Cinzas

Drama
Maio de 2020
Começou, agora termina queride!

Rose Paz

Autor
Escrever requer paixão, tempo e perseverança.

Ser ou não ser

Conquista Literária
Conto publicado em
Os irmãos da Rua Ímpar

Sinopse

Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Revivemos dia após dia todos os nossos medos, nossos traumas, nosso passado. Sempre refletidos nessa realidade paralela.

Prólogo

Epílogo

Conto

Áudio drama
Cinzas
Ícone de replay
0:00
0:00
Ícone de replay

Era uma manhã de abril, e fomos acordados pelo barulho alto de sirenes. Confusos, eu e minha irmã do meio, descemos as escadas procurando por nossos pais. Eu sou o Carlos e, como o mais velho, carreguei Hugo, o caçula, nos braços, enquanto puxava Sofia pela mão. Pensei que encontraríamos nossos pais e o outro caçula no andar de baixo. Eu ouvia o chorinho dele como se estivesse me chamando, mas não encontramos ninguém.

Reparei que tudo estava cinza. Parecia que alguém tinha pintado tudo de cinza escuro nas paredes e sobre os móveis, mas estava sonolento e não liguei muito para o fato.  Chegamos à calçada pensando que nossos pais e o outro podiam estar por lá, mas também não estavam. Atrás do carro da polícia com a sirene muito alta, vinha outro, enorme, de onde alguém anunciava com voz nervosa, que todos os moradores da rua Par deveriam ficar em suas casas. Mas, tinha algo errado. Eles estavam enganados. Morávamos na rua Ímpar desde que os gêmeos tinham nascido. Papai precisava de uma casa maior porque a família tinha aumentado.

Corremos assustados para dentro, e decidi que tinha que tomar conta da situação. Papai sempre dizia que eu era o homenzinho da família e que, na falta dele, seria responsável pelos meus irmãos. Parece que a hora tinha chegado e eu não ia decepcioná-lo. Mas o Hugo não parava de chorar. As fraldas dele estavam pesadas e sua barriguinha roncava de fome. Coloquei ele no bebê conforto, sempre de olho na Sofia, que costumava dar chá de sumiço às vezes. Mamãe costumava ralhar com ela por causa disso. Uma vez ela entrou no armário da cozinha e foi bem difícil de achar.

Eu tinha sete anos e me sentia quase um pré-adolescente, mas a verdade é que estava morrendo de medo. Todo aquele barulho, Hugo chorando e Sofia perguntando a cada segundo onde estavam mamãe e papai me deixava ainda mais nervoso. Comida sempre resolvia nessas ocasiões. Abri a geladeira, esperando encontrar as coisas já prontas. Afinal, tudo aparecia pronto em cima da mesa na hora de irmos para a escola. O Hugo ficava aos cuidados da mamãe, porque não tinha idade pra ir com a gente, enquanto o outro, que tinha nascido muito pequeno e frágil, continuava no hospital. Pensei que seria assim comigo, que as coisas se ajeitavam sozinhas e era só pegar, mas não tinha nada para comer. Corri para os armários, e não tinha nada lá também. Lembro que eu e Sofia fomos com papai fazer compras a uns cinco dias atrás, então, para onde foi toda nossa comida?

Hugo chorava cada vez mais alto, tornando a situação ainda mais caótica. Enfiei uma chupeta na boca dele, na esperança de ter um tempinho para pensar, mas ainda podia ouvir o chorinho do outro, só não sabia onde o encontrar.

“Cadê Sofia?”

Gritei pela peste, mas ela já tinha sumido. Hugo, com o susto, deixou a chupeta cair no chão voltando a chorar. Eu tremia de agonia. Corri para a porta e ainda pude ver Sofia ser embrulhada em um lençol prateado e levada por um homem do carro grandão. Fiquei muito preocupado. Ela só tinha quatro anos e nenhum juízo. Pensei em anotar a placa, mas não tinha nada em mãos e nem sabia escrever direito. Também, não podia deixar Hugo para trás. Vai que alguém roubava ele também? Parecia um pesadelo. Minha vontade era de voltar para a cama e não sair mais de lá.

Tranquei as portas e as janelas. Lavei a chupeta, e botei novamente na boca de Hugo. Meu cérebro tinha entrado em câmera lenta e meus movimentos não eram mais meus. Com Hugo no colo, subi novamente as escadas e troquei suas fraldas do jeito que dava. Se tudo aquilo era um pesadelo, o melhor a fazer seria fingir normalidade, voltar para a cama e dormir. Abracei meu irmãozinho bem forte e deitei na cama de Sofia, pedindo aos céus que tudo aquilo acabasse e a devolvessem pra gente. Meus pais ficariam decepcionados comigo, mas, provavelmente, também tinham sido levados. Enfim encontrei o outro. Assim que deitei pude sentir seu corpinho perto de mim, mas ele não chorava mais, apenas o pequeno Hugo soluçava em meus braços. Nunca me senti tão indefeso.

Acabei dormindo e tive um sonho estranho. Nele, mamãe ainda estava grávida dos gêmeos. Papai, eu e Sofia tínhamos ido fazer compras, e mamãe ficado em casa repousando, por causa das pernas inchadas. Em outro momento, já estávamos todos em volta da mesa da cozinha tomando café, tudo era colorido, como devia ser. Papai estava em casa, e muito triste. Acho que ele ia levar mamãe para o hospital para ver o gêmeo que tinha ficado por lá. Alguém tinha explicado que ele nasceu menor do que o Hugo e virou estrelinha.

Era um domingo de sol.  Morávamos há pouco tempo na rua Ímpar e meus pais ainda não conheciam ninguém para tomar conta da gente. Papai e mamãe me orientaram a ficar de olho nas coisas, porque não iam demorar. Afinal, eu já era um rapazinho.

Fui para o andar de cima com o pequeno Hugo no colo e com Sofia logo atrás. Botei o babão no bebê conforto. No meu sonho, Sofia queria torradas, mas me distraí com a televisão e não percebi quando ela desceu.  Hugo estava tão quietinho e o desenho tão legal... Ela podia esperar um pouquinho, não é mesmo? Só que não!

Fumaça. Um estrondo. Calor. Sirenes.

Por instinto, gritei por mamãe bem forte, mas lembrei de que nem ela ou o papai estavam lá. Eles prometeram voltar logo, então olhei pelas janelas e pude ver o carro dos bombeiros chegando, com um deles avisando para as pessoas ficarem em casa. O povo da rua Ímpar era curioso, mas solidário. Alguém arrombou a porta e pegou a Sofia. Embrulharam ela numa manta brilhosa e a levaram embora. Não consegui mais gritar, a fumaça entrava em meu nariz e Hugo não parava de chorar. Não tinha por onde sair, as labaredas tomaram a escada e as grades das janelas estavam muito quentes. Estava sozinho, com o pequeno que sufocava junto a meu peito. As chamas ainda não tinham chegado ao quarto da Sofia, então corri pra lá, deitei em sua cama e dormi com Huguinho junto a mim. Acho que sonhei...

No meu sonho, morávamos na rua Par. Era uma manhã de abril, e fomos acordados pelo barulho alto de sirenes. Confusos, eu e minha irmã do meio, descemos as escadas procurando por nossos pais. Eu sou o Carlos e, como o mais velho, carreguei Hugo, o caçula, nos braços, enquanto puxava Sofia pela mão. Pensei que encontraríamos nossos pais e o outro caçula no andar de baixo. Eu ouvia o chorinho dele, mas chamamos, e não encontramos ninguém.

Fim

Sinopse

Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Revivemos dia após dia todos os nossos medos, nossos traumas, nosso passado. Sempre refletidos nessa realidade paralela.

Prólogo

Epílogo

Conto

Áudio drama
Cinzas
Ícone de replay
0:00
0:00
Ícone de replay

Era uma manhã de abril, e fomos acordados pelo barulho alto de sirenes. Confusos, eu e minha irmã do meio, descemos as escadas procurando por nossos pais. Eu sou o Carlos e, como o mais velho, carreguei Hugo, o caçula, nos braços, enquanto puxava Sofia pela mão. Pensei que encontraríamos nossos pais e o outro caçula no andar de baixo. Eu ouvia o chorinho dele como se estivesse me chamando, mas não encontramos ninguém.

Reparei que tudo estava cinza. Parecia que alguém tinha pintado tudo de cinza escuro nas paredes e sobre os móveis, mas estava sonolento e não liguei muito para o fato.  Chegamos à calçada pensando que nossos pais e o outro podiam estar por lá, mas também não estavam. Atrás do carro da polícia com a sirene muito alta, vinha outro, enorme, de onde alguém anunciava com voz nervosa, que todos os moradores da rua Par deveriam ficar em suas casas. Mas, tinha algo errado. Eles estavam enganados. Morávamos na rua Ímpar desde que os gêmeos tinham nascido. Papai precisava de uma casa maior porque a família tinha aumentado.

Corremos assustados para dentro, e decidi que tinha que tomar conta da situação. Papai sempre dizia que eu era o homenzinho da família e que, na falta dele, seria responsável pelos meus irmãos. Parece que a hora tinha chegado e eu não ia decepcioná-lo. Mas o Hugo não parava de chorar. As fraldas dele estavam pesadas e sua barriguinha roncava de fome. Coloquei ele no bebê conforto, sempre de olho na Sofia, que costumava dar chá de sumiço às vezes. Mamãe costumava ralhar com ela por causa disso. Uma vez ela entrou no armário da cozinha e foi bem difícil de achar.

Eu tinha sete anos e me sentia quase um pré-adolescente, mas a verdade é que estava morrendo de medo. Todo aquele barulho, Hugo chorando e Sofia perguntando a cada segundo onde estavam mamãe e papai me deixava ainda mais nervoso. Comida sempre resolvia nessas ocasiões. Abri a geladeira, esperando encontrar as coisas já prontas. Afinal, tudo aparecia pronto em cima da mesa na hora de irmos para a escola. O Hugo ficava aos cuidados da mamãe, porque não tinha idade pra ir com a gente, enquanto o outro, que tinha nascido muito pequeno e frágil, continuava no hospital. Pensei que seria assim comigo, que as coisas se ajeitavam sozinhas e era só pegar, mas não tinha nada para comer. Corri para os armários, e não tinha nada lá também. Lembro que eu e Sofia fomos com papai fazer compras a uns cinco dias atrás, então, para onde foi toda nossa comida?

Hugo chorava cada vez mais alto, tornando a situação ainda mais caótica. Enfiei uma chupeta na boca dele, na esperança de ter um tempinho para pensar, mas ainda podia ouvir o chorinho do outro, só não sabia onde o encontrar.

“Cadê Sofia?”

Gritei pela peste, mas ela já tinha sumido. Hugo, com o susto, deixou a chupeta cair no chão voltando a chorar. Eu tremia de agonia. Corri para a porta e ainda pude ver Sofia ser embrulhada em um lençol prateado e levada por um homem do carro grandão. Fiquei muito preocupado. Ela só tinha quatro anos e nenhum juízo. Pensei em anotar a placa, mas não tinha nada em mãos e nem sabia escrever direito. Também, não podia deixar Hugo para trás. Vai que alguém roubava ele também? Parecia um pesadelo. Minha vontade era de voltar para a cama e não sair mais de lá.

Tranquei as portas e as janelas. Lavei a chupeta, e botei novamente na boca de Hugo. Meu cérebro tinha entrado em câmera lenta e meus movimentos não eram mais meus. Com Hugo no colo, subi novamente as escadas e troquei suas fraldas do jeito que dava. Se tudo aquilo era um pesadelo, o melhor a fazer seria fingir normalidade, voltar para a cama e dormir. Abracei meu irmãozinho bem forte e deitei na cama de Sofia, pedindo aos céus que tudo aquilo acabasse e a devolvessem pra gente. Meus pais ficariam decepcionados comigo, mas, provavelmente, também tinham sido levados. Enfim encontrei o outro. Assim que deitei pude sentir seu corpinho perto de mim, mas ele não chorava mais, apenas o pequeno Hugo soluçava em meus braços. Nunca me senti tão indefeso.

Acabei dormindo e tive um sonho estranho. Nele, mamãe ainda estava grávida dos gêmeos. Papai, eu e Sofia tínhamos ido fazer compras, e mamãe ficado em casa repousando, por causa das pernas inchadas. Em outro momento, já estávamos todos em volta da mesa da cozinha tomando café, tudo era colorido, como devia ser. Papai estava em casa, e muito triste. Acho que ele ia levar mamãe para o hospital para ver o gêmeo que tinha ficado por lá. Alguém tinha explicado que ele nasceu menor do que o Hugo e virou estrelinha.

Era um domingo de sol.  Morávamos há pouco tempo na rua Ímpar e meus pais ainda não conheciam ninguém para tomar conta da gente. Papai e mamãe me orientaram a ficar de olho nas coisas, porque não iam demorar. Afinal, eu já era um rapazinho.

Fui para o andar de cima com o pequeno Hugo no colo e com Sofia logo atrás. Botei o babão no bebê conforto. No meu sonho, Sofia queria torradas, mas me distraí com a televisão e não percebi quando ela desceu.  Hugo estava tão quietinho e o desenho tão legal... Ela podia esperar um pouquinho, não é mesmo? Só que não!

Fumaça. Um estrondo. Calor. Sirenes.

Por instinto, gritei por mamãe bem forte, mas lembrei de que nem ela ou o papai estavam lá. Eles prometeram voltar logo, então olhei pelas janelas e pude ver o carro dos bombeiros chegando, com um deles avisando para as pessoas ficarem em casa. O povo da rua Ímpar era curioso, mas solidário. Alguém arrombou a porta e pegou a Sofia. Embrulharam ela numa manta brilhosa e a levaram embora. Não consegui mais gritar, a fumaça entrava em meu nariz e Hugo não parava de chorar. Não tinha por onde sair, as labaredas tomaram a escada e as grades das janelas estavam muito quentes. Estava sozinho, com o pequeno que sufocava junto a meu peito. As chamas ainda não tinham chegado ao quarto da Sofia, então corri pra lá, deitei em sua cama e dormi com Huguinho junto a mim. Acho que sonhei...

No meu sonho, morávamos na rua Par. Era uma manhã de abril, e fomos acordados pelo barulho alto de sirenes. Confusos, eu e minha irmã do meio, descemos as escadas procurando por nossos pais. Eu sou o Carlos e, como o mais velho, carreguei Hugo, o caçula, nos braços, enquanto puxava Sofia pela mão. Pensei que encontraríamos nossos pais e o outro caçula no andar de baixo. Eu ouvia o chorinho dele, mas chamamos, e não encontramos ninguém.

Fim

Para continuar lendo
Clube do Livro

Gostaria de ler este conto?

Vem fazer parte do Planeta Roxo, nosso clube do livro de terror e ficção científica. Dois contos originais e um clássico todos os meses.

Entre no clube

Tempo, escolha, mistério e econtros nada foge o fim.

Durante toda vida, duas coisas acontecem constantemente, o tempo e as escolhas que tomamos, e uma semore interfere na outra, mas o final esse não da para escolher nem adiar o tempo.

Entre no clube

O tempo pode estar contra você em muitos sentidos

Ponham suas máscaras que agora em fevereiro é época de carnaval, mas não celebre tão cedo, pois algumas dessas máscaras podem cair e não ser nem um pouco bom pra sua saúde.

Ambiente de leitura
Claro
Cinza
Sépia
Escuro
-T
Tamanho de Fonte
+T
Ícone de DownloadÍcone de formato de leitura

O hub de Literatura Nacional mais legal da internet. Explore o desconhecido e descubra o inimaginável.

Logo do Planeta Roxo, clube do livro digital da Bilbbo

Clube do Livro digital da Bilbbo. Todo mês novos envios para le.

Entre no clube
Logo Viralume, frente de conteúdo sobre o mercado literário da Bilbbo.

Frente de conteúdo da Bilbbo sobre Literatura.

Ouça
Logo Mini, publicações curtas da Bilbbo.

Mini Contos da Bilbbo que que de pequenas não possuem nada.

Leia agora