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O jogo começou simples. Um tanto de amigos, tampinhas de garrafa equitativamente distribuídas e pontaria afiada.

Thiago Souza
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

O jogo começou simples. Um tanto de amigos, tampinhas de garrafa equitativamente distribuídas e pontaria afiada. Três de cada lado. A casa do Kauê perfeita para a disputa, o pátio largo depois do portão finalizava num corredor estreito, usado como lavanderia, antes de dar no quintal compartilhado com os tios. O pátio e o quintal eram as bases de cada time, o corredor, a principal zona de conflito, no man’s land entre a glória e a humilhação. Os azulejos refletiam a silhueta do inimigo, sombras espreitando do outro lado. Num movimento suicida, corajoso, as tampinhas voavam no ar, a mira certeira.

— Pegou na cabeça, que eu vi!

— Pegou nada!

— Para de mentir, mano!

— Juro por Deus!

— A tampinha tá presa no seu cabelo, como não pegou?

— Ah, é?

Desenroscou a munição dos fios, sorriu esfarelando o blefe.

— Pegou mesmo, nem senti.

— Safado!

Éramos amigos. A escola só existia para tardar o jogo. No intervalo os times se reuniam e combinavam estratégias, simulavam emboscadas, aprimoravam as regras, o contingente aumentava.

— Um tiro é pouco.

— Acaba rápido demais.

— Que tal dois?

— Na cabeça um só!

— Sim, na cabeça sim.

— Dois no peito e tá bom.

Na semana seguinte, somávamos dez crianças, cinco para cada time, divididos por habilidades. Havia bons e maus de mira, escaladores profissionais, coletores de munição, iscas e caguetas.

A função do escalador era trepar telhados e grades para atingir do alto os adversários, os coletores se incumbiam de correr pelo pátio em busca de artilharia para abastecer o time. As iscas se entregavam para o alvejamento, o sacrifício deixava o oponente sem munição, a vitória vingava o martírio. Olheiros natos, os caguetas cantavam a localização dos soldados escondidos para os bons de mira.

Eu me enquadrava nos maus de mira, isca, no máximo.

— Dois é pouco.

— Três é muito.

Defendi um artifício que prolongasse a vida, mas que fosse justo, de difícil acesso.

— A gente deixa um colete na máquina de lavar. Quem usar morre com três.

— Tá, mas na cabeça um só.

Apanhamos uma sacola de supermercado e cortamos embaixo, de modo que ficou igual uma camisa regata. O danado era difícil de pegar, muitos padeciam na empreitada. Nem mesmo as iscas tinham sucesso em agarrar o plástico e jogar para um companheiro vivo. Com ela, o time se tornava imbatível. Mudamos as regras, o colete continuaria na lavanderia, mas a equipe que ganhasse três vezes seguidas conquistaria o direito de usá-lo por uma rodada.

Eu amargava esperando minha vez. Nunca chegava. Os dedos envesgados para o disparo faziam com que meus companheiros de equipe determinassem que eu só usasse o colete se fosse de isca ou coletor, isso eu não queria, de jeito nenhum. Orgulhoso, invejava o ornamento nos colegas e ficava ali, errando meus tirinhos.

Aprimoramos regras e equipamentos, as tampinhas, substituídas por elásticos, mais precisos. Rateamos a compra de dois sacos grandes, o dono da papelaria deve contar as moedas até hoje. Armada no dedo, até que tinha um alcance interessante, mas nossa vida mudou mesmo depois que descobrimos os pedaços de pau.  Uma revolução técnica, cada moleque com sua arma personalizada, de diferentes tamanhos, cores e qualidades: cabo de vassoura, assoalho, taco, estrado de cama. O tiro ia longe e fatal.

Numa emenda de feriado, os times contavam com, no mínimo, dez pessoas empenhadas em vencer. A mãe do Kauê trazia da feira melancias e melancias para refrescar os guerrilheiros. O suco da fruta chupado na terra, a montoeira de cascas, aumentava ainda mais o aspecto de campo de batalha. Na primeira campanha do dia, sabendo que se repetiriam centenas durante o feriado, desembestamos para a zona de conflito, cegos e caóticos. Vi a sacola planando no ar, na zazueira, bailando entre elásticos e protestos, meu braço curto não chegava, a conquistei com a ponta da arma. Fisgada, assemelhava-se a um estandarte. Corri, atleta olímpico munido da sagrada chama, para um canto seguro, perto do portão. Ninguém notara meu feito extraordinário. Retirei afoito o plástico do pedaço de pau, vesti, finalmente, o colete. O traje emanava coragem, peça mágica e poderosa.

Aguardava o desfecho do combate, interviria no momento certo, um deus ex machina, o singular soldado com força de cavalaria, o Homem do Colete. Inebriado, não reparei uma sombra se aproximando, pra lá da divisória entre quintal e calçada. A figura chegou, segurou as grades e me estudou, eu, de costas, toscamente vestido com um saco plástico, um pedaço de madeira na mão, murmurando planos como um louco, de cócoras.

— Thiago?

No susto, o elástico disparou. Voltei sobressaltado, era um dos meninos mais velhos do bairro, amigo do Sakai, irmão do Kauê. O boot branco, impecável, roupa de marca e cabelinho na régua, era popular entre as garotas e estava acompanhado.

— Thiago?

Descolori, a fala empacou, a menina ao lado me olhava com estranheza, a regata apertada destacava o sutiã de bojo, promessa de mulher. Já a minha regata não passava de um saco plástico enfiado no corpo magricela, o logo do supermercado ostentado. Não compreendiam o simbolismo do meu colete.

— Tá fazendo o quê?

A menina trocou a expressão de dúvida por um riso tapado de mão.

— Eu, eu, eu…

— O Sakai tá aí?

Corri para avisar a mãe do Kauê, as pernas bambas não conseguiram desviar de um elástico direto na orelha, mal a testa atravessou o corredor da morte.

— Na cabeça, na cabeça!

Meti a mão onde doía e segui na carreira.

— Ei, ei, ei! Morto não corre.

Dei o dedo, ignorei o alarde, entrei na casa, a tia cortava melancias.

— Menino, tá tudo bem com sua orelha?

— Tem um cara no portão atrás do Sakai.

— Se precisar, tem gelo no freezer.

— Foi só um elástico.

— O Sakai não tá, saiu pra fazer um bico. Tá na hora já né?

— Ah, tia, pede pra alguém avisar lá então.

Eu é que não arriscaria tomar outro tiro de besta. Sentei na cozinha, da janela via o pessoal se esbaldando.  Pior que o tiro só a risadinha tapada de mão, nossa. Dei conta do meu estado ridículo, o colete rimando com as sacolas do puxa-saco estampado de galinhas, pendurado na basculante da cozinha. Que esperassem, ele e a garota! Eu ia ficar mole na cadeira, derretendo de vergonha. Pausaram a partida, a tia saiu com a bandeja carregada.

— Tempo!

— Ah, só porque nosso time tava ganhando.

— Nada a ver.

— Mano, olha quanta melancia!

Permaneci sentado, contemplando o banquete com distanciamento de crítico de arte. Chamaram de novo no portão, qualquer um, mais desavergonhado, atendeu e falou o que precisava. A tia voltou com um último pedaço para mim, engoli voraz, o sumo escorreu no plástico, protegendo a camisa de time, branquíssima.

Rasguei o colete.

Salpicos cor de rosa mancharam o tecido por baixo, refrescando meu peito.

Na semana seguinte defenderia sua abolição, coisa mais sem graça aquela sacola.

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