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Eis a grande questão: Como podem existir histórias com finais tão dramáticos?

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Revivemos dia após dia todos os nossos medos, nossos traumas, nosso passado. Sempre refletidos nessa realidade paralela.

Rose Paz
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Áudio drama
Cinzas
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Era uma manhã de abril, e fomos acordados pelo barulho alto de sirenes. Confusos, eu e minha irmã do meio, descemos as escadas procurando por nossos pais. Eu sou o Carlos e, como o mais velho, carreguei Hugo, o caçula, nos braços, enquanto puxava Sofia pela mão. Pensei que encontraríamos nossos pais e o outro caçula no andar de baixo. Eu ouvia o chorinho dele como se estivesse me chamando, mas não encontramos ninguém.

Reparei que tudo estava cinza. Parecia que alguém tinha pintado tudo de cinza escuro nas paredes e sobre os móveis, mas estava sonolento e não liguei muito para o fato.  Chegamos à calçada pensando que nossos pais e o outro podiam estar por lá, mas também não estavam. Atrás do carro da polícia com a sirene muito alta, vinha outro, enorme, de onde alguém anunciava com voz nervosa, que todos os moradores da rua Par deveriam ficar em suas casas. Mas, tinha algo errado. Eles estavam enganados. Morávamos na rua Ímpar desde que os gêmeos tinham nascido. Papai precisava de uma casa maior porque a família tinha aumentado.

Corremos assustados para dentro, e decidi que tinha que tomar conta da situação. Papai sempre dizia que eu era o homenzinho da família e que, na falta dele, seria responsável pelos meus irmãos. Parece que a hora tinha chegado e eu não ia decepcioná-lo. Mas o Hugo não parava de chorar. As fraldas dele estavam pesadas e sua barriguinha roncava de fome. Coloquei ele no bebê conforto, sempre de olho na Sofia, que costumava dar chá de sumiço às vezes. Mamãe costumava ralhar com ela por causa disso. Uma vez ela entrou no armário da cozinha e foi bem difícil de achar.

Eu tinha sete anos e me sentia quase um pré-adolescente, mas a verdade é que estava morrendo de medo. Todo aquele barulho, Hugo chorando e Sofia perguntando a cada segundo onde estavam mamãe e papai me deixava ainda mais nervoso. Comida sempre resolvia nessas ocasiões. Abri a geladeira, esperando encontrar as coisas já prontas. Afinal, tudo aparecia pronto em cima da mesa na hora de irmos para a escola. O Hugo ficava aos cuidados da mamãe, porque não tinha idade pra ir com a gente, enquanto o outro, que tinha nascido muito pequeno e frágil, continuava no hospital. Pensei que seria assim comigo, que as coisas se ajeitavam sozinhas e era só pegar, mas não tinha nada para comer. Corri para os armários, e não tinha nada lá também. Lembro que eu e Sofia fomos com papai fazer compras a uns cinco dias atrás, então, para onde foi toda nossa comida?

Hugo chorava cada vez mais alto, tornando a situação ainda mais caótica. Enfiei uma chupeta na boca dele, na esperança de ter um tempinho para pensar, mas ainda podia ouvir o chorinho do outro, só não sabia onde o encontrar.

“Cadê Sofia?”

Gritei pela peste, mas ela já tinha sumido. Hugo, com o susto, deixou a chupeta cair no chão voltando a chorar. Eu tremia de agonia. Corri para a porta e ainda pude ver Sofia ser embrulhada em um lençol prateado e levada por um homem do carro grandão. Fiquei muito preocupado. Ela só tinha quatro anos e nenhum juízo. Pensei em anotar a placa, mas não tinha nada em mãos e nem sabia escrever direito. Também, não podia deixar Hugo para trás. Vai que alguém roubava ele também? Parecia um pesadelo. Minha vontade era de voltar para a cama e não sair mais de lá.

Tranquei as portas e as janelas. Lavei a chupeta, e botei novamente na boca de Hugo. Meu cérebro tinha entrado em câmera lenta e meus movimentos não eram mais meus. Com Hugo no colo, subi novamente as escadas e troquei suas fraldas do jeito que dava. Se tudo aquilo era um pesadelo, o melhor a fazer seria fingir normalidade, voltar para a cama e dormir. Abracei meu irmãozinho bem forte e deitei na cama de Sofia, pedindo aos céus que tudo aquilo acabasse e a devolvessem pra gente. Meus pais ficariam decepcionados comigo, mas, provavelmente, também tinham sido levados. Enfim encontrei o outro. Assim que deitei pude sentir seu corpinho perto de mim, mas ele não chorava mais, apenas o pequeno Hugo soluçava em meus braços. Nunca me senti tão indefeso.

Acabei dormindo e tive um sonho estranho. Nele, mamãe ainda estava grávida dos gêmeos. Papai, eu e Sofia tínhamos ido fazer compras, e mamãe ficado em casa repousando, por causa das pernas inchadas. Em outro momento, já estávamos todos em volta da mesa da cozinha tomando café, tudo era colorido, como devia ser. Papai estava em casa, e muito triste. Acho que ele ia levar mamãe para o hospital para ver o gêmeo que tinha ficado por lá. Alguém tinha explicado que ele nasceu menor do que o Hugo e virou estrelinha.

Era um domingo de sol.  Morávamos há pouco tempo na rua Ímpar e meus pais ainda não conheciam ninguém para tomar conta da gente. Papai e mamãe me orientaram a ficar de olho nas coisas, porque não iam demorar. Afinal, eu já era um rapazinho.

Fui para o andar de cima com o pequeno Hugo no colo e com Sofia logo atrás. Botei o babão no bebê conforto. No meu sonho, Sofia queria torradas, mas me distraí com a televisão e não percebi quando ela desceu.  Hugo estava tão quietinho e o desenho tão legal... Ela podia esperar um pouquinho, não é mesmo? Só que não!

Fumaça. Um estrondo. Calor. Sirenes.

Por instinto, gritei por mamãe bem forte, mas lembrei de que nem ela ou o papai estavam lá. Eles prometeram voltar logo, então olhei pelas janelas e pude ver o carro dos bombeiros chegando, com um deles avisando para as pessoas ficarem em casa. O povo da rua Ímpar era curioso, mas solidário. Alguém arrombou a porta e pegou a Sofia. Embrulharam ela numa manta brilhosa e a levaram embora. Não consegui mais gritar, a fumaça entrava em meu nariz e Hugo não parava de chorar. Não tinha por onde sair, as labaredas tomaram a escada e as grades das janelas estavam muito quentes. Estava sozinho, com o pequeno que sufocava junto a meu peito. As chamas ainda não tinham chegado ao quarto da Sofia, então corri pra lá, deitei em sua cama e dormi com Huguinho junto a mim. Acho que sonhei...

No meu sonho, morávamos na rua Par. Era uma manhã de abril, e fomos acordados pelo barulho alto de sirenes. Confusos, eu e minha irmã do meio, descemos as escadas procurando por nossos pais. Eu sou o Carlos e, como o mais velho, carreguei Hugo, o caçula, nos braços, enquanto puxava Sofia pela mão. Pensei que encontraríamos nossos pais e o outro caçula no andar de baixo. Eu ouvia o chorinho dele, mas chamamos, e não encontramos ninguém.

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