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Crianças Aprendem a Odiar
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Crianças Aprendem a Odiar

Jon O’Brien
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Áudio drama
Crianças Aprendem a Odiar
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Os olhos da criatura se abrem e focalizam a imensidão de luminosidade à sua frente. Seu nascimento é celebrado com uma pedrada no rosto, fazendo os olhos novamente se fecharem e a criatura exclamar um gemido de dor. Ela tenta se arrastar para trás com suas pernas defeituosas, mas não chega muito longe até receber mais uma pedrada, dessa vez no estômago.

As crianças arrancam galhos pontudos de uma árvore frutífera e batem com eles no mirrado corpo da criatura, que, ao nascer, deve ter sido abandonada pela mãe, deixada para morrer de fome. E ela acorda para o mundo, acorda para a dor. Talvez pense que seria melhor se morresse. Talvez não pense, talvez não pense, talvez também há algo de errado com seu cérebro.

Eu observo de longe, atrás de uma árvore, uma das poucas árvores de algo que um dia foi uma floresta, observo minha irmã mais nova, aos oito anos de idade, pisar no rosto da criatura. E as outras crianças imitam o seu gesto odioso, maltratando um ser que acabou de vir ao mundo. As crianças aprendem a odiar. Elas batem na criatura até o rosto dela se contorcer e expelir o último suspiro.

A criatura está morta, mas as crianças ainda se divertem com o estrago que fizeram. Dão chutinhos na barriga, para ver se ela vai voltar à vida. Admiro a curiosidade das crianças, mas não as invejo. Às vezes, elas são mórbidas demais.

— Danny, parece que acabamos por hoje — minha irmã diz.

— E esse é o nosso trabalho: remover o lixo.

Crianças não nascem odiando; elas aprendem. Os cinco guerreiros, se é que podem ser chamados assim, vêm em minha direção, e por isso eu me escondo atrás de uma moita de folhas mortas e acinzentadas. Não suportaria que me vissem aqui. Os cinco branquelos passam reto, e eu corro para ver o que sobrou da pobre criaturinha.

Ela está com as pernas quebradas, o que acontece em alguns nascimentos. Essa espécie abandona os filhos que nascem com problemas incuráveis. Ela nunca conseguiria andar, mas não acho que merecia ser arrebatada para a outra vida de uma forma tão cruel.

Toco os lábios da criatura, antes de um azul estonteante e agora com marcas roxas e mórbidas, cor da morte. O vento frio gela minha espinha. A criatura está morta, e mais uma vez eu não pude impedir essas crianças de cometer essa maldade.


***


Eu fui abandonada ao nascer, e então levada a um orfanato para a adoção. Meus pais, meus amados pais que me acolheram, me levaram para casa e fizeram eu me sentir parte da família. Minha pele, mais escura que a dos meus pais e da minha irmã “postiça”, não serviu de empecilho para eu ser adotada. Apesar de o racismo ainda existir, na minha família isso não acontece. Sinto-me abençoada.

No horário do almoço, minha irmã entra e vem comer com a gente. Ela me lança um olhar estranho, como se soubesse que eu a observei mais cedo. Depois, põe-se a comer a sua comida artificial, como quase tudo neste lugar. A única coisa que ainda é “de verdade” é uma estufa gigante com árvores, plantas, tudo natural, embora ligados a aparelhos para sobreviverem. Nossa mãe dá um beijo na testa de Lisa, que olha para mim como se quisesse me fazer inveja, e depois dá um beijo na minha testa.


***


À tarde, vou para o meu canto preferido, que é um pequeno penhasco de uns cinco metros. Daqui, posso ver a estufa da qual falei. Coloco minhas pernas para fora e as balanço, começando a pensar na vida, nos problemas. A paisagem aqui tem mudado e o ar parece que vai nos matar. Quase não respiramos direito. As plantações estão morrendo, muitas das coisas que comemos são de origem artificial. Eu estou viva, mas com tudo isso eu sinto que estou morrendo.

Olho para baixo e depois olho para cima, procurando um ponto para me focar, de modo e impedir que o choro venha. Quando me canso de ficar nesse estado de quase-choro, me obrigo a me levantar e voltar para casa. Abro a porta com gentileza, para não acordar quem está dormindo, e vou até o meu quarto, onde tranco o local.

Grudo a tela do tablet na parede com um dispositivo e começo a estudar. As videoaulas do colégio estão ficando mais interessantes, afinal, eu me interesso muito pelas áreas da Biologia. Quando eu tiver idade suficiente, quero ser uma médica que estuda a vida dos animais e dos seres extraterrestres. Acho muito fascinante e intrigante a forma como os seres que não são humanos se comportam. Bem, é triste dizer isso, mas às vezes esses seres têm mais humanidade que nós próprios.

Tento, mas não consigo me concentrar com o estudo. Não foi a primeira vez que vi minha irmã atacando um ser de outro planeta, na verdade, já deve ser a terceira ou a quarta. Deito-me na cama e tento dormir. Amanhã, é domingo, e segunda já tenho que ir para a escola de novo. Não sei se farei uma boa prova.


***


Mais tarde, minha mãe bate no quarto e pergunta se estou bem. Penso que é madrugada, o que torna estranho ela me chamar, mas logo vejo atrás dela a luz fraca da manhã. Levanto-me, percebendo que nem me cobri na noite fria, e, como não respondo, minha mãe repete:

— Você está bem? Não te vi direito ontem.

— Eu saí para caminhar — respondo.

— Voltou muito tarde?

— O horário de sempre.

Ela fala que tem café e chá artificiais na mesa, e então eu me levanto, sôfrega, e vou ao banheiro. Sentada no vaso sanitário, percebo como a minha cabeça está doendo. Sempre fico mal quando penso arduamente por muito tempo, o que me faz pensar que não conseguirei ser uma boa médica — o que imediatamente me faz ter dores de cabeça.

Levanto-me e me limpo, para depois lavar minhas mãos na pia. Em seguida, vou até a cozinha e, na lista de opções do aparelho Ajudante da Cozinha, seleciono a tecla de torradas e café com leite.

— Cadê a Lisa?

— Ela saiu com os amigos — minha mãe fala. — Acho que foram brincar atrás da casa de Audrey.

— Lisa está estranha comigo.

Minha mãe senta-se em uma cadeira à minha frente. Pega uma das minhas torradas e a mordisca, deixando migalhas caírem pela mesa de madeira. Ela parece não saber o que dizer, mas, quando penso que ela continuará calada por mais tempo, minha mãe diz:

— Lisa sempre está estranha contigo.

— E eu nunca descobri por quê — rebato. — Não acho que eu seja uma pessoa ruim; sempre tentei ser o mais gentil com ela. Eu às vezes preferiria que Lisa fosse agressiva a ser indiferente. Ela nunca me encostou a mão, mas me olha de um jeito...

Minha mãe termina de comer a torrada, e então seus olhos se concentram em um ponto atrás de mim. Ela se levanta, como se eu tivesse acabado de falar, e começa a lavar a louça. Como a minha torrada, agora fria, enquanto beberico o meu café, ainda morno.

Despeço-me de minha mãe e saio de casa, me deparando antes com Lisa no corredor. Tento falar com ela, mas Lisa apenas me olha feio. Oito anos. Como uma criança pode ser tão odiosa e intolerante? Caminho até o pequeno precipício onde costumo ir para pensar, e a viagem de mais de 40 minutos andando não me desanima. Estou acostumada a andar tanto para tirar um tempo para mim. Afinal de contas, vale a pena.

Quando chego, novamente coloco minhas pernas para fora e olho para a estufa lá embaixo. Dentro, está tudo verde, mas em volta há uma aparência árida e morta. O vento vem ao meu encontro, me abraçando. Consigo me sentir bem mesmo com o clima pesado de mais cedo. Viajo nos pensamentos, deixo eles tomarem conta de mim. Amanhã, é a prova para a qual tanto tentei me preparar. Espero que eu vá bem, espero que eu cresça e me torne a melhor estudante de vidas terrestres e extraterrestres que este lugar já teve. Espero dar orgulho aos meus pais.

Ouço passos se aproximando de mim, mas só me viro depois de alguns segundos, quando me deparo com Lisa, que sustenta um sorriso malicioso nos lábios. Duas crianças estão atrás dela, os braços cruzados. Lisa se aproxima ainda mais e coloca suas mãos sobre meus ombros, começando a massageá-los. Não entendo por que ela está fazendo isso, até que ela me empurra do pequeno precipício e me faz machucar os joelhos quando caio.

Tento me levantar, mas acabo caindo novamente. Viro-me e olho as crianças correndo em minha direção. Elas carregam paus afiados e estacas de ferro. Abro a boca para dizer algo, mas me calo quando me machucam com um pedaço de madeira. Lisa sorri, como se tivesse conquistado uma recompensa.

— Oi, irmã. — A voz dela exala deboche, é cáustica. Oito anos.

Não consigo responder.

— Sabíamos que você estava nos observando.

— Eu não estava...

— Estava, sim! — um garoto grita.

— Mas não é por isso que viemos atrás de você — uma das garotas explica.

— Não estrague a surpresa, Audrey — Lisa diz. — Irmã, você está em uma enrascada.

— Vocês só têm oito anos! — grito. Tento me levantar, mas batem com um pedaço de madeira nas minhas costas, fazendo-me cair novamente.

— Sim — minha irmã concorda —, e provavelmente somos mais inteligentes que você.

Meu lábio inferior treme. Minha irmã sorri para mim de maneira sarcástica, olha para trás rapidamente e volta a olhar para meu corpo caído no chão. Tento me locomover para trás, mas minhas pernas estão paralisadas e machucadas. Lembro da cena.

— Por que estão fazendo isso?

— Aqueles desgraçados... — Lisa começa a dizer. — Aqueles malditos extraterrestres que não sabem se colocar no lugar deles.

— Aqui é o lugar deles — respondo. — Vocês não podem matá-los apenas porque não nascem do jeito que queriam. É o que vocês fariam se tivessem irmãos com problemas incuráveis?

Minha irmã ri.

— Não os matamos por misericórdia, como você deve estar pensando — diz. — Não somos tão bons assim. Nós os matamos porque eles não são daqui, não devem ser, assim como você. É por isso que estamos, bem... te matando.

— Matando?

— Você não é da minha família. Você é ridícula e se acha inteligente, acha que pode mudar as coisas. Mas você tem a pele escura como a desses malditos extraterrestres. Sua cor me dá agonia.

— Minha cor? Lisa, você está bem? O que tem uma coisa a ver com a outra? Não estamos mais no século XX, XXI. Você não pode odiar alguém pela cor da pele da pessoa. Eu nunca te tratei mal, na verdade, sempre quis te conhecer.

Lisa, empunhando a estaca de ferro, a bate direto contra o meu estômago. Um grito sai da minha boca, e eu tento pegar o objeto com a mão, a fim de me defender. Não consigo. O próximo ataque é direto nos meus dedos, por conta da minha tentativa de defesa. Ouço um urro vindo ao longe, e então algo correndo em nossa direção. Inclino o pescoço para ver, e meus olhos captam o momento em que uma daquelas criaturas extraterrestres se joga contra o corpo de minha irmã, machucando-a com suas garras.

As crianças logo se põem a atacar a criatura, que revida sem hesitar. Essa criatura extraterrestre, tida como pacífica desde a descoberta de sua existência, agora ataca. Para me proteger. Lágrimas escorrem pelo meu rosto, mas elas não fazem nada — não mudam a situação, não me tranquilizam. A criatura grita alto, mas não será tão facilmente rendida. Ela faz um corte no pescoço de um dos meninos que a ataca com uma barra de ferro, e depois cai, destruída, mas ainda viva, e se arrasta em minha direção.

Ficamos juntas no chão, entrelaçando nossos dedos e chorando, enquanto as crianças cuidam do menino ferido e depois vêm nos atacar mais uma vez. Somos atingidos ataque após ataque, encurralados e feridos, e eu fico me perguntando com quem essas crianças aprenderam a odiar. Lisa ataca com uma barra de ferro a cabeça da criatura, que dá o seu último grito, o último ruído que marcou sua existência. Fecho os olhos. Nunca mais os abro.


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