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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

A taverna Bode Mágico estava fria, fedida e silenciosa. Não gostava nada daquele ambiente depressivo. Devia haver fanfarra e folia, bebida em demasiado, música, prostitutas. Mas o que encontrou foi meia-dúzia de borrachos entornando canecos com desânimo.

— Há muito não venho por essas bandas, e, cá quando volto, tudo parece ter mudado para pior. O que foi que houve?

Da meia-dúzia de homens que ali vagabundeavam, apenas um olhou para ver quem estava à porta. O taberneiro tinha um pano engordurado no ombro e pendurava uma toscana num arame; queria fazê-la secar para consumo próprio e de seus clientes.

 — Vão me deixar falando sozinho? — o recém-chegado indagou, batendo a neve de sua capa.

— Ninguém está interessado em conversa fiada, forasteiro — disse o taberneiro. Este limpou as mãos engorduradas no pano e viu a espada e a túnica do cavaleiro da fé, mas isso não o impressionou. Acostumou-se a ver paladinos indo e vindo por aquelas velhas estradas, só que parou de ver quando as diligências tomaram gosto pelos atalhos e os atalhos se tornaram as estradas principais.

— Mas e se eu estiver interessado em bater um papo? Quero fazer umas perguntas aos locais desse lugarejo.

— Por que não conversa com um hidromel? Um caneco muito ajuda a ter as respostas que procuramos.

— Um caneco por conta da casa?

— Nem nos seus sonhos mais molhados. Isso é papo que cola nas cidades grandes, onde há igrejas e as pessoas se assustam fácil com uma cruz e uma espada. Aqui, aço é só aço e ninguém mais acredita em Deus.

O paladino achou o comentário curioso e se sentou ao balcão. Havia um borracho não muito distante de onde tomou assento, mas o sujeito estava de olhar turvo por conta da bebida e mal percebeu a presença do guerreiro bigodudo ao seu lado.

— Eu pago dois cobres pelo caneco se me contar o que ocorre nesse vilarejo.

— Um cobre, e você bebe em silêncio.

— É valente, taberneiro. Muitos se borram quando veem uma espada e uma cota de malha. Você até ousa debochar disso. — O paladino encarou o taberneiro com divertimento, mas estava deveras interessado no mistério implícito. — Sugiro que tenha cuidado nas próximas palavras, ou eu vou sacar a minha adaga. Ela tem mania de arrancar palavras, tal quanto arrancar unhas e dedos. Vai me responder umas perguntas?

— Pague as duas moedas, então.

Encarou o taberneiro da Bode Mágico divertidamente. Ninguém tinha colhões de lhe falar assim. Não se lembrava do último que tivera coragem de lhe tratar de igual para igual sem portar uma lâmina na cintura.

— Certo, promessa é dívida. Dois cobres por um caneco. — O taberneiro puxou as moedas do balcão, e o paladino serviu-se da bebida. — À sua saúde, amigo...?

— Estevão.

— Estevão! À sua saúde e ousadia, camarada! — Sujou os bigodes de hidromel e se apresentou: — Sou Santiago de Bonfim, e, agora que sei seu nome e você o meu, quero ser amigo. Vai falar o que está acontecendo ou vou ser obrigado a puxar a adaga?

— Ah, eu vou falar, mas quero que saiba que esse é o primeiro e último caneco que lhe sirvo.

— O que vai fazer se eu quiser beber mais?

— Não vou fazer nada. Estou fechando a Bode Mágico aos clientes.

— Assim tão cedo?

— Quanto antes melhor. Acontecem coisas esquisitas nesse vilarejo ao cair da noite, forasteiro.

Era um comentário pertinente, pois, quando entregou o cavalo ao cavalariço do lugarejo, bem estranhou a pacatez daquele lugar. A vila se chamava Curva do Vento, e era literalmente onde o vento fazia a curva. Ou, como diziam em Bonfim, “onde Judas perdeu as botas”. Esta era uma cidadezinha de meio-de-estrada onde viajantes e diligências paravam para abastecer-se de suprimentos, descansar e retomar viagem. O lugarejo, no entanto, estava à mercê da sorte. Ali havia placas caídas, casas abandonadas e pouca vida humana e animal para um entardecer outonal.

–– Estão sendo atacados por vampiros? –– Pela cara do taberneiro, Santiago achou ser uma negativa à pergunta. Talvez um lobisomem?, perguntou-se. Não, isso também não. Lobisomens são circunstanciais, dependem de lua cheia e essas coisas. E lobisomens não eram tão problemáticos a ponto de um vilarejo inteiro não conseguir combatê-los com suas tochas, foices e ancinhos, como qualquer caipira faria numa situação de desespero. Se fosse um lobisomem, já teriam dado cabo do mal que os assolava.

Um dos bêbados da taberna disse:

— Não chegou nem perto de acertar, homem da fé.

— E duvido que acertasse — o taberneiro complementou. — São as crianças, senhor paladino. As crianças da vila são estranhas. Elas matam os próprios pais e não reconhecem mais os vizinhos. Roubam da própria casa para pagar tributos às matas. Enfiam-se dentre as árvores durante a noite e se somem; ninguém tem coragem de tentar impedi-los de fazer o que fazem. Não mais. 

— Está brincando, não é?

— Não. Mas queria estar. Curva do Vento está assim tem uns três meses. A noite chega e aqueles capetinhas se tornam qualquer coisa que não humanos. Se necessário, matam, roubam e se somem. Ao amanhecer, voltam (quando voltam, porque não é sempre que isso acontece) e não sabem o que aconteceu, ou fingem não saber.

— Essa para mim é nova! — Enfiou o caneco na boca e sorveu um pouco de hidromel. — Imagine só, um monte de crianças metendo medo nos adultos. Hilário!

— É porque não viu como as crianças ficam à noite, senhor. São literalmente capetinhas, até guampas têm. Antigamente, tentávamos domá-las; agora, estamos exaustos demais para tentar. Eu já soube de mulheres que abortaram quando logo perceberam o atraso em seus períodos lunares. Soube de pais que enforcaram os próprios filhos em figueiras no meio das matas. Esse silêncio sepulcral na vila? É porque quase não há ninguém aqui. Os que não se mudaram são gente que se acostumou a isso ou não tem cacife o bastante para fazer as malas e tentar a vida em outro lugar.

— Ou você mente muito bem ou essa é uma história e tanto. Estou pasmo.

— Pasmo ou não, vai querer um quarto para se proteger da noite? Aqui na Bode Mágico garanto segurança. As crianças são como vampiros nesse aspecto; só entram se são convidadas.

— Ah, sim, entendo. Como as crianças são do vilarejo, entram em suas casas sem pedir permissão, pois, afinal, já moram lá.

— Isso é um sim para o quarto?

— Vou querer um, obviamente. Não estou interessado em cavalgar na neve noturna, não com os ditos endiabrados rondando por aí.

— A pernoite é uma prata.

— Dinheiro, bah! Só pensa nisso, homem?

— Penso também em sexo, mas dinheiro me ajuda a sobreviver. São tempos difíceis em Curva do Vento.

Enquanto sacava a moeda da algibeira, encarou os homens que bebiam em silêncio se erguerem para partir. O negrume do céu cinzento denunciava a queda da noite. Em breve, de acordo com o taberneiro, as crianças tomariam outras faces e o lugarejo seria envolvido por um tipo de horror incomum.

Entregou a moeda e perguntou ao taberneiro:

— E esses pobres coitados? Não têm medo?

— Todos eles perderam os filhos para essa maldição. Se estão aqui a encher os cornos de bebida é porque ainda sentem a dor pelo que passaram. É triste se parar para pensar. Eu nunca tive filhos, mas imagino que deva ser muito doloroso perder uma cria de sua própria carne.

É, pensou o paladino, deve ser. Matou o hidromel e pediu para o taberneiro lhe mostrar o quarto. Estava exausto e, por mais que a situação do lugarejo fosse estranha, não parou ali porque quis; foi a neve repentina que o compelira a isso.

“Às vezes”, costumavam dizer os padres e outros sacerdotes, “Deus age de formas misteriosas”.


II

Ao cair da noite, Santiago duvidara da credibilidade da história do taberneiro, uma vez que espiara pela janela curioso para ver as crianças endiabradas e nada vira.

–– Devem estar se transformando –– o taberneiro dissera. –– Você vai ouvir quando as crianças estiverem endiabradas, isso eu garanto.

Agora, ajoelhado diante da cama, Santiago ouvia os rosnados das crianças bestiais que circundavam o alojamento. Não tinha acreditado no que o taberneiro lhe dissera, mas assustou-se ao assumir verdade. Fez o sinal da cruz e orou brevemente para Deus em busca de uma explicação para o que as crianças endiabradas representavam ou o que havia causado isso. Tinha um rosário nas mãos; não necessariamente esperava que o próprio Criador intercedesse num tipo de milagre, mas que clareasse os seus pensamentos para encontrar uma explicação lógica. Isso, porém, não lhe ocorreu. Mesmo assim, agradeceu ao divino, “em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém”.

Tirou a espada da cintura com arreio e tudo e a deixou escorada ao lado da cama; uma bonita lâmina trabalhada em aço e bronze. Tirou também os frascos de água benta dos bolsinhos do cinto e depositou-os numa mesinha de cabeceira junto do rosário. Ia deixar a adaga de prata ao lado dos frascos, mas desistiu. Preferiu deixá-la acessível em caso de necessidade; não estava convencido de que as crianças precisavam de convite para entrar nas propriedades. O taberneiro podia estar falando a verdade, mas era sempre bom desconfiar de algo que não se entende por completo.

Santiago então adormeceu; por muito tempo descansou sob o terror de Curva do Vento, e, horas mais tarde, no meio da madrugada, despertou com um grito de criança. Ergueu-se da cama e andou até a janela para espiar pelos vãos da madeira. Viu uma mulher agarrada ao corpo da filha, que a ignorava debilmente, ato desesperado para impedir que sua menininha fosse à neve e se misturasse ao grupinho que a esperava. A menina se desenvencilhou dos braços da mãe, e, portando uma jarra valiosa, misturou-se a uma dúzia de outras crianças. Andaram até um ponto específico da estrada e se enfiaram no bosque esquisito e obscuro dos arredores da cidade.

— Como podem os pais não fazer nada a respeito?

Mas achou o comentário cruel de se dizer, pois se lembrou do que o taberneiro dissera: “Eu nunca tive filhos, mas imagino que deva ser muito doloroso perder uma cria de sua própria carne”. Decerto é uma decisão difícil a de matar seu próprio sangue, por mais endiabrados que fossem; aliás, nem pareciam tão assustadoras assim. As crianças nem tinham os chifres que o taberneiro fizera ter. Talvez o homem tivesse dito isso para lhe assustar; uma piada tola, afinal, Santiago era um paladino, um que matara súcubos, cramulhões e muito mais, criaturas realmente malignas e assustadoras.

Encarou o sofrimento da mãe da menina; a mulher de ombros delgados (beirando à desnutrição) derramava lágrimas na camada fina de neve que caíra à tarde. A cena lhe comoveu o coração. Achou que devia seguir o rastro das crianças na floresta para ver o quão fundo iam nas matas. Não precisava resolver o problema para aquela gente, mas, se tivesse uma pista do que acontecia ali, podia reportar ao clero e detalhar a obscuridade que rondava Curva do Vento. Às vezes se perguntava por que ainda insistia em suas inquirições, já que muito do que uma vez acreditara na religião era balela, mas coisas como essas –– amor de mãe, desespero de um povoado –– faziam-no continuar a empunhar a espada em nome de Deus. Ainda acreditava no Senhor e o amava mais que qualquer coisa, apesar de a igreja e os religiosos usarem o nome sagrado do Criador para atos mesquinhos e corruptos, tornando-se vez ou outra o próprio mal sob o disfarce de bondade.

Santiago não acreditava ser o homem mais gentil e benevolente do mundo, e, apesar do nome de santo, nem de perto era um, mas, quando um local é subjugado pelo maligno e as pessoas não compreendem o que as atormenta, tem no coração que precisa praticar o bem sem ver a quem. Foi para isto que deixou um arcebispo abençoar sua espada dez anos antes: pois, onde há escuridão, a espada sagrada há de trazer luz aos desafortunados.

Tendo o peito contaminado pela compaixão, Santiago voltou-se aos frascos de água benta e os atou aos bolsinhos do cinto, e depois pendurou o rosário no pescoço e por fim prendeu a espada na cintura. O taberneiro dormia em outro quarto, portanto Santiago não sabia dizer como o homem conseguia se desligar do horror da noite tão despreocupadamente.

Andou sem fazer barulho até a porta da Bode Mágico e a abriu para ir às matas. Um bafo de gelo o envolveu e, sem perceber, bateu os dentes com o frio. O céu abriu-se das nuvens, e isso era bom; ao menos não haveria tempestades enquanto estivesse sem um teto sobre a cabeça. Ergueu o capuz para se proteger do sereno e seguiu cauteloso pelas ruas do lugarejo. Havia neve no chão, o que pensou ser uma coisa boa, pois podia seguir as pegadas das crianças dentro da mata, e, também, a neve amorteceria seus passos e dificilmente o ouviriam segui-los para onde quer que estivessem indo. Todavia, a situação era longe de ser agradável. A lua minguante da noite não provinha luz, e a cidade não tinha um poste elétrico funcionando (uma herança do longínquo século XXI, antes do mundo adormecer em uma Era do Gelo e acordar um pouco mais de mil anos depois). Apesar de lugarejo, Curva do Vento já fora movimentada, rica, tendo todo o tipo de tecnologia e conforto que uma cidade dos três grandes reinos do continente costumava ter. Precisaria encarar o bosque num breu quase absoluto, uma ação que não recomendaria para ninguém fazer sozinho.

Antes de se enfiar nas matas, olhou a mulher ainda chorando por causa da filha, tremendo de frio. Precisou segurar o impulso de dizer-lhe para ir a um lugar quente e se agasalhar, porém, não sabia quantas crianças a cidade abrigava. Viu uma dúzia rumar ao bosque, mas podia ter mais. Doze crianças são muito poucas mesmo para um lugarejo, por isso nada disse à mulher e seguiu silenciosamente as pegadas no chão nevado.

Andou por cerca de meia hora mata adentro até começar a ouvir os rosnados outra vez. Estava na trilha certa e não o haviam enganado com pegadas falsas. Havia criaturas que faziam isso, e ficou contente que as crianças endiabradas não eram inteligentes o bastante para camuflar o rastro. Entretanto, ainda assim, os diabinhos seguiram por caminhos íngremes e tortuosos, barrancos estranhos e quase labirínticos dentro da mata fechada. Seguiu por mais tempo e achou que talvez fosse precisar lutar. Havia se enfiado numa mata à noite com potenciais inimigos. Puxou a espada e um frasco de água benta da cintura. Tinha apenas três frascos consigo e teria que usá-los sabiamente.

Ele pensou: Não, usar a espada é demais. São só crianças. Os pais sofreriam ao saber que um paladino veio e matou os seus filhos, por mais que estivessem com o demônio no corpo.

Lembrou-se da mãe a envolver a filha pelo torso, a imagem do amor e desespero. Santiago guardou a espada, mas não a água benta. Se aqueles doze diabinhos o descobrissem ali, derramaria o líquido nas manoplas e desferiria socos neles. Independentemente da entidade diabólica que dominasse o corpo das crianças, a entidade sentiria Deus pelos punhos e talvez, quem sabe, até libertaria os pirralhos de sua maldição.

Em dado momento da caminhada, a mata fechou de vez, e uma penumbra total tomou conta do ambiente. As crianças seguiram caminho ignorando isso, mas Santiago temia a escuridão. Não posso recuar agora, não quando caminhei tanto e sinto que estou quase descobrindo algo. Seguiu adiante tendo o coração na boca. Só que, quando teve um pouco de lua e estrelas, viu uma luz de lamparina e uma cabana estranha em uma clareira. 

Santiago lamentou estar ali; era quase como se tivesse cutucado um vespeiro com uma vara curta.

— Ah, Deus, cuidai de mim que sou teu servo — murmurou.

“Vespeiro” era uma boa analogia ao que via, pois as doze crianças da Curva do Vento haviam se juntado a outras centenas, e essas centenas circundavam a cabana estranha que Santiago tinha quase certeza de ser de um tipo de feiticeiro ou feiticeira. Era uma colmeia guiada por um mestre, uma mente coletiva à mercê de um conhecedor de feitiços. E isso lhe fez todo o sentido então, já que sua missão antes de apear em Curva do Vento era ir para Penhasco Branco, uma cidade não muito distante, para investigar o comportamento estranho de alguns senhorzinhos de lá.

Claro, faz sentido agora!, pensou ele. Curva do Vento já não tem mais crianças para que esse feiticeiro ou feiticeira possa controlar, e assim está indo mais longe atrás de alvos para fazer de fantoche.

Entretanto, desvendar o caso não o tirava da situação em que se encontrava; um passo em falso, e uma colmeia de centenas de crianças olharia em sua direção e o sobrepujaria. Ah, maldição! Trancou a respiração e viu a porta do casebre se abrir. Uma pessoa saiu dali encapuzada e, pela massa corporal, parecia ser homem.

É bom saber, pensou Santiago. Precisava voltar para Curva do Vento e pegar o cavalo; cavalgaria imediatamente para Penhasco Branco. Lá, pediria a um padre para enviar um pombo-correio ao alto-clero solicitando reforço. Os paladinos viriam bem-armados e ali eles destruiriam o feiticeiro que controlava a mente daquelas crianças inocentes.

Santiago, no entanto, não estava exatamente oculto. Estava na escuridão, sim, mas o feiticeiro o enxergava. E, ao passo em que o paladino engoliu em seco, o homem encapuzado apontou o dedo gordo instando o vespeiro a atacar o invasor.

 — Peguem-no! — o feiticeiro disse.

Santiago girou os calcanhares e voltou à penumbra da mata; se a sorte estivesse do seu lado, não se perderia no caminho de volta, mas, como era azarado, acreditava que a Dona Morte o espreitava. Afinal, o feiticeiro que controlava as crianças era o taberneiro da Bode Mágico.


III

Então, é isso, o paladino pensou. Não era colhões o que o desgraçado tinha; ele estava sendo evasivo. Não queria que eu descobrisse o seu segredo. Uma vez que eu o pressionei, ele se obrigou a falar.

Na pressa de fugir da colmeia noturna, Santiago perdeu todos os frascos de água benta na neve, e isso era ruim, pois água benta comumente o salvava num embate contra as criaturas das trevas. Mas não lamentou por muito tempo; apenas três frascos de água benta não o ajudariam a derrotar tantas crianças irritadas que zumbiam em algum lugar às suas costas. Não gostou do que teria que fazer para se defender, mas sacou a espada –– àquela altura, era matar para não morrer.

Quando saiu da penumbra completa para a baixa luz do luar, estava perdido. Não enxergou o rastro de pegadas na neve pelo qual se guiara. Olhou para o céu e viu a Estrela Polar entre os galhos dos pinheiros e carvalhos. Curva do Vento ficava ao norte exato de onde estava. Virou o corpo bruscamente e rumou à direção que a estrela indicava.

Os zumbidos da colmeia agora pareciam mais próximos, o que fez Santiago apressar o passo por mais ofegante que estivesse. Debaixo da túnica branca e a cota de malha, tinha couro e muitos arreios e arrebites. A pele estava suada e grudenta, o que lhe provocava uma mistura de frio e calor. Baixou o capuz e continuou a correr. A espada empunhada de repente pareceu pesar uma tonelada; os passos estavam custosos a prosseguir, e a dor nos rins vinha implacável. Merda, pensou. Não vou conseguir. Vou morrer nas matas. Só que não se permitia parar; se parasse, morreria. Não queria morrer.

Ouviu os rosnados às costas. Apressou-se.

— Vamos, Santiago. Vamos, homem!

Era tenaz e persistente, não se deixaria vencer por um feiticeiro que usava crianças para roubar e outras atrocidades que só Deus saberia dizer. Ah, e é bem esperto o desgraçado; as crianças são os espiões perfeitos, ninguém desconfiaria que um mal tão poderoso pudesse vir de seres tão frágeis. Devia ter percebido a toscana no gancho, os barris de hidromel; uma cidade inteira na miséria e o taberneiro o único a não passar necessidades. Como um avarento tosco desses adquirira tal poder? Ademais, Santiago agora via, esse tipo de feitiço nada tem de diabólico; é, sim, um poder extraordinário, mas, como uma vez dissera Shakespeare: “Há muito mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia.” Com isso, percebeu que a espada benzida era só uma espada; o rosário, um adorno; a água benta, apenas água. Não haveria vantagens contra esse inimigo, tal como o taberneiro antes zombara.

Corra, idiota. Corra, disse para si mesmo. E assim o fez; estava com a mente tão turbulenta que nem se percebeu sair na estrada que rumava Curva do Vento. Apressou o passo o máximo que pôde e, resfolegando, gritou para o lugarejo acordar:

— É o taberneiro! É o taberneiro que está fazendo mal aos seus filhos. É ele!

Mas se deparou com um massacre nas ruas da vila.

— Grite o quanto quiser — disse-lhe a figura encapuzada que segurava uma cabeça de mulher —, duvido que alguém o escute.

O feiticeiro jogou a cabeça, e ela quicou e deixou um rastro de sangue na neve. Era a mãe da menina, a que estava desesperada tentando impedir que a filha fosse oferecer tributos à mata.

— Você vai pagar por isso!

— Clichê. — disse o feiticeiro. — Mas um clichê interessante, porque não há formas de você me vencer. Está cercado. Nas suas costas vêm as crianças-demônio, e eu tenho uns truques na manga. Não tem como fugir de mim. Eu matei o seu cavalo.

— Tudo isso para que ninguém descubra o seu plano idiota. — Santiago ouviu os rosnados da colmeia se aproximando, e isso o fez rir. — E é mesmo um plano idiota. Eu posso até morrer aqui, mas outros paladinos virão. Sabe o que é a igreja? Quem ela representa?

— Na morte eu encaro o Senhor Todo-Poderoso. Isso se eu chegar a morrer. Pelo que sei, imortalidade não é só um boato. Agora, que tal um duelo? 

O feiticeiro, levitando, avançou rapidamente diante de Santiago. Este golpeou o inimigo sem titubear, um movimento ágil e limpo que veio de um arco de cima para baixo. O feiticeiro repeliu o contra-ataque com uma lâmina cinética, invisível aos olhos do paladino. Trocaram mais golpes rápidos e chiantes, e o calor provocado pelo combate começou a derreter a neve sob seus pés. Enquanto isso, a colmeia continuava vindo entre as árvores, a morte em contagem regressiva.

Em um jogo de pés, Santiago usou o corpo para estocar a espada em efeito espiral. Arrancou sangue do feiticeiro, que gemeu de dor ruidosamente. Dá para vencer, pensou, dá para vencer, sim. Por mais poderoso que o inimigo fosse, havia esperança. Não podia se deixar perder para um homem vil daqueles. Ademais, ele nem era bom espadachim; usava dos feitiços unicamente para se defender. Precisava abatê-lo antes da chegada das crianças, caso contrário, seria sobrepujado.

— Por que crianças e não adultos, feiticeiro?

— As crianças são puras, a mente delas é fácil de controlar em grandes quantidades. O mesmo não se pode dizer dos adultos. A mente de só um adulto é mais difícil de manipular do que a de centenas de crianças ao mesmo tempo.

— Interessante. Muito me admira que esteja dando com a língua nos dentes logo agora.

— Você vai morrer em poucos segundos; não tenho por que guardar segredos. E, quanto mais eu enrolo, mais a colmeia se aproxima!

Santiago ergueu a espada e a arremeteu no lado que havia acertado o feiticeiro. Este levitou lateralmente, evitando o contato da arma inimiga, e o paladino seguiu o peso da lâmina. Sentia-se exausto, mal conseguia ficar de pé. Correra por tanto tempo na mata que agora já nem mais sabia que horas eram. O feiticeiro avançou para atacá-lo num momento de guarda baixa, mas devolveu o golpe numa defesa tosca. A espada fumegou contra a lâmina cinética, e um cheiro estranho de queimado inundou o ar.

As crianças saíram do bosque, e agora era questão de tempo até que atacassem. Como estava num ambiente não encoberto pelas copas das árvores, Santiago observou com clareza a multidão que emergia dentre os troncos dos pinheiros. Sentiu um clique na garganta e achou que era o momento de dar o ataque derradeiro. Precisava matar o feiticeiro para pôr um fim àquilo; tinha certeza de que, se o matasse, o encanto se quebraria.

— Últimas palavras? — o feiticeiro zombou.

— Que Deus tenha piedade de sua alma! — Ergueu a espada e avançou contra o inimigo. Atacou em frenesi: uma, duas, três vezes. Todos os golpes repelidos com facilidade. Era o que o feiticeiro queria; não precisava atacar, só precisava se defender até a ajuda chegar. Maldito!, pensou Santiago, ainda o golpeando. Agora estava certo da vitória adversária; ia mesmo morrer.

Começou a vacilar nos golpes, a exaustão o dominou e a fé se perdeu nos movimentos. O inimigo repeliu os dois últimos ataques sem nenhum tipo de problema e o desarmou; a espada benzida rodou no ar e caiu fincada na neve. Aproveitando a abertura de guarda, o feiticeiro fez um corte lateral na bochecha de Santiago e lançou-se para o golpe derradeiro. Mas o paladino resistiu; caíram um sobre o outro, engalfinhando-se como cães de rua, e, por fim, Santiago ficou por baixo e o feiticeiro por cima. O cavaleiro da fé, ainda em resistência, agarrou a mão que o atacava e a torceu grosseiramente, o que provocou um estalo e um urro do inimigo.

— Só preciso esperar, paladino. Eu já venci esse duelo!

Era verdade; as crianças estavam bem perto, questão de passos. Vinham em manada e empunhavam estacas e facas enferrujadas. Algumas traziam foices e ancinhos nas mãos. Santiago não podia crer que ia morrer como um monstro caipira.

Num relance débil, notou o nascer do sol. Não havia percebido, mas a noite havia voado depressa. De repente, os ancinhos, foices, facas e estacas começaram a cair na neve e os rosnados das crianças vacilaram. A feição do feiticeiro ao ver a alvorada foi impagável, e a fé apagada de Santiago voltou na mesma velocidade em que a perdeu. Enfiou uma cabeçada no nariz do adversário e puxou a adaga de prata para atacá-lo.

Disse:

— Em nome do Pai — uma estocada —, do Filho — outra —, do Espírito Santo — mais uma. — Amém! — A derradeira.

O feiticeiro arregalou os olhos, rolou para o lado e fez uma poça de sangue na neve. Em não muito tempo, com a mão boa segurando as entranhas, faleceu.

Ainda deitado na neve, vivo, surpreso com a conclusão do combate, Santiago começou a rir. Tinha os braços dormentes de tanto ser repelido pela lâmina cinética, a neve do chão lhe gelava a nuca e molhava os cabelos gostosamente. Com muito esforço, ergueu-se e limpou a adaga suja de sangue na roupa do inimigo. Depois, andou até a espada e, só para garantir, arrancou a cabeça do feiticeiro em dois golpes; não queria que o desgraçado tivesse chance de retornar dos mortos como um liche.

— Na próxima reencarnação, se é que reencarnação existe, não ponha uma condição estúpida feito essa num feitiço tão poderoso. São crianças, não garguloides! — disse para a cabeça decepada na neve.

— Onde estamos? — Começou a ouvir as vozes de desorientação; um pavor invadiu a multidão infantil. — Como cheguei aqui? Quem é você?

— Sou um paladino, não se preocupem — ergueu a voz em bom tom. — E Deus acabou de salvar vocês desse feiticeiro aqui. Infelizmente, Curva do Vento está morta. Vamos ter que caminhar para Penhasco Branco em busca de segurança e conforto. Peguem o que puderem das casas ao redor: comida, roupa, objetos de valor. A ida vai ser longa, mas acho que não vai nevar.

Olhou para o sol e sentiu a luz lhe machucar as vistas. Desculpe, Senhor. Eu fraquejei. Tive um momento de dúvida. Agora, sei que o Senhor nunca há de me abandonar.

Algumas crianças acharam seus pais mortos e começaram a chorar; outras, reclamaram de frio e fome, e Santiago não sabia o que fazer para controlar a situação. Porém, aceitou o desafio; era seu ônus, afinal. Ademais, duvidou da própria fé; a igreja podia ser uma farsa, corrupta, um antro de mentirosos, contudo, seu Deus jamais o decepcionara. A tarefa de cuidar de tantas crianças, além de difícil, também serviria como uma punição. Seria desafiador, mas o paladino faria as crianças chegarem em Penhasco Branco nem que precisasse jejuar por todo o trajeto. E jejuaria, Deus sabia que sim; sentia-se muito grato por estar vivo.


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