não se iludisse com a vida de artista de circo pra não cair do trapézio como o pai. Dizem que as pessoas carregam muito dos seus antepassados, será?

Aquela queda foi a ruína de uma carreira que prometia crescer. Mas também por conta dela que ele conheceu a esposa que tratou de chamar ambulância e acudiu o acidentado.

Dona Dalva era mulher honesta de sensibilidade aflorada, como você já deve ter percebido. Tinha pouco conhecimento das coisas que se aprende na escola, mas muito do que se aprende na vida. Formosa desde menina, foi perdendo o viço nas batalhas diárias e mais ainda quando começou a perceber que o filho tinha um mundo de preconceitos à sua espera. Não bastava a cor, que apesar de forte e escura lhe tornava invisível, outras condições o colocariam no alvo de tudo de ruim que a ignorância e o conservadorismo são capazes de fazer. Aposto que você pensa igual.

- Vou lá ver Zé, deixe de brutalidade – E lá foi a mãe amorosa espinhada pelo sofrimento que se aproximava.

Abriu a porta e encontrou a dor transfigurada no rosto de George. Não disse nada, somente o abraçou em um ninho maternal. Estou aqui, meu filho e sempre estarei com você aconteça o que for. – Nem tudo precisa ser dito ipsis literis. George se deu conta que a mãe há muito já sabia o que ele só descobriu agora. O choro cessou, não estava sozinho e isso bastaria. Mas não seria bem assim. As coisas ainda vão piorar, é bom se acostumar.

A primeira vez de George não foi fácil. Tudo era muito diferente do que aprendeu em casa, nos cultos da igreja e com os amigos mulherengos. Não estava diante de uma mulher como era o esperado, mas sim de um homem, como era o desejado. Tente fazer parte desse momento para entender. O carinho de Borges ajudou muito, mas ainda assim foi difícil, dolorido na alma e no corpo. Aceitação era o primeiro passo para diminuir o sofrimento. 

Enquanto ia vivendo a sua sexualidade George ia e vinha de vários trabalhos. Não parava em um sequer. Desde de assédio moral a exploração de sua força de trabalho, os dias dele não estavam sendo fáceis. A pressão do pai pra arrumar uma mulher crescia a medida que ele se aceitava e percebia que não era um erro, mas um jeito de ser e pronto. Afinal não estava fazendo mal a ninguém.

O pastor Ludovico chegou anunciando a novidade na casa de Dona Dalva. 

- Está pra chegar na cidade um circo mais um caçador de talento pra fazer testes e contratação. É a chance de George!

- Num traga essas invenção aqui pra casa pastor – disse Zé Mario tentando não perder o respeito pelo religioso e amigo de tanto tempo. – Esse menino precisa é de um emprego de verdade e de uma mulher pra criar responsabilidade.

George veio correndo do quarto querendo saber mais detalhes. A alegria tomou conta dele e a esperança estava a lhe dar as mãos. Você consegue perceber a importância disse pra ele?

- Como é mesmo essa parada aí pastor? 

- Tu tem de se inscrever lá no circo e agendar o teste. Num perde não George pode ser sua chance meu filho. 

E abraçou George com tanto carinho que naquele instante ele atinou que, mesmo a confissão não sendo um hábito evangélico sua mãe devia ter aberto o coração pro pastor. Aquele abraço era a maior prova de que Ludovico era mesmo um homem de um Deus amoroso e acolhedor.

George foi todo prosa e verso fazer a inscrição. Era a chance de viver livremente suas escolhas, todas elas. Esse pessoal de circo é cabeça feita – pensou feliz da vida até chegar na fila e se dar conta que só tinha uma cor por ali e não era a sua. Os olhares de cima a baixo e o espanto com a cabeleira cabeluda foram diminuindo o tamanho de George, que chegou gigante e agora era menos que um centímetro de gente. 

- Próximo! - Era sua vez. 

- Nome? George – respondeu seco

- De que? Savalla Silva – Tem nome de palhaço! E riu maledicentemente o recrutador. George emudeceu.

- Quer fazer o teste pra que? – Malabares! Sei...Venha amanhã às 8h.

- Tu num sabe o tipinho que veio fazer teste hoje! – comentou o recrutador com quem parecia ser o dono do circo - Negro, Black Power e bicha! Caíram na risada. 

- Mas tu dispensou logo, né? 

- E perder a diversão? Jamais. Seguiram para os seus trailers rindo além do que a humanidade permite.

- Meu filho, boa sorte hoje. Fiz um café reforçado pra você fazer bonito no seu teste! 

- Devia era reforçar a reza pra ver se esse menino se endireita. Era assim sempre, a mãe apoiando e o pai reclamando. Avalie se meu pai descobre que sou gay, aí ou ele morre de desgosto ou me mata. E foi com esse sentimento e a cabeça mais baixa que o chão que George foi fazer o teste. De cortar o coração, né?

- Essa cabeleira aí não faz tu perder o equilíbrio não, moleque?

- Não senhor.

- Se for aprovado vai ser Zumbi dos Malabares. Todos riram menos George. 

Ele deu um show. O pessoal do circo não conseguiu disfarçar o quanto estava impressionado com as habilidades de George e sabiam que ele tinha consciência de que era bom, o que não deixava outra alternativa a não ser dar a real pra ele. Objetividade, sabe?

- Tu é bom moleque. E sabe disso, mas esse circo não é pra tu. 

De certo modo George já intuía isso. Não era circo de rua, desses democráticos pra diversão de todo mundo. Era lugar de gente rica, branca, cheia das elegâncias e que quer ver gente feito eles. George não era feito eles. E isso você já sabe desde o começo.

Parou no boteco da esquina, bebeu o que o dinheiro pagava e em pouco tempo estava deitado na sarjeta. Dona Dalva preocupada com a demora do filho saiu à procura pela vizinhança. Achou um pano de chão imundo sendo fotografado e exposto por quem tinha muito menos que ele pra oferecer. 

- Saiam de cima do meu filho. Gente ruim, povo sem alma, deixem meu menino em paz. 

- Menina a senhora quer dizer, né? Gritou um deles. A risadagem começou e se não fosse o pastor tá por perto pra ajudar podia ter acontecido coisa pior.

- Mas o que danado é isso? Esse infeliz sai pra fazer um teste idiota e volta pior que a lona que cobre o chão do circo? Tem vergonha não moleque! – Seu Zé Mário estava furioso e não poupou açoites verbais ao filho. 

- Tenho não, tenho vergonha nenhuma. Nem de ser preto, nem de ser pobre, nem de ser gay! – A hecatombe nuclear começou. A mãe engoliu seco, o pai ficou mudo e o pastor começou a orar mentalmente. Seu Zé saiu da sala deixando todo mundo sem entender e voltou com algumas roupas de George nas mãos. 

- Vá simbora daqui. Tome seu rumo e esqueça que tem pai! 

- Tá doido Zé é nosso filho! 

Enquanto a gritaria rolava e o pastor tentava acalmar todo mundo, George apanhou a muda de roupa do chão. Saiu que ninguém viu. Só você.

Depois de quase ser atropelado, se juntou aos amigos artistas de rua e juntos dividiram o pão. George esboçou o que quase podia ser considerado um riso. 

- Toma aqui teu pedaço, Carequinha! – Lhe disseram.

Há muito havia raspado a cabeça pra fazer valer a homenagem ao palhaço que, um dia, lhe arrancou as melhores risadas. Praticamente as únicas ao longo da vida.


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