Eternidade Imóvel

Drama
Maio de 2020
Começou, agora termina queride!

Senhora Morte

Conquista Literária
Conto publicado em
O Deus chamado Tempo

Sinopse

Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

A verdade é que nunca temos controle sobre as coisas que acontecem conosco. Tentar alterar o destino pode ser não ser a melhor saída.

Prólogo

Epílogo

Conto

Áudio drama
Eternidade Imóvel
0:00
0:00

A praia ficou mais fria com o cair da noite.

— Papai, por que as estrelas morrem?

Solto um suspiro cansado e cubro os ombros de Bia comum lençol.

— Esse é o problema, querida, elas não morrem —murmuro, seguindo seu olhar para o céu. — Elas já estão mortas.

 

O sonho me deixa com um gosto amargo na boca no instante em que acordo. Encaro o teto sujo e passo a mão no rosto, sentindo a barba pinicar de maneira desconfortável. Noto a fotografia amassada em cima do peito e a levo na altura dos olhos. Uma manhã na praia. Uma lembrança, não um sonho.

Levanto-me e estico os músculos, passando pelo chão coberto de papéis para o banheiro. Ao escovar os dentes, observo as anotações escritas em post-its no espelho. Pego um deles e volto para a sala, prendendo-ono quadro geral. Então me afasto, observando o resultado.  Rabiscos de um lunático para qualquer um, mas adádiva de um gênio para mim.

Pego uma caneca abandonada em cima da mesa e me certifico de que está vazia antes de colocar o uísque barato que comprei na venda do andar debaixo. Então volto a encarar os anagramas.

—Saúde, Fábio, onde quer que esteja. É hoje.

Ao meu lado, o calendário amassado está com o dia 31 de março marcado com uma caneta vermelha. O aniversário de um ano do acidente. Tempo demais para ter ficado sem elas. Tomo um gole e respiro fundo, voltando a ler as anotações nas paredes. Havia regras para o que pretendia fazer, Fábio havia deixado isso claro. Eu tinha que ser preciso.

Uma batida na porta, no entanto, me rouba a atenção. Quem quer que seja já devia estar batendo há algum tempo, pois acordou o gato e agora o felino fita o hall de entrada em expectativa. Me arrasto até lá e empurro o animal para trás, abro a porta e encaro a mulher a minha frente.

—Carla.

—Thiago.

Miaaau. — Ela olha para o gato e solta um suspiro cansado, erguendo uma sacola.

—Ele está com fome. Te conhecendo, você também, então trouxe comida. Posso entrar?

Espio a bagunça por cima do ombro e faço que não.

—Estou ocupado.

—Com o quê?

—Limpeza. Por que esse interrogatório? Achei que tinha dito que eu precisava ser mais ativo e retomar o controle da minha vida.

—Sim, mas...

—Bem, estou fazendo exatamente isso, então apreciaria se me deixasse em paz.

Os ombros dela murcham e eu imediatamente me arrependo. Carla não merece ouvir aquelas coisas.

—Desculpe, mas não é um bom momento.

—.... Eu não queria lhe deixar sozinho hoje.

—Hoje é só mais um dia.

—Não, é o dia em que você vai se culpar pelo o que houve. É o dia em que os minutos se tornam semanas. As horas, meses. E a ausência e tempo vão te esmagando aos poucos.

—Eu estou bem.

—É o aniversário de morte de sua filha e esposa, é obvio que não está.

Um silêncio pesa entre nós dois. Claro que eu não consigo enganá-la, a dor deperder a irmã e a sobrinha eram reflexos da minha própria. Respiro fundo e forço um sorriso.

—Que tal nos encontramos depois? Eu te pago uma cerveja.

—São nove da manhã.

—Na China são oito da noite.

Ela sorri e balança a cabeça.

—Você tem uma hora.

Concordo e nos despedimos. É melhor eu me apressar. Termino minha bebida, coloco comida para o gato e me visto. Com cuidado, pego um mapa e o abro em cima da mesa. O acidente havia acontecido na rua principal. Eu e minha família estávamos voltando da casa de praia quando um carro desgovernado nos atingiu e atirou o nosso veículo para fora da estrada. Três dias depois, quando acordei no hospital, já não havia mais nada a ser feito. Não havia nem mesmo culpado, pois o maldito que roubou o carro e perdeu o controle também morreu no impacto. Eu fui tudo oque restou.

E por três meses não passei disso: o resto de um homem. O resto de um pai e de um marido. Meu amor me rasgava o peito, não tendo para onde ir. Procurava calor,mas só encontrava um quarto frio com os brinquedos ainda no chão e um armário com vestidos que nunca mais seriam usados, ainda com perfume.

Então conheci Fábio. Ele também havia perdido a esposa e nós imediatamente nos demos bem. Foi durante uma de nossas idas ao bar que ele primeiro me falou sobre o seu trabalho e a limitação da percepção humana.

—A Teoria de Einstein, por exemplo, afirma que existem pelo menos quatro dimensões, sendo o Tempo uma delas. Outros cientistas dizem que há onze. Nosso cérebro comanda nossa realidade, mas ele capta apenas 1/3 do que realmente está lá fora. Somos como o caso da pessoa que sofre um acidente e começa a ignorar metade do mundo. Ela passa a comer metade da comida, a notar metade do quarto e até desenhar relógios de 12 a 6. Ela perde metade da própria existência e achoque você entende tão bem quanto eu como é isso. E é através dessa conjectura que estou desenvolvendo uma máquina que vai nos ajudar a recuperar o que perdemos, Thiago. Uma que aumenta a nossa percepção e nos possibilita ir além das concepções de tempo e espaço, como se estivéssemos atravessando a rua. Entendeu caralho? Eu estou fazendo uma maldita máquina do tempo.

E ele havia conseguido. Demorou, mas Fábio criou o tal dispositivo no mesmo apartamento em que agora eu morava. Só que a vida, nós dois sabíamos, cobrava um preço alto para grandes conquistas. Dois meses depois eu enterrei meu amigo,vítima de câncer, antes que ele pudesse testar sua invenção. Então coube a mima honra. Ele me deixou o presente de uma segunda chance e eu não iria desperdiçá-lo.

Terminei de arrumar tudo, só faltou colocar o pequeno dispositivo na cabeça e apertar o botão. Os dados já estavam no computador e quando chegasse lá, eu só precisaria pegar um táxi e ir para o lugar do acidente. Pararia o ladrão e salvaria Bia e Tereza. Depois? As realidades se ajeitariam e resultariam em algo novo, algo onde minha família estivesse viva. Ou essa era a teoria.

Olho para o gato me encarando do balcão.

—Eu voltarei. — E aperto o botão.

É como se a realidade se fechasse sobre mim e depois me cuspisse. Atordoado, me vejo em um apartamento igual ao que parti, mas de algum jeito diferente. Cambaleio e olho para o relógio. Tenho uma hora. Escondo o dispositivo embaixo do piso,desço as escadas e dou de cara com um engarrafamento que não deveria existir. Franzo o cenho, um táxi não iria chegar a tempo. Então começo a correr. Passo pelos bairros e pessoas, as empurrando até chegar na estrada para a praia. Sem fôlego e desesperado, olho ao redor. Três minutos.

Me aproximo de um homem que saia para comprar comida e entro em seu carro. As chaves estão lá. Sem pensar, ligo o motor e roubo o automóvel, seguindo para a rua principal. Somente quando viro para a esquerda que percebo meu erro. Estava indo rápido demais. Os pneus não aderem e giro desgovernado em direção a outro carro.

Tenho apenas alguns segundos para reconhecer os rostos horrorizados das pessoas lá dentro antes de ver o automóvel ser jogado para fora da estrada. Esse é o problema das estrelas, elas já estão mortas. E esse é o problema com o tempo,só temos noção dele quando é tarde demais.

Então minha cara é amassada contra o volante e tudo fica escuro.

Sinopse

Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

A verdade é que nunca temos controle sobre as coisas que acontecem conosco. Tentar alterar o destino pode ser não ser a melhor saída.

Prólogo

Epílogo

Conto

A praia ficou mais fria com o cair da noite.

— Papai, por que as estrelas morrem?

Solto um suspiro cansado e cubro os ombros de Bia comum lençol.

— Esse é o problema, querida, elas não morrem —murmuro, seguindo seu olhar para o céu. — Elas já estão mortas.

 

O sonho me deixa com um gosto amargo na boca no instante em que acordo. Encaro o teto sujo e passo a mão no rosto, sentindo a barba pinicar de maneira desconfortável. Noto a fotografia amassada em cima do peito e a levo na altura dos olhos. Uma manhã na praia. Uma lembrança, não um sonho.

Levanto-me e estico os músculos, passando pelo chão coberto de papéis para o banheiro. Ao escovar os dentes, observo as anotações escritas em post-its no espelho. Pego um deles e volto para a sala, prendendo-ono quadro geral. Então me afasto, observando o resultado.  Rabiscos de um lunático para qualquer um, mas adádiva de um gênio para mim.

Pego uma caneca abandonada em cima da mesa e me certifico de que está vazia antes de colocar o uísque barato que comprei na venda do andar debaixo. Então volto a encarar os anagramas.

—Saúde, Fábio, onde quer que esteja. É hoje.

Ao meu lado, o calendário amassado está com o dia 31 de março marcado com uma caneta vermelha. O aniversário de um ano do acidente. Tempo demais para ter ficado sem elas. Tomo um gole e respiro fundo, voltando a ler as anotações nas paredes. Havia regras para o que pretendia fazer, Fábio havia deixado isso claro. Eu tinha que ser preciso.

Uma batida na porta, no entanto, me rouba a atenção. Quem quer que seja já devia estar batendo há algum tempo, pois acordou o gato e agora o felino fita o hall de entrada em expectativa. Me arrasto até lá e empurro o animal para trás, abro a porta e encaro a mulher a minha frente.

—Carla.

—Thiago.

Miaaau. — Ela olha para o gato e solta um suspiro cansado, erguendo uma sacola.

—Ele está com fome. Te conhecendo, você também, então trouxe comida. Posso entrar?

Espio a bagunça por cima do ombro e faço que não.

—Estou ocupado.

—Com o quê?

—Limpeza. Por que esse interrogatório? Achei que tinha dito que eu precisava ser mais ativo e retomar o controle da minha vida.

—Sim, mas...

—Bem, estou fazendo exatamente isso, então apreciaria se me deixasse em paz.

Os ombros dela murcham e eu imediatamente me arrependo. Carla não merece ouvir aquelas coisas.

—Desculpe, mas não é um bom momento.

—.... Eu não queria lhe deixar sozinho hoje.

—Hoje é só mais um dia.

—Não, é o dia em que você vai se culpar pelo o que houve. É o dia em que os minutos se tornam semanas. As horas, meses. E a ausência e tempo vão te esmagando aos poucos.

—Eu estou bem.

—É o aniversário de morte de sua filha e esposa, é obvio que não está.

Um silêncio pesa entre nós dois. Claro que eu não consigo enganá-la, a dor deperder a irmã e a sobrinha eram reflexos da minha própria. Respiro fundo e forço um sorriso.

—Que tal nos encontramos depois? Eu te pago uma cerveja.

—São nove da manhã.

—Na China são oito da noite.

Ela sorri e balança a cabeça.

—Você tem uma hora.

Concordo e nos despedimos. É melhor eu me apressar. Termino minha bebida, coloco comida para o gato e me visto. Com cuidado, pego um mapa e o abro em cima da mesa. O acidente havia acontecido na rua principal. Eu e minha família estávamos voltando da casa de praia quando um carro desgovernado nos atingiu e atirou o nosso veículo para fora da estrada. Três dias depois, quando acordei no hospital, já não havia mais nada a ser feito. Não havia nem mesmo culpado, pois o maldito que roubou o carro e perdeu o controle também morreu no impacto. Eu fui tudo oque restou.

E por três meses não passei disso: o resto de um homem. O resto de um pai e de um marido. Meu amor me rasgava o peito, não tendo para onde ir. Procurava calor,mas só encontrava um quarto frio com os brinquedos ainda no chão e um armário com vestidos que nunca mais seriam usados, ainda com perfume.

Então conheci Fábio. Ele também havia perdido a esposa e nós imediatamente nos demos bem. Foi durante uma de nossas idas ao bar que ele primeiro me falou sobre o seu trabalho e a limitação da percepção humana.

—A Teoria de Einstein, por exemplo, afirma que existem pelo menos quatro dimensões, sendo o Tempo uma delas. Outros cientistas dizem que há onze. Nosso cérebro comanda nossa realidade, mas ele capta apenas 1/3 do que realmente está lá fora. Somos como o caso da pessoa que sofre um acidente e começa a ignorar metade do mundo. Ela passa a comer metade da comida, a notar metade do quarto e até desenhar relógios de 12 a 6. Ela perde metade da própria existência e achoque você entende tão bem quanto eu como é isso. E é através dessa conjectura que estou desenvolvendo uma máquina que vai nos ajudar a recuperar o que perdemos, Thiago. Uma que aumenta a nossa percepção e nos possibilita ir além das concepções de tempo e espaço, como se estivéssemos atravessando a rua. Entendeu caralho? Eu estou fazendo uma maldita máquina do tempo.

E ele havia conseguido. Demorou, mas Fábio criou o tal dispositivo no mesmo apartamento em que agora eu morava. Só que a vida, nós dois sabíamos, cobrava um preço alto para grandes conquistas. Dois meses depois eu enterrei meu amigo,vítima de câncer, antes que ele pudesse testar sua invenção. Então coube a mima honra. Ele me deixou o presente de uma segunda chance e eu não iria desperdiçá-lo.

Terminei de arrumar tudo, só faltou colocar o pequeno dispositivo na cabeça e apertar o botão. Os dados já estavam no computador e quando chegasse lá, eu só precisaria pegar um táxi e ir para o lugar do acidente. Pararia o ladrão e salvaria Bia e Tereza. Depois? As realidades se ajeitariam e resultariam em algo novo, algo onde minha família estivesse viva. Ou essa era a teoria.

Olho para o gato me encarando do balcão.

—Eu voltarei. — E aperto o botão.

É como se a realidade se fechasse sobre mim e depois me cuspisse. Atordoado, me vejo em um apartamento igual ao que parti, mas de algum jeito diferente. Cambaleio e olho para o relógio. Tenho uma hora. Escondo o dispositivo embaixo do piso,desço as escadas e dou de cara com um engarrafamento que não deveria existir. Franzo o cenho, um táxi não iria chegar a tempo. Então começo a correr. Passo pelos bairros e pessoas, as empurrando até chegar na estrada para a praia. Sem fôlego e desesperado, olho ao redor. Três minutos.

Me aproximo de um homem que saia para comprar comida e entro em seu carro. As chaves estão lá. Sem pensar, ligo o motor e roubo o automóvel, seguindo para a rua principal. Somente quando viro para a esquerda que percebo meu erro. Estava indo rápido demais. Os pneus não aderem e giro desgovernado em direção a outro carro.

Tenho apenas alguns segundos para reconhecer os rostos horrorizados das pessoas lá dentro antes de ver o automóvel ser jogado para fora da estrada. Esse é o problema das estrelas, elas já estão mortas. E esse é o problema com o tempo,só temos noção dele quando é tarde demais.

Então minha cara é amassada contra o volante e tudo fica escuro.

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