Estocolmo

Suspense
Começou, agora termina queride!

Conquista Literária
Conto publicado em

Prólogo

Epílogo

Conto

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Você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo.

Lígia Fagundes Teles, Venha ver o pôr-do-sol.

Enquanto era posta no pequeno aposento enfeitado que lhe serviria de cárcere, Maxxine ficava pensando no que deixara passar até chegar àquela situação.

É certo que Solano, seu sequestrador, já havia deixado pistas do que faria, então a questão era prestar atenção aos detalhes, que ela revia agora, depois dele haver trancado a porta de aço reforçado.

Duas semanas atrás, ela era aquilo que poderia ser definido como influenciadora. Era chamada para todas as festas e eventos sociais, e as demais meninas se dividiam em três grupos: aquelas que gostariam de estar com ela, as que não gostavam dela e as que queriam ser ela.

Todos os rapazes a olhavam e a desejavam, mas ela não namorava nenhum. Insinuava-se para um ou outro, que fosse de seu agrado, e conseguindo algum favor para algo que precisasse, os deixava a ver navios. Até mesmo os professores. Ela considerava todos como um exercício de futilidade, ansiava por objetivos maiores.

Solano era um gênio. Sempre obtivera as melhores notas de toda a escola, desde o ensino fundamental. Os professores sabiam, por unanimidade, que ele conseguiria algo grandioso no futuro, contudo, era tímido ao extremo e por isso passava despercebido, principalmente por sua paixão platônica.

Maxxine passava por ele sem uma palavra.  Ele, sempre solitário. Ela, rodeada por suas seguidoras.

Sentavam lado a lado, mas não conversavam, a não ser que um professor ordenasse. E quando isso acontecia, ele sentia-se a pior das pessoas e escrevia em sua carteira para extravasar, para desabafar.  Assim como ela, com fúria.

E ninguém nunca reparou no que estava escrito lá.

Na semana da formatura, Maxxine estava mais atarefada que nunca, indicando modelos de roupas e de parceiros para o baile.

Solano, que morava com a avó desde a morte dos pais e, mais tarde, do suicídio do avô esquizofrênico, conseguira um trabalho à noite em uma rede de lanchonetes, para ajudar com as despesas de casa.

No dia do sequestro (que também fora o dia da formatura), tudo parecia perfeito para ambos.

Maxxine foi levada ao baile pelo capitão do time de futebol. Estava radiante.

A avó de Solano combinou um jogo de baralho na casa de uma das amigas, o que durava horas a fio. Devido a uma crise alérgica conveniente, o neto saiu mais cedo do trabalho.

Conforme todos imaginavam, Maxxine foi a rainha do baile. Ao final da formatura, contudo, o pneu do carro do par dela furou e Maxxine teve de ir embora com um motorista de aplicativo.

Chegando em casa, não entrou.

Ficou na varanda, como se aguardasse.

Como se soubesse.

Em seu quarto, atrás da porta, Solano esperava.

Foi relativamente rápido. Quantas vezes ele planejou, ensaiou e calculou possíveis falhas?

Tudo fora cronometrado.

Para desacordá-la, necessitou apenas de um lenço e clorofórmio.

Maxxine era leve, mesmo para Solano.

A família dela dormia, não imaginando o que acontecia.

O velho cão dormia.

Solano havia garantido que nenhum deles lhe atrapalharia ao colocar sonífero na água do cão. Por sorte, ou conspiração do acaso, a família de Maxxine pedira um lanche onde Solano trabalhava. Para o dono da lanchonete foi bem cômodo o empregado levar o lanche enquanto se encaminhava ao hospital.

A maneira como conseguiu levá-la foi realmente criativa: o próprio carro da família.

Como moravam próximos, a apenas alguns minutos de carro, foi fácil para ele ir e voltar com o carro dos pais dela e não levantar suspeitas.

A avó do rapaz não havia chegado, conforme planejara.

No assoalho do quarto dele havia um fundo falso que levava a um porão desativado, presente de seu avô. Ao final das escadas, havia uma porta de aço, atrás da porta, um quarto que o avô, paranoico com iminentes guerras nucleares, construíra. Um bunker. Solano decorou, arrumou, organizou, e, finalmente, colocou Maxxine lá.

Deveria ser ágil, o sonífero perderia seu efeito e poderiam ouvir o som dele chegando.

Então, enquanto ele fechava a porta de aço, Maxxine despertava de seu sono. Ao descobrir onde estava (uma cópia exata de seu quarto) ela pensou se não havia deixado escapar nenhum detalhe em seu plano.

Entretanto, apenas o fato de ela estar ali já era prova suficiente do seu sucesso. Se Solano tivesse aberto seu guarda-roupas momentos antes de sequestrá-la, era provável que tudo fosse posto a perder. Afinal, ele veria as fotos que Maxxine tirou dele, as anotações, os corações desenhados em seu rosto, todas as datas e detalhes de sua vida.

O plano dela fora pensado por anos.

Maxxine sabia que ao fim do Ensino Médio não seria mais a rainha, não teria mais seguidoras (uma vez que todas teriam uma vida livre da dela), não seria a mais desejada (o mundo oferecia mais opções). E acabaria trabalhando em algum subemprego ou se casando com algum dos piores alunos, talvez até o capitão do time de futebol, que não era nenhum gênio.

Então, veio o plano.

Solano era um gênio. Mais cedo ou mais tarde, conseguiria um cargo em uma megacorporação qualquer. Ela o amava desde o primário, mas nunca teve coragem de se declarar. Ou melhor, de assumir.

Como ela conseguia tudo o que queria na escola, teve acesso às fichas e relatórios relacionados a Solano. Ela sabia que os pais dele morreram em um acidente de carro envolvendo um veículo militar, o que deixou a avô dele com delírios de teorias de conspiração, até não mais aguentar e suicidar-se.

E sabia o impacto que todas essas tragédias tiveram na mente do já tímido Solano.

Então, como fazê-lo se apaixonar por alguém tão fútil quanto ela? Simples, deixando migalhas de afeto aqui e ali e pistas do que deveria fazer.

Um olhar no corredor. Uma foto do quarto caída como se fosse distração.

Mensagens como “às vezes me dá vontade de sumir” riscadas na carteira.

Isso sem contar nas pistas. Uma conversa conveniente explicando onde a chave de casa estaria escondida.

Na mente de Maxxine, ali, naquele belo e decorado bunker, ela estaria segura do mundo.

Afinal, Solano era seu prisioneiro.

Ela lhe sequestrara os sentimentos e a própria sanidade há anos. Mesmo não entendendo, ele estava para sempre entrelaçado àquela mulher, psicologicamente, fisicamente, emocionalmente e, com o tempo, sexualmente.

Maxxine, mesmo presa, era a sequestradora. Sequestrara a vida de Solano sem resgate.

Tranquila e feliz, deitou-se e foi ouvir sua música preferida.

Palma, palma... Logo os contos desta obra serão selecionados e aparecerão aqui.

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Lígia Fagundes Teles, Venha ver o pôr-do-sol.

Enquanto era posta no pequeno aposento enfeitado que lhe serviria de cárcere, Maxxine ficava pensando no que deixara passar até chegar àquela situação.

É certo que Solano, seu sequestrador, já havia deixado pistas do que faria, então a questão era prestar atenção aos detalhes, que ela revia agora, depois dele haver trancado a porta de aço reforçado.

Duas semanas atrás, ela era aquilo que poderia ser definido como influenciadora. Era chamada para todas as festas e eventos sociais, e as demais meninas se dividiam em três grupos: aquelas que gostariam de estar com ela, as que não gostavam dela e as que queriam ser ela.

Todos os rapazes a olhavam e a desejavam, mas ela não namorava nenhum. Insinuava-se para um ou outro, que fosse de seu agrado, e conseguindo algum favor para algo que precisasse, os deixava a ver navios. Até mesmo os professores. Ela considerava todos como um exercício de futilidade, ansiava por objetivos maiores.

Solano era um gênio. Sempre obtivera as melhores notas de toda a escola, desde o ensino fundamental. Os professores sabiam, por unanimidade, que ele conseguiria algo grandioso no futuro, contudo, era tímido ao extremo e por isso passava despercebido, principalmente por sua paixão platônica.

Maxxine passava por ele sem uma palavra.  Ele, sempre solitário. Ela, rodeada por suas seguidoras.

Sentavam lado a lado, mas não conversavam, a não ser que um professor ordenasse. E quando isso acontecia, ele sentia-se a pior das pessoas e escrevia em sua carteira para extravasar, para desabafar.  Assim como ela, com fúria.

E ninguém nunca reparou no que estava escrito lá.

Na semana da formatura, Maxxine estava mais atarefada que nunca, indicando modelos de roupas e de parceiros para o baile.

Solano, que morava com a avó desde a morte dos pais e, mais tarde, do suicídio do avô esquizofrênico, conseguira um trabalho à noite em uma rede de lanchonetes, para ajudar com as despesas de casa.

No dia do sequestro (que também fora o dia da formatura), tudo parecia perfeito para ambos.

Maxxine foi levada ao baile pelo capitão do time de futebol. Estava radiante.

A avó de Solano combinou um jogo de baralho na casa de uma das amigas, o que durava horas a fio. Devido a uma crise alérgica conveniente, o neto saiu mais cedo do trabalho.

Conforme todos imaginavam, Maxxine foi a rainha do baile. Ao final da formatura, contudo, o pneu do carro do par dela furou e Maxxine teve de ir embora com um motorista de aplicativo.

Chegando em casa, não entrou.

Ficou na varanda, como se aguardasse.

Como se soubesse.

Em seu quarto, atrás da porta, Solano esperava.

Foi relativamente rápido. Quantas vezes ele planejou, ensaiou e calculou possíveis falhas?

Tudo fora cronometrado.

Para desacordá-la, necessitou apenas de um lenço e clorofórmio.

Maxxine era leve, mesmo para Solano.

A família dela dormia, não imaginando o que acontecia.

O velho cão dormia.

Solano havia garantido que nenhum deles lhe atrapalharia ao colocar sonífero na água do cão. Por sorte, ou conspiração do acaso, a família de Maxxine pedira um lanche onde Solano trabalhava. Para o dono da lanchonete foi bem cômodo o empregado levar o lanche enquanto se encaminhava ao hospital.

A maneira como conseguiu levá-la foi realmente criativa: o próprio carro da família.

Como moravam próximos, a apenas alguns minutos de carro, foi fácil para ele ir e voltar com o carro dos pais dela e não levantar suspeitas.

A avó do rapaz não havia chegado, conforme planejara.

No assoalho do quarto dele havia um fundo falso que levava a um porão desativado, presente de seu avô. Ao final das escadas, havia uma porta de aço, atrás da porta, um quarto que o avô, paranoico com iminentes guerras nucleares, construíra. Um bunker. Solano decorou, arrumou, organizou, e, finalmente, colocou Maxxine lá.

Deveria ser ágil, o sonífero perderia seu efeito e poderiam ouvir o som dele chegando.

Então, enquanto ele fechava a porta de aço, Maxxine despertava de seu sono. Ao descobrir onde estava (uma cópia exata de seu quarto) ela pensou se não havia deixado escapar nenhum detalhe em seu plano.

Entretanto, apenas o fato de ela estar ali já era prova suficiente do seu sucesso. Se Solano tivesse aberto seu guarda-roupas momentos antes de sequestrá-la, era provável que tudo fosse posto a perder. Afinal, ele veria as fotos que Maxxine tirou dele, as anotações, os corações desenhados em seu rosto, todas as datas e detalhes de sua vida.

O plano dela fora pensado por anos.

Maxxine sabia que ao fim do Ensino Médio não seria mais a rainha, não teria mais seguidoras (uma vez que todas teriam uma vida livre da dela), não seria a mais desejada (o mundo oferecia mais opções). E acabaria trabalhando em algum subemprego ou se casando com algum dos piores alunos, talvez até o capitão do time de futebol, que não era nenhum gênio.

Então, veio o plano.

Solano era um gênio. Mais cedo ou mais tarde, conseguiria um cargo em uma megacorporação qualquer. Ela o amava desde o primário, mas nunca teve coragem de se declarar. Ou melhor, de assumir.

Como ela conseguia tudo o que queria na escola, teve acesso às fichas e relatórios relacionados a Solano. Ela sabia que os pais dele morreram em um acidente de carro envolvendo um veículo militar, o que deixou a avô dele com delírios de teorias de conspiração, até não mais aguentar e suicidar-se.

E sabia o impacto que todas essas tragédias tiveram na mente do já tímido Solano.

Então, como fazê-lo se apaixonar por alguém tão fútil quanto ela? Simples, deixando migalhas de afeto aqui e ali e pistas do que deveria fazer.

Um olhar no corredor. Uma foto do quarto caída como se fosse distração.

Mensagens como “às vezes me dá vontade de sumir” riscadas na carteira.

Isso sem contar nas pistas. Uma conversa conveniente explicando onde a chave de casa estaria escondida.

Na mente de Maxxine, ali, naquele belo e decorado bunker, ela estaria segura do mundo.

Afinal, Solano era seu prisioneiro.

Ela lhe sequestrara os sentimentos e a própria sanidade há anos. Mesmo não entendendo, ele estava para sempre entrelaçado àquela mulher, psicologicamente, fisicamente, emocionalmente e, com o tempo, sexualmente.

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