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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

O moleque correu desabalado pelo deserto. Mais atrás, em seu rastro, cães enfrentaram a fúria da areia e dos ventos com patas biônicas, escorrendo metal líquido pelo abdome.

As chicotadas da tempestade riscaram a pele esquálida do moleque. Suas bochechas ficavam maiores pelos abrasões e os filetes de sangue, cada arfada de ar trazia um pouco de areia na respiração. A barriga redonda sobressaía na barra da camisa― seu tamanho diminuto ficava mais evidente com essas roupas. Fugiu com os braços abertos, sem fôlego. Era a chance derradeira de sobreviver àquela investida.

A matilha só era impedida pela fúria do deserto, mas seus mecanismos nas patas traseiras garantiam momentos de impulso. No último avanço, o maior entre os cães abocanhou o calcanhar da presa, deixando uma baba espessa de metal líquido na mordedura. O moleque escorregou por uma duna. Com braços, pernas e rosto lanhados, pressentira o seu fim. A desistência já se firmava em seu semblante, com as mãos na cabeça e os joelhos arqueados, só lhe restando fechar os olhos.

Ele só os abriu quando ouviu explosões.

O jorro gelatinoso do metal líquido banhou a areia onde estavam os cães. Pedaços de carne morta e mecanismos caíam chamuscados.

“Você está bem?”, disse a voz atrás do moleque. O dono era dotado de nódulos de músculos por todo o imenso corpo, portando uma barba branca que ia à altura do peito e vastos cabelos da mesma cor, que dançavam sob a tempestade, e gentis olhos azuis que buscavam tanto proteção quanto um perímetro seguro para prosseguir. O moleque não acreditava em Deus― ninguém, aliás―, mas se pedissem uma descrição do sagrado, esse homem seria o molde perfeito. Carregava uma blaster, a maior que seus olhos infantis já tinham visto.

Surgida de uma névoa espessa de areia, uma menina se aproximou do moleque. Apoiou seu braço por sobre ele e o ajudou a se levantar.

“O ‘pacote’ está a salvo, Art”, comentou ela. Ela tinha mesma estatura que a do moleque, única apenas por seus longos cabelos trançados e raspados nas laterais, a pele oliva brilhando sob o sol e um irresistível perfume de morango.

“Não chame o garoto assim, Gui...”, reprimiu o homem com aspecto de Deus. “Tudo bem... Estou tentando dar um ar profissional a esta missão”, sorriu.

Antes das apresentações, o moleque desmaiou, erguido mais adiante pelo homem com um dos braços. A menina se agarrou à mão direita do homem, e juntos, caminharam até um monumento oculto pela tempestade do deserto.

Quando o moleque recobrou à consciência, estava deitado em uma plataforma de acrílico. Uma sequência de feixes percorrem seu corpo, direcionados por microcâmaras no teto, mapeando seu corpinho em busca de sequelas. Dados surgiam em quadros holográficos na entrada do cômodo. O moleque notou o ambiente ao redor― um laboratório com teto vazado cercado de arcos de ferro carcomido, tão desprezíveis quanto o chão forrado por neopreno.

De costas para o moleque, a menina analisava com afinco os hologramas.

“Bom dia, Bela Adormecida. Eu me chamo Gui”, disse. “Versão longa: você está no último reduto conhecido por abrigar os sobreviventes da Guerra Corporativa, uma ilha- -mecha desativada e resgatada por nosso líder, Art. Versão curta: você é mais um ferrado em Cam-E-Lot 1177.”

Banhado, bem alimentado e com ferimentos na sutura, o moleque foi recepcionado por Art, Gui e mais treze pessoas fora do laboratório. Enfim, se deu conta da imensidão de Cam-E-Lot 1177, encimada por estruturas compostas por ferro retorcido, sucatas, resquícios de móveis e veículos de grande porte. Parecia uma carcaça de um leviatã metálico a céu aberto. O moleque e seus anfitriões entraram em um salão erguido sobre a estrutura de uma nave transdimensional, dois caminhões Scania postos na vertical e um telhado de capela gótica.

O homem-Deus iniciou:

“Bem-vindo, garoto. Essa é a sede do Conselho de Cam-E-Lot. Eu sei que sua cabecinha tem muitas perguntas, e o momento das respostas é esse.”

“Por que esse lugar parece um... lixão?”

Gui cobriu a boca com o punho para esconder uma risada de escárnio. Art alisou a barba vasta, se pondo na mesma altura que o moleque e discursou. Contou sobre a antiga ilha-mecha autossustentável que era Cam-E-Lot 1177, propriedade da Corporação Bretanha, palco de testes com tecnologia marginal ocultos pelo conselho de ética nas Nações Unidas. Ninguém desconfiava dos horrores selados em tal colosso.

“Até a Guerra Corporativa”, complementou Art. “A Corporação Bretanha precisava de uma arma para se manter na liderança. Mas um dos experimentos provocou uma reação em cadeia nos elos mineralógicos da região. Desabitou as casas e afogou as metrópoles em torno da ilha sob entulho...”

“Desde então, Art cuida de todos nós...”, disse Gui. Ela escondeu um traço de dor no comentário, preferiu se resumir em apoiar suas mãos delicadas no ombro grosseiro de Art.

“Há quatro anos, eu resgato uma a uma das pessoas desabitadas pela Corporação...”

“Você lidera esse povo?”, perguntou o moleque, abismado com a quantidade de informação. Art deu um nó na barba com o indicador.

“Eu oriento os sobreviventes. Isso, eu sou um orientador... Não um líder rebelde, não há contra o que lutar. A Corporação tirou tudo de nós. O mal venceu no futuro.”

O moleque assimilou rápido à essência de Cam-E-Lot 1177. Naquela noite, em a sua primeira confraternização com os residentes, ele tirou um enorme peso do coração― ele próprio era uma ilhota coberta de entulho e resguardava sobrevivência.

“Eu não tenho nome... Eu vim de uma caravana do deserto, mas morremos pouco a pouco de fome e de doença. Fiquei só com minha mãe, que morreu na semana passada. Eu botei na cabeça que ia atravessar o deserto em busca de comida.”

Rompendo o clima de pesar, Gui chamou a atenção de todos para uma brincadeira. Pegou uma caneta e guardanapos e entregou para seus colegas.

“Vamos escolher um nome para o nosso novo morador.”

A opção do moleque― Gibson― perdeu pela maioria dos votos. Depois de uma roda de violão em volta da fogueira, o moleque percebeu que ganhara muito mais em um dia do que em toda sua existência. Lance tinha agora um nome, uma casa, uma família, uma motivação para continuar.

Em duas semanas, Lance era parte de Cam-E-Lot. Aprendeu técnicas de sobrevivência em ambientes inóspitos com Art e conhecimentos básicos de engenharia com Gui― e descobriu através dos exames que possuía uma anemia crônica, motivo da sua recuperação ser lenta.

“Deve ser por isso que dorme tanto...”, brincou Gui e pôs as mãos do moleque nas suas, como se levantasse uma torre. Ambos riram. Mas Lance é quem ria com os olhos― o contato da menina era a sensação mais pura que já sentira. Ela abaixava a cabeça sempre que Lance fazia esse olhar estranho, vago, hipnotizado.

Foi em um sábado quando Lance tomou um susto ao revelar o conteúdo oculto embaixo das lonas no laboratório. Eram os destroços dos cães que quase o estraçalharam. Art acalmou o moleque, mas seu grave não parecia mais tão tranquilo assim.

“Estou preocupado... Essa tecnologia me é familiar, Lance! Gui me contou que os cães são tecnorgânicos... Parte animal, maior parte máquina! E não foram controlados mecanicamente, e sim por transmissão, mas não há nenhum receptor.”

Art mudou sua fisionomia dali em diante. Ficava calado durante as confraternizações, com um ar alheio destoante de sua imagem messiânica. Vivia de cochichos com Gui pelos corredores. Lance não tinha a evidência, mas a hipótese de que Art também era uma ilha, mas cercada de segredos.

E a evidência surgira no fim do mês.

Lance acordou com sirenes ecoando pelas sete quadras que cobriam Cam-E-Lot 1177. Pela janela de sua habitação feita de caibros e uma armação de zinco, o moleque reviveu o medo da última perseguição.

Art parou na abertura principal da ilha-mecha com a blaster no ombro. À sua frente, arcos de aço-carbono ganhavam forma humanoide, unindo seus vincos por uma forma de energia translúcida, que mesclava portas de trailers, escadarias de emergência e antenas parabólicas. Uma fileira de smartphones compunha os dentes no centro de uma horrenda boca metálica.

“Olá, querido”, gritou a esganiçada voz eletrônica retransmitida pelos celulares, semelhante ao ouvido humano como um garfo raspando a superfície de um prato.

Gui e Lance correram até Art, que gesticula para que se afastem:

“Não se aproximem! Morgana é muito pior do que qualquer coisa.”

Gui segurava um aparelho com as mãos. Seus gestos denunciaram uma aversão incapaz de ser escondida por palavras ou gestos.

“Lance, veja essas medições! Essa... ‘Isso’ possui uma aura bioelétrica que está assimilando o metal ao redor, criando um tecido tecnorgânico! O mesmo dos cães que te atacaram no deserto...”

Art ativou seu canhão, porém uma descarga elétrica da criatura desativara os circuitos principais. Art tensionou os músculos e se jogou até uma pilha de andaimes, agarrando um deles e não dispensando forças para golpear sua oponente repetidas vezes. Pedaços de metal se espalhavam pelo lixão, rompendo a estrutura de Morgana.

Então, a criatura segurou o andaime com um par de prolongamentos que lembravam dedos. “Sempre agindo por impulso, professor...”

Morgana puxou o andaime das mãos de Art e o acertou no maxilar. O homem-Deus tombou para trás, vencido por uma força irresistível, em cima da tubulação exposta.

Gui ameaçava gritar, mas Lance segurou a menina e prendeu sua boca com as mãos. Ele sentiu a visão escurecer e a necessidade de ir ao chão.

“Você deveria ter me desativado enquanto tinha chance, professor!”, avisou Morgana, suspendendo os braços. “Graças a sua omissão, eu vaguei pelo deserto em busca de um invólucro à minha altura... Assimilando qualquer coisa que me desse poder! E cheguei a esse paraíso graças a um garotinho morto de fome. Ele tinha muito, mas muito ferro no sangue...”

Lance controlou a vontade de vomitar e os tremores nas pernas. Pior que isso, somente seu orgulho ferido.

“A anemia… Essa ‘bruxa’ usou meu corpo para entrar aqui, Gui. Isso é culpa minha...”

A menina acariciava o rosto do moleque para resgatá- -lo dos lugares escuros de sua mente.

“Não faça isso! Você não precisa de remorso... Precisa de justiça”, disse antes de puxar o moleque para o seu laboratório.

Morgana assumia as formas mais próximas de si, reagindo com a sucata e ganhando volume. Derrubou uma torre de transmissão em uma família― primeiras perdas em anos do levante de Cam-E-Lot 1177. Ao tentar se defender da criatura, um idoso foi trespassado no tórax por uma viga. Art rangia de dor, mas consciente para rastejar a um ponto seguro.

Lance caminhou com modos tranquilos para mais perto de Morgana. A criatura percebeu sua presença, mas fez pouco por seu tamanho e importância, seguindo em sua chacina. Lance recolhera uma pedra no chão e atirou em seus metais. Depois, circulou a criatura que, ao decidir respondê- lo, acompanhou o movimento oposto.

“Ora, ora... Se não é o meu lanche”, comentou Morgana.

Com os olhos baixos e os lábios quase sem sangue, Lance responde, se permitindo um sorriso: “Essa é sua última refeição.”

Gui surgiu por atrás e puxou uma parte da tubulação exposta, acertando na parte dorsal de Morgana, que emitiu um grito sônico. A sobrecarga elétrica destituiu o metal assimilado, deixando apenas a translúcida aura bioelétrica suspensa, que explodiu em centenas de raios e fios luminosos pela praça de Cam-E-Lot 1177.

“Bon appétit”, disse a menina. Art se apoiou no chão e se manteve em pé, observando os escombros de sua cidade. Lance e Gui se aproximaram do líder.

“Eu falhei no passado em deter esse experimento. Não vou falhar outra vez...”, comentou ele.

“Você trabalhava para a Corporação Bretanha?”, perguntou Lance, já com uma cor mais saudável no rosto.

“Sim... Eu não impedi meus colegas de concluírem o experimento. Foi graças a Morgana que o cataclismo desabrigou as pessoas. Tudo por minha culpa.”

Lance segurou as mãos tenras de Gui sem qualquer vergonha, bem como bateu no braço troncudo de Art. “O senhor não precisa de remorso... Precisa de justiça”.

“Temos de levantar acampamento, senhor!”. Gui apertou as mãos de Lance e repetiu o gesto em Art. “Essa armadilha não vai deter Morgana por muito tempo. Vamos erguer Cam-E-Lot em outro lugar.”

O moleque, a menina e o homem entrelaçaram seus dedos e começaram a chamar pelos outros, pisando em falso nas camadas de entulho e ferro derretido.

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