Complacência

Sci-Fi
Março de 2020
Começou, agora termina queride!

Conquista Literária
Conto publicado em
Deles era o mundo

Prólogo

Epílogo

Conto

Áudio drama
Complacência
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Entediado, Thomas Hobson assiste ao espetáculo de fumaça diante dele.

O miasma branco deixa a brasa vermelha na ponta do cigarro e serpenteia ágil pelo ar, rumo ao teto. As curvas efêmeras desenhando fantasmas diante dos seus olhos.

A luz elétrica das ruas entra no cômodo escuro em linhas horizontais, através das persianas às costas de Hobson; preparando o palco listrado no qual os fantasmas de fumaça se consomem e se desfazem uns aos outros em uma dança selvagem. Aparecendo na luz, desparecendo na sombra. Surgindo. Sumindo. Surgindo. Sumindo. Mais vagos e intangíveis a cada passo de dança até se dissiparem completamente. Após cada trago, Thomas exala, dispersando todo o espetáculo por alguns instantes até que novos espectros se esgueiram de volta para a cena.

Thomas é um detetive particular, sem casos. Um estado que se torna sutilmente mais frequente a cada mês. Há pouco uso para detetives particulares esses dias. Não pela primeira vez, ele produz o pensamento estranhamente preciso de que profissões, como roupas, saem de moda.

O relógio na parede lhe diz que, oficialmente, falta uma hora até poder fechar o escritório, mas Thomas não acredita que alguém notará a diferença.

Com um pouco de rancor, ele mata a brasa do cigarro no cinzeiro já cheio de filtros gastos e se levanta. Ele pega o seu casaco, mas só o veste em frente à porta.

O detetive lança um último olhar pelo cômodo. Atrás de sua cadeira vazia, do lado esquerdo da janela, suas qualificações descansam, emolduradas, na parede. Do lado direito, há uma grande placa amarela. No topo, as letras são tão grandes que exigem esforço para não serem lidas reflexivamente: “ESTE PROFISSIONAL OPERA LIVREMENTE SOB A LEI DE COMPLACÊNCIA”. O texto abaixo é impresso em letras tão pequenas que mesmo da porta é ilegível.

Thomas não gosta de olhar para a placa. Ele se pergunta se ela conforta ou intimida, atrai ou espanta clientes, flutuando ali sobre o ombro do detetive como um anjo da consciência que exige a atenção de todos.

O detetive pega seu chapéu. Tranca a porta. Desce as escadas. Cumprimenta brevemente o porteiro do prédio, com sua luz verde presa ao quepe. Logo antes de sair para a calçada, Thomas ajusta o emblema preso à lapela. A lâmpada no centro da pequena peça de metal brilhando verde.

Thomas passa por seu carro, estacionado na rua, sem entrar. Ele segue pela calçada com a cabeça sempre baixa; o peito, com seu emblema, sempre erguido; os olhos sempre afiados sob a aba do chapéu. Ele nunca olha para o chão, mas evita olhar para o alto, para escapar da propaganda governamental erguida, altiva, sobre as ruas.

São apenas três quarteirões até o bar e Hobson caminha calmamente. Ele observa, mas tenta não escutar. As pessoas passam por ele como vultos indistintos. Suas sombras e corpos se misturando uns aos outros sob um olhar desatento. Seus detalhes desinteressantes, exceto pela fagulha de luz em cada um. Luzes verdes, amarelas, alaranjadas e azuis.

Vez ou outra a multidão se abre como uma cortina indiferente e uma pequena cena de interesse se desenrola.

Uma mulher indignada grita com um atendente em frente a um restaurante fino. A luz azul dela presa alto no cabelo. A dele, verde, colada à lapela. Enquanto isso, do outro lado da rua, um homem com a luz alaranjada no pulso grita pela polícia. Momentos depois uma viatura estaciona na sarjeta e dois policiais, com suas luzes brancas brilhando fortemente no ombro direito, abrem caminho urgentemente pela multidão para perguntar à mulher qual é o problema.

Thomas, de cabeça baixa, se mistura à cortina de pessoas que se fecha, e segue em frente.

Ele já pode ver a placa do Lobo de Terno sobre a entrada do bar quando a cortina se abre de novo. Obedientemente, ele para e observa.

Do outro lado da rua, uma mulher anda, apressada, apertando a bolsa contra o peito. Não há luz em vista. Na direção oposta um grupo de rapazes com garrafas na mão andam rindo. Os dois se encontram. A mulher tenta dar um passo para o lado. Os rapazes ficam no seu caminho. Eles a questionam. Um deles puxa a bolsa. Brilha uma luz vermelha. No mesmo instante eles estão sobre ela. Eles a puxam à força para um beco, apenas fundo o bastante para sair da calçada. Eles riem e estraçalham as suas roupas. Dois a seguram. Dois esperam. Um a estupra. Ela grita. Alto o bastante para rasgar a cacofonia da cidade e se fazer ouvir. Eles não fazem qualquer esforço para silencia-la. A cortina de pessoas segue seu caminho, assim como os dois ou três policiais misturados à ela, todos indiferentes se não pelo ocasional olhar de breve curiosidade.

Thomas encara a cena. A mão vagueia em direção ao coldre. Os dedos correm, seduzidos, pelo cabo da arma. Travada, mas carregada. Eles não estão armados. Até o outro lado da rua são vinte metros, no máximo. Thomas sabe que nunca erraria. Cinco deles, seis balas no tambor. Basta um gesto para puxar o revolver do coldre. Um gesto treinado, aperfeiçoado. Um gesto muito rápido. Seria simples como apertar um botão cinco vezes. Menos de um minuto e estariam todos no chão. Menos de cinco e ele estaria em seu carro. O poder literalmente na ponta dos dedos.  Basta puxar a arma. É só puxar a arma. Agora... Agora... Ele já matou antes. Agora... Ela continua gritando. Agora... Agora...

O detetive estreita os olhos. A luz vermelha dela brilha no chão entre os trapos. As deles se movem com seus corpos em espasmos cruéis. Três verdes. Duas azuis.

Ele corre para dentro do bar e solta um longo suspiro que não percebeu que estava prendendo. Descendo as escadas o detetive tira o chapéu e cumprimenta o enorme segurança com sua luz alaranjada presa ao cinto. O som de jazz afoga os gritos da rua.

Thomas se senta no balcão e logo se vê encarado de frente por um longo banner amarelo. No topo, as letras enormes e familiares se fazem ler reflexivamente, involuntariamente: “ESTE ESTABELECIMENTO CULTURAL OPERA LIVREMENTE SOB A LEI DE COMPLACÊNCIA”. O banner, diferente de sua placa no escritório, tem um diagrama entre as letras grandes no topo e as pequenas abaixo, mas Thomas vira-se, carrancudo, evitando ler o máximo que consegue. Os olhos concentram-se no rosto conhecido que sorri para ele sobre o bar.

– Oi Ann.

– Boa noite, Tom. Chegou cedo.

– Fechei cedo.

– Ainda sem trabalho?

– É...

– Sinto muito... O primeiro é por conta da casa, ok?

– Obrigado.

– O de sempre?

– Por favor.

A mulher manipula os instrumentos com destreza, e logo Thomas tem o copo em sua mão. Ele suspira enquanto a bebida desce queimando pela garganta. Distraidamente, ele vê a luz de Ann presa ao quadril.

– Por que você tá amarela? – Ele pergunta.

– Ah, é... eu recusei um drink de graça pra um oficial.

– Foi aí que te fizeram colocar esse cartaz?

– Cartaz? Ah, o banner... Não, isso foi antes.

Thomas olhou brevemente em direção ao anúncio amarelo, mas logo se voltou para sua bebida.

– Esses cartazes malditos tão pra todo lado... Como essa lei funciona...?

– Bem, pra começar é uma regra só. Fácil de lembrar. Fácil de seguir.

– Pode ser, mas justamente por isso eu não devia ser lembrado dela a cada cinco minutos. Eu não sou um... Um... peixinho dourado.

Ann soltou uma risadinha e puxou um cinzeiro para perto enquanto Thomas acendia um cigarro.

– É sério – Ele continuou – Eu não preciso de ninguém sussurrando no meu ouvido o tempo todo pra me lembrar de não sair pelado na rua. Você é dona desse lugar, não devia poder escolher a... decoração?

– Complacência, Thomas – Ann suspirou – Eles pedem pra eu pendurar um banner, eu penduro.

– Mas um drinque não?

– É só um banner.

– É só um drinque.

– Acontece que drinques são meu ganha pão.

– Você me deu um.

– Você é meu amigo.

– Complacência. Eles pedem um drinque...

– Eles querem que você leia o banner, mas você não lê.

– Você recusa o drinque, mas pendura o banner. Por que?

– Eu... Eu sei lá, Thomas. O que você faria?

– Eu... Não sei. Mas...

– Licença.

Ann se apressa para o outro lado do balcão, onde clientes novos se sentavam.

Sozinho, Thomas traga o seu cigarro e dá goles em sua bebida. Ele vira as costas ao banner e observa o resto do bar. Uma mesa vazia, duas cheias. Em uma delas, um tenso jogo de cartas se desenrola sobre pilhas de notas amassadas. Ao fundo, a banda no pequeno palco se prepara para a próxima música.

As cordas do violoncelo sendo beliscadas com os dedos criam um ritmo lento. O saxofone chora uma nota longa, que a cantora acompanha, gemendo em harmonia.

Com a mão próxima à luz verde pendurada sobre o decote, ela canta:

Meu cavaleiro branco, quem é o mestre do seu coração

Vermelho?

Seu escudo sem aço, não te protege da minha paixão

Vermelha

Sua espada sem ponta, faz jorrar meu coração

Cheio de vermelho

Quem é o dono da sua capa branca?

Quem é o dono?

Quem o seu vermelho estanca?

Tira meu sono?

Meu cavaleiro branco, quem te tirou do meu colchão

Branco?

Meu cavaleiro branco, quem te faz soltar minha mão

Branca?

Meu cavaleiro branco, quem te faz manchar meu chão

Vermelho que era branco?

A atenção de Thomas é tirada das notas românticas quando um dos homens na mesa de jogo se levanta de repente, derrubando a cadeira.

– Vai se foder, Al! Trapaceiro de merda, devolve meu dinheiro!

Antes do outro poder responder, a voz de Ann retumba acima dos gritos e da música:

– Ei, ei, ei, se quiser jogar fica quieto e joga! Mas se for pra brigar vão achar outro bar, por que no meu vocês não entram mais! Falo sério!

Resmungando, o homem levantou sua cadeira e sentou-se. Thomas tentou voltar sua atenção para a música, mas não havia mais música. A cantora engasgou com uma sílaba e deixou a voz esvanecer, a boca ainda aberta e um nervosismo furtivo no olhar. Logo quase não havia mais som algum no bar. A conversa desaparecendo com a música, reduzida a sussurros. Thomas pensou por um momento que podia ouvir gritos distantes.

A dupla de policiais que o detetive vira mais cedo na rua estava de pé na entrada, suas luzes brancas ainda mais ressaltadas na iluminação fraca do bar. Eles deram alguns passos para frente. Eram um homem e uma mulher. A segunda ergueu a voz.

– Alfonso Toscano.

O homem acusado de trapacear no jogo vira a cabeça lentamente. Com a mão trêmula ele desprende a luz verde da calça e a levanta acima do ombro. A policial tira um controle remoto do coldre na cintura, onde uma arma estaria. Luzes brancas não carregavam armas. Não precisavam. Ela continua:

– Você foi julgado culpado pela tentativa de homicídio de um oficial da lei em resistência à Lei de Complacência e foi declarado um inimigo do estado. É meu dever oficial aplicar as medidas cabíveis.

Ela aponta o controle e aperta um botão. A luz verde na mão de Alfonso brilha vermelha. No mesmo instante estão sobre ele. Os outros três jogadores da mesa o cercam. Primeiro batem sua cabeça no canto da mesa e o jogam no chão. Então se curvam sobre ele e tiram tudo que há em seus bolsos, assim como o casaco que ele usa. Rosnando insultos, eles chutam e pisoteiam o homem caído. Ann não se pronuncia. Lentamente, a conversa retorna, a música volta a tocar, e o espancamento continua. Os agressores não dão sinais de cansaço. Alfonso, no chão, parece quase morto.

Thomas encara a cena com gritos fantasmagóricos ressoando em sua mente sobre os baques secos dos golpes e sons de ossos rachando. A mão começa a vaguear em direção ao coldre.

– Ei, que tal pagar uma rodada pra gente?

A voz do policial homem arrasta Thomas de seu devaneio e ele olha para o oficial. A luz branca ofuscando seus olhos.

– Hein? – O policial insiste, vendo o olhar aturdido no rosto do detetive. Ele não responde. Sua mão imóvel, a ponta dos dedos mal roçando o cabo da arma. – Como é? Pode ser?

– Claro – Thomas diz. A mão desce do coldre em direção à carteira no bolso.

– Não precisa, Tom – A voz de Ann soa com a amabilidade talentosa de uma vendedora – É por conta da casa, oficial.

– Ah, ótimo!

Os policiais sentam-se com um sorriso de satisfação. Eles pedem. Ann serve. A oficial tira novamente o controle do coldre.

– Aqui, deixa eu cuidar disso pra você – Ela aponta para Ann e aperta um botão. A luz da dona do bar muda de amarelo para verde e ela sorri. Um gesto praticado. Aperfeiçoado.

– Obrigada, oficial!

Thomas e Ann trocam olhares. Ambos querendo dizer: “É melhor assim”.

O detetive esvazia seu copo, amassa o cigarro, e vira o olhar para o banner atrás do balcão. As letras pequenas são quase ilegíveis, mas o diagrama é visível.

Obedientemente, ele lê.

TODOS OS CIDADÃOS DEVEM CARREGAR SEU FAROL DE IDENTIFICAÇÃO EM LOCAL VISÍVEL ENQUANTO ESTIVEREM EM ESPAÇOS PÚBLICOS.

LUZ BRANCA – Encarregados oficiais no cumprimento do dever. Protetores da ordem e da paz.

LUZ AZUL – Cidadãos exemplares. Receberão atendimento prioritário dos agentes do governo.

LUZ VERDE – Cidadãos regulares.

LUZ AMARELA – Cidadãos em estado alerta.

LUZ ALARANJADA – Cidadãos divergentes. Receberão atendimento secundário dos agentes do governo.

LUZ VERMELHA – Inimigos do Estado. Todos os direitos e proteções revogadas. Não há exceções.

Prólogo

Epílogo

Conto

Entediado, Thomas Hobson assiste ao espetáculo de fumaça diante dele.

O miasma branco deixa a brasa vermelha na ponta do cigarro e serpenteia ágil pelo ar, rumo ao teto. As curvas efêmeras desenhando fantasmas diante dos seus olhos.

A luz elétrica das ruas entra no cômodo escuro em linhas horizontais, através das persianas às costas de Hobson; preparando o palco listrado no qual os fantasmas de fumaça se consomem e se desfazem uns aos outros em uma dança selvagem. Aparecendo na luz, desparecendo na sombra. Surgindo. Sumindo. Surgindo. Sumindo. Mais vagos e intangíveis a cada passo de dança até se dissiparem completamente. Após cada trago, Thomas exala, dispersando todo o espetáculo por alguns instantes até que novos espectros se esgueiram de volta para a cena.

Thomas é um detetive particular, sem casos. Um estado que se torna sutilmente mais frequente a cada mês. Há pouco uso para detetives particulares esses dias. Não pela primeira vez, ele produz o pensamento estranhamente preciso de que profissões, como roupas, saem de moda.

O relógio na parede lhe diz que, oficialmente, falta uma hora até poder fechar o escritório, mas Thomas não acredita que alguém notará a diferença.

Com um pouco de rancor, ele mata a brasa do cigarro no cinzeiro já cheio de filtros gastos e se levanta. Ele pega o seu casaco, mas só o veste em frente à porta.

O detetive lança um último olhar pelo cômodo. Atrás de sua cadeira vazia, do lado esquerdo da janela, suas qualificações descansam, emolduradas, na parede. Do lado direito, há uma grande placa amarela. No topo, as letras são tão grandes que exigem esforço para não serem lidas reflexivamente: “ESTE PROFISSIONAL OPERA LIVREMENTE SOB A LEI DE COMPLACÊNCIA”. O texto abaixo é impresso em letras tão pequenas que mesmo da porta é ilegível.

Thomas não gosta de olhar para a placa. Ele se pergunta se ela conforta ou intimida, atrai ou espanta clientes, flutuando ali sobre o ombro do detetive como um anjo da consciência que exige a atenção de todos.

O detetive pega seu chapéu. Tranca a porta. Desce as escadas. Cumprimenta brevemente o porteiro do prédio, com sua luz verde presa ao quepe. Logo antes de sair para a calçada, Thomas ajusta o emblema preso à lapela. A lâmpada no centro da pequena peça de metal brilhando verde.

Thomas passa por seu carro, estacionado na rua, sem entrar. Ele segue pela calçada com a cabeça sempre baixa; o peito, com seu emblema, sempre erguido; os olhos sempre afiados sob a aba do chapéu. Ele nunca olha para o chão, mas evita olhar para o alto, para escapar da propaganda governamental erguida, altiva, sobre as ruas.

São apenas três quarteirões até o bar e Hobson caminha calmamente. Ele observa, mas tenta não escutar. As pessoas passam por ele como vultos indistintos. Suas sombras e corpos se misturando uns aos outros sob um olhar desatento. Seus detalhes desinteressantes, exceto pela fagulha de luz em cada um. Luzes verdes, amarelas, alaranjadas e azuis.

Vez ou outra a multidão se abre como uma cortina indiferente e uma pequena cena de interesse se desenrola.

Uma mulher indignada grita com um atendente em frente a um restaurante fino. A luz azul dela presa alto no cabelo. A dele, verde, colada à lapela. Enquanto isso, do outro lado da rua, um homem com a luz alaranjada no pulso grita pela polícia. Momentos depois uma viatura estaciona na sarjeta e dois policiais, com suas luzes brancas brilhando fortemente no ombro direito, abrem caminho urgentemente pela multidão para perguntar à mulher qual é o problema.

Thomas, de cabeça baixa, se mistura à cortina de pessoas que se fecha, e segue em frente.

Ele já pode ver a placa do Lobo de Terno sobre a entrada do bar quando a cortina se abre de novo. Obedientemente, ele para e observa.

Do outro lado da rua, uma mulher anda, apressada, apertando a bolsa contra o peito. Não há luz em vista. Na direção oposta um grupo de rapazes com garrafas na mão andam rindo. Os dois se encontram. A mulher tenta dar um passo para o lado. Os rapazes ficam no seu caminho. Eles a questionam. Um deles puxa a bolsa. Brilha uma luz vermelha. No mesmo instante eles estão sobre ela. Eles a puxam à força para um beco, apenas fundo o bastante para sair da calçada. Eles riem e estraçalham as suas roupas. Dois a seguram. Dois esperam. Um a estupra. Ela grita. Alto o bastante para rasgar a cacofonia da cidade e se fazer ouvir. Eles não fazem qualquer esforço para silencia-la. A cortina de pessoas segue seu caminho, assim como os dois ou três policiais misturados à ela, todos indiferentes se não pelo ocasional olhar de breve curiosidade.

Thomas encara a cena. A mão vagueia em direção ao coldre. Os dedos correm, seduzidos, pelo cabo da arma. Travada, mas carregada. Eles não estão armados. Até o outro lado da rua são vinte metros, no máximo. Thomas sabe que nunca erraria. Cinco deles, seis balas no tambor. Basta um gesto para puxar o revolver do coldre. Um gesto treinado, aperfeiçoado. Um gesto muito rápido. Seria simples como apertar um botão cinco vezes. Menos de um minuto e estariam todos no chão. Menos de cinco e ele estaria em seu carro. O poder literalmente na ponta dos dedos.  Basta puxar a arma. É só puxar a arma. Agora... Agora... Ele já matou antes. Agora... Ela continua gritando. Agora... Agora...

O detetive estreita os olhos. A luz vermelha dela brilha no chão entre os trapos. As deles se movem com seus corpos em espasmos cruéis. Três verdes. Duas azuis.

Ele corre para dentro do bar e solta um longo suspiro que não percebeu que estava prendendo. Descendo as escadas o detetive tira o chapéu e cumprimenta o enorme segurança com sua luz alaranjada presa ao cinto. O som de jazz afoga os gritos da rua.

Thomas se senta no balcão e logo se vê encarado de frente por um longo banner amarelo. No topo, as letras enormes e familiares se fazem ler reflexivamente, involuntariamente: “ESTE ESTABELECIMENTO CULTURAL OPERA LIVREMENTE SOB A LEI DE COMPLACÊNCIA”. O banner, diferente de sua placa no escritório, tem um diagrama entre as letras grandes no topo e as pequenas abaixo, mas Thomas vira-se, carrancudo, evitando ler o máximo que consegue. Os olhos concentram-se no rosto conhecido que sorri para ele sobre o bar.

– Oi Ann.

– Boa noite, Tom. Chegou cedo.

– Fechei cedo.

– Ainda sem trabalho?

– É...

– Sinto muito... O primeiro é por conta da casa, ok?

– Obrigado.

– O de sempre?

– Por favor.

A mulher manipula os instrumentos com destreza, e logo Thomas tem o copo em sua mão. Ele suspira enquanto a bebida desce queimando pela garganta. Distraidamente, ele vê a luz de Ann presa ao quadril.

– Por que você tá amarela? – Ele pergunta.

– Ah, é... eu recusei um drink de graça pra um oficial.

– Foi aí que te fizeram colocar esse cartaz?

– Cartaz? Ah, o banner... Não, isso foi antes.

Thomas olhou brevemente em direção ao anúncio amarelo, mas logo se voltou para sua bebida.

– Esses cartazes malditos tão pra todo lado... Como essa lei funciona...?

– Bem, pra começar é uma regra só. Fácil de lembrar. Fácil de seguir.

– Pode ser, mas justamente por isso eu não devia ser lembrado dela a cada cinco minutos. Eu não sou um... Um... peixinho dourado.

Ann soltou uma risadinha e puxou um cinzeiro para perto enquanto Thomas acendia um cigarro.

– É sério – Ele continuou – Eu não preciso de ninguém sussurrando no meu ouvido o tempo todo pra me lembrar de não sair pelado na rua. Você é dona desse lugar, não devia poder escolher a... decoração?

– Complacência, Thomas – Ann suspirou – Eles pedem pra eu pendurar um banner, eu penduro.

– Mas um drinque não?

– É só um banner.

– É só um drinque.

– Acontece que drinques são meu ganha pão.

– Você me deu um.

– Você é meu amigo.

– Complacência. Eles pedem um drinque...

– Eles querem que você leia o banner, mas você não lê.

– Você recusa o drinque, mas pendura o banner. Por que?

– Eu... Eu sei lá, Thomas. O que você faria?

– Eu... Não sei. Mas...

– Licença.

Ann se apressa para o outro lado do balcão, onde clientes novos se sentavam.

Sozinho, Thomas traga o seu cigarro e dá goles em sua bebida. Ele vira as costas ao banner e observa o resto do bar. Uma mesa vazia, duas cheias. Em uma delas, um tenso jogo de cartas se desenrola sobre pilhas de notas amassadas. Ao fundo, a banda no pequeno palco se prepara para a próxima música.

As cordas do violoncelo sendo beliscadas com os dedos criam um ritmo lento. O saxofone chora uma nota longa, que a cantora acompanha, gemendo em harmonia.

Com a mão próxima à luz verde pendurada sobre o decote, ela canta:

Meu cavaleiro branco, quem é o mestre do seu coração

Vermelho?

Seu escudo sem aço, não te protege da minha paixão

Vermelha

Sua espada sem ponta, faz jorrar meu coração

Cheio de vermelho

Quem é o dono da sua capa branca?

Quem é o dono?

Quem o seu vermelho estanca?

Tira meu sono?

Meu cavaleiro branco, quem te tirou do meu colchão

Branco?

Meu cavaleiro branco, quem te faz soltar minha mão

Branca?

Meu cavaleiro branco, quem te faz manchar meu chão

Vermelho que era branco?

A atenção de Thomas é tirada das notas românticas quando um dos homens na mesa de jogo se levanta de repente, derrubando a cadeira.

– Vai se foder, Al! Trapaceiro de merda, devolve meu dinheiro!

Antes do outro poder responder, a voz de Ann retumba acima dos gritos e da música:

– Ei, ei, ei, se quiser jogar fica quieto e joga! Mas se for pra brigar vão achar outro bar, por que no meu vocês não entram mais! Falo sério!

Resmungando, o homem levantou sua cadeira e sentou-se. Thomas tentou voltar sua atenção para a música, mas não havia mais música. A cantora engasgou com uma sílaba e deixou a voz esvanecer, a boca ainda aberta e um nervosismo furtivo no olhar. Logo quase não havia mais som algum no bar. A conversa desaparecendo com a música, reduzida a sussurros. Thomas pensou por um momento que podia ouvir gritos distantes.

A dupla de policiais que o detetive vira mais cedo na rua estava de pé na entrada, suas luzes brancas ainda mais ressaltadas na iluminação fraca do bar. Eles deram alguns passos para frente. Eram um homem e uma mulher. A segunda ergueu a voz.

– Alfonso Toscano.

O homem acusado de trapacear no jogo vira a cabeça lentamente. Com a mão trêmula ele desprende a luz verde da calça e a levanta acima do ombro. A policial tira um controle remoto do coldre na cintura, onde uma arma estaria. Luzes brancas não carregavam armas. Não precisavam. Ela continua:

– Você foi julgado culpado pela tentativa de homicídio de um oficial da lei em resistência à Lei de Complacência e foi declarado um inimigo do estado. É meu dever oficial aplicar as medidas cabíveis.

Ela aponta o controle e aperta um botão. A luz verde na mão de Alfonso brilha vermelha. No mesmo instante estão sobre ele. Os outros três jogadores da mesa o cercam. Primeiro batem sua cabeça no canto da mesa e o jogam no chão. Então se curvam sobre ele e tiram tudo que há em seus bolsos, assim como o casaco que ele usa. Rosnando insultos, eles chutam e pisoteiam o homem caído. Ann não se pronuncia. Lentamente, a conversa retorna, a música volta a tocar, e o espancamento continua. Os agressores não dão sinais de cansaço. Alfonso, no chão, parece quase morto.

Thomas encara a cena com gritos fantasmagóricos ressoando em sua mente sobre os baques secos dos golpes e sons de ossos rachando. A mão começa a vaguear em direção ao coldre.

– Ei, que tal pagar uma rodada pra gente?

A voz do policial homem arrasta Thomas de seu devaneio e ele olha para o oficial. A luz branca ofuscando seus olhos.

– Hein? – O policial insiste, vendo o olhar aturdido no rosto do detetive. Ele não responde. Sua mão imóvel, a ponta dos dedos mal roçando o cabo da arma. – Como é? Pode ser?

– Claro – Thomas diz. A mão desce do coldre em direção à carteira no bolso.

– Não precisa, Tom – A voz de Ann soa com a amabilidade talentosa de uma vendedora – É por conta da casa, oficial.

– Ah, ótimo!

Os policiais sentam-se com um sorriso de satisfação. Eles pedem. Ann serve. A oficial tira novamente o controle do coldre.

– Aqui, deixa eu cuidar disso pra você – Ela aponta para Ann e aperta um botão. A luz da dona do bar muda de amarelo para verde e ela sorri. Um gesto praticado. Aperfeiçoado.

– Obrigada, oficial!

Thomas e Ann trocam olhares. Ambos querendo dizer: “É melhor assim”.

O detetive esvazia seu copo, amassa o cigarro, e vira o olhar para o banner atrás do balcão. As letras pequenas são quase ilegíveis, mas o diagrama é visível.

Obedientemente, ele lê.

TODOS OS CIDADÃOS DEVEM CARREGAR SEU FAROL DE IDENTIFICAÇÃO EM LOCAL VISÍVEL ENQUANTO ESTIVEREM EM ESPAÇOS PÚBLICOS.

LUZ BRANCA – Encarregados oficiais no cumprimento do dever. Protetores da ordem e da paz.

LUZ AZUL – Cidadãos exemplares. Receberão atendimento prioritário dos agentes do governo.

LUZ VERDE – Cidadãos regulares.

LUZ AMARELA – Cidadãos em estado alerta.

LUZ ALARANJADA – Cidadãos divergentes. Receberão atendimento secundário dos agentes do governo.

LUZ VERMELHA – Inimigos do Estado. Todos os direitos e proteções revogadas. Não há exceções.

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