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Esse é Você?
Áudio drama
Esse é Você?
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

— Por todas as deusas! Esse é você? — Tatya ria, olhando para uma foto minha. 

Na imagem em questão, eu tinha mais ou menos um ano de idade, e a única coisa que estava vestindo era um escorredor de macarrão na cabeça. Joguei algumas batatas fritas na boca enquanto folheava o álbum de fotos de Kareyn e me divertia com o fato de que, embora minha amiga tivesse crescido, o olhar sério e analítico, que é sua marca registrada, já estava ali desde a infância. Em uma das fotos, ela posava com trancinhas cheias de elásticos coloridos, usando seus óculos e segurando um livro com leões e outros animais da savana na capa. Fenrir, o husky siberiano que Tatya tinha como familiar, subiu no sofá e deitou a cabeça no meu colo, ocultando as fotos enquanto eu lhe fazia carinho.

— Por que não temos um álbum seu aqui, Tatya? — Kareyn perguntou, depois de rir da minha foto.

Era uma noite calma, então aproveitamos para nos reunir na casa de Kareyn como gostávamos de fazer. Comer frituras, beber vinho e conversar. Coisas simples e que, às vezes, eram negligenciadas em meio à correria constante imposta pelos compromissos do dia a dia. Nos últimos meses, eu havia feito questão de que fizéssemos isso tanto quanto possível.

Kareyn era dona de uma livraria no centro da cidade e morava na parte de cima da antiga construção, um apartamento histórico espaçoso. Ao fim do expediente, eu costumava ajudá-la a organizar a loja e quase sempre ficava para jantar. Já éramos amigos há pelo menos dez anos.

— Bem, meus tios não se deram o trabalho de tirar muitas fotos minhas na infância, ou em qualquer outra fase da vida, na verdade — Tatya disse, dando de ombros.

— Então, acho que é meu dever moral tomar atitude para que isso mude. Kah, me empresta seu celular? — pedi, sorrindo. Peguei o aparelho e tirei uma foto de uma Tatya, surpresa com o flash e com o rosto sujo de ketchup.

Tatya e eu nos conhecíamos há mais de cinco anos. Ela sempre fez o tipo durona: roupas escuras, jaquetas de couro, cabelos curtíssimos para economizar tempo e não atrapalhar nas batalhas... Porém, isso se tornava compreensível quando se sabia as dificuldades que ela teve de encarar.

Tatya havia sido criada pelos tios, e infelizmente não era algo que tenham feito de bom grado. Adicione isso ao fato de ela ter descoberto durante a adolescência que era uma bruxa, que seus pais morreram lutando contra demônios, e que, assim que soubessem dos seus poderes, esses demônios também a caçariam. Obviamente, um certo grau de dureza se tornaria necessário. Ao contrário de muitas bruxas que conheci, Tatya era muito menos ervas e conexão espiritual e mais telecinese e porrada até os inimigos virarem pó. Eu jamais ousaria reclamar disso.

Juntos, nós três nos completávamos, tanto como amigos — ou por que não família? — quanto como parceiros de batalha. Kareyn e seu acervo bibliográfico imenso, juntamente com sua memória quase fotográfica, nos dava o suporte necessário para saber contra o que lutávamos, enquanto Tatya usava suas técnicas de combate e poderes para aniquilar quaisquer criaturas das trevas que se esgueirassem pelos becos da cidade. Era uma pena que eu não fosse estar por ali muito mais tempo.

A imagem de minhas amigas sobre mim, desesperadas, os sons se tornando mais fracos, chuva, relâmpagos... Eu sabia que minha morte estava cada vez mais próxima. Era como sentir o cheiro da tempestade antes de ela chegar. Eu podia não saber exatamente o dia, mas meus pesadelos eram nítidos.

Afastei o pensamento nefasto tentando focar no momento precioso que estávamos tendo. O plano era viver cada dia como se pudesse ser o último, ciente de que mais cedo, antes do que mais tarde, eu estaria correto. Depois de provocar as garotas ao tentar fotografá-las espontaneamente, pedi:

— Vamos tirar uma foto juntos.

Eu disse, já procurando uma posição onde nós três e Fenrir ficássemos bem enquadrados.

Cliquei duas vezes na tela e senti um zunido em minhas orelhas. Joguei o celular no sofá para que não caísse no chão, e me ajoelhei no tapete, segurando os lados de minha cabeça com as mãos ao sentir a dor pulsante e familiar. Nos segundos seguintes, minha mente foi invadida por imagens e sensações rápidas e difusas. A sala de uma casa, velas no chão, uma mulher morta, um cemitério, uma criatura esquelética em mantos rotos, areia, uma jovem de cabelos escuros correndo perigo.

Voltei a mim com Kareyn me abraçando pelas costas, prevenindo-se para que eu não me machucasse caindo contra a mesa de centro ou algo do gênero. Respirei fundo. As visões não costumavam doer tanto assim. Aquela havia sido diferente, mais difícil. Como se os poderes por trás do envio de tais mensagens cósmicas tivessem precisado se esforçar para que eu recebesse essa.

— Callisto, tá tudo bem? O que você viu? — Tatya inquiriu, enquanto me levantava do chão e me ajudava a sentar.

Claro que eu também tinha um papel fundamental no grupo. Eu era o alerta que soava quando havia demônios vindo ou quando pessoas inocentes precisavam ser protegidas. Pode parecer glamoroso falando assim, mas a verdade era simples: eu era o cara das visões.

***

Kareyn e eu entramos em uma sala de estar, que cheirava agradavelmente a incenso. Minhas visões haviam nos obrigado a nos dividir. O demônio que vira estava prestes a atacar uma jovem no cemitério, então Tatya iria lutar contra a criatura e salvar sua vítima em potencial. Enquanto isso, Kareyn e eu investigaríamos o ritual que provavelmente havia trazido aquela coisa de qualquer inferno que ela tivesse saído.

Eu havia tido minhas primeiras visões aos 24 anos de idade, depois de minha mãe ter falecido. Eu nunca soube se ela as havia tido também e estas haviam passado para mim depois de sua morte, ou se o momento em que isso aconteceu havia sido apenas acaso. A segunda opção era mais provável. Me levou algum tempo para compreender o que eram aquelas imagens invadindo minha cabeça, mas, a partir do momento que entendi o valor de tais visões e o que elas significavam, minha vida ganhou sentido. Depois de perder minha mãe, era o que eu mais precisava.

Ajudar pessoas a encontrarem seu caminho. Protegê-las de perigos, os quais a maioria das vezes elas nem mesmo sabiam correr. Ser o guia de guerreiros que caminhavam pela selva de pedra que era esta cidade, sem saber a quem recorrer, e constantemente duvidando de seu propósito ao travar uma guerra tão velha quanto a nossa própria existência como mortais. A guerra para reivindicar a terra como nossa, protegendo-a de demônios e outros seres de planos obscuros. Essa era minha missão, meu papel, minha identidade. Todas as peças se encaixaram quando, depois de um ano com as visões, elas me guiaram até Tatya. Quando Kareyn, Tatya e eu estivemos juntos pela primeira vez, foi um daqueles momentos no qual você sabe que sua vida mudou para sempre e que aquelas pessoas estarão ali, passando por aquilo junto com você, até o último suspiro.

Depois de anos entrando nos mais diversos becos da cidade por conta de minhas visões, era fácil me localizar. Eu e Kareyn estávamos em um bairro nobre. Entramos cuidadosamente pelos fundos da casa, tentando não chamar qualquer atenção. A porta estar aberta não era um bom sinal. Lá dentro, atravessamos a cozinha e seguimos até a sala de estar que eu enxergara em minha visão. A sala era espaçosa, tinha quadros na parede e objetos de decoração caros. Grossas velas negras jaziam apagadas em um círculo feito sobre o chão de madeira escura, e ao lado delas o corpo de uma jovem mulher repousava em uma poça de sangue que parecia ter sido vertido do corte em sua garganta.

Olhei em volta e localizei uma carteira feminina sobre uma mesinha. Enquanto a abria procurando documentos que identificassem a mulher no chão, Kareyn chamou minha atenção.

— Os retratos... — disse, segurando uma pequena moldura e depois apontando para algumas maiores na parede.

Nenhuma das fotos retratava a vítima, mas a estranheza de sua ausência se tornava evidente quando reparei nas poses. Nas fotos em grupo, um vazio era notado, como se alguém tivesse sido apagado, mas os limites do espaço ocupado por sua ausência tivessem sido mantidos. Peguei uma carteira de motorista e uma identidade em uma das divisórias, ambas sem fotos e informações do dono.

— Alguma coisa apagou ela... literalmente. — Apontei. Humor era um mecanismo de defesa aceitável diante das coisas que víamos ao lidar com o mundo sobrenatural, e Kareyn tentou disfarçar o riso com uma tossida enquanto olhava embaixo das estantes. — Algum palpite do porquê?

— Ela claramente invocou algo. Talvez não soubesse o que estava fazendo — Kareyn palpitou, levantando-se do chão com um livro que recuperou nas mãos. — Você conseguiria falar com ela?

Algumas vezes, fazendo um pouco de esforço e contando com a boa vontade do espírito em questão, eu conseguia me comunicar com os mortos. Pessoas comuns às vezes podiam ver espíritos, mas eram incapazes de compreender o que eles diziam. Talvez como extensão de minha vidência, eu fosse capaz de fazer os dois quando em condições favoráveis.

— Eu posso tentar. — Optei por usar um encanto que uma amiga bruxa havia criado para mim há alguns anos atrás. Se funcionasse, Kareyn poderia ver e ouvir o fantasma como se tivesse meus poderes. Afinal, seria rude e um desperdício de suas capacidades de observação ter essa conversa sem que ela pudesse analisá-la. — “Hecate triformis, Caronte e Proserpinae. Miserat habitator, sie animus tuus sum. Et nomen Callisto participes tui scientia occulta, cum magis dicere.”

A fraca iluminação da sala piscou, e, diante de nós, uma imagem translúcida pairou sobre o corpo, idêntica a ele, mas sem as feridas. Uma mulher branca e de olhos claros, cabelos loiros até os ombros e com uma aparência corporativa, realçada pelo terno que vestia, nos encarava, parecendo furiosa.

— Ei, eu sinto muito incomodar sua morte, mas quem é você e o que te atacou? — perguntei sem querer perder tempo.

— Vocês estão em minha casa sem saber quem sou?

— Você não deixou muitas pistas, dona! — Dei de ombros, apontando para os retratos.

— O maldito me apagou! — vociferou o fantasma. — Meu nome é Helen Sarcciani.

— O maldito é o nome científico desse demônio ou tem algo mais específico para que a Kah não precise passar a semana toda pesquisando? — A coisa sobre falar com os mortos era não deixar eles se empolgarem, do contrário coisas voavam e a conversa perdia o sentido rapidamente.

— Mnevulchi. O devorador de histórias. Eu o invoquei, mas algo deve ter saído errado...

— Para quê? — questionei.

— Mnevulchi tem o poder de apagar a existência e destruir todos os registros da memória de alguém. Eu o conjurei para acabar com a minha ex-namorada — revelou.

— Uau, Helen. Invocar demônios não parece uma atitude um pouco extrema para lidar com um término ruim? — permiti-me perguntar.

— Calli, olha!

No instante em que disse o nome de Helen, sua imagem começou a retornar aos retratos.

— Você é um vidente...! — O rosto do espectro pareceu se iluminar com compreensão. — Olhos azuis, cabelos escuros... Você é o tal Callisto.

Não era anormal espíritos me conhecerem, mas algo na maneira que Helen pronunciou meu nome fez minha espinha gelar.

— Seu tempo está acabando, garoto.... Você irritou muita gente que conheci. A sua sorte é que depois de morrer não irá para o mesmo lugar que eu. Eu consigo ver a marca da morte o envolvendo. Você vai sentir muita dor, e mais ainda sentirão aqueles à sua volta! Nada po...

Eu cortei o discurso de Helen, retirando minha concentração do encanto, mas o estrago já estava feito.

— Então, algo útil? O que você conseguiu? — perguntei, evitando dar espaço para que Kareyn me interrogasse.

— Ela usou o ritual desse livro para invocar o Mnevulchi; na livraria poderei pesquisar mais a fundo. Eu aposto um Macbeth primeira edição que a garota que Tatya foi salvar no cemitério é uma vidente. A Barbie executiva translúcida aqui pareceu perceber que você era um depois que a imagem dela voltou aos retratos quando você a chamou pelo nome, então, provavelmente o que quer que esse demônio faça, videntes são capazes de desfazer — disse num tom rápido e profissional. — Agora, do que diabos ela estava falando, Callisto? O que ela quis dizer com a marca da morte?

***

— Lembram daquela bruxa que derrotamos há uns seis meses? Kalliandre? — perguntei, encarando minhas amigas na sala apertada do apartamento de Tatya.

Ao sair da casa de Helen, pedi a Kareyn que esperasse estarmos os três juntos para que eu pudesse contar o que estava havendo. Ela aceitou, e nos dirigimos tão rápido quanto possível para a casa de Tatya. Nossa bruxa havia salvo a garota, e, como o cemitério era perto de sua casa, a levara até ali para descansar. Enquanto a jovem dormia vigiada por Fenrir, eu revelava o segredo que havia guardado nos últimos seis meses.

— Ela me amaldiçoou. Disse que minha punição seria testemunhar minha própria morte até que ela viesse a acontecer. Um jeito divertido de me torturar usando minhas premonições — expliquei.

— Você sabe disso há seis meses, Callisto?! E não nos disse nada? — Kareyn me questionou.

— Você não nos disse nada porque não é verdade, certo? Nós mudamos o resultado das suas visões o tempo todo, e você viu que não era motivo para se preocupar — Tatya tentou defender.

Eu fiquei em silêncio e olhei para o chão. Eu havia pensado na possibilidade, mas a verdade era que...

— Ou você não disse nada porque acha que não há o que possa ser feito e sua morte é inevitável — Kareyn pontuou.

— Você só pode estar brincando! Não é possível, Callisto! — Tatya estava lívida. — Não faz sentido! Se eu soubesse que estou prestes a morrer, eu iria querer fazer coisas.

— Como chamar suas melhores amigas para comer e olhar álbuns de fotos antigas? Talvez tirar algumas fotos novas? Ficar mais vezes para jantar, convidá-las para ver exposições de arte como na semana passada... Era isso? Você estava se despedindo de nós sem nos dar uma chance de lutar por você? — Kareyn perguntou.

Kareyn sempre tivera uma capacidade de observação impressionante. Tatya a encarava boquiaberta, finalmente entendendo as segundas intenções por trás das minhas atitudes nos últimos meses. Eu não queria morrer, mas sabia que tentar mudar meu destino levaria a dor às pessoas à minha volta. Kareyn e Tatya iriam me proteger ou morrer tentando, e eu não suportaria a possibilidade da segunda opção. Além disso, se eu tivesse dito algo antes elas desviariam todo seu tempo e energia para tentar mudar algo que estava predestinado. Pessoas inocentes iriam se ferir. Não era certo.

— Agora, me escutem, por favor. Nós sempre corremos riscos, podemos morrer em qualquer uma das situações que encaramos: bruxas, demônios, ex-namorados abusivos, atropelamentos. Eu vejo gente morrer frequentemente. Alguns podem ser salvos, outros não, mas o mais importante é que nós não deixamos essas mortes serem só um acontecimento sem sentido. Nós investigamos, e lutamos, e nos colocamos em perigo, fazemos sacrifícios, mas ajudamos pessoas e impedimos que essas tragédias se repitam. Quando eu morrer, é assim que eu quero que seja. Com significado, assim como eu vivi.

Eu não esperava me sentir mais leve, mas foi o que aconteceu. Verbalizar tudo aquilo me ajudou a entender melhor o que sentia. Kareyn e Tatya exalaram longamente, olhando uma para a outra depois de notar como haviam reagido da mesma maneira ao meu discurso. Sabiam quem eu era. Sabiam que eu havia tomado uma decisão.

— Quando vai acontecer? – Kareyn inqueriu.

— Eu não sei exatamente. Parte da maldição era ter de viver com essa incerteza todos os dias. Eu sei que vocês estarão lá, que vai estar chovendo e que não demorará muito.

— Eu vou até a livraria. Precisamos saber como acabar com o Mnevulchi. O livro de invocação que achamos na casa tem informações, mas não o suficiente — Kareyn declarou, se dando por vencida. — Fiquem aqui de olho na garota. E não morram.

Um raio iluminou a cidade atrás da janela, e uma chuva forte começou a cair ao som de um trovão. Kareyn desviou sua caminhada para a porta do apartamento e me abraçou, chorando. Em seguida, veio Tatya e ficamos os três ali, abraçados por um momento. Eu as amava mais do que tudo. A iminência de uma despedida era dolorosa, mas eu confiava que faríamos o melhor que éramos capazes de fazer com o que tínhamos.


***

Esse era o momento. Tudo que eu havia feito me levara até ali. Eu sentia em meu estômago que aqueles eram meus momentos finais. Eu não estava com medo. Eu cairia em batalha, como deveria ser. 

Tatya e eu ficamos em silêncio, lado a lado, depois que Kareyn voltou para a livraria. Eu sabia que ela estava decidida a não se render. Bem, eu não sei se agiria diferente se fosse uma das duas que estivesse com sua vida em contagem regressiva. Algum tempo depois, Cássia Fleurmont, a jovem que havia sido atacada pelo Mnevulch, se levantou. A garota não devia ter mais do que 16 anos de idade, olhos escuros e cabelos castanhos até os ombros. Ela me lembrava Tatya. A expressão em seu rosto ao me ver foi de surpresa.

Contou que havia sonhado comigo diversas vezes. Estivera no cemitério visitando o túmulo de seu pai, que havia morrido há alguns meses. Gostava de fazê-lo à noite, pois não se sentia bem com a possibilidade de que as pessoas a vissem chorar. Ela jamais havia visto demônios ou monstros, e a maioria de suas previsões se dava ao sonhar com coisas cotidianas. Exceto quando começou a sonhar comigo, seis meses atrás. Ela me via sob a chuva, batalhando ao lado de duas mulheres e um lobo, enfrentando uma criatura dantesca que deitava areia ao flutuar em nossa direção. Na noite de hoje, essa criatura a havia atacado e Tatya salvou sua vida. Agora, ela estava cara a cara comigo, o homem com o qual havia sonhado.

Fenrir rosnava ameaçadoramente para a criatura esquelética, aguardando a oportunidade para avançar. A chuva torrencial se despejava sobre nós, formando a cena que Cássia havia descrito. Em instantes, eu estaria morto. Segurei com força a espada em minhas mãos. Eu não era um guerreiro formidável, mas Tatya havia me ensinado o bastante. Estávamos na praça Angelus Mortem, uma grande praça construída havia décadas em torno da estátua de um anjo segurando uma foice. A escultura era um memorial homenageando todos que haviam dado suas vidas protegendo a cidade em tragédias. Policiais, bombeiros, soldados... Eu gostava de pensar que também valeria para mim.

Antes de irmos para a praça, Kareyn havia ligado para nos avisar que sua pesquisa fora produtiva. O Mnevulchi era um demônio poderoso que, se fosse propriamente invocado, serviria a seu mestre na destruição de uma pessoa, apagando memórias e registros de seus feitos, mas não as consequências destes. Era capaz de modificar a realidade, extirpando a jornada de alguém. Porém, Helen falhou ao tentar usar uma magia que não dominava, e encarávamos um Mnevulchi solto em nossa dimensão.

Como a maioria dos demônios, ele matava por diversão e era sedento por poder. O Mnevulchi odiava videntes, porque eles eram capazes de reverter os efeitos de seu poder, afinal, enxergavam fora do tempo e do espaço presente, resgatando nomes e memórias por ele apagados. Qualquer um abençoado com visões se tornava um guardião das memórias, neutralizando o poder da criatura, além de ser uma ameaça à sua existência.

Algumas culturas acreditam que, se a sua memória é apagada e ninguém mais lembrar de você após a morte, sua alma desaparecerá, tornando o fim definitivo. Kareyn descobriu uma sociedade secreta devotada a proteger a história e as memórias: Legatum Ponere. Eles cultuavam videntes e espalharam pelo mundo armas que serviriam para derrotar o Mnevulchi, caso ele se apresentasse. A família que representava os Legatum Ponere em nossa cidade era a Fleurmont.

Como sempre, havia um ritual, encantamento ou qualquer coisa do tipo para acessar a arma, e um porém para se matar o Mnevulchi: a arma precisava ser empunhada por um vidente, e ele morreria junto com o demônio para destruí-lo, cedendo sua força vital para ativar a arma. Toda magia tem um preço, e o sacrifício de uma vida era o desta. Não era tão incomum. Eu não deixaria Cássia pagar esse preço. Era minha visão, eu sabia meu papel. Enquanto ela e Kareyn bradavam em latim para alcançar a arma diante da estátua de anjo, que descobrimos ser um monumento erigido pelo Legatum, eu encarava os olhos cinzentos no rosto descarnado do Mnevulchi. Logo que começamos os ritos, o monstro apareceu. Talvez soubesse que naquele lugar estava o objeto que traria seu fim, mas eu achava que ele apenas sabia onde achar Cássia, e, assim como no cemitério, havia surgido para matá-la.

Tatya e Fenrir tinham um elo telepático, então foi sem aviso que o grande cachorro saltou, mirando a garganta do demônio. Avancei em seguida, tentando acertar o monstro com a espada. Era rápido e muito forte, se desvencilhou de Fenrir e aparou meus golpes, me jogando contra um poste em seguida. Enquanto recuperava o fôlego, pude testemunhar o quão assustadora Tatya ficava quando estava com raiva. Uma aura a envolvia, e, com gestos das mãos, minha amiga arrancou os bancos de concreto da praça, atirando-os contra o Mnevulchi e derrubando-o no chão. Ele se levantou rapidamente, e sua voz fraca e rouca se fez ouvir:

— Bruxa estúpida! Você não tem poder para me derrotar. Acha que apagar memórias é tudo o que posso fazer? Eu posso aprisioná-los em suas piores lembranças!

Uma onda nos atingiu, e antes de afundar nela pude ver Tatya, Kareyn e Cássia caírem no chão. Eu sabia que elas estavam sentindo dor, mas não tive tempo de me compadecer delas antes de mergulhar em minha própria. 

Dez anos de idade. Eu e meu irmão Kadmus estávamos em casa sozinhos, e uma chuva terrível caía. As goteiras se espalhavam em todos os quatro cômodos, e naquele instante a energia elétrica acabou. Eu abracei Kadmus, assustado, mas comecei a inventar uma história para que ele se distraísse e não chorasse. Eu tinha 24 anos, o enterro de minha mãe. Kadmus chorava, eu segurei sua mão. Eu tinha 25 anos. Um garoto em minhas visões era perseguido por um vampiro. Eu o salvei apenas para na noite seguinte encontrá-lo vítima de uma overdose.

Cada falha. Cada ferida. Cada erro de interpretação. Cada momento de covardia. Cada escolha ruim que fiz e teve como consequência a dor ou mesmo a morte de alguém. Tudo isso passava diante dos meus olhos. Eu me arrependia de que eu e meu irmão não nos falássemos mais desde o funeral. Arrependia-me de muitas outras coisas também. Quando se tem um poder como o que tenho, quase sempre nos são dadas escolhas difíceis, e nenhuma das opções é boa. No entanto, todas aquelas dores eram parte da minha jornada, e eu ainda tinha mais uma escolha para fazer.

Prender um vidente em visões era um plano ousado, mas não muito inteligente. Eu estava em paz com meu passado, e era o momento de lidar com meu presente. Eu não estava preso.

Abri meus olhos e corri o mais rápido que pude para a estátua. Kareyn e Cássia haviam terminado o Ritual. Diante do anjo de mármore com sua foice, brilhava uma adaga prateada com a cabeça de um corvo no punho. Voltei-me para o Mnevulchi, tirei meus cabelos molhados do rosto; o peso da chuva parecia estar sumindo agora que eu sabia como esse momento terminaria. Ele não poderia feri-las se eu não permitisse. Corri. Meus pés encharcados, minhas roupas coladas contra o corpo, e pedi para que minha voz pudesse despertá-las.

— Kareyn! Cassia! Fenrir! — A cada passo, eu chamava por um dos soldados que estava ao meu lado em minha última batalha. O Mnevulchi estava próximo de Tatya e armava seu golpe com as garras no ar, para dilacerá-la. Então, eu compreendi.

Eu não precisava de um dia especial para me despedir. Não seria realista ou coerente ter um último dia perfeito. Perfeição era a última palavra que representava minha vida. Ou qualquer vida. O Mnevulchi me fizera relembrar todos os mais dolorosos e embaraçosos momentos que tive ao longo dos anos, mas eu também me lembrava dos bons. Eu tinha do que me orgulhar. Eu tinha sido muito feliz. E, segundo duas das três mulheres desacordadas nesta praça, eu também havia feito outras pessoas felizes.

Não era sobre vencer. Nem mesmo sobre sempre fazer a coisa certa. Era sobre lutar pelo que valia a pena. Meus amigos, minha família e um mundo melhor, uma pessoa de cada vez. Eu morreria como vivi: lutando por isso. Saltei para a frente, e, ao mesmo tempo que o Mnevulchi cortava meu peito com suas garras, eu enterrava a adaga em seu pescoço, gritando:

— TATYA!

Um facho de luz púrpura foi liberado da adaga, e eu senti dor como se todo o meu corpo queimasse. Diante de mim, o demônio urrava e se desfazia, consumido pela luz que atravessava seu corpo. Quando a criatura se desfez, eu caí no chão. A chuva estava cada vez mais fria, e eu sentia aos poucos a vida abandonar meu corpo. Como em minha visão, Tatya e Kareyn estavam em desespero, seus rostos acima de mim. A chuva caía, e o céu era entrecortado por raios. Eu queria dizer que estava tudo bem, mas as palavras não saíam. Com as opções que eu tinha nessa noite, eu sentia como se tivesse feito a melhor escolha possível. Eu não queria morrer, mas não tinha medo. Eu sabia que seria lembrado.

Enquanto o mundo escurecia nas minhas vistas, eu apenas pedia para que meu irmão pudesse ficar bem e que as garotas vivessem vidas boas e tão longas quanto o destino permitisse. Meus olhos se fecharam, e meu último pensamento foi que com certeza eu as veria de novo, afinal de contas, esse era eu, o cara das visões.


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