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Do outro lado do espelho
Conto

Do outro lado do espelho

Pode uma casa de espelhos transbordar a alma de uma simples garota?

Nancy Scarllet-Hayalla
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Do outro lado do espelho
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

“Então, senhoras e senhores, meninos e meninas de todas as idades, venham ver o maravilhoso, o formidável, o estupendo Circus Capella! E não se esqueçam de brincar em nossa Casa de Espelhos.”

Esta foi a propaganda mais transmitida desde que os famoso Circus Capella chegou a cidade de Guarujá para uma curta temporada.

Diferente dos circos convencionais com suas belas tendas, bailarinas, animais, trapezistas e palhaços, este circo de tenda listrada de branco e vermelho com seus palhaços de maquiagens não muito tradicionais e suas atrações curiosas, compostas de pessoas excêntricas, misteriosas e diferentes, para não dizer estranhas... De todas as atrações deste circo peculiar, a mais intrigante é sua Casa de Espelhos.

Uma lenda diz que os espelhos do circo capturam o que há de melhor em você, outros que os espelhos te prendem ao circo. O fato é que a cada temporada o circo, ou melhor, os espelhos, escolhem uma nova atração.

O Circus Capella simplesmente chegou até a cidade. Todos os moradores parecem saber que o circo chegou e ficam muito curiosos sobre ele. 

Menos Lilian.

Ela era uma garota que vivia sofrendo bullying na escola. Todo santo dia, ela era perseguida por um grupo de moleques da sua classe e ela não sabia o porquê. Mas sempre tinha alguém que fazia questão de lhe dizer.

Eles diziam que ela era muito feia.

O que era um motivo muito do ridículo, pelo menos era o que ela achava. Desde quando ser feio era crime?! Não estamos mais na época da inquisição.

E o que era mais irônico é que quem a chamava de feia era mais feio do que ela.

Lilian não era feia. Pelo contrário era muito linda. Tudo bem, não era uma beldade estonteante, mas ainda assim era linda do seu jeito. Ou seja, o problema não estava nela. 

A maldade estava nos olhos de quem vê.

Ela sempre tentava levar de boa, fazia de tudo para não se aborrecer. Tentava fingir que as agressões verbais (os famosos apelidos) e as indiretas não eram para ela. Tentava ao máximo e às vezes o impossível para se concentrar nos estudos, mas não adiantava! Estava sempre se chateando com aquela corja de arruaceiros. E a pior parte é que era ela sempre que levava a culpa.

"É brincadeira! A culpa não é nossa se ela não sabe brincar!" Disse um de seus agressores.

"Não liga, é só uma fase, vai passar!" Disse uma das meninas da sala. Falsa!

"Eu acho melhor você se aquietar! Ainda vai prejudicar a classe por conta de besteira da sua parte!" Dizia uma outra garota da sala. Outra falsa!

- Ou seja, eu é que tenho que me ferrar para não ferrar com ninguém? - Uma vez perguntou isso, já de saco cheio daquela perseguição sem sentido. Aliás, ela havia feito aquela pergunta várias vezes. E ninguém respondia.

Na verdade, a diretoria já estava ciente do problema de Lilian. Muitos professores também. Mas como achavam que era apenas implicância de adolescentes, nada foi feito. Todos faziam vista grossa para o seu sofrimento.

Em casa, também sabiam e também achavam que o problema era ela. Toda vez que ela tocava no assunto, eles sempre diziam: 

"A gente tem que saber o porquê, pois ninguém mexe com ninguém de graça! Alguma coisa você deve ter feito!"

Mas ninguém procurava saber, ou seja, ela estava sozinha nesta guerra.

"Vê se você não fica se assanhando para o lado dos meninos, pois homem não gosta de mulher que não se dá ao respeito!"

"Vê se você não fica reclamando muito na diretoria, para não acabar sendo expulsa da escola!"

"Fica na sua que você ganha mais!"

"Se você repetir o ano por conta dessas besteiras, eu acabo com você!"

Lilian ficava muito triste com esta situação, triste era muito pouco, ela ficava totalmente arrasada, destruída por dentro. Não tinha a quem recorrer, a quem pedir ajuda. Não sabia mais o que fazer.

Aquilo estava despertando em seu coração um tremendo de um ódio.

Um dia, seus pais comentaram com Lilian sobre o Circus Capella. Mas ela não estava muito a fim de ir. Na verdade, por conta do bullying, ela não tinha ânimo para sair de casa, não tinha vontade de fazer nada. Tinha até medo de sair de casa e encontrar aquele bando de marginais.

E também não sentia muito prazer em estar na companhia dos pais.

Infelizmente já houve situações em que ela saiu de casa apenas para um passeio e foi perseguida na rua, na praia, no mercado. Parecia até que eles ficavam lhe espionando em todos os cantos da cidade. Tinha medo de ir até este circo e ter o azar de esbarrar neles.

E foi infelizmente o que aconteceu!

De tanto seus pais insistirem, Lilian foi conhecer o tal Circus Capella. Não era justo. A vida passando e ter que ficar trancada dentro de casa por culpa daqueles cretinos. E um passeio não mataria ninguém. Assim ela esperava.

Realmente o circo era tudo que as pessoas comentavam. Até que não foi tão ruim, pelo contrário, até que Lilian se sentiu muito à vontade com aquelas figuras exóticas. Chegou a se identificar com algumas delas.

Era assim como ela se sentia, uma estranha no mundo onde os que se dizem “normais” causavam sua própria destruição. Imaginou que aquelas pessoas do circo também se sentiam diferentes.

Talvez usassem aquelas máscaras para se esconderem do mundo cruel lá fora, ou para revelar as suas verdadeiras faces.

Às vezes Lilian queria usar uma dessas máscaras para também se esconde, ou se revelar.

Estava tão distraída em seus pensamentos que não notou que havia se perdido dos pais. Tentou ligar para o celular de um deles, para saber onde estavam. Mas na hora que ia pegar o celular, aconteceu o que ela mais temia.

A turma de vândalos também estava no circo!

- Oh! Olha só quem está aqui, a atração mais bizarra do Circus Capella!

- Qual é a tua hein Lilian, veio assustar o público com a sua feiura, é?

- Que nada, ela veio visitar os amiguinhos horrorosos dela!

- Não vai até a Casa dos Espelhos, você é tão feia que é capaz de quebrar os espelhos do circo!

- Se fizer isso, terá sete mil anos de azar!

- Ela já é azarada. Por ser essa coisa horrorosa!

Eram tantos insultos, que Lilian não estava mais conseguindo pensar direito. Saiu correndo dali o mais rápido que pôde e se embrenhou no meio da multidão. Seus agressores foram atrás dela.

Até parecia que aquilo era uma espécie de jogo, onde o prêmio era o sofrimento dela!

Lilian tentou se esconder na mais famosa atração do Circus Capella, a Casa dos Espelhos. O local era um verdadeiro labirinto, lá dentro haviam os mais variados tipos de espelhos: Desde os já conhecidos pelo público como o espelho da história da Branca de Neve até os jamais imaginados pela mente humana.

- Espelho, espelho meu! Tem alguém neste mundo tosco mais medonha do que eu? Não! - Um deles conseguiu encontrá-la. Mais uma vez saiu correndo pelo labirinto adentro. Enquanto corria desesperadamente para se salvar, olhava para seu reflexo nos espelhos da casa. Lilian não gostava muito de se olhar no espelho. De tanto ouvir que era feia, chegou uma hora que começou a acreditar que era mesmo. E vendo o seu reflexo em todos aqueles espelhos, sejam eles comuns ou estranhos, se sentiu mal.

Conseguiu despistá-los por um tempo, entrando em algum beco sem saída, também cheia de espelhos. Era uma sala do tipo 360 graus, onde um espelho refletia a imagem para o outro. Assim poderia parar para respirar um pouco. Não conseguiu. Lilian chorou. Chorou como nunca havia chorado em toda a sua vida, chorou tanto que chegou a formar uma pequena poça de lágrimas no chão. Até que, levantou a cabeça e se surpreendeu com o que viu.

O seu reflexo que até um segundo atrás estava chorando junto com ela, de repente, começou a encará-la seriamente! Depois começou a sorrir! E não era um sorriso amistoso!

Era um sorriso macabro!

Aquilo a assustou. Andou para trás e notou que aquele reflexo dela não se mexia. Continuava a encarando. Encostou em um outro espelho e olhou para trás. Ao invés daquele seu outro reflexo estar de costas para ela, como seria de acordo com as leis da óptica, não estava!

Estava era de frente para ela! 

Lilian olhou para todos os espelhos daquela atração e viu  todos aqueles reflexos a encarando. Era assustador. Era como se até a sua própria imagem estivesse caçoando dela.

Resolveu sair dali. Estava enlouquecendo, mais do que já estava. Mas quando se virou para ir embora, deu de cara com seus agressores.

Talvez a alucinação das suas imagens a encarando não era tão ruim assim. Pelo menos era melhor do que aqueles marginais. Bem que tentou fugir, mas desta vez não conseguiu. Finalmente a pegaram! E como prometeram das outras vezes, não tiveram o mínimo de piedade!

Não se importaram com o fato dela ser apenas uma menina.

Ela foi cruelmente espancada, torturada e violentada!

Tiraram a sua virtude como se não fosse nada. Bom, para eles não era nada mesmo!

Bem que ela tentou lutar, mas eram praticamente meia dúzia contra ela. Infelizmente ela não tinha a menor chance.

- Garota se toca!!! Estamos te fazendo um favor!!! Quem é que vai querer um lixo feito você!!! - Dizia um deles enquanto a empurrava contra um dos espelhos. O espelho se quebrou. Enquanto ela tentava se levantar em meio aos cacos do espelho quebrado, veio um outro e lhe deu um chute certeiro em suas costas. Um dos ossos das costelas foi quebrado.

Enquanto se divertiam com o seu sofrimento, ela chorava de dor tanto física, quanto emocional. E ela nunca soube o motivo de tanto ódio por ela. Era apenas uma menina comum, como tantas outras.

E porque esta perseguição tinha que ser logo com ela?

Seus agressores ficaram totalmente excitados com a sua súplica. Chegaram a fazer com que pedisse perdão por ser quem é.

- Peça perdão por ser tão feia garota! - Disse mais um de seus agressores: - uma vadia feia como você não merece viver!

Ela não queria pedir. Ela não tinha que pedir perdão só porque eles a achavam feia. E ela nem era feia. Mas mesmo assim pediu para salvar a própria vida.

- Perdão.... - disse se engasgando com a saliva misturada ao sangue. Um deles segurava e apertava a sua garganta. Estava tentando lhe estrangular. Um dos ossos de seu delicado pescoço também foi quebrado.

E eles davam risada.

Enquanto um deles a agarrava pelo pescoço, um outro agarrou seus dois braços por trás, praticamente deslocando um dos ombros. Rasgaram a blusa junto com o soutien, deixando seus seios à mostra. A maioria deles passou a mão e a língua, chupando e mordendo, deixando marcas doloridas de dentes.

Ela sentiu um baita nojo daquilo. E dor...

- Gostou né sua puta?!? Diz que você gostou caralho!

Ela não respondeu. De pirraça, um deles pediu para tirar a arma e de repente começou a abaixar as calças, colocando o seu membro para fora.

- Vamos vagabunda! Me chupe! Me chupe do mesmo modo que você chupa todos por aí.

O idiota enfiou com tudo o seu membro em sua boca. Alguns se acabaram de rir e outros começaram a tirar fotos. De repente ele começou a gritar de dor. Todos ali se assustaram.

Ela pegou a pouca força que ainda lhe restava e deu uma tremenda mordida nele.

Enquanto ele se contorcia de dor, um outro a agarrou pelos cabelos e a atirou com tudo em um outro espelho. Mais um espelho se partiu. Ainda com os cabelos dela na mão, a fez ver sua própria imagem em um dos espelhos que ainda estavam inteiros.

- Olhe para você! Olha para coisa feia que você é! Faça um favor para a humanidade sua horrorosa! Acabe com a própria vida e leve junto essa sua feiura!

Ele pegou um dos cacos do espelho e colocou na mão dela e fez com que ela mesma apontasse para si. Mas ela conseguiu enfiar o pedaço de vidro no estômago dele. 

Infelizmente somente o atingiu de raspão. Enquanto eles se distraiam em socorrer o amigo ferido, ela não pensou duas vezes. Cortou o próprio pulso.

Pois sabia que se não fizesse isso, eles fariam. E sua vida já estava acabada mesmo.

Pelo menos era o que ela achava.

Quando olharam para ela, somente a viram caída no chão e uma imensa poça de sangue se formando embaixo dela.

- Ela morreu??? - Perguntou um deles agora realmente preocupado com a situação.

- Não era para isso acontecer! Era para ser só uma brincadeira, uma zoação! - Comentou um outro também preocupado. Aliás, preocupado era somente uma maneira de dizer. Todos ali começaram a ficar apavorados com o fato dela estar morta.

- Calma todos vocês! - Disse o que parecia ser o líder do bando: - Vamos fazer de conta que nada aconteceu e não sabemos de nada.

- Como assim não aconteceu nada??? Ela morreu!!! O outro ali levou um corte!!! E este aqui quase perdeu o pinto!!!

- No caso dele a gente fala que foi um acidente.

- E ela??? O que a gente faz???

- Nada! Ela não vai viver mesmo para falar nada. E mesmo se vivesse, a gente faz o que sempre fazemos: jogamos a culpa em cima dela!

Eles foram embora, como se nada tivesse acontecido e a deixaram ali à própria sorte. Viu toda a sua vida passar por diante de seus olhos, e o que ainda viria pela frente.

Era mesmo melhor morrer, assim não tinha mais que dar satisfação para ninguém sobre como foi o dia na escola. Não teria mais que encarar aquele bando de marginais no colégio. Não seria mais maltratada, ofendida e nem humilhada!

Mas também não era justo pagar com a própria vida pelo erro dos outros.

Mas também o que se poderia fazer? Nada! Como sempre, ficaria por isso mesmo!

E como sempre ela levaria a culpa.

Se ninguém nunca tomou a iniciativa de fazer algo enquanto ela estava viva, não seria agora, depois de morta, que alguém iria fazer. Então decidiu ficar ali e esperar a morte. Era melhor morrer do que sobreviver aquilo e ter mais um motivo para ser humilhada.

Mas antes de fechar os olhos de vez, viu pela última vez a sua imagem refletida em um dos espelhos. Chorou quando se viu daquele jeito. Desabafou para a própria imagem, tudo o que estava entalado na sua garganta e no seu coração:

- Eu venderia a minha alma ao Diabo para que a minha vida fosse diferente! E também queria ver aquele bando de filhos da puta sofrendo pelo menos um por cento da minha dor! Na verdade, quero mais é eles sofram bilhões de vezes a mais do que eu! Quero que eles morram! Eu os odeio! Eu os condeno! Eu os repúdio!

De repente viu mais uma vez a sua imagem, que chorava junto com ela, se mexer sozinha. 

Ela se levantou em meio aos cacos de vidro espatifados no chão como se, do outro lado do espelho nada tivesse acontecido. Se ajeitou e estendeu a mão para ela.

Enquanto isso, viu também os pedaços dos espelhos quebrados caídos no chão “voltarem para seus lugares” e os espelhos se “consertarem sozinhos”. Estavam intactos, como se não tivessem sido quebrados. E ela também se recompôs. Seus machucados, se curaram sozinhos.

Foi como mágica, ou feitiçaria!

Lilian só olhava para seu próprio reflexo assustada, se perguntando como aquilo era possível. Achando que se tratava de algum truque, levou uma das mãos até o espelho. A imagem do outro lado apenas acenou com a cabeça e lhe deu um sorriso meio que sarcástico. Era como se “ela” tivesse pedindo para confiar “nela mesma”.

Assim, sua mão e a de seu reflexo se tocaram através do espelho, Lilian foi “puxada para dentro do espelho por ela mesma”. Aquilo era absurdo demais para ser verdade.

Não tendo mais forças para lutar contra a própria imagem, Lilian acabou por ser sugada para dentro do espelho, e seu reflexo saiu dele, tomando o seu lugar. Era como se continuasse a olhar para ela mesma, mas do outro lado.

- O que é isso??? Quem é você???

- Como assim quem sou eu? Eu sou você Lilian, a sua verdadeira face!

- Como assim minha verdadeira face???

- Eu sei o que você quer Lilian. Eu sei o que você sempre quis fazer, mas não tem coragem. Você quer é acabar com a raça daqueles desgraçados. Pude ver isso lá no fundo da sua alma. Como costumam dizer, olhos são os espelhos da alma. E deu para ver que no fundo, você quer vingança.

Lilian estava certa. Ela queria mesmo revidar os ataques de bullying que aqueles cretinos sempre faziam com ela, sempre teve muita vontade de fazer a mesma coisa, ou quem sabe, fazer muito pior. Mas sabia se fizesse isto, estaria se rebaixando ao nível deles. Precisava mostrar pelo menos a si própria, que era muito mais do aquele monte de apelidos maldosos.

Ou era isso ou então era medo mesmo... 

- Mas pode me explicar pelo menos o que foi que aconteceu comigo?

- Sim eu posso. Até porque você tem todo o direito de saber. Os espelhos do Circus Capella sempre atraem uma pessoa que tenha algo perverso ou podre preso dentro delas, escondido no fundo de suas almas. O espelho prende o lado bom da pessoa e solta o lado perverso. Como por exemplo no nosso caso.

- Nosso caso???

- Sim, já que você nunca teve coragem de fazer nada, foi preciso que eu me libertasse para fazer alguma coisa. Não se preocupe Lilian, eles não ficarão impunes, vão ter o que merecem. Farei o que você deveria ter feito.

- Não!!! Não pode fazer!!!

Bem que Lilian tentou quebrar o espelho onde estava presa. Mas seu esforço foi em vão. Seu lado perverso fez questão de avisá-la.

- Não adianta quebrar os espelhos. Eles não podem ser destruídos. 

- Mas e àquela hora que eles quebraram e voltaram ao normal???

Seu lado perverso não lhe respondeu e saiu da sala, a deixando presa do outro lado do espelho. Tinha de descobrir como sair dali. Não podia deixar aquele lado mal dela tocando o terror. Tudo bem, ela não gostava daqueles meninos, mas nunca quis o mal de ninguém.

Ou quis? Sim! Por várias vezes, pediu o mal deles. Ela ficava magoada com o mal que faziam a ela e acabava por desejar o mal deles.

Mas o que será que aquela Lilian seria capaz de fazer?

Assim que o outra Lilian saiu da Casa dos Espelho, encontrou com seus pais.

- Filha onde esteve? Estávamos preocupados com você! - Perguntou sua mãe

- Encontrei uma amiga e viemos ver a Casa dos Espelhos.

- E cadê essa sua “amiga”? Quem é ela? - Quis saber o pai. Lilian já sabia o ele queria saber, se ela estava com algum garoto.

- Vocês não conhecem. E ela já foi para casa. 

- Por que não nos avisou que estava com uma amiga? 

- A bateria do meu celular acabou e...

Ela nem terminou de explicar. Seu pai lhe deu um tapa em seu rosto, na frente de todo mundo. Tudo ele achava que ela estava mentindo, que estava com alguém. Pois sempre achava que os meninos a perseguiam, porque ela que devia dar confiança a eles. Ela odiava quando ele fazia isso. E o odiava pelo mesmo motivo.

A Lilian boazinha somente iria chorar. Mas esta Lilian não deixou barato e deu um tremendo soco nele. Todos ali presentes se horrorizaram com a cena. Sua mãe e principalmente seu pai a encaram com espanto. Nunca viram a filha agir daquela forma.

- Qual o problema se eu estivesse com algum garoto? Sou jovem, tenho mais é que curtir a vida! Não é porque vocês dois são dois safados, acham que todo mundo é igual?!

- Do que você está falando Lilian? - Quis saber a mãe, desconfiada de alguma coisa e ao mesmo tempo com medo.

- Que vocês vivem é enfeitando a testa um do outro! Vivem com moralismo para o meu lado, mas no fundo são mais sujos do que eu!

Lilian sempre soube que seus pais viviam traindo um ao outro. Por isso que sempre implicavam com a filha, era para esconder as suas traições um do outro. Agora com esta revelação feita na frente dos outros, nem tinham mais como manter o casamento.

- Vamos para casa! Amanhã conversaremos sobre isso com calma.

- Vão vocês! Conversem vocês. Eu não tenho nada para falar com dois falsos feito vocês. Sempre falaram de mim e faziam coisa pior. Fui!

Lilian preferiu ir para casa sozinha. Conseguiu chegar primeiro que os pais. Do seu quarto pôde ouvir a discussão dos dois. No dia seguinte, viu a mãe sentada no sofá chorando. O pai foi embora. Foi para escola e deixou a mãe sozinha em casa. Não estava afim de ouvir as lamúrias de ninguém. Até porque, quantas vezes ela chorou por causa dos babacas que a perseguiam na escola e eles nunca ligaram.

E falando em escola, lá estavam o bando de putos. Não acreditaram quando viram que ela estava bem, na verdade, estava melhor do que nunca. Nem parecia que eles haviam dado uma surra nela. E se impressionaram com a fato dela estar mais confiante, nem parecia que a Lilian de sempre.

Na hora da saída, fizeram questão de segui-la, como sempre. Estranharam também o fato dela não sair mais correndo ou tentar se esconder. Muito pelo contrário, ela fazia questão de olhar para trás somente para ter a certeza de que continuavam a segui-la.

E ainda fazia questão de jogar um charminho.

Nem desconfiavam que estavam indo direto para uma armadilha.

- Eu hein, essa menina está muito esquisita.

- Ela está andando a um tempão e fica olhando para trás, dando risada, tem alguma coisa errada com ela.

De repente ela desapareceu em algum beco perdido. Havia um grande espelho quebrado ali. Dois deles pararam de frente para o objeto a viram atrás deles, a imagem dela. Olharam para trás e não tinha ninguém. Olharam de novo para o espelho e viram que seus reflexos. Estavam apodrecendo!  Quando um resolveu olhar para o outro, viram que também estavam apodrecendo. 

Entraram em desespero! Viram Lilian dando risada atrás deles. Quando foram tentar pegá-la, não perceberam que havia um outro espelho atrás deles. Acabaram por quebrá-lo e cacos de vidro voaram em cima deles, os perfurando em alguns pontos vitais. Morreram ali mesmo.

Os outros quatro escutaram o barulho de vidro se estilhaçando e foram ver. Se apavoraram ao ver seus companheiros mortos. Se perguntaram o que tinha acontecido com eles. Enquanto isso, no final do beco, viram Lilian dando risada. Foram atrás dela até uma viela.

- Esperem, ela deve estar armando uma para gente! Vocês deem a volta para pegá-la do outro lado e nós vamos por aqui! Assim vamos cercá-la. - Disse o líder do bando.

Assim o fizeram. Aquela viela estava meia que escura, mas ainda deu para ver que era ela ali, parada. Parecia até que estava esperando por eles. Um dos garotos foi primeiro e pegou um pedaço de pau para dar em sua cabeça. Aquela cena o estava apavorando. Enquanto ele se aproximava, ela não se manifestava. Não aguentando mais aquela tensão, levantou o pedaço de pau e urrou com tudo para cima dela. 

E acertou, não exatamente ela, mas sim a sua imagem refletida em um espelho posicionado ali de propósito. Como ela fez isso? Ninguém sabe. O que se sabe é que, um de seus amigos que estava do outro lado da viela, também teve a mesma ideia. Um acertou o outro e acabaram se matando. Sobraram dois! 

- Cara o que será que aconteceu com a Lilian? Ela não era assim?

- Essa não é a Lilian! A verdadeira Lilian é uma garota boa, meiga e...

- E você vivia zoando com ela! Ou seja, culpa é toda sua! 

- Por que só minha? Você também a perseguia, assim como outros!

- Porque você mandava! Agora a gente está pagando pelo seu erro!

Os dois comparsas começaram a brigar. Por pouco, quase não mataram um ao outro.

- Vamos voltar lá no Circus Capella. Deve ter alguma naquela casa dos espelhos.

Eles voltaram na Casa dos Espelhos. Foram direto para a sala 360 graus. Estranharam o fato de estar tudo normal.

- Não era para esta parte da casa estar interditada? Afinal, nós quebramos alguns espelhos.

- Você quebrou ao empurrá-la em um deles!

- Olha quer saber? Se a gente não ficasse mexendo com ela, a tivesse deixado em paz como ela sempre pedia, os outros não teriam morrido, a gente não estaria com a corda no pescoço e aquele monstro não estaria lá fora tentando matar a gente!

Do outro lado, estava a verdadeira Lilian. Ela escutou toda a conversa dos dois. Para eles estarem ali, é porque a outra estava os caçando. Por um lado, achou bem feito para eles. Realmente, se a deixassem em paz, isto não estaria acontecendo. 

Um deles olhou para o espelho onde ela estava presa e começou a falar sozinho. Bom, não exatamente sozinho, pois ela escutou tudo.

- Por favor Lilian, nos perdoe. Sei que um pedido de perdão não vai apagar os erros que cometemos com você, mas quero que saiba que nos arrependemos, pelo menos eu me arrependo.

- Precisou dar merda para você se arrepender? - O outro perguntou a ele.

Antes que este pudesse responder, alguém atrás deles perguntou a mesma coisa. Era ela, a Lilian perversa.

- Sabia que vocês viriam para cá! E aqui acaba onde tudo começou!

Bem que tentaram atacá-la como na noite anterior, mas aquela Lilian era mais esperta e forte. E desta vez os espelhos não se quebravam. Porém teve um momento em que ela se encostou no espelho onde Lilian estava presa. Esta por sua vez teve uma ideia, se os espelhos do Circus Capella atraem uma pessoa que tenha algo perverso dentro delas, pode também fazer ao contrário. 

E acreditando nessa ideia, ela agarrou a outra Lilian e tentou puxá-la para dentro do espelho.

Os dois garotos só observaram a cena e custaram a acreditar no que viam. Realmente haviam duas Lilians. Assustados, se encostaram em outros espelhos  e também acabaram sendo puxados também seus reflexos.

Após cada um travar uma batalha contra a sua própria imagem, finalmente se livraram delas. Os três ficaram ali se encarando. Como ninguém tinha nada a dizer, principalmente Lilian, ela foi embora. Um deles foi atrás dela para pedir desculpas. Vendo o amigo fazendo isso, o outro pediu desculpas também. Ela aceitou as desculpas dos dois, mas não queria saber de conversa com ninguém. Nunca foram amigos e não seriam agora, ainda mais depois dessa. Foram embora dali sem olhar para os espelhos.

Porém quem foi embora com Lilian foram outros garotos. Os verdadeiros ficaram presos do outro lado do espelho com a versão perversa dela!


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