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Desejo Sangrento
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Desejo Sangrento
Áudio drama
Desejo Sangrento
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Com cautela, o rapaz levanta da cama e ascende o abajur ao seu lado, ajustando

a luz para sua potência mais fraca. Na penumbra, ele pode observar a jovem

deitada ao seu lado. Seu sono parece pesado, então ele retira o lençol que cobre seu

corpo. Quer observar sua nudez.

Como é bela. A jovem está deitada de bruços, com o rosto virado para o outro

lado. Um braço está dobrado, a mão debaixo do travesseiro, e o outro estirado ao

lado do tronco. As pernas estão levemente abertas. Sua respiração é audível, calma

e ritmada.

Chega mais perto. Ainda que sob a fraca iluminação, ele pode ver pequenos

traços de veias riscando sua pele alva. Há algumas estrias em suas pernas, celulites em

sua bunda. Isso o encanta ainda mais. É uma mulher real, sem Photoshop, sem filtros.

O que um adolescente viciado em pornografia diria ser uma imperfeição, para ele é o

que torna sua beleza extraordinária.

Toca ela. Sente seus dedos ainda mais ásperos ao deslizarem por uma pele tão

macia. Deixa sua mão passar pelo pescoço, pelos seus vastos cabelos. São bonitos,

mas ele os prefere presos, o que faz. Sua mão segue pelas costas, particularmente no

sulco onde está sua coluna. Toca, mesmo, pressionando de leve aqueles ossos, aquela

carne.

Pula as nádegas. Aperta as pernas da jovem. Pernas volumosas, um pouco

flácidas, alguém poderia criticar. Para ele, estão ótimas. Envolve o joelho da garota,

como é delicado! Parece uma peça que se despedaçaria no primeiro pulo mais ousado.

Desce a mão para a panturrilha, encontrando ali provavelmente o mais rígido

de seus músculos. Olha para o chão e vê, ao lado da cama, o sapato de salto alto. A

elegância tem seu preço.

Demora alguns minutos apalpando o pé da mulher. Aqueles dedos pequenos,

unhas minúsculas e impecavelmente feitas, o deixam fascinado. Aperta o peito do

pé. Não aguenta e beija ele. Todo. Cada dedinho, cada centímetro. Sempre gostou de

pés, mas nunca tivera uma oportunidade para contemplá-los.

Como não podia ficar a noite toda ali, vai para a bunda. Tem um belo volume,

ele pensa. Quantos homens não se viraram para observá-la na rua? Ele nunca fez

isso, achava ofensivo. Mas uma bunda daquelas valia mesmo a reverência. Beijá-la.

Ela era sua exclusividade agora. Que rapaz de sorte.

E agora, beijando aquele corpo todo, sem rumo e com voracidade, ele pode

sentir melhor seu cheiro. A jovem transpirava naquela noite quente. O cheiro que se

destacava era o do suor, mas aquilo não o incomodava. Achava até agradável. Havia

um pouco de álcool, também, naquela transpiração. Mas não prejudicava a sensação.

Vê-la de frente. Sem pensar muito, ele começa a virá-la. Com delicadeza,

claro, não queria que ela acordasse agora. Não ia acordar. Era difícil virar um corpo

que não queria ser mexido. E ele, sedentário há anos, ficou bastante ofegante com a

ação. Seu coração, já acelerado, disparou. Mas não era pelo esforço. Era a emoção. Lá

estava ela, nua, para ele. Sem ninguém para censurar seu olhar. Nem ela.

Era linda. As pernas agora estavam mais abertas. O rosto, voltado para cima,

podia ser contemplado na paz de seu sono. Os seios. Ele poderia ficar uma pequena

eternidade só olhando para eles. Mas não queria apenas contemplar. Se lançou sobre

ela com mais beijos e mais toques. Precisava senti-la. Seu rosto, seus braços, busto,

genitália.

Se conteve um pouco. Não era impossível que ela acordasse, embora pouco

provável. Se afastou e olhou para si. Para seu corpo, também nu. Um horror. Sentiu-

se o Corcunda de Notre-Dame contemplando a cigana Esmeralda. Seus pelos

negros por todos os lados, sua barriga arredondada, as pernas finas.

E, mais do que tudo, seu pênis. Como Deus havia sido infeliz nessa parte da

anatomia masculina. Um pênis frouxo tornava um homem nu uma peça cômica,

aquele membro molenga pendendo de suas pernas. Agora, enrijecido por toda aquela

excitação, era menos patético. Ainda assim, não era uma bela visão.

Desviou os olhos para a jovem. Aquilo valia a pena ser visto. Como queria

que fosse sempre assim. Ter aquela mulher, ou alguma outra, ali, em sua cama. Despida

para ele. Por ele. A vida seria menos miserável. Talvez, se não for muita ingenuidade

pensar nessa possibilidade, poderia até ser feliz.

Pena que nunca seria assim. Se esperasse por mais algumas horas, a jovem

acordaria. Com dores de cabeça, se sentindo lesada. Não lembraria de como havia

chegado ali. Se irritaria com ele, provavelmente chamaria um taxi. Ou a polícia. E a

magia daquele momento estaria para sempre perdida.

Era uma pena, mas a garota não podia acordar. Por isso, ele foi até a cozinha,

buscar sua faca de cortar carne.

Sabe quantas vezes eu já li esse trecho? Se souber, me diz, porque eu também

quero saber. Mas foram muitas, disso eu tenho certeza. Sou como aquele pai orgulhoso

ao ver o filho, em um recital de piano, tocar “Cai cai balão”. Só que esse “Cai cai

balão” aí é premiado. É o trecho mais elogiado do meu livro, Desejo Sangrento. Best

seller, querida, isso mesmo! Já foi lançado em quase uma centena de países, traduzido

para idiomas que eu sequer imaginava existir. Uma adaptação de cinema está sendo

produzida. Hollywood, baby! Sim, os milhares de dólares já caíram na minha conta e,

se o desempenho nas bilheterias for bom, a quantia vai aumentar.

Agora, vamos segurar a empolgação. Quem me ouve falando assim pode

achar que eu sou um babaca convencido. Não. É só orgulho pela trajetória que me

trouxe até aqui. Hoje, nessa cobertura com ampla vista para o horizonte da cidade,

minha vida não lembra em nada os perrengues que passei.

Vamos recuar nossa história. Cinco anos atrás e eu, apesar de parecer mais

velho do que hoje, levava meus inseparáveis óculos de 4 graus de miopia para trabalhar

como auxiliar de bibliotecário numa escola na periferia. Um concurso que

pagava pouco, é verdade, mas que viabilizou que eu concluísse minha graduação em

literatura.

Parecia uma escolha inteligente. Eu precisava de dinheiro para pagar a faculdade.

Amava ficar rodeado por livros. E, naquele ambiente de silêncio, poderia escrever

meus textos. Não sei quando surgiu esse desejo em ser escritor. Provavelmente

na infância, quando meus colegas ganhavam medalhas no esporte e meu consolo era

tirar 10 em redação. Ou pode ter sido quando comecei a querer me libertar da vida de

orçamento apertado que meus pais podiam me oferecer. Se escrever era a coisa que

eu fazia melhor, então eu precisava ser profissional.

Só que nem tudo sai como a gente planeja. Geralmente, aliás, acontece tudo

ao contrário, mesmo. Uma biblioteca de escola pública pode ser tudo, menos um

lugar aconchegante para a criação literária. Havia as aulas em que a professora de

literatura teimava em levar os alunos até lá. Éramos invadidos por adolescentes cheirando

a CC, manuseando livros com a delicadeza com que um ogro deflora sua esposa

nas núpcias das bestas. Machado de Assis, Julio Verne, Shakespeare, Camões…

Toda a literatura mundial era revirada com brutalidade, me rendendo semanas de

ofício reparando capas de livros. Isso sem falar nos casais que iam para lá buscar um

recanto para o namoro ou nos que achavam que ali era lugar para fumar. Era tenso.

Havia, é verdade, dias melhores. E aí, longe dos olhares vigilantes da minha

supervisora, eu escrevia meus textos. Contos sensíveis, sobre a fragilidade da vida,

questões existenciais de quem vive uma vida amarrado em rotinas, desigualdades

econômicas… A história que eu mais gostava das que escrevi naquela época foi sobre

uma mãe de família, esquentando a barriga no fogão o dia todo, lavando roupa, o

chão e apanhando do marido à noite. Um primor, sendo sincero. Narrativa poética,

roteiro bem construído, história pertinente. Postei no meu blog, o que fazia com

todos os meus textos.

Sabe o que as pessoas que leram comentaram? Nada. Nem um parabéns, nem

um gostei. Nada. Algumas pessoas liam ou, ao menos, curtiram a publicação na rede

social. Mas não reagiam como faziam com omemes.

Na época, eu não percebia isso. Eu era ingênuo e iludido. Achava que cada

curtida era, de fato, alguém avaliando bem minha escrita. Por isso, participava de

concursos literários de todo país. Acreditava que ali estava a chave para minha mudança

de status. Com o aval de um concurso, chamaria a atenção das editoras e poderia

viver de literatura. Seguir meu projeto de ser escritor.

Formei, então tinha as noites para escrever. Com o dinheiro do trabalho consegui

alugar uma casa, um barraco apertado nos fundos da casa do meu senhorio. Ali,

virava noites escrevendo. Ou tentando. Nem sempre a inspiração vinha e eu tinha a

teoria de que era melhor não escrever se o texto fosse nascer pobre.

De pobre, aliás, bastava eu. Trabalhar na biblioteca estava cada vez pior, eu

com pouquíssima paciência naquela escola. E, depois de tanto participar de concursos

literários, comecei a colher os frutos. Uma menção honrosa aqui, um terceiro

lugar lá e… bom, basicamente foi isso. Em cem concursos, ou algo assim, fui laureado

em dois. Claro, sem prêmio algum além de uma medalha e um diploma. Mas os textos

seriam publicados em coletâneas, divulgariam meu blog, aparecendo leitores para

outros textos meus, certo? Estou aguardando os leitores dessas coletâneas até hoje.

Até que meu conto, “Menos um dia para Vana”, aquele mesmo que eu descrevi

acima, foi premiado em um concurso. Primeiro lugar em um certame promovido

pela Câmara dos Vereadores da cidade de Jundiaí. Ganhei 500 reais como premiação.

O dinheiro mal pagava meu aluguel, mas, ainda assim, fiquei eufórico. Era a vitrine

que eu precisava.

Tomado pelo otimismo dos ingênuos, achei que era a hora de fazer escolhas.

Apostar alto. Pedi exoneração do meu cargo na escola. Aquela rotina só estava me

atrapalhando. Iria viver de literatura, finalmente! Eu tinha economias, então fiquei

alguns meses por conta de escrever meu primeiro livro. E foram logo dois: um de

poesia e um de contos. Textos cuidadosamente escolhidos, revisados incansavelmente

e com linguagem apurada. Histórias boas, que desafiavam o leitor, tirava-o de sua

zona de conforto.

Sabe o que aconteceu? Vamos adiantar dois anos nessa história. Lá estou eu,

em casa, aquele mesmo barraco, barba por fazer, corpo magro, olheiras engolindo

meus olhos. Estou na frente do computador, cigarro aceso. Na geladeira barulhenta,

que ganhei quando meus pais trocaram a deles, só garrafas de água, praticamente. E

eu escrevendo para internet. Webwriting é o nome disso. Eu fazia freelas nessa área,

escrevia notícias sobre novos lançamentos da indústria automobilística, tecnológica

e anúncios de vagas de emprego. Cinco reais por texto de 600 palavras, que iam

para sites caça-cliques. Na minha caixa de e-mail, junto com spams e, basicamente,

mais spams, podiam ser encontradas mensagens de editoras negando publicar meus

livros. “Não é o que estamos procurando agora”, diziam, sempre antecedidos de um

“apesar da qualidade”. Isso quando respondiam. O silêncio é a negativa mais dolorosa,

mas quem se importa?

Há dois anos eu alcançava o fundo do poço. Os freelas tomavam meu tempo

e me entediavam, enquanto as recusas de publicação me deixavam frustrado com a

escrita. Mas quando não dá mais para cair, a gente arruma um jeito de se levantar.

Refleti, pensei no futuro. Onde eu ia parar? Não parecia promissor.

Então, lembrei do que eu realmente queria: uma vida boa. Não importava o

caminho que me levasse a ela. Eu estava obcecado por boas críticas, por agradar um

público que me desprezava. Por mais que eu tentasse inovar na escrita, na narrativa,

a impressão que eu tinha é que esses leitores acadêmicos já tinham uma opinião

pronta para meus textos: temática batida, linguagem pobre. E o pior, mesmo se gostassem,

eles eram uma meia dúzia. Não pagariam minhas contas.

Ninguém enriquece como escritor sem vender livros. Era nesse público que

eu precisava focar, em pessoas que não se importavam se a história que eu estava

contando era um clichê. De fato, até preferiam reconhecer os rumos da narrativa. A

princípio foi estranho mudar o foco. Eu vinha de anos com o pensamento da faculdade,

separando literatura boa de literatura pobre. Só que mais pobre ainda era eu, o

verdadeiro bobo da história.

Foi assim, pesquisando sobre clássicos da literatura popular, que cheguei à

ideia de Desejo Sangrento. Um suspense com muito sangue, como o nome já indicava.

Pesquisei outras vertentes também. Fantasia, terror, romances. Até livro espírita

eu toparia escrever tamanho era o desespero da pessoa que vivia à base de pão com

margarina no café da manhã e miojo no almoço. Assinaria o livro como “ditado pelo

espírito Nissin”.

Fui estudando os gêneros e a maioria deles eu não teria condições de escrever.

Fantasia é coisa para nerd, eles torceriam o nariz se eu não mostrasse total conhecimento

da obra completa do J.R.R. Tolkien. Terror também não era minha praia e

para romances água com açúcar me faltaria estômago. Sobrou o suspense policial. E,

embora com um pé atrás, me dediquei com afinco à missão. No fundo, eu não entendia

porque as pessoas leriam um livro sobre uma história que poderia estar noticiada

no mais tosco dos noticiários.

De fato, quanto mais a mídia noticiou casos de serial killers nos meses seguintes,

maior foi a procurava pelo meu livro. Surgiu até a teoria de que alguns daqueles

assassinos estava se inspirando no Desejo Sangrento. Fiquei preocupado, a princípio,

com uma possível repercussão negativa. As vendas, porém, só aumentaram.

Sim, o livro foi um sucesso. A primeira editora que eu tentei se interessou em

publicá-lo. Por sorte, eu havia enviado para outras. E na medida em que as respostas

chegavam, eu pude barganhar valores. A edição também ficou bem bonita, um

calhamaço com capa dura. Preço bom nas livrarias. Livros mal acabados não atraem

leitores.

Enfim, podemos adiantar para o tempo presente. Para essa cobertura. Moro

aqui há dois meses. Vê esses móveis? Tudo planejado. Eu tinha pavor de fazer mudanças,

achava sempre uma tristeza carregar móveis, fogão, geladeira…

Ficava semanas tomando Dorflex por causa de dor contraída em mudança. E

dessa vez, não precisei trazer um copo. É tudo novo. E se precisasse carregar algo,

pagaria alguém para fazer isso.

Tudo bem, devo soar péssimo dizendo essas coisas. Fiquei deslumbrado, é

verdade, mas vai passar. É só a emoção do momento. Você observou que há dois

anos eu só comia miojo no almoço? Acho que tenho licença para ser um pouco arrogante

agora. Vai melhorar.

Hoje, participo de eventos de cultura pop, dou entrevistas para televisão e até

sou convidado para encontros literários. Sabe o que é mais curioso? Se há anos eu

perseguia críticas positivas, que valorizassem minha escrita, foi eu abandonar essa

pretensão e abraçar a literatura mais, digamos, popular, que consegui reconhecimento.

Sim, é verdade, sou muito elogiado por escrever com qualidade. Dizem que, por

mais que um livro sobre um serial killer seja algo comum, a forma como eu escrevo,

como construo o personagem principal, é diferenciada.

Não é engraçado? Quando perdi esse objetivo, as coisas caminharam. Claro,

não foi fácil, precisei me dedicar. Ninguém escreve sobre uma mente doentia sem

mergulhar, de fato, nesse universo. Gente normal, ordinária, é fácil de entender.

Elas estão por todos os lados, somos bombardeados por elas logo que nascemos. E

ninguém quer ler um livro só com elas. Agora, um psicopata é bem mais complexo.

Só com uma boa imersão para poder conceber um personagem desses. Por isso, meu

livro está tão valorizado. O Denzel Washington está cotado para ser um policial no

filme, dizem os produtores.

Olha, mas como eu estou falante, não? Vou parar, querida, nem te dei ainda a

devida atenção. E daqui há pouco você acorda, né? Já já o remedinho para de fazer o

efeito. Deixa eu tirar o seu vestido. Ele desabotoa por trás? Quero vê-la com calma.

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