Gerard, o Obscuro

Aventura
Novembro de 2020
Começou, agora termina queride!

Conquista Literária
Conto publicado em
Os Herdeiros de Trismegisto

Prólogo

Epílogo

Conto

Áudio drama
Gerard, o Obscuro
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Naquele momento, o mouro Gerard, o Obscuro, perguntava a si mesmo porque se deixava entrar naquelas situações. Estava com seus braços abertos, também as palmas das mãos abertas e as pernas em posição de genuflexão. À sua frente, num passo rápido, chegava o Necromante e seu exército de desmortos. Gerard tentava disfarçar a tremedeira involuntária em sua mão esquerda. Seus lábios também tremiam enquanto ele pensava se houvera feito a escolha certa. Em seguida, Gerard sorriu, pois sabia que isso não era o presente. Será o seu futuro.

Então, ele despertou.

Um dos homens sentados ao seu lado olhava para Gerard num misto de medo e assombro. Estavam no bar de uma estalagem. Como todos aqueles que querem fazer negócio e não chamar a atenção de curiosos, sentaram-se ao fundo. O mouro apenas olhou para o homem e sorriu:

— É então, senhor Daltro, você e seu feudo supuseram que eu poderia aceitar o trabalho?

— O senhor ficou este tempo todo em transe, e sabe exatamente do que falávamos? – Daltro estava boquiaberto. Era um homem de parcos fios de cabelo, de olhos baixos e de tez cansada, não apenas pela viagem, mas também pela vida que levava.

— “O que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que está embaixo” – recitou Gerard um trecho da “Tábua Esmeralda” do mestre Hermes Trismegisto, mais para lembrar a si mesmo que para ser escutado. — Posso usar o “Olhar do Tempo” e beber um vinho, ou escutar uma conversa. — enquanto falava, passava a mão na tatuagem em seu pescoço, uma letra “P” maiúscula tendo na base dois riscos horizontais paralelos. Uma recordação e um presente de seu mestre.

— Mas, voltando a sua oferta... — Ortiz, o aluno e auxiliar de Gerard não estava com a mesma paciência. Era um rapaz loiro de inusitados olhos dourados. — Por que seu feudo não procurou a Igreja?

— Até procuramos, jovem mestre. — falou o homem, enquanto olhava para os lados. — Mas o bispo disse que a Igreja não se envolveria em ritos pagãos. Que buscássemos um meio de resolvermos o que nós criamos.

Antes que o rapaz fizesse um comentário, Gerard o censurou com um gesto de mão.

— O Santo Homem deve ter seus motivos.

— Não entendemos quais seriam, senhor Gerard. Nosso feudo é pequeno, mas não temos tais práticas. Meu senhor Cássio é um homem temente a Deus. Temos até nossa própria capela com padre, e um cemitério cristão.

— Mas então, Daltro, por que em nome Hermes Trismegisto, o três vezes grande, um Necromante teria interesse em seu feudo?

— Ele repete incessante que quer pegar para si o feudo, pois um dos nossos nobres, o senhor Natanael, tem algo dele.

— E por que esse senhor Natanael não negocia com esse Necromante? — indagou Ortiz. — Tudo se resolveria.

— Não é possível, jovem mestre. — respondeu Daltro. — O senhor Natanael morreu há um ano.

— Entendo. — comentou o mouro, pensativo. — Uma última pergunta, senhor Daltro. O senhor veio de tão longe atrás de mim. Poderia ter encontrado outros alquimistas mais ... convencionais. Por que eu?

— Por isso mesmo, senhor. — Daltro permaneceu com os olhos baixos, como se estivesse vergonha do que respondia. – O mestre tem certa fama em assuntos dessa natureza. Os boatos se espalham.

Com um sorriso insólito, Gerard, o Obscuro disse:

— Então é isso. Muito bem, Daltro, iremos com o senhor.

Minutos depois, estavam os três homens seguindo a cavalo. Daltro seguia na frente. Gerard e Ortiz iam logo atrás.

— Mestre, não entendo. – o rapaz questionava. — Por que aceitar um trabalho que provavelmente lhe trará mais dores de cabeça que vantagens? Bastava dispensar este homem.

— Por isso mesmo, jovem aprendiz. — respondeu enigmático, o alquimista, conhecido por não ser o mais ortodoxo dos membros da Ordem de Trismegisto. Aliás, nem era muito bem quisto por seus iguais, devido seu temperamento e decisões pouco convencionais. – Existe algo que as pessoas não entendem sobre meu “Olhar do Tempo". Eu não tenho visões sobre o futuro nem revejo o passado. Toda vez que a Visão é ativada, eu vivencio o momento. Ou seja, eu realmente estou no futuro ou no passado. Mesmo sem sair do tempo presente.

— Então, o senhor se viu no feudo?

— Não exatamente, mas eu sei que irei para lá no meu futuro. E eu sei o que irá acontecer.

— Mas mestre, se o senhor sabe o que irá acontecer, por que não mudar?

— Você não entendeu, aprendiz. — E ele deu um sorriso insólito. — Justamente porque eu já vivi aquilo. O que acontecerá será um passo a frente para minha ascensão. É um aprendizado. Um rio sabe que irá para o mar. Ele não tem querer, apenas segue, independente do que acontecer ou que rumo tomou. Ele simplesmente segue para o oceano.

— Ainda há muito para eu aprender, mestre.

— Isso se você sobreviver ao aprendizado, jovem aprendiz. — comentou sombriamente, o alquimista. E o jovem sentiu um arrepio na nuca.

A cavalgada durou mais quatro dias. O feudo ficava na divisa de dois reinos. Era realmente um feudo pequeno, pouco mais que uma vila.

Gerard pôde perceber que a muralha havia sido reconstruída em alguns pontos. Ao redor do lugar, fora cavada uma vala, para dificultar a entrada de possíveis invasores. Sentiu um odor forte sair do lugar. O inconfundível odor da morte.

O Obscuro não deixou escapar de seu olhar símbolos em alguns tijolos, em pontos cegos da muralha. “Interessante...” pensou.

Lorde Cássio, senhor feudal, recebeu o alquimista com muita satisfação. Deixou Gerard seu aprendiz à vontade para vistoriar todo o lugar. Revelou que os ataques aconteciam após o crepúsculo, quando o manto da noite de fazia alto.

— Necromantes tem suas habilidades profanas mais fortes à noite.

— Temos conseguido resistir com dificuldades. O último ataque dele só não teve o êxito que ele esperava porque o sol começou a nascer. – Desabafou o lorde.

— E afinal, descobriu-se o que este Necromante deseja com tanta vontade? — Gerard indagou. — Pois, com minhas desculpas, não vejo grandes atrativos em seu feudo além da carne de seus servos, para servir para magia negra.

— Até hoje não descobrimos, mestre. – respondeu Cássio. — Todas as noites ele vem com seu exército de desmortos e tenta invadir. Isso dura a noite toda, até o amanhecer, quando eles recuam.

— Seu servo Daltro comentou algo sobre um dos nobres de nome Natanael e algo que ele tinha que o Necromante afirma ser dele.

— São boatos, honrado mestre. Meus servos estão com os nervos à flor da pele e acreditam em palavras espalhadas ao vento.

Gerard refletiu por alguns instantes, despediu-se do lorde pois queria conhecer o terreno que iria defender.

— Um conselho, bom lorde, o vento também tem suas verdades...

Enquanto caminhavam pelo lugar, Gerard e Ortiz puderam ver como vivam aquelas pessoas. Todos os olhavam curiosos, mas os tratavam bem. Com exceção do vigário local, que proibiu o alquimista de entrar na igreja.

— Isto é solo sagrado. — advertiu. — Não são permitidos bruxos aqui.

— Em primeiro lugar, padre, não somos bruxos. – informou Ortiz. — Em segundo, se meu mestre quiser entrar...

Com um gesto de mão, o Obscuro silenciou seu afoito aprendiz.

— Agradecemos a cordialidade, padre. De um bruxo para outro.  — virou as costas.

— Eu não sou um... — mas já era tarde, Gerard e Ortiz já estavam longe.

— Por que disse aquilo para o padre, mestre?

— Não se preocupe, jovem aprendiz. Ele entendeu, isso é o que importa. Não entrará no nosso caminho.

Passaram perto do cemitério e Gerard pôde ver o túmulo de Natanael. Estranhamente, sentiu algo ao olhar aquela lápide. Uma sensação que não conseguiu explicar.

Ao cair da noite, chegaram no alto da muralha, onde eram aguardados por Cássio e seus homens. Gerard estava com seu alforje carregado.

— O sol se pôs. — pronunciou Cássio. — Em breve, começará.

Aguardaram com paciência. Gerard viu que as mãos dos soldados tremiam. “Há quanto tempo esses homens enfrentam um inimigo que sabem que não conseguirão vencer? Por quanto tempo seus espíritos e suas mentes suportarão sem sucumbir ante um mal inevitável?”

Então, começou. Como se as sombras tomassem vida, as criaturas saiam da terra, emergindo dos campos e caminhavam até a muralha.

Era tétrico, tenebroso. E, então, Gerard descobriu porque o odor que saía da vala. Desmortos erguiam-se também de lá. Escalavam as muralhas com seus dedos podres.

Gerard viu, vindo da floresta em frente, uma névoa. E ele sabia do que ela era feita.

Rapidamente, o alquimista retirou um pedaço de raiz e entregou a Ortiz.

— Coma um pedaço e entregue ao lorde Cássio e seus homens.

O rapaz obedeceu sem questionar. O lorde também. Alguns de seus homens, entretanto, recusaram-se a comer a raiz. Neste momento, começou o horror. Aqueles que não comeram da raiz, ao respirarem a neblina, começaram a se contorcer e cairam babando e espumando pela boca.

— Não se aproximem deles! Estão além de qualquer ajuda! — gritou Gerard. — Deem um arco para meu aprendiz, agora!

Deram um arco e flechas para o jovem. Gerard entregou a ele uma bola de cor preta brilhosa. Ortiz amarrou-a na ponta de uma flecha e apontou.

— Atire onde e quando eu mandar.

O alquimista viu um ponto na mata de onde a névoa parecia mais densa, ordenou a Ortiz:

— Atire naquele ponto!

Rapidamente, o rapaz o fez. A flecha assobiou enquanto ia de encontro ao seu alvo. Com um gesto de mão, Gerard invocou uma chama pequena, que seguiu logo atrás. Ao alcançar a flecha, que seguia entre as árvores, uma grande explosão se fez.

— Pólvora.

O alquimista assentiu. Então, ouviram um grito, vindo de dentro da muralha. Um dos guardas que respirara da neblina levantara-se, mas não como um homem, e sim como um desmorto.

— Continue atirando, — Gerard orientou Ortiz —, em intervalos de um metro entre as flechas. Alterne flechas com pólvora e flechas em chamas. Use o feitiço que te ensinei duas luas atrás.

O rapaz seguia à risca as orientações. Era um bom aprendiz, pensava Gerard, mesmo que ele já soubesse o destino dele. Ao descer, o mouro viu três dos antigos homens de Cássio atacando moradores. Enfiando a mão em seu alforje, retirou um frasco e jogou contra um dos outrora soldados. Ao ser atingido, o mesmo começou a derreter.

— Que bom que eu trouxe estes frascos de ácido.

Mais adiante, ele viu o padre em frente a Igreja. Percebia-se que o homem estava apavorado, gesticulando sem parar.

— Solo sagrado! — gritou o alquimista. No que o religioso entendeu, chamando as pessoas para dentro da igreja.

De repente, Gerard estacou. Uma presença se fazia próxima. O alquimista correu para o portão de entrada. Com um movimento de cabeça, ordenou aos homens no portão que o abrissem. Mesmo apavorados, eles obedeceram.

Do alto da muralha, lorde Cássio indagava Ortiz:

— O que seu mestre está fazendo?

— Sendo inesperado, inconsequente e imprudente. Ou seja, sendo ele mesmo e fazendo jus a sua fama.

O Obscuro correu uma linha reta até a entrada da floresta. Nenhum dos desmortos ousou se aproximar dele. Era como se, na verdade, eles não o vissem. Então, ele parou.

De pé, estava aquele que Gerard tanto queria ver. O Necromante era uma criatura pálida. Que exalava o mal. Seus olhos eram fundos. Seus dentes amarelados. Era levemente corcunda, como uma marionete que tem as cordas cortadas.

— Alquimista... — sussurrou.

— Cesse o ataque, ou irá pagar, criatura. – Em nome da Tripla Legião Luminosa, o alquimista assim o ordena!

— Devolvam o que é meu! — o Necromante deu um grito a avançou como um berserker sobre Gerard, que desembainhou uma cimitarra. Apenas ela ficou entre o feiticeiro de gravar suas compridas unhas imundas no alquimista. Com uma força sobrenatural, o Necromante empurrou o Obscuro até o portão do feudo. Gerard quase caiu, movendo-se rapidamente, girou o corpo, fazendo o outro se desequilibrar e cair no portão. Ao tocar no portão de madeira, com uma das mãos, a criatura gritou de dor, mas tomou impulso e, com a outra, segurou na garganta de Gerard. Movido pelo ódio, começou a erguer o corpo do mouro.

Do alto da muralha, Ortiz gritava. Mirava com o arco, tentando acertar, mas tinha medo de atingir seu mestre.

Os sons ao redor iam se tornando indistintos. Seus membros iam ficando cada vez mais fracos. Era difícil pensar. Gerard fechou seus olhos. Devagar os abriu. O cheiro não o permitia sequer respirar direito. Tudo ao redor era cinza e marrom e preto. Estava deitado na vala, corpos e mais corpos mortos se amontoavam entre si e nele. Podia ouvir os chiados dos desmortos em seu ouvido. Tudo estava repleto de lama e excrementos.  Menos ele. E os desmortos podiam sentir. Começaram a puxá-lo para baixo, para o fundo. Tentava se mover, mas estava fraco e cansado. Ergueu uma das mãos. E eis que do alto, alguém lhe segurou, puxando seu corpo quase sem vida para cima.

Um homem que dispensava apresentações.

— Seu lugar não é entre os mortos, rapaz! — disse a voz poderosa do homem chamado...

— Salazar... – continuava olhando o homem com gratidão e tristeza, pois sabia que aquilo não era o presente. Foi seu passado.

Gerard abriu de novo os olhos e buscou seu alforje. Retirou uma esfera luminosa e deixou-a cair. Enquanto caia, o Obscuro pronunciou algo em uma língua perdida. Quando a esfera atingiu o solo, algo ígneo voou por toda a extensão da clareira entre a floresta e o feudo. Queimou tantos desmortos quanto pôde até subir o mais alto e explodir numa infinidade de faíscas. O Necromante soltou Gerard e, com seus asseclas, fugiu para a mata.

Antes de desmaiar, o mouro ainda ouviu Ortiz chamando seu nome.

Abriu os olhos num impulso. Surpreso, Gerard percebeu que não estava nos portões do feudo, mas em uma cama. Olhou para uma grande janela a sua direita e percebeu que o dia já se fazia alto. Ortiz estava de pé, próximo à porta, como um vigia.

— Mestre! O senhor o pôs para correr.

— Quanto tempo fiquei aqui?

— Umas seis horas.

— Pegue meu alforje e minha cimitarra, aprendiz. Temos apenas algumas horas até o crepúsculo.

Ortiz o olhava abismado.

— Você acreditou que ele não voltaria? Não acabou. Não ainda.

Gerard tinha o olhar sombrio e obstinado. Ortiz apenas o seguia.

— Ele não irá descansar enquanto não pegar o que é dele. Mas ele não pode entrar. Assim fará o impossível para conseguir alcançar seu objetivo.

O rapaz ficou assustado com a atitude do mestre, mais enigmático que de costume.

— Quando eu era menino, toda minha família foi morta por um necromante. Ele só não me matou porque fingi estar morto também. Jogaram-me em uma cova, repleta de desmortos. Sobrevivi graças à mão daquele que se tornou meu mestre, Salazar, o Cristalino. Por isso precisei vir até este feudo esquecido. Por isso minha Visão. Jurei que não deixaria que nenhum desses servos das trevas continuassem seus experimentos proibidos.

Pararam em frente a Igreja.

— Não é porque nos ajudou ontem que eu o permitirei pisar neste local sagrado, bruxo. Eu mesmo ajudei a construir esta igreja. Não deixarei você maculá-la com sua presença.

— Você disse que ajudou a construir? — Então, virando-se correu para o outro terreno sagrado que sabia existir no feudo.

Lorde Cássio e Daltro chegaram no cemitério pouco depois de Gerard e Ortiz.

— O que busca aqui, mestre?

— O túmulo de Natanael.

— Ele era um dos nobres mais honrados de todo o feudo. Acima de qualquer suspeita.

Com fúria, Gerard desembainhou sua cimitarra, dando um golpe no túmulo de Natanael. O concreto quebrou-se, revelando escadas que conduziam a um cômodo oculto.

— “Acima de qualquer suspeita", sei bem! — comentou Ortiz.

Desceram as escadas e encontraram mais do que um laboratório de alquimia.

— Este lugar foi corrompido com magia negra. – disse Gerard. — Todo cuidado aqui é pouco.

O alquimista buscava algo que os outros não viam. Nem mesmo Ortiz. De repente, ele parou em frente uma escrivaninha e ficou observando um caderno. Hesitou algum tempo em tocá-lo.

Era uma peça em couro de cabra. Lentamente, o mouro Gerard, o Obscuro, o abriu. Sentia um arrepio na espinha após cada página. “Este livro foi escrito com o sangue daquele que o escreveu.” Pensou. “Que espécie de horrores se passaram por essa mente perturbada”

— Preciso que confie em mim, lorde Cássio. — finalmente falou.

— Sim, bom mestre. – respondeu aturdido lorde.

— Assim que a noite cair, retire seus homens da muralha e deixe os portões abertos.

— Mas, isso é...

— E não esqueça de retirar todos os cidadãos das ruas. Todos, sem exceção, devem estar em suas casas.

Mesmo contrariado, o senhor feudal concordou. Faltavam menos de duas horas para o crepúsculo.

— Inclusive você, aprendiz.

O rapaz tentou discutir, mas sabia ser inútil ir contra a vontade de seu mestre.

Gerard, o alquimista Obscuro, no espaço de tempo entre os guardas retirarem as pessoas das ruas, andou por toda a extensão do feudo.

A noite chegou.

Incansável, o Necromante seguia com seu exército maldito. Para sua surpresa, não encontrou resistência. Os portões estavam abertos. O feudo vazio.

No meio, solitário, com seus braços abertos, também as palmas das mãos abertas e as pernas em posição de genuflexão, estava Gerard. No chão, a sua frente, o caderno de Natanael.

— Eu o convido a entrar — pronunciou Gerard —, e pegar aquilo que é seu.

Sem nem pensar ou titubear, o Necromante seguiu veloz ao encontro daquilo que buscava. Atravessou ou portões, ignorando qualquer coisa que pudesse lhe acontecer. Ignorou até mesmo o movimento rápido que o alquimista fazia com seus dedos negros.

Não se preocupou com o mouro. Apenas pegou o caderno de páginas de couro de cabra com ambas as mãos pálidas e enrugadas. Neste instante, Gerard, que se encontrava com os olhos baixos e o cenho franzido, sorriu.

Naquele momento, o Necromante percebeu que caíra na armadilha.

Começou a perceber que seus dedos formigavam. Não conseguiu pronunciar nenhum feitiço. Então, entre o assustado e irritado, o feiticeiro perguntou, com o olhar, a Gerard o que ele lhe fizera.

— Fiz com que provasse do próprio veneno, Natanael, alquimista corrompido. Devolvo-lhe um de seus feitiços. O Convite do Decaído.

Em seguida, nada mais era preciso ser feito. Os olhos do Necromante se arregalaram ao constatar a verdade inquestionável. As partes do outrora alquimista foram se desfazendo, enquanto, Gerard apenas observava. Aos poucos, Natanael, o Necromante ia se tornando cinzas levadas pelo vento noturno. Assim como os desmortos que ele invocara.

Ao final, restou apenas o mouro Gerard, a observar o céu noturno. A seus pés, um caderno de couro de cabra.

No dia seguinte, enquanto arrumavam seus cavalos para irem embora, Gerard conversava com lorde Cássio.

— Aquele livro era uma fonte de magia profana poderosa. Seu amigo Natanael era um alquimista que se corrompeu ante a magia negra. Só O Sempiterno sabe sob qual influência ele confeccionou aquele caderno; escrito com sangue — caso vocês não tenham percebido —, o dele, mais provavelmente. Em algum momento, porém, seu lado alquimista falou mais alto e, talvez para proteger aqueles a quem ainda carregava algum afeto, ele forjou a própria morte e se distanciou, antes que houvesse se corrompido totalmente. Creio que tenha sido Natanael também quem colocara as marcas protetoras nos muros do feudo. Sigilos de proteção que proíbem a magia negra de entrar. Bem, imagino que depois ele tenha se arrependido disso, não é mesmo?

— Nenhum de nós o reconheceu.

— É o efeito da magia negra. Ela corrompe e deforma o corpo e a alma daquele que a utiliza.

— Não entendi uma coisa. — indagou Cassio. — Como, então, ele entrou na última vez?

— Como disse, havia algo de alquimista ainda na mente corrompida de Natanael. E esse resquício escreveu o Convite do Decaído. Com ele, aquele que aceitasse o convite, não apenas perdia suas habilidades sombrias, mas estava indefeso contra qualquer ataque místico, por alguns minutos.

— Mas então, como ele se desfez?

— Aquilo foi improviso. Ele queria o caderno. Foi a própria magia negra que ele buscava que o destruiu. Ele não tinha nenhum escudo místico, nada. Era apenas um homem sem suas habilidades mágicas.

— Que foi destruído por sua própria loucura.

— Exato.

— Temos uma dívida com você, Gerard, alquimista obscuro.

— Apenas cuidem para que ninguém tenha acesso ao caderno ou ao laboratório.

Cavalgando já por algumas horas, Gerard e Ortiz seguiam conversando. Por solicitação do alquimista, o falso túmulo de Natanael foi lacrado para sempre, juntamente com seu caderno amaldiçoado. Entretanto, Ortiz permanecia incomodado.

— Mestre, não acredito que deixou um objeto mágico tão poderoso naquele lugar.

— Aprendiz, o dever de um alquimista é manter o mundo em equilíbrio, seguro. Nem que seja dele mesmo. Mesmo que ele não saiba. Um artefato desses não poderia ser deixado lá, onde qualquer ou necromante ou bruxo ou mesmo um incauto tente ter aceso.

— Não poderia ser deixado lá... mas o senhor falou...

— “Todas as verdades são meias-verdades.” — revelou Gerard. — É melhor que eles acreditem nisso.

— Então, o que faremos com ele?

O alquimista obscuro sorriu.

Seguiram para o norte, para uma biblioteca cujo nome só poderia pronunciada por um Herdeiro de Trismegisto.

Enquanto o sol batia em seu rosto, Gerard percebeu que aquilo não era seu presente.

Na verdade...

Prólogo

Epílogo

Conto

Naquele momento, o mouro Gerard, o Obscuro, perguntava a si mesmo porque se deixava entrar naquelas situações. Estava com seus braços abertos, também as palmas das mãos abertas e as pernas em posição de genuflexão. À sua frente, num passo rápido, chegava o Necromante e seu exército de desmortos. Gerard tentava disfarçar a tremedeira involuntária em sua mão esquerda. Seus lábios também tremiam enquanto ele pensava se houvera feito a escolha certa. Em seguida, Gerard sorriu, pois sabia que isso não era o presente. Será o seu futuro.

Então, ele despertou.

Um dos homens sentados ao seu lado olhava para Gerard num misto de medo e assombro. Estavam no bar de uma estalagem. Como todos aqueles que querem fazer negócio e não chamar a atenção de curiosos, sentaram-se ao fundo. O mouro apenas olhou para o homem e sorriu:

— É então, senhor Daltro, você e seu feudo supuseram que eu poderia aceitar o trabalho?

— O senhor ficou este tempo todo em transe, e sabe exatamente do que falávamos? – Daltro estava boquiaberto. Era um homem de parcos fios de cabelo, de olhos baixos e de tez cansada, não apenas pela viagem, mas também pela vida que levava.

— “O que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que está embaixo” – recitou Gerard um trecho da “Tábua Esmeralda” do mestre Hermes Trismegisto, mais para lembrar a si mesmo que para ser escutado. — Posso usar o “Olhar do Tempo” e beber um vinho, ou escutar uma conversa. — enquanto falava, passava a mão na tatuagem em seu pescoço, uma letra “P” maiúscula tendo na base dois riscos horizontais paralelos. Uma recordação e um presente de seu mestre.

— Mas, voltando a sua oferta... — Ortiz, o aluno e auxiliar de Gerard não estava com a mesma paciência. Era um rapaz loiro de inusitados olhos dourados. — Por que seu feudo não procurou a Igreja?

— Até procuramos, jovem mestre. — falou o homem, enquanto olhava para os lados. — Mas o bispo disse que a Igreja não se envolveria em ritos pagãos. Que buscássemos um meio de resolvermos o que nós criamos.

Antes que o rapaz fizesse um comentário, Gerard o censurou com um gesto de mão.

— O Santo Homem deve ter seus motivos.

— Não entendemos quais seriam, senhor Gerard. Nosso feudo é pequeno, mas não temos tais práticas. Meu senhor Cássio é um homem temente a Deus. Temos até nossa própria capela com padre, e um cemitério cristão.

— Mas então, Daltro, por que em nome Hermes Trismegisto, o três vezes grande, um Necromante teria interesse em seu feudo?

— Ele repete incessante que quer pegar para si o feudo, pois um dos nossos nobres, o senhor Natanael, tem algo dele.

— E por que esse senhor Natanael não negocia com esse Necromante? — indagou Ortiz. — Tudo se resolveria.

— Não é possível, jovem mestre. — respondeu Daltro. — O senhor Natanael morreu há um ano.

— Entendo. — comentou o mouro, pensativo. — Uma última pergunta, senhor Daltro. O senhor veio de tão longe atrás de mim. Poderia ter encontrado outros alquimistas mais ... convencionais. Por que eu?

— Por isso mesmo, senhor. — Daltro permaneceu com os olhos baixos, como se estivesse vergonha do que respondia. – O mestre tem certa fama em assuntos dessa natureza. Os boatos se espalham.

Com um sorriso insólito, Gerard, o Obscuro disse:

— Então é isso. Muito bem, Daltro, iremos com o senhor.

Minutos depois, estavam os três homens seguindo a cavalo. Daltro seguia na frente. Gerard e Ortiz iam logo atrás.

— Mestre, não entendo. – o rapaz questionava. — Por que aceitar um trabalho que provavelmente lhe trará mais dores de cabeça que vantagens? Bastava dispensar este homem.

— Por isso mesmo, jovem aprendiz. — respondeu enigmático, o alquimista, conhecido por não ser o mais ortodoxo dos membros da Ordem de Trismegisto. Aliás, nem era muito bem quisto por seus iguais, devido seu temperamento e decisões pouco convencionais. – Existe algo que as pessoas não entendem sobre meu “Olhar do Tempo". Eu não tenho visões sobre o futuro nem revejo o passado. Toda vez que a Visão é ativada, eu vivencio o momento. Ou seja, eu realmente estou no futuro ou no passado. Mesmo sem sair do tempo presente.

— Então, o senhor se viu no feudo?

— Não exatamente, mas eu sei que irei para lá no meu futuro. E eu sei o que irá acontecer.

— Mas mestre, se o senhor sabe o que irá acontecer, por que não mudar?

— Você não entendeu, aprendiz. — E ele deu um sorriso insólito. — Justamente porque eu já vivi aquilo. O que acontecerá será um passo a frente para minha ascensão. É um aprendizado. Um rio sabe que irá para o mar. Ele não tem querer, apenas segue, independente do que acontecer ou que rumo tomou. Ele simplesmente segue para o oceano.

— Ainda há muito para eu aprender, mestre.

— Isso se você sobreviver ao aprendizado, jovem aprendiz. — comentou sombriamente, o alquimista. E o jovem sentiu um arrepio na nuca.

A cavalgada durou mais quatro dias. O feudo ficava na divisa de dois reinos. Era realmente um feudo pequeno, pouco mais que uma vila.

Gerard pôde perceber que a muralha havia sido reconstruída em alguns pontos. Ao redor do lugar, fora cavada uma vala, para dificultar a entrada de possíveis invasores. Sentiu um odor forte sair do lugar. O inconfundível odor da morte.

O Obscuro não deixou escapar de seu olhar símbolos em alguns tijolos, em pontos cegos da muralha. “Interessante...” pensou.

Lorde Cássio, senhor feudal, recebeu o alquimista com muita satisfação. Deixou Gerard seu aprendiz à vontade para vistoriar todo o lugar. Revelou que os ataques aconteciam após o crepúsculo, quando o manto da noite de fazia alto.

— Necromantes tem suas habilidades profanas mais fortes à noite.

— Temos conseguido resistir com dificuldades. O último ataque dele só não teve o êxito que ele esperava porque o sol começou a nascer. – Desabafou o lorde.

— E afinal, descobriu-se o que este Necromante deseja com tanta vontade? — Gerard indagou. — Pois, com minhas desculpas, não vejo grandes atrativos em seu feudo além da carne de seus servos, para servir para magia negra.

— Até hoje não descobrimos, mestre. – respondeu Cássio. — Todas as noites ele vem com seu exército de desmortos e tenta invadir. Isso dura a noite toda, até o amanhecer, quando eles recuam.

— Seu servo Daltro comentou algo sobre um dos nobres de nome Natanael e algo que ele tinha que o Necromante afirma ser dele.

— São boatos, honrado mestre. Meus servos estão com os nervos à flor da pele e acreditam em palavras espalhadas ao vento.

Gerard refletiu por alguns instantes, despediu-se do lorde pois queria conhecer o terreno que iria defender.

— Um conselho, bom lorde, o vento também tem suas verdades...

Enquanto caminhavam pelo lugar, Gerard e Ortiz puderam ver como vivam aquelas pessoas. Todos os olhavam curiosos, mas os tratavam bem. Com exceção do vigário local, que proibiu o alquimista de entrar na igreja.

— Isto é solo sagrado. — advertiu. — Não são permitidos bruxos aqui.

— Em primeiro lugar, padre, não somos bruxos. – informou Ortiz. — Em segundo, se meu mestre quiser entrar...

Com um gesto de mão, o Obscuro silenciou seu afoito aprendiz.

— Agradecemos a cordialidade, padre. De um bruxo para outro.  — virou as costas.

— Eu não sou um... — mas já era tarde, Gerard e Ortiz já estavam longe.

— Por que disse aquilo para o padre, mestre?

— Não se preocupe, jovem aprendiz. Ele entendeu, isso é o que importa. Não entrará no nosso caminho.

Passaram perto do cemitério e Gerard pôde ver o túmulo de Natanael. Estranhamente, sentiu algo ao olhar aquela lápide. Uma sensação que não conseguiu explicar.

Ao cair da noite, chegaram no alto da muralha, onde eram aguardados por Cássio e seus homens. Gerard estava com seu alforje carregado.

— O sol se pôs. — pronunciou Cássio. — Em breve, começará.

Aguardaram com paciência. Gerard viu que as mãos dos soldados tremiam. “Há quanto tempo esses homens enfrentam um inimigo que sabem que não conseguirão vencer? Por quanto tempo seus espíritos e suas mentes suportarão sem sucumbir ante um mal inevitável?”

Então, começou. Como se as sombras tomassem vida, as criaturas saiam da terra, emergindo dos campos e caminhavam até a muralha.

Era tétrico, tenebroso. E, então, Gerard descobriu porque o odor que saía da vala. Desmortos erguiam-se também de lá. Escalavam as muralhas com seus dedos podres.

Gerard viu, vindo da floresta em frente, uma névoa. E ele sabia do que ela era feita.

Rapidamente, o alquimista retirou um pedaço de raiz e entregou a Ortiz.

— Coma um pedaço e entregue ao lorde Cássio e seus homens.

O rapaz obedeceu sem questionar. O lorde também. Alguns de seus homens, entretanto, recusaram-se a comer a raiz. Neste momento, começou o horror. Aqueles que não comeram da raiz, ao respirarem a neblina, começaram a se contorcer e cairam babando e espumando pela boca.

— Não se aproximem deles! Estão além de qualquer ajuda! — gritou Gerard. — Deem um arco para meu aprendiz, agora!

Deram um arco e flechas para o jovem. Gerard entregou a ele uma bola de cor preta brilhosa. Ortiz amarrou-a na ponta de uma flecha e apontou.

— Atire onde e quando eu mandar.

O alquimista viu um ponto na mata de onde a névoa parecia mais densa, ordenou a Ortiz:

— Atire naquele ponto!

Rapidamente, o rapaz o fez. A flecha assobiou enquanto ia de encontro ao seu alvo. Com um gesto de mão, Gerard invocou uma chama pequena, que seguiu logo atrás. Ao alcançar a flecha, que seguia entre as árvores, uma grande explosão se fez.

— Pólvora.

O alquimista assentiu. Então, ouviram um grito, vindo de dentro da muralha. Um dos guardas que respirara da neblina levantara-se, mas não como um homem, e sim como um desmorto.

— Continue atirando, — Gerard orientou Ortiz —, em intervalos de um metro entre as flechas. Alterne flechas com pólvora e flechas em chamas. Use o feitiço que te ensinei duas luas atrás.

O rapaz seguia à risca as orientações. Era um bom aprendiz, pensava Gerard, mesmo que ele já soubesse o destino dele. Ao descer, o mouro viu três dos antigos homens de Cássio atacando moradores. Enfiando a mão em seu alforje, retirou um frasco e jogou contra um dos outrora soldados. Ao ser atingido, o mesmo começou a derreter.

— Que bom que eu trouxe estes frascos de ácido.

Mais adiante, ele viu o padre em frente a Igreja. Percebia-se que o homem estava apavorado, gesticulando sem parar.

— Solo sagrado! — gritou o alquimista. No que o religioso entendeu, chamando as pessoas para dentro da igreja.

De repente, Gerard estacou. Uma presença se fazia próxima. O alquimista correu para o portão de entrada. Com um movimento de cabeça, ordenou aos homens no portão que o abrissem. Mesmo apavorados, eles obedeceram.

Do alto da muralha, lorde Cássio indagava Ortiz:

— O que seu mestre está fazendo?

— Sendo inesperado, inconsequente e imprudente. Ou seja, sendo ele mesmo e fazendo jus a sua fama.

O Obscuro correu uma linha reta até a entrada da floresta. Nenhum dos desmortos ousou se aproximar dele. Era como se, na verdade, eles não o vissem. Então, ele parou.

De pé, estava aquele que Gerard tanto queria ver. O Necromante era uma criatura pálida. Que exalava o mal. Seus olhos eram fundos. Seus dentes amarelados. Era levemente corcunda, como uma marionete que tem as cordas cortadas.

— Alquimista... — sussurrou.

— Cesse o ataque, ou irá pagar, criatura. – Em nome da Tripla Legião Luminosa, o alquimista assim o ordena!

— Devolvam o que é meu! — o Necromante deu um grito a avançou como um berserker sobre Gerard, que desembainhou uma cimitarra. Apenas ela ficou entre o feiticeiro de gravar suas compridas unhas imundas no alquimista. Com uma força sobrenatural, o Necromante empurrou o Obscuro até o portão do feudo. Gerard quase caiu, movendo-se rapidamente, girou o corpo, fazendo o outro se desequilibrar e cair no portão. Ao tocar no portão de madeira, com uma das mãos, a criatura gritou de dor, mas tomou impulso e, com a outra, segurou na garganta de Gerard. Movido pelo ódio, começou a erguer o corpo do mouro.

Do alto da muralha, Ortiz gritava. Mirava com o arco, tentando acertar, mas tinha medo de atingir seu mestre.

Os sons ao redor iam se tornando indistintos. Seus membros iam ficando cada vez mais fracos. Era difícil pensar. Gerard fechou seus olhos. Devagar os abriu. O cheiro não o permitia sequer respirar direito. Tudo ao redor era cinza e marrom e preto. Estava deitado na vala, corpos e mais corpos mortos se amontoavam entre si e nele. Podia ouvir os chiados dos desmortos em seu ouvido. Tudo estava repleto de lama e excrementos.  Menos ele. E os desmortos podiam sentir. Começaram a puxá-lo para baixo, para o fundo. Tentava se mover, mas estava fraco e cansado. Ergueu uma das mãos. E eis que do alto, alguém lhe segurou, puxando seu corpo quase sem vida para cima.

Um homem que dispensava apresentações.

— Seu lugar não é entre os mortos, rapaz! — disse a voz poderosa do homem chamado...

— Salazar... – continuava olhando o homem com gratidão e tristeza, pois sabia que aquilo não era o presente. Foi seu passado.

Gerard abriu de novo os olhos e buscou seu alforje. Retirou uma esfera luminosa e deixou-a cair. Enquanto caia, o Obscuro pronunciou algo em uma língua perdida. Quando a esfera atingiu o solo, algo ígneo voou por toda a extensão da clareira entre a floresta e o feudo. Queimou tantos desmortos quanto pôde até subir o mais alto e explodir numa infinidade de faíscas. O Necromante soltou Gerard e, com seus asseclas, fugiu para a mata.

Antes de desmaiar, o mouro ainda ouviu Ortiz chamando seu nome.

Abriu os olhos num impulso. Surpreso, Gerard percebeu que não estava nos portões do feudo, mas em uma cama. Olhou para uma grande janela a sua direita e percebeu que o dia já se fazia alto. Ortiz estava de pé, próximo à porta, como um vigia.

— Mestre! O senhor o pôs para correr.

— Quanto tempo fiquei aqui?

— Umas seis horas.

— Pegue meu alforje e minha cimitarra, aprendiz. Temos apenas algumas horas até o crepúsculo.

Ortiz o olhava abismado.

— Você acreditou que ele não voltaria? Não acabou. Não ainda.

Gerard tinha o olhar sombrio e obstinado. Ortiz apenas o seguia.

— Ele não irá descansar enquanto não pegar o que é dele. Mas ele não pode entrar. Assim fará o impossível para conseguir alcançar seu objetivo.

O rapaz ficou assustado com a atitude do mestre, mais enigmático que de costume.

— Quando eu era menino, toda minha família foi morta por um necromante. Ele só não me matou porque fingi estar morto também. Jogaram-me em uma cova, repleta de desmortos. Sobrevivi graças à mão daquele que se tornou meu mestre, Salazar, o Cristalino. Por isso precisei vir até este feudo esquecido. Por isso minha Visão. Jurei que não deixaria que nenhum desses servos das trevas continuassem seus experimentos proibidos.

Pararam em frente a Igreja.

— Não é porque nos ajudou ontem que eu o permitirei pisar neste local sagrado, bruxo. Eu mesmo ajudei a construir esta igreja. Não deixarei você maculá-la com sua presença.

— Você disse que ajudou a construir? — Então, virando-se correu para o outro terreno sagrado que sabia existir no feudo.

Lorde Cássio e Daltro chegaram no cemitério pouco depois de Gerard e Ortiz.

— O que busca aqui, mestre?

— O túmulo de Natanael.

— Ele era um dos nobres mais honrados de todo o feudo. Acima de qualquer suspeita.

Com fúria, Gerard desembainhou sua cimitarra, dando um golpe no túmulo de Natanael. O concreto quebrou-se, revelando escadas que conduziam a um cômodo oculto.

— “Acima de qualquer suspeita", sei bem! — comentou Ortiz.

Desceram as escadas e encontraram mais do que um laboratório de alquimia.

— Este lugar foi corrompido com magia negra. – disse Gerard. — Todo cuidado aqui é pouco.

O alquimista buscava algo que os outros não viam. Nem mesmo Ortiz. De repente, ele parou em frente uma escrivaninha e ficou observando um caderno. Hesitou algum tempo em tocá-lo.

Era uma peça em couro de cabra. Lentamente, o mouro Gerard, o Obscuro, o abriu. Sentia um arrepio na espinha após cada página. “Este livro foi escrito com o sangue daquele que o escreveu.” Pensou. “Que espécie de horrores se passaram por essa mente perturbada”

— Preciso que confie em mim, lorde Cássio. — finalmente falou.

— Sim, bom mestre. – respondeu aturdido lorde.

— Assim que a noite cair, retire seus homens da muralha e deixe os portões abertos.

— Mas, isso é...

— E não esqueça de retirar todos os cidadãos das ruas. Todos, sem exceção, devem estar em suas casas.

Mesmo contrariado, o senhor feudal concordou. Faltavam menos de duas horas para o crepúsculo.

— Inclusive você, aprendiz.

O rapaz tentou discutir, mas sabia ser inútil ir contra a vontade de seu mestre.

Gerard, o alquimista Obscuro, no espaço de tempo entre os guardas retirarem as pessoas das ruas, andou por toda a extensão do feudo.

A noite chegou.

Incansável, o Necromante seguia com seu exército maldito. Para sua surpresa, não encontrou resistência. Os portões estavam abertos. O feudo vazio.

No meio, solitário, com seus braços abertos, também as palmas das mãos abertas e as pernas em posição de genuflexão, estava Gerard. No chão, a sua frente, o caderno de Natanael.

— Eu o convido a entrar — pronunciou Gerard —, e pegar aquilo que é seu.

Sem nem pensar ou titubear, o Necromante seguiu veloz ao encontro daquilo que buscava. Atravessou ou portões, ignorando qualquer coisa que pudesse lhe acontecer. Ignorou até mesmo o movimento rápido que o alquimista fazia com seus dedos negros.

Não se preocupou com o mouro. Apenas pegou o caderno de páginas de couro de cabra com ambas as mãos pálidas e enrugadas. Neste instante, Gerard, que se encontrava com os olhos baixos e o cenho franzido, sorriu.

Naquele momento, o Necromante percebeu que caíra na armadilha.

Começou a perceber que seus dedos formigavam. Não conseguiu pronunciar nenhum feitiço. Então, entre o assustado e irritado, o feiticeiro perguntou, com o olhar, a Gerard o que ele lhe fizera.

— Fiz com que provasse do próprio veneno, Natanael, alquimista corrompido. Devolvo-lhe um de seus feitiços. O Convite do Decaído.

Em seguida, nada mais era preciso ser feito. Os olhos do Necromante se arregalaram ao constatar a verdade inquestionável. As partes do outrora alquimista foram se desfazendo, enquanto, Gerard apenas observava. Aos poucos, Natanael, o Necromante ia se tornando cinzas levadas pelo vento noturno. Assim como os desmortos que ele invocara.

Ao final, restou apenas o mouro Gerard, a observar o céu noturno. A seus pés, um caderno de couro de cabra.

No dia seguinte, enquanto arrumavam seus cavalos para irem embora, Gerard conversava com lorde Cássio.

— Aquele livro era uma fonte de magia profana poderosa. Seu amigo Natanael era um alquimista que se corrompeu ante a magia negra. Só O Sempiterno sabe sob qual influência ele confeccionou aquele caderno; escrito com sangue — caso vocês não tenham percebido —, o dele, mais provavelmente. Em algum momento, porém, seu lado alquimista falou mais alto e, talvez para proteger aqueles a quem ainda carregava algum afeto, ele forjou a própria morte e se distanciou, antes que houvesse se corrompido totalmente. Creio que tenha sido Natanael também quem colocara as marcas protetoras nos muros do feudo. Sigilos de proteção que proíbem a magia negra de entrar. Bem, imagino que depois ele tenha se arrependido disso, não é mesmo?

— Nenhum de nós o reconheceu.

— É o efeito da magia negra. Ela corrompe e deforma o corpo e a alma daquele que a utiliza.

— Não entendi uma coisa. — indagou Cassio. — Como, então, ele entrou na última vez?

— Como disse, havia algo de alquimista ainda na mente corrompida de Natanael. E esse resquício escreveu o Convite do Decaído. Com ele, aquele que aceitasse o convite, não apenas perdia suas habilidades sombrias, mas estava indefeso contra qualquer ataque místico, por alguns minutos.

— Mas então, como ele se desfez?

— Aquilo foi improviso. Ele queria o caderno. Foi a própria magia negra que ele buscava que o destruiu. Ele não tinha nenhum escudo místico, nada. Era apenas um homem sem suas habilidades mágicas.

— Que foi destruído por sua própria loucura.

— Exato.

— Temos uma dívida com você, Gerard, alquimista obscuro.

— Apenas cuidem para que ninguém tenha acesso ao caderno ou ao laboratório.

Cavalgando já por algumas horas, Gerard e Ortiz seguiam conversando. Por solicitação do alquimista, o falso túmulo de Natanael foi lacrado para sempre, juntamente com seu caderno amaldiçoado. Entretanto, Ortiz permanecia incomodado.

— Mestre, não acredito que deixou um objeto mágico tão poderoso naquele lugar.

— Aprendiz, o dever de um alquimista é manter o mundo em equilíbrio, seguro. Nem que seja dele mesmo. Mesmo que ele não saiba. Um artefato desses não poderia ser deixado lá, onde qualquer ou necromante ou bruxo ou mesmo um incauto tente ter aceso.

— Não poderia ser deixado lá... mas o senhor falou...

— “Todas as verdades são meias-verdades.” — revelou Gerard. — É melhor que eles acreditem nisso.

— Então, o que faremos com ele?

O alquimista obscuro sorriu.

Seguiram para o norte, para uma biblioteca cujo nome só poderia pronunciada por um Herdeiro de Trismegisto.

Enquanto o sol batia em seu rosto, Gerard percebeu que aquilo não era seu presente.

Na verdade...

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