Dança dos espelhos

Terror
Agosto de 2019
Começou, agora termina queride!

João Trevizan

Autor
Autora
Organizador
Organizadora
Autor e Organizador
Autora e Organizadora
Editor
Editora
Ilustrador
Ilustradora
Quando não está ilustrando, está escrevendo ou respondendo sobre qual é seu país de origem por causa de seu sotaque, que não existe.

Conquista Literária
Conto publicado em
Os espelhos do Circus Capella

Prólogo

Epílogo

Conto

Áudio drama
Dança dos espelhos
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- Venham conferir essa parceria inusitada do Circus Capella com a Prefeitura de Caraguá!

O estranho palhaço que vestia um conjunto social moderno, com calça, camisa, colete e chapéu coco, todos pretos com listras brancas, também usava uma leve maquiagem branca e um pequeno nariz preto. Ele corria entre a multidão de pessoas que andavam na feira noturna na praça do centro da cidade, enquanto gritava com entusiasmo no megafone:

– Como sabemos, o teatro da cidade foi parcialmente destruído no incêndio há duas semana, cancelando o festival de dança que aconteceria nele, trazendo tristeza a todos os pobres corações dos moradores dessa pequena e tão sofrida cidade e um inusitado aumento de vendas de ingresso para o nosso circo  – o palhaço se agarrou em um poste de luz no meio da praça e tentou escala-lo sem sucesso - E por causa dessa tristeza coletiva, exclusivamente por isso, por nenhum outro motivo a mais e nem mesmo por um pequeno motivo suspeito, o Circus Capella aceitou permanecer por mais dois dias na cidade, para sediar o Festival de Danças De Caraguá! Ingressos a venda com a linda daquela mulher de cavanhaque na esquina!

Ele apontou para uma mulher expressivamente desanimada, que contrastava com suas roupas coloridas e extravagantes, possuía um cavanhaque de tamanho considerável e balançava sem vontade, os ingressos que segurava em sua mão.

- Esqueci de mencionar! – o palhaço agarrado no poste o tentava subir a todo custo - Como sabemos só há mais uma apresentação do circo e será no sábado antes do festival de dança começar, maaas, isso mesmo, eu disse maaas a nossa tão querida Casa dos Espelhos continuará aberta a todos durante o festival, sem nenhum motivo obscuro por trás desse fato, óbvio! Ingressos para o circo a venda com a mesma da linda mulher de cavanhaque ali na esquina!

         O Palhaço desceu do poste, sorriu e saltitou de forma desengonçada em direção ao circo, que estava na praça de eventos, que fica logo após a praça do centro da cidade e de frente com a praia.

         Era sexta feira a tarde, logo seria noite e o início do festival de dança. Inara, uma jovem de longos cabelos loiros, andava com pressa pela praça movimentada, indo em direção a sua amiga, que a esperava perto do ponto de ônibus. Chegou no local, parou ao lado dela sem a cumprimentar e perguntou:

- Ana, como assim mudaram toda a dança? Eu acabei de voltar da viagem só para essa apresentação, vocês sabem que isso é muito importante para mim e só hoje descobri que mudaram toda a minha dança!

         - Calma Inara! Mudamos a dança por causa que o festival tinha sido cancelado, aproveitamos para colocar aquelas partes que não deu tempo de ensaiar, só não pensávamos que o festival iria voltar tão cedo.

         - E minha parte ficou de fora, só por causa que eu era a dançarina principal.

         - Iríamos ensaiar quando você voltasse da viagem, ninguém sabia que o festival iria voltar tão cedo, a gente ainda não acredita que o circo cedeu o local!

         - O que circo é esse? Fiquei só dez dias fora e me apareceu um circo que já está indo embora.

         - O circo já estava aqui, ninguém prestou atenção por causa do festival, só depois do acidente no teatro que o descobrimos. Mas é um circo meio estranho, alguns deles dão um pouco de medo, você vai ver quando chegar lá, Vamos?

         As duas amigas foram andando até o peculiar circo. Inara que era mais alta e forte andava com raiva, assustando sua amiga que nunca a viu se comportando desse modo. Chegaram no circo e atravessaram a tenda da entrada. O pátio estava vazio, poucas pessoas chegaram para o festival. A frente, no final do pátio, estava a tenda central do circo, alto, com suas listras brancas e vermelhas. A direita existia a tenda da lanchonete e de alguns jogos, a esquerda a casa dos espelhos e a tenda das adivinhações, aos fundos de todo o lugar, havia os trailer e os caminhões do circo.

Inara seguiu Ana que deu a volta pela esquerda na tenda central do circo e entrou numa pequena tenda ao fundo, onde era os camarins, era um espaço grande, mas que estava ocupado por adereços assustados do circo, e alguns poucos adereços para as apresentações de dança. Havia algumas dançarinas de grupos rivais, alguns funcionários exóticos do circo, que mesmo sem apresentação do circo naquele dia, ainda usavam seus figurinos exóticos e assustadores. Havia também, o grupo de dança das duas jovens.

Elas se aproximaram de seu grupo. Ana cumprimentou todas suas parceiras de dança. Inara ficou parada, séria e com os braços cruzados. Bruna que era a professora e poucos anos mais velha que suas alunas, percebeu a fúria de Inara e falou com delicadeza:

- Inara tudo bom? – mordeu os lábios ao pensar que já errou a pergunta.

- Não né? To fora da dança.

- Não, não, ainda temos um tempo para ensaiar antes da apresentação – Bruna tentou amenizar a situação - você é uma ótima dançarina, vai conseguir pegar o ritmo, é parecido com...

- Vou fazer a dança principal?

- É que não vai dar tempo para...

- Vocês sabem que eu sou a melhor dançarina aqui, já sou praticamente profissional e vocês sabem que temos que ganhar uma posição boa nesse festival para irmos apresentar em São Paulo! E quem é a pessoa que colocaram em meu lugar?

         Todas ficaram em silêncio, Inara encarou todas as sete garotas que faziam parte da companhia da dança. Ana revirou os olhos e disse:

         - Sou eu, mas estava apenas te substituindo até você voltar.

         - E eu voltei! Podemos fazer a dança com os espelhos que já estava combinado antes.

         - Acho melhor não – disse Katarina, a mais nova do grupo – a melhoria que fizemos na dança, ficou excelente, temos mais chances de ganhar uma posição boa com a dança que temos agora do que com a anterior, e a nova posição em que colocamos os espelhos ficou tão legal!

         - Isso mesmo, é o melhor para a companhia! Vamos ganhar esse festival e no próximo espetáculo em São Paulo, vamos fazer uma dança que destaque todas nós – encorajou Bruna.

         - Mas sem ganhar o festival, já que não vou dançar, não vai ter apresentação em São Paulo.

         Inara deu as costas e foi embora do camarim.

         - Inara, precisamos de você! Mas que coisa! – Bruna colocou as mãos no rosto e respirou fundo - Meninas vou atrás dela, vão se preparando e conferem se o figurino está tudo certinho.

Inara saiu do circo, andou até a frente de uma tenda onde estava escrito: Casa dos Espelhos. Um palhaço vestido de social preto com listras brancas saiu de dentro de uma porta escondida atrás de uma lona, olhou para ela, sorriu e disse:

- Não deveria estar se preparando para sua apresentação?

- Não sei mais se vou apresentar, agora só quero ficar sozinha.

- Pois bem, entre! Aqui na casa de espelhos a única companhia que terá é a sua própria, refletida várias vezes, ótimo para narcisistas, por isso que moro aqui dentro! Sabia que temos vários espelhos novos?

Ele puxou a lona abrindo passagem e fez um gesto convidando-a a entrar. Sem pensar, Inara entrou dentro da Casa dos Espelhos. O palhaço soltou a lona fechando a passagem para dentro da tenda e viu uma garota saindo do circo e vindo em sua direção. Bruna que estava procurando sua aluna foi perguntar ao palhaço:

- Com licença, a pessoa que entrou a...

- A mulher de cavanhaque? Claro! Mas ela não está aqui, deve estar curtindo a sua melancolia naquela direção – Apontou para dentro do circo.

- Tem uma mulher de cavanhaque? Mas não é ela que estou procurando...

- Óbvio que não – deu um tapa em sua testa - maaas seu destino está aqui dentro da fantástica Casa dos Espelhos, junto com aquela outra jovem loira que parecia estar frustrada, ela disse algo sobre companhia, ou era eu que disse isso? Que tal você ir perguntar a ela?

Ele puxou a lona abrindo passagem para dentro da tenda. Bruna estava confusa, mas decidiu entrar dentro da Casa dos Espelhos.

O lugar era menos iluminado que Bruna achava que deveria ser. Não conseguia ver o teto, era tudo breu, apenas via um corredor de espelhos escuros, quase não se podia ver o seu reflexo, quase não conseguia ver o caminho que deveria percorrer entre eles, andou alguns passos para frente e se sentiu perdida, decidiu sair, mas olhou para trás e não viu a saída do local, era apenas breu e espelhos. Ela sabia que entrou em algum lugar ali perto, mas não conseguia saber onde.

Bruna decidiu andar mais um pouco para frente, até onde o corredor se divide em dois, viu que o caminho da esquerda estava um pouco mais iluminado e seguiu por esse caminho.

Caminhava cuidadosamente. A pouca iluminação, a distorção dos espelhos, a quantidade de vezes que se via em cada um deles, a assustava, mas ao mesmo tempo a deixava fascinada.

Percebeu que os corredores pareciam um labirinto e decidiu chamar por Inara, gritou o seu nome e escutou a voz de sua aluna dizer:

- Vem me encontrar, eu estou aqui!

 Bruna escutou a voz vindo da esquerda e seguiu por esse caminho. Continuou caminhando até chegar em uma encruzilhada e viu Inara parada no meio do corredor a direita, de frente a um espelho um pouco mais iluminado que o outros. Correu em sua direção.

- Inara! O que aconteceu? Você foi embora.

- Fui, olha esse espelho que interessante!

Bruna parou do lado de sua aluna e olhou para o espelho em que ela estava apontando. Era um espelho comum, sem distorções, de frente para outro espelho que estava atrás das jovens, por isso podia ver as duas de frente e de costas, várias vezes, causadas pelo reflexo infinito.

- Me parece apenas um espelho comum, com reflexo infinito, está mais iluminado que os outros daqui.

As duas estavam paradas olhando para o espelho, quando Bruna sentiu uma mão segurar sua nuca com força. Congelou de medo e prendeu a respiração. Não via no reflexo, de frente e de costas, o que a estava segurando, apenas via ela e Inara paradas uma do lado da outra, com as mãos para baixo, mas percebeu algo de errado no reflexo de Inara, mas não soube entender o que era.

O medo daquela situação estranha não a permitiu falar, apenas virou sua cabeça em direção de sua aluna, e viu que era Inara que a estava segurando sua nuca, mesmo que o reflexo mostrava que não. Tentou falar algo, mas Inara usou toda sua força para bater com a cabeça de Bruna contra o espelho.

A dor foi imensa, Bruna ficou atordoada e Inara continuou a golpear a cabeça da professora contra o espelho, que resistia intacto a cada impacto, mas que era coberto cada vez mais com o sangue de Bruna. O eco de cada batida ecoava por todo o ambiente.

O corpo sem vida de Bruna caiu no chão aos pés de Inara sorrindo, que olhou para seu reflexo no espelho e viu a Inara refletida, espantada olhando o corpo no chão, mas ela ergueu os olhos e seus olhares se cruzaram, as duas, a real e o reflexo, começaram a gargalhar.

- Chega de ser bonzinha, hora de mostrar quem é a melhor dançarina dessa cidade.

Inara se abaixou, pegou o celular de Bruna e pensou em como iria se livrar do corpo. Foi por instinto, ela colocou sua mão no espelho e empurrou o corpo da professora contra ele. O corpo de Bruna entrou dentro do espelho, sumindo, apenas deixando o sangue no chão.

- Caxumba! Essa de entrar no espelho é novo para mim!

O palhaço de social preto com listras brancas estava de pé encostado em um espelho analisando a situação, deu de salva de palmas. Uma risada macabra, porém baixa, ecoou por toda a casa de espelhos.

- Nós de Circus Capella gostamos da proposta em dinheiro oferecidos para sediarmos o festival, maaas não estamos tão contentes com essas companhias de dança, não são dignos de uma apresentação em nosso circo, maaas agora talvez você seja. Mudou de ideia sobre se apresentar?

- Mudei, com certeza minha apresentação será digna do Circus Capella, tenho até umas ideias novas, adoro improvisos.

- Excelente, maaas eu também tenho uma ideia nova! Você, água sanitária, uma escova de dentes, limpando esse sangue do meu chão.

 

Ana estava junto com Katarina no picadeiro do circo, avaliando a estrutura do lugar, tão diferente do teatro. A parte da frente do picadeiro era redondo, o fundo era igual a de um palco de teatro, no final do picadeiro tinha cortinas pretas e passagem para as coxias nas laterais. A plateia contornava o picadeiro, fazendo um meio círculo. O circo era completamente fechado pela lona, deixando um ambiente escuro e assustador. Era possível ouvir risos e murmúrios dos artistas circenses, que usavam suas fantasias coloridas e macabras e que andavam por todo o lugar.

- Isso não me parece uma boa ideia – Ana disse ao se aproximar de Katarina – Aqui é muito diferente de um teatro, acho que as pessoas no canto da arquibancada não vão conseguir ver a dança quando ficarmos uma do lado da outra, nem que estamos dançando espelhadas dentro da moldura do espelho.

- Estou mais é preocupada com esses palhaços, por que eles estão todos usando essas roupas estranhas se hoje eles não têm apresentação?

- Não faço ideia, só sei que eles estão me deixando mais nervosa do que a nossa apresentação – Ana começou a falar mais baixo - parece até que estão zombando de nós, você tinha que ver o susto que um deles deu numa menina da outra companhia, ela quase teve um treco.

- Me contaram dessa menina! Pode reparar que quase ninguém das outras companhias está aqui nem os organizadores do festival conseguem ficar por muito tempo, o clima tá estranho.

- Vamos lá fora, aquele palhaço com boca nos olhos está olhando para cá, eu acho, não consigo entender direito, mas dá medo do mesmo jeito.

As duas saíram do picadeiro e entraram na coxia. Estavam quase saindo para fora do circo quando Inara entrou na tenda e deu de cara com elas. Olhou para as duas e disse:

- Encontrei com a Bruna, ela me disse que está com uma cólica terrível e foi descansar um pouco em sua casa.

- Sério? Ela não disse nada para nós.

- Ela não quis preocupar vocês, e pediu para nós ensaiarmos! Onde estão as outras?

- Andreia encontrou o Wallace e provavelmente foram se pegar em algum lugar, as outras acabaram de ir ao shopping para usar o banheiro.

- Só está nós três aqui! – Inara abriu seu maior sorriso e disse de modo alegre - Que tal irmos fazer nossas maquiagem, eu vi um camarim com espelhos aqui perto.

Ana e Katarina se entreolharam com a mudança de humor de Inara.

- Eu vou ver como a Bruna está, a casa dela é aqui pertinho, vocês duas podem ir se maquiando – Bruna disse ao sair do circo.

- Não Ana!

Inara saiu do circo para ir atrás de Ana, mas Katarina a puxou pelos braços.

- Você não vai me deixar aqui sozinha com essas palhaços.

 Olhou para Katarina, sorriu, segurou em sua mão e a levou para um camarim escondido entre figurinos e adereços macabros do circo, onde havia duas dançarinas conversando. Colocou Katarina sentada num banco de frente com uma penteadeira, pegou de sua bolsa um kit de maquiagem e começou a maquiar Katarina.

- Você quer ser uma dançarina profissional Katarina?

- Eu gosto de dançar, mas eu quero mesmo é ser atriz.

- Tem atrizes que também dançam, eu quero é ser dançarina profissional, por isso essa apresentação é importante para mim, faria de tudo para apresentar a melhor dança hoje, fecha os olhos querida.

Um pouco desconfortável pela conversa, Katarina fechou seus olhos e Inara começou a aplicar as sombras. A mulher de cavanhaque entrou no camarim, foi até as duas dançarinas da outra companhia que estavam ali, pediu ajuda para elas para testar a marcação no chão do palco e as três se retiraram do camarim. Inara continuou a conversa.

- A nossa dança com os espelhos foi genial não foi?

- Eu adorei a ideia!

- Que bom! A ideia foi minha, você sabe, por isso que fiquei chateada quando foi você que disse primeiro para não fazermos a minha dança, não é mesmo Katarina?

- Ah, é que... eu pensei no melhor para o grupo.

- Mas o melhor para o grupo sou eu.

Katarina abriu os olhos e viu Inara segurando um longo pincel de maquiagem que tinha uma ponta de madeira afiada, virada em sua direção. Inara começou a girar o pincel, como se estivesse brincando com ele.

- Não abra os olhos amor, não sou boa maquiadora.

Incomodada, Katarina fechou os olhos, mas logo os abriu de novo.

- Que tal esperar todas chegaram para maquiar juntas?

- Desnecessário, vamos perder tempo de ensaio e feche os olhos por favor.

Katarina fechou seus olhos novamente e Inara prosseguiu:

- Só vou fazer uma coisinha para evitar que você os abra novamente.

- O quê?

Inara pegou outro pincel de seus pincéis com ponta afiada, dficando um pincel em cada mão, os ergueu no ar e com toda sua força, enfincou as pontas dos dois pincéis nos olhos fechados de Katarina, atravessando a pálpebra e furando os olhos.

O grito de dor ecoou por toda a tenda, mas que se misturou com risos e gargalhadas que surgiram por todo o circo. Inara segurou com força a boca de Katarina, e sussurrou em seu ouvido.

- Não se preocupe, mesmo assim você terá sua parte na dança.

Inara puxou um dos pincéis enfincados nos olhos, e enfiou no meio da garganta de Katarina. Jorrou sangue por todo o lado, sujando as roupas de ambas as garotas. Sangue começou a sair pela boca de Katarina até ela morrer sufocada.

Os risos e gargalhadas cessaram. O palhaço de social preto com listras brancas surgiu empurrando um espelho grande, o deixando ao lado de Inara, que agarrou o corpo de Katarina e a jogou contra o espelho, o atravessando e desaparecendo.

 

Já era noite, o circo estava todo iluminado por luzes vermelhas, uma grande faixa na entrada dizia sobre o festival de dança e várias pessoas já estavam no local. Ana conversava com o irmão de Bruna na praça no centro da cidade. Ela se despediu dele e voltou correndo para o circo, atravessou a multidão de pessoas no pátio e foi para o camarim, onde todas as dançarinas e os dançarinos se preparavam para se apresentar e cada vez mais nervosos pelo aumento de palhaços, artistas circenses e pessoas estranhas usando as mais diversas fantasias macabras que surgiram no apertado camarim.

Ana se juntou ao seu grupo de dança que estavam agrupadas perto das molduras vazias que simulavam espelhos e que seriam usadas na apresentação, elas já vestiam os figurinos completamente branco. Estavam apreensivas, mas Inara não estava junto com elas.

- Acabei de voltar com o irmão da Bruna do hospital do convênio dela, não a achamos lá, agora ele foi procurar no hospital público, tiveram notícias? – Ana perguntou apreensiva.

- Não, a última mensagem que temos é dela falando que Katarina foi junto com ela para o hospital – Andreia olhou para o celular e viu receber outra mensagem– acabou de mandar uma mensagem! Ela pediu desculpas e disse para apresentarmos normalmente, só isso.

- Isso não está estranho? A Bruna é muito profissional para sumir por tanto tempo e porque não foi no hospital do convênio? – Ana olhou para os lados e percebeu que Inara não estava presente - Cadê Inara?

Elas se entreolharam, há pouco tempo ela estava junto delas, mas antes que começam a procurá-la, Inara surge mostrando o seu celular, se aproximou e disse:

- Não se preocupem, consegui falar com as duas, ela só está com muita dor e foi no hospital mais próximo junto com Katarina. Viram a mensagem que ela mandou? É para apresentarmos normalmente, mas teremos que fazer a minha dança, a atual não dá certo sem as duas e a minha não faz diferença se elas não participarem.

- Desculpa, não consigo – Ana disse baixinho – estou nervosa e nem consigo mais lembrar os passos da dança antiga.

- Como assim? – Inara andou em direção de Ana, parou em sua frente e colocou as mãos em seus ombros - Só se passaram duas semanas e você esquece o passo!

- Não é só isso – Ana disse baixinho – não está tudo muito estranho? Como Katarina foi com a Bruna no médico se eu que fui à casa dela e não tinha ninguém lá?

- Por causa que a Bruna não chegou ir até a casa, eu a vi vir aqui e conversar com a Katarina – Inara disse em tom seguro – O estranho é você, que ficou perdendo tempo às procurando, não colocou o figurino e nem veio ensaiar a dança.

Todas ficaram em silêncio. Já iria começar o festival, podia escutar o apresentador subir no picadeiro e interagir com o público, o que aumentou o nervosismo delas. Angustiada Ana perguntou:

-  Dá para se apresentar sem mim?

- Não!

- Então não vamos nos apresentar?

- Vocês não – Inara disse em tom confiante – eu vou, sozinha.

- Não temos mais nada a perder – disse uma das dançarinas – a dança vai perder o sentido sem as três.

Foi decidido, Inara iria se apresentar sozinha, mas algo ainda incomodava Ana, não acreditava na história contada do hospital, conhecia bem as duas para saber que elas não agiriam assim, principalmente num dia importante como esse.

- Será que devemos chamar a polícia? – perguntou Ana.

Inara serrou os olhos, encarou Ana e disse:

- Não se preocupe, eu falei com elas, venha comigo, preciso falar com você em particular.

Agarrou Ana pela mão e a puxou para longe dali. Saíram do circo e foram para a praia mal iluminada, afastado do circo. Inara a puxava em direção a areia e Ana reclamou.

- Já estamos longe, não precisamos ir para areia.

- Precisamos, é uma simpatia que aprendi, acontece na água.

- Está louca? Não vou na água, você está agindo estranha.

-Você que está agindo estranha toda desesperada e nervosa por uma coisa que já está resolvida, venha comigo.

- Não!

Ana tentava se soltar e não conseguia, foi arrastada até a areia, onde resolveu se jogar em cima de Inara. Com o impacto, as duas caíram e rolaram na areia fria. Ana viu um objeto cair da roupa de Inara e o pegou, era um celular que ela conhecia, o celular de Bruna. Gritou:

- O que você fez?

- O que irei fazer com você - Sorriu.

Inara agarrou o pescoço de Ana, a jogou no chão e começou a estrangular a garota. Um certo palhaço de social preto com listras brancas se aproximou, olhou as duas na areia e disse com muita calma:

- Eu adoro um estrangulamento, com certeza mais do que o saudável, maaas tive uma ideia mais interessante para ela.

 

O festival teve início, as companhias fizeram suas apresentações, recebendo aplausos da plateia empolgada, porém vaias e zombarias vindo dos palhaços. Era a vez da companhia de Inara dançar. Ela havia trocado de roupa para tirar a areia de corpo, colocou uma camisa vermelha e uma calça justa bege, que achou num papagaio de roupas do circo. Subiu no palco escuro, alguns palhaços ajudaram a subir os três espelhos de verdade, com dois metros de altura, largos e sobre pequenas rodas, os posicionaram no picadeiro.

Inara sorria com os misto de emoções que sentia antes de uma apresentação e foi para a sua marcação no picadeiro, ficou na frente dos três espelhos posicionados em um meio círculo, ela era refletida em todos eles.

A Luz vermelha se acendeu e a música tocou. Começava com estalos de dedos junto com uma batida, Inara movimentava seu corpo no ritmo da música, fazia movimentos contidos e suave. Quando a ritmo da música ficou mais rápida, ela dançava com força, raiva e agilidade.

Com movimentos precisos e rodopios, Inara improvisava na dança, seguia o ritmo, se fundia com a música, interagia com seus reflexos nos espelhos e empolgava o público. Inara rodopiou e ficou de frente para o público, de costas para os espelhos. Começou a dançar uma dança contida, seguindo o ritmo da batida, seus reflexos no espelho, não a acompanhava, dançavam num outro ritmo, uma outra dança.

O Público foi à loucura, ninguém sabia como aquilo era possível, não entendiam como os reflexos se mexiam sozinho, ficaram hipnotizados pela dança, pela Inara, pelos reflexos, pela música.

Inara dançando, saiu do meio do picadeiro, seus reflexos continuavam a dançar. Ela foi para atrás dos espelhos e os girou, revelando um outro espelho, mas com outros reflexos. Nos dois espelhos dos cantos continham os reflexos de Bruna e Katarina mortas e no espelho do meio, havia o reflexo de Ana, ainda viva, ela gritava, mas não podia ser ouvida, batia com as mãos na superfície de dentro do espelho, estava desesperada. O pública antes empolgado, ficaram estáticos com a  cena. 

A música estava terminando. Inara voltou a frente dos espelhos e dançava, os reflexos de Bruna e Katarina acompanhava a dança. Inara ficou de costas para o público, olhou para Ana, sorriu e andou em direção ao seu espelho, parou em frente e esticou o braço direito, colocando a sua mão na superfície do espelho, a atravessou, pegou Ana pelo pescoço e a puxou para fora.

Os três espelhos se quebraram e seus cacos se espalharam por todo o picadeiro. Os corpos de Bruna e Katarina caíram no chão. Ana estava sendo segurada por Inara que a arremessou no meio do picadeiro.

Ana caiu de costas, se virou de frente e viu Inara pegar um pedaço afiado de um caco do espelho, ficou de pé, tentou fugir, mas foi agarrada por Inara que levantou sua mão com o caco e cortou o pescoço de Ana na última batida da música.

O sangue escorria, a plateia ficou horrorizada. Inara soltou o corpo de Ana que caiu no chão. A dançarina se virou para a plateia, ergueu suas mãos para o alto e agradeceu ao público, as luzes do circo se apagam e um silêncio aterrorizador tomou conta do ambiente.

 

         Inara corria em direção à praia, próximo ao circo, o vento estava forte e o mar estava agitado. Caminhou pelas areias, na escuridão da noite, até ouvir as sirenes dos carros da polícia ao longe. Olhou para o circo já distante e viu as luzes vermelhas e azuis dos carros das polícias iluminarem o local. Viu os faróis de um carro vindo em sal direção pelas areias da praia.

Uma van preta, com vidro escuro parou do seu lado, a janela da frente, do lado do passageiro se abriu revelando a mulher de cavanhaque, ela estava sorridente e disse:

- Sua apresentação foi magnífica, diferente das outras companhias, você foi a única dançarina digna do Circus Capella! – ela colocou seu rosto para fora do carro - Me diz, gostaria de ser uma dançarina profissional e se juntar a nossa companhia?

Os olhos de Inara se encheram de lágrimas.

- Sim.

- Magnífico! Estamos indo para o nosso próximo destino, o resto de nós deverá demorar para chegar, afinal, terão que ficar para arrumar a bagunça deliciosa que você fez. Vamos?

 A porta de trás da van deslizou para o lado abrindo passagem, pela escuridão da noite, nada podia ser visto dentro da van, mas uma estranha mão branca com unhas longuíssimas e pretas surgiu no escuro e se estendeu em direção a Inara, parando em sua frente.

Inara colocou a palma de sua mão direita sobre a mão branca, que se fechou a segurando e a puxou para entrar dentro da van.


Prólogo

Epílogo

Conto

Áudio drama
Dança dos espelhos
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- Venham conferir essa parceria inusitada do Circus Capella com a Prefeitura de Caraguá!

O estranho palhaço que vestia um conjunto social moderno, com calça, camisa, colete e chapéu coco, todos pretos com listras brancas, também usava uma leve maquiagem branca e um pequeno nariz preto. Ele corria entre a multidão de pessoas que andavam na feira noturna na praça do centro da cidade, enquanto gritava com entusiasmo no megafone:

– Como sabemos, o teatro da cidade foi parcialmente destruído no incêndio há duas semana, cancelando o festival de dança que aconteceria nele, trazendo tristeza a todos os pobres corações dos moradores dessa pequena e tão sofrida cidade e um inusitado aumento de vendas de ingresso para o nosso circo  – o palhaço se agarrou em um poste de luz no meio da praça e tentou escala-lo sem sucesso - E por causa dessa tristeza coletiva, exclusivamente por isso, por nenhum outro motivo a mais e nem mesmo por um pequeno motivo suspeito, o Circus Capella aceitou permanecer por mais dois dias na cidade, para sediar o Festival de Danças De Caraguá! Ingressos a venda com a linda daquela mulher de cavanhaque na esquina!

Ele apontou para uma mulher expressivamente desanimada, que contrastava com suas roupas coloridas e extravagantes, possuía um cavanhaque de tamanho considerável e balançava sem vontade, os ingressos que segurava em sua mão.

- Esqueci de mencionar! – o palhaço agarrado no poste o tentava subir a todo custo - Como sabemos só há mais uma apresentação do circo e será no sábado antes do festival de dança começar, maaas, isso mesmo, eu disse maaas a nossa tão querida Casa dos Espelhos continuará aberta a todos durante o festival, sem nenhum motivo obscuro por trás desse fato, óbvio! Ingressos para o circo a venda com a mesma da linda mulher de cavanhaque ali na esquina!

         O Palhaço desceu do poste, sorriu e saltitou de forma desengonçada em direção ao circo, que estava na praça de eventos, que fica logo após a praça do centro da cidade e de frente com a praia.

         Era sexta feira a tarde, logo seria noite e o início do festival de dança. Inara, uma jovem de longos cabelos loiros, andava com pressa pela praça movimentada, indo em direção a sua amiga, que a esperava perto do ponto de ônibus. Chegou no local, parou ao lado dela sem a cumprimentar e perguntou:

- Ana, como assim mudaram toda a dança? Eu acabei de voltar da viagem só para essa apresentação, vocês sabem que isso é muito importante para mim e só hoje descobri que mudaram toda a minha dança!

         - Calma Inara! Mudamos a dança por causa que o festival tinha sido cancelado, aproveitamos para colocar aquelas partes que não deu tempo de ensaiar, só não pensávamos que o festival iria voltar tão cedo.

         - E minha parte ficou de fora, só por causa que eu era a dançarina principal.

         - Iríamos ensaiar quando você voltasse da viagem, ninguém sabia que o festival iria voltar tão cedo, a gente ainda não acredita que o circo cedeu o local!

         - O que circo é esse? Fiquei só dez dias fora e me apareceu um circo que já está indo embora.

         - O circo já estava aqui, ninguém prestou atenção por causa do festival, só depois do acidente no teatro que o descobrimos. Mas é um circo meio estranho, alguns deles dão um pouco de medo, você vai ver quando chegar lá, Vamos?

         As duas amigas foram andando até o peculiar circo. Inara que era mais alta e forte andava com raiva, assustando sua amiga que nunca a viu se comportando desse modo. Chegaram no circo e atravessaram a tenda da entrada. O pátio estava vazio, poucas pessoas chegaram para o festival. A frente, no final do pátio, estava a tenda central do circo, alto, com suas listras brancas e vermelhas. A direita existia a tenda da lanchonete e de alguns jogos, a esquerda a casa dos espelhos e a tenda das adivinhações, aos fundos de todo o lugar, havia os trailer e os caminhões do circo.

Inara seguiu Ana que deu a volta pela esquerda na tenda central do circo e entrou numa pequena tenda ao fundo, onde era os camarins, era um espaço grande, mas que estava ocupado por adereços assustados do circo, e alguns poucos adereços para as apresentações de dança. Havia algumas dançarinas de grupos rivais, alguns funcionários exóticos do circo, que mesmo sem apresentação do circo naquele dia, ainda usavam seus figurinos exóticos e assustadores. Havia também, o grupo de dança das duas jovens.

Elas se aproximaram de seu grupo. Ana cumprimentou todas suas parceiras de dança. Inara ficou parada, séria e com os braços cruzados. Bruna que era a professora e poucos anos mais velha que suas alunas, percebeu a fúria de Inara e falou com delicadeza:

- Inara tudo bom? – mordeu os lábios ao pensar que já errou a pergunta.

- Não né? To fora da dança.

- Não, não, ainda temos um tempo para ensaiar antes da apresentação – Bruna tentou amenizar a situação - você é uma ótima dançarina, vai conseguir pegar o ritmo, é parecido com...

- Vou fazer a dança principal?

- É que não vai dar tempo para...

- Vocês sabem que eu sou a melhor dançarina aqui, já sou praticamente profissional e vocês sabem que temos que ganhar uma posição boa nesse festival para irmos apresentar em São Paulo! E quem é a pessoa que colocaram em meu lugar?

         Todas ficaram em silêncio, Inara encarou todas as sete garotas que faziam parte da companhia da dança. Ana revirou os olhos e disse:

         - Sou eu, mas estava apenas te substituindo até você voltar.

         - E eu voltei! Podemos fazer a dança com os espelhos que já estava combinado antes.

         - Acho melhor não – disse Katarina, a mais nova do grupo – a melhoria que fizemos na dança, ficou excelente, temos mais chances de ganhar uma posição boa com a dança que temos agora do que com a anterior, e a nova posição em que colocamos os espelhos ficou tão legal!

         - Isso mesmo, é o melhor para a companhia! Vamos ganhar esse festival e no próximo espetáculo em São Paulo, vamos fazer uma dança que destaque todas nós – encorajou Bruna.

         - Mas sem ganhar o festival, já que não vou dançar, não vai ter apresentação em São Paulo.

         Inara deu as costas e foi embora do camarim.

         - Inara, precisamos de você! Mas que coisa! – Bruna colocou as mãos no rosto e respirou fundo - Meninas vou atrás dela, vão se preparando e conferem se o figurino está tudo certinho.

Inara saiu do circo, andou até a frente de uma tenda onde estava escrito: Casa dos Espelhos. Um palhaço vestido de social preto com listras brancas saiu de dentro de uma porta escondida atrás de uma lona, olhou para ela, sorriu e disse:

- Não deveria estar se preparando para sua apresentação?

- Não sei mais se vou apresentar, agora só quero ficar sozinha.

- Pois bem, entre! Aqui na casa de espelhos a única companhia que terá é a sua própria, refletida várias vezes, ótimo para narcisistas, por isso que moro aqui dentro! Sabia que temos vários espelhos novos?

Ele puxou a lona abrindo passagem e fez um gesto convidando-a a entrar. Sem pensar, Inara entrou dentro da Casa dos Espelhos. O palhaço soltou a lona fechando a passagem para dentro da tenda e viu uma garota saindo do circo e vindo em sua direção. Bruna que estava procurando sua aluna foi perguntar ao palhaço:

- Com licença, a pessoa que entrou a...

- A mulher de cavanhaque? Claro! Mas ela não está aqui, deve estar curtindo a sua melancolia naquela direção – Apontou para dentro do circo.

- Tem uma mulher de cavanhaque? Mas não é ela que estou procurando...

- Óbvio que não – deu um tapa em sua testa - maaas seu destino está aqui dentro da fantástica Casa dos Espelhos, junto com aquela outra jovem loira que parecia estar frustrada, ela disse algo sobre companhia, ou era eu que disse isso? Que tal você ir perguntar a ela?

Ele puxou a lona abrindo passagem para dentro da tenda. Bruna estava confusa, mas decidiu entrar dentro da Casa dos Espelhos.

O lugar era menos iluminado que Bruna achava que deveria ser. Não conseguia ver o teto, era tudo breu, apenas via um corredor de espelhos escuros, quase não se podia ver o seu reflexo, quase não conseguia ver o caminho que deveria percorrer entre eles, andou alguns passos para frente e se sentiu perdida, decidiu sair, mas olhou para trás e não viu a saída do local, era apenas breu e espelhos. Ela sabia que entrou em algum lugar ali perto, mas não conseguia saber onde.

Bruna decidiu andar mais um pouco para frente, até onde o corredor se divide em dois, viu que o caminho da esquerda estava um pouco mais iluminado e seguiu por esse caminho.

Caminhava cuidadosamente. A pouca iluminação, a distorção dos espelhos, a quantidade de vezes que se via em cada um deles, a assustava, mas ao mesmo tempo a deixava fascinada.

Percebeu que os corredores pareciam um labirinto e decidiu chamar por Inara, gritou o seu nome e escutou a voz de sua aluna dizer:

- Vem me encontrar, eu estou aqui!

 Bruna escutou a voz vindo da esquerda e seguiu por esse caminho. Continuou caminhando até chegar em uma encruzilhada e viu Inara parada no meio do corredor a direita, de frente a um espelho um pouco mais iluminado que o outros. Correu em sua direção.

- Inara! O que aconteceu? Você foi embora.

- Fui, olha esse espelho que interessante!

Bruna parou do lado de sua aluna e olhou para o espelho em que ela estava apontando. Era um espelho comum, sem distorções, de frente para outro espelho que estava atrás das jovens, por isso podia ver as duas de frente e de costas, várias vezes, causadas pelo reflexo infinito.

- Me parece apenas um espelho comum, com reflexo infinito, está mais iluminado que os outros daqui.

As duas estavam paradas olhando para o espelho, quando Bruna sentiu uma mão segurar sua nuca com força. Congelou de medo e prendeu a respiração. Não via no reflexo, de frente e de costas, o que a estava segurando, apenas via ela e Inara paradas uma do lado da outra, com as mãos para baixo, mas percebeu algo de errado no reflexo de Inara, mas não soube entender o que era.

O medo daquela situação estranha não a permitiu falar, apenas virou sua cabeça em direção de sua aluna, e viu que era Inara que a estava segurando sua nuca, mesmo que o reflexo mostrava que não. Tentou falar algo, mas Inara usou toda sua força para bater com a cabeça de Bruna contra o espelho.

A dor foi imensa, Bruna ficou atordoada e Inara continuou a golpear a cabeça da professora contra o espelho, que resistia intacto a cada impacto, mas que era coberto cada vez mais com o sangue de Bruna. O eco de cada batida ecoava por todo o ambiente.

O corpo sem vida de Bruna caiu no chão aos pés de Inara sorrindo, que olhou para seu reflexo no espelho e viu a Inara refletida, espantada olhando o corpo no chão, mas ela ergueu os olhos e seus olhares se cruzaram, as duas, a real e o reflexo, começaram a gargalhar.

- Chega de ser bonzinha, hora de mostrar quem é a melhor dançarina dessa cidade.

Inara se abaixou, pegou o celular de Bruna e pensou em como iria se livrar do corpo. Foi por instinto, ela colocou sua mão no espelho e empurrou o corpo da professora contra ele. O corpo de Bruna entrou dentro do espelho, sumindo, apenas deixando o sangue no chão.

- Caxumba! Essa de entrar no espelho é novo para mim!

O palhaço de social preto com listras brancas estava de pé encostado em um espelho analisando a situação, deu de salva de palmas. Uma risada macabra, porém baixa, ecoou por toda a casa de espelhos.

- Nós de Circus Capella gostamos da proposta em dinheiro oferecidos para sediarmos o festival, maaas não estamos tão contentes com essas companhias de dança, não são dignos de uma apresentação em nosso circo, maaas agora talvez você seja. Mudou de ideia sobre se apresentar?

- Mudei, com certeza minha apresentação será digna do Circus Capella, tenho até umas ideias novas, adoro improvisos.

- Excelente, maaas eu também tenho uma ideia nova! Você, água sanitária, uma escova de dentes, limpando esse sangue do meu chão.

 

Ana estava junto com Katarina no picadeiro do circo, avaliando a estrutura do lugar, tão diferente do teatro. A parte da frente do picadeiro era redondo, o fundo era igual a de um palco de teatro, no final do picadeiro tinha cortinas pretas e passagem para as coxias nas laterais. A plateia contornava o picadeiro, fazendo um meio círculo. O circo era completamente fechado pela lona, deixando um ambiente escuro e assustador. Era possível ouvir risos e murmúrios dos artistas circenses, que usavam suas fantasias coloridas e macabras e que andavam por todo o lugar.

- Isso não me parece uma boa ideia – Ana disse ao se aproximar de Katarina – Aqui é muito diferente de um teatro, acho que as pessoas no canto da arquibancada não vão conseguir ver a dança quando ficarmos uma do lado da outra, nem que estamos dançando espelhadas dentro da moldura do espelho.

- Estou mais é preocupada com esses palhaços, por que eles estão todos usando essas roupas estranhas se hoje eles não têm apresentação?

- Não faço ideia, só sei que eles estão me deixando mais nervosa do que a nossa apresentação – Ana começou a falar mais baixo - parece até que estão zombando de nós, você tinha que ver o susto que um deles deu numa menina da outra companhia, ela quase teve um treco.

- Me contaram dessa menina! Pode reparar que quase ninguém das outras companhias está aqui nem os organizadores do festival conseguem ficar por muito tempo, o clima tá estranho.

- Vamos lá fora, aquele palhaço com boca nos olhos está olhando para cá, eu acho, não consigo entender direito, mas dá medo do mesmo jeito.

As duas saíram do picadeiro e entraram na coxia. Estavam quase saindo para fora do circo quando Inara entrou na tenda e deu de cara com elas. Olhou para as duas e disse:

- Encontrei com a Bruna, ela me disse que está com uma cólica terrível e foi descansar um pouco em sua casa.

- Sério? Ela não disse nada para nós.

- Ela não quis preocupar vocês, e pediu para nós ensaiarmos! Onde estão as outras?

- Andreia encontrou o Wallace e provavelmente foram se pegar em algum lugar, as outras acabaram de ir ao shopping para usar o banheiro.

- Só está nós três aqui! – Inara abriu seu maior sorriso e disse de modo alegre - Que tal irmos fazer nossas maquiagem, eu vi um camarim com espelhos aqui perto.

Ana e Katarina se entreolharam com a mudança de humor de Inara.

- Eu vou ver como a Bruna está, a casa dela é aqui pertinho, vocês duas podem ir se maquiando – Bruna disse ao sair do circo.

- Não Ana!

Inara saiu do circo para ir atrás de Ana, mas Katarina a puxou pelos braços.

- Você não vai me deixar aqui sozinha com essas palhaços.

 Olhou para Katarina, sorriu, segurou em sua mão e a levou para um camarim escondido entre figurinos e adereços macabros do circo, onde havia duas dançarinas conversando. Colocou Katarina sentada num banco de frente com uma penteadeira, pegou de sua bolsa um kit de maquiagem e começou a maquiar Katarina.

- Você quer ser uma dançarina profissional Katarina?

- Eu gosto de dançar, mas eu quero mesmo é ser atriz.

- Tem atrizes que também dançam, eu quero é ser dançarina profissional, por isso essa apresentação é importante para mim, faria de tudo para apresentar a melhor dança hoje, fecha os olhos querida.

Um pouco desconfortável pela conversa, Katarina fechou seus olhos e Inara começou a aplicar as sombras. A mulher de cavanhaque entrou no camarim, foi até as duas dançarinas da outra companhia que estavam ali, pediu ajuda para elas para testar a marcação no chão do palco e as três se retiraram do camarim. Inara continuou a conversa.

- A nossa dança com os espelhos foi genial não foi?

- Eu adorei a ideia!

- Que bom! A ideia foi minha, você sabe, por isso que fiquei chateada quando foi você que disse primeiro para não fazermos a minha dança, não é mesmo Katarina?

- Ah, é que... eu pensei no melhor para o grupo.

- Mas o melhor para o grupo sou eu.

Katarina abriu os olhos e viu Inara segurando um longo pincel de maquiagem que tinha uma ponta de madeira afiada, virada em sua direção. Inara começou a girar o pincel, como se estivesse brincando com ele.

- Não abra os olhos amor, não sou boa maquiadora.

Incomodada, Katarina fechou os olhos, mas logo os abriu de novo.

- Que tal esperar todas chegaram para maquiar juntas?

- Desnecessário, vamos perder tempo de ensaio e feche os olhos por favor.

Katarina fechou seus olhos novamente e Inara prosseguiu:

- Só vou fazer uma coisinha para evitar que você os abra novamente.

- O quê?

Inara pegou outro pincel de seus pincéis com ponta afiada, dficando um pincel em cada mão, os ergueu no ar e com toda sua força, enfincou as pontas dos dois pincéis nos olhos fechados de Katarina, atravessando a pálpebra e furando os olhos.

O grito de dor ecoou por toda a tenda, mas que se misturou com risos e gargalhadas que surgiram por todo o circo. Inara segurou com força a boca de Katarina, e sussurrou em seu ouvido.

- Não se preocupe, mesmo assim você terá sua parte na dança.

Inara puxou um dos pincéis enfincados nos olhos, e enfiou no meio da garganta de Katarina. Jorrou sangue por todo o lado, sujando as roupas de ambas as garotas. Sangue começou a sair pela boca de Katarina até ela morrer sufocada.

Os risos e gargalhadas cessaram. O palhaço de social preto com listras brancas surgiu empurrando um espelho grande, o deixando ao lado de Inara, que agarrou o corpo de Katarina e a jogou contra o espelho, o atravessando e desaparecendo.

 

Já era noite, o circo estava todo iluminado por luzes vermelhas, uma grande faixa na entrada dizia sobre o festival de dança e várias pessoas já estavam no local. Ana conversava com o irmão de Bruna na praça no centro da cidade. Ela se despediu dele e voltou correndo para o circo, atravessou a multidão de pessoas no pátio e foi para o camarim, onde todas as dançarinas e os dançarinos se preparavam para se apresentar e cada vez mais nervosos pelo aumento de palhaços, artistas circenses e pessoas estranhas usando as mais diversas fantasias macabras que surgiram no apertado camarim.

Ana se juntou ao seu grupo de dança que estavam agrupadas perto das molduras vazias que simulavam espelhos e que seriam usadas na apresentação, elas já vestiam os figurinos completamente branco. Estavam apreensivas, mas Inara não estava junto com elas.

- Acabei de voltar com o irmão da Bruna do hospital do convênio dela, não a achamos lá, agora ele foi procurar no hospital público, tiveram notícias? – Ana perguntou apreensiva.

- Não, a última mensagem que temos é dela falando que Katarina foi junto com ela para o hospital – Andreia olhou para o celular e viu receber outra mensagem– acabou de mandar uma mensagem! Ela pediu desculpas e disse para apresentarmos normalmente, só isso.

- Isso não está estranho? A Bruna é muito profissional para sumir por tanto tempo e porque não foi no hospital do convênio? – Ana olhou para os lados e percebeu que Inara não estava presente - Cadê Inara?

Elas se entreolharam, há pouco tempo ela estava junto delas, mas antes que começam a procurá-la, Inara surge mostrando o seu celular, se aproximou e disse:

- Não se preocupem, consegui falar com as duas, ela só está com muita dor e foi no hospital mais próximo junto com Katarina. Viram a mensagem que ela mandou? É para apresentarmos normalmente, mas teremos que fazer a minha dança, a atual não dá certo sem as duas e a minha não faz diferença se elas não participarem.

- Desculpa, não consigo – Ana disse baixinho – estou nervosa e nem consigo mais lembrar os passos da dança antiga.

- Como assim? – Inara andou em direção de Ana, parou em sua frente e colocou as mãos em seus ombros - Só se passaram duas semanas e você esquece o passo!

- Não é só isso – Ana disse baixinho – não está tudo muito estranho? Como Katarina foi com a Bruna no médico se eu que fui à casa dela e não tinha ninguém lá?

- Por causa que a Bruna não chegou ir até a casa, eu a vi vir aqui e conversar com a Katarina – Inara disse em tom seguro – O estranho é você, que ficou perdendo tempo às procurando, não colocou o figurino e nem veio ensaiar a dança.

Todas ficaram em silêncio. Já iria começar o festival, podia escutar o apresentador subir no picadeiro e interagir com o público, o que aumentou o nervosismo delas. Angustiada Ana perguntou:

-  Dá para se apresentar sem mim?

- Não!

- Então não vamos nos apresentar?

- Vocês não – Inara disse em tom confiante – eu vou, sozinha.

- Não temos mais nada a perder – disse uma das dançarinas – a dança vai perder o sentido sem as três.

Foi decidido, Inara iria se apresentar sozinha, mas algo ainda incomodava Ana, não acreditava na história contada do hospital, conhecia bem as duas para saber que elas não agiriam assim, principalmente num dia importante como esse.

- Será que devemos chamar a polícia? – perguntou Ana.

Inara serrou os olhos, encarou Ana e disse:

- Não se preocupe, eu falei com elas, venha comigo, preciso falar com você em particular.

Agarrou Ana pela mão e a puxou para longe dali. Saíram do circo e foram para a praia mal iluminada, afastado do circo. Inara a puxava em direção a areia e Ana reclamou.

- Já estamos longe, não precisamos ir para areia.

- Precisamos, é uma simpatia que aprendi, acontece na água.

- Está louca? Não vou na água, você está agindo estranha.

-Você que está agindo estranha toda desesperada e nervosa por uma coisa que já está resolvida, venha comigo.

- Não!

Ana tentava se soltar e não conseguia, foi arrastada até a areia, onde resolveu se jogar em cima de Inara. Com o impacto, as duas caíram e rolaram na areia fria. Ana viu um objeto cair da roupa de Inara e o pegou, era um celular que ela conhecia, o celular de Bruna. Gritou:

- O que você fez?

- O que irei fazer com você - Sorriu.

Inara agarrou o pescoço de Ana, a jogou no chão e começou a estrangular a garota. Um certo palhaço de social preto com listras brancas se aproximou, olhou as duas na areia e disse com muita calma:

- Eu adoro um estrangulamento, com certeza mais do que o saudável, maaas tive uma ideia mais interessante para ela.

 

O festival teve início, as companhias fizeram suas apresentações, recebendo aplausos da plateia empolgada, porém vaias e zombarias vindo dos palhaços. Era a vez da companhia de Inara dançar. Ela havia trocado de roupa para tirar a areia de corpo, colocou uma camisa vermelha e uma calça justa bege, que achou num papagaio de roupas do circo. Subiu no palco escuro, alguns palhaços ajudaram a subir os três espelhos de verdade, com dois metros de altura, largos e sobre pequenas rodas, os posicionaram no picadeiro.

Inara sorria com os misto de emoções que sentia antes de uma apresentação e foi para a sua marcação no picadeiro, ficou na frente dos três espelhos posicionados em um meio círculo, ela era refletida em todos eles.

A Luz vermelha se acendeu e a música tocou. Começava com estalos de dedos junto com uma batida, Inara movimentava seu corpo no ritmo da música, fazia movimentos contidos e suave. Quando a ritmo da música ficou mais rápida, ela dançava com força, raiva e agilidade.

Com movimentos precisos e rodopios, Inara improvisava na dança, seguia o ritmo, se fundia com a música, interagia com seus reflexos nos espelhos e empolgava o público. Inara rodopiou e ficou de frente para o público, de costas para os espelhos. Começou a dançar uma dança contida, seguindo o ritmo da batida, seus reflexos no espelho, não a acompanhava, dançavam num outro ritmo, uma outra dança.

O Público foi à loucura, ninguém sabia como aquilo era possível, não entendiam como os reflexos se mexiam sozinho, ficaram hipnotizados pela dança, pela Inara, pelos reflexos, pela música.

Inara dançando, saiu do meio do picadeiro, seus reflexos continuavam a dançar. Ela foi para atrás dos espelhos e os girou, revelando um outro espelho, mas com outros reflexos. Nos dois espelhos dos cantos continham os reflexos de Bruna e Katarina mortas e no espelho do meio, havia o reflexo de Ana, ainda viva, ela gritava, mas não podia ser ouvida, batia com as mãos na superfície de dentro do espelho, estava desesperada. O pública antes empolgado, ficaram estáticos com a  cena. 

A música estava terminando. Inara voltou a frente dos espelhos e dançava, os reflexos de Bruna e Katarina acompanhava a dança. Inara ficou de costas para o público, olhou para Ana, sorriu e andou em direção ao seu espelho, parou em frente e esticou o braço direito, colocando a sua mão na superfície do espelho, a atravessou, pegou Ana pelo pescoço e a puxou para fora.

Os três espelhos se quebraram e seus cacos se espalharam por todo o picadeiro. Os corpos de Bruna e Katarina caíram no chão. Ana estava sendo segurada por Inara que a arremessou no meio do picadeiro.

Ana caiu de costas, se virou de frente e viu Inara pegar um pedaço afiado de um caco do espelho, ficou de pé, tentou fugir, mas foi agarrada por Inara que levantou sua mão com o caco e cortou o pescoço de Ana na última batida da música.

O sangue escorria, a plateia ficou horrorizada. Inara soltou o corpo de Ana que caiu no chão. A dançarina se virou para a plateia, ergueu suas mãos para o alto e agradeceu ao público, as luzes do circo se apagam e um silêncio aterrorizador tomou conta do ambiente.

 

         Inara corria em direção à praia, próximo ao circo, o vento estava forte e o mar estava agitado. Caminhou pelas areias, na escuridão da noite, até ouvir as sirenes dos carros da polícia ao longe. Olhou para o circo já distante e viu as luzes vermelhas e azuis dos carros das polícias iluminarem o local. Viu os faróis de um carro vindo em sal direção pelas areias da praia.

Uma van preta, com vidro escuro parou do seu lado, a janela da frente, do lado do passageiro se abriu revelando a mulher de cavanhaque, ela estava sorridente e disse:

- Sua apresentação foi magnífica, diferente das outras companhias, você foi a única dançarina digna do Circus Capella! – ela colocou seu rosto para fora do carro - Me diz, gostaria de ser uma dançarina profissional e se juntar a nossa companhia?

Os olhos de Inara se encheram de lágrimas.

- Sim.

- Magnífico! Estamos indo para o nosso próximo destino, o resto de nós deverá demorar para chegar, afinal, terão que ficar para arrumar a bagunça deliciosa que você fez. Vamos?

 A porta de trás da van deslizou para o lado abrindo passagem, pela escuridão da noite, nada podia ser visto dentro da van, mas uma estranha mão branca com unhas longuíssimas e pretas surgiu no escuro e se estendeu em direção a Inara, parando em sua frente.

Inara colocou a palma de sua mão direita sobre a mão branca, que se fechou a segurando e a puxou para entrar dentro da van.


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