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Um ônibus lotado da muita história para um nariz atencioso.

Osvaldo Eugênio
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Cheiro de Humanidade
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

O ônibus está terrivelmente lotado. Como embarco em um dos pontos iniciais, antes deste percorrer boa parte de seu percurso cruzando o centro da cidade, consegui sentar-me assim que entrei.

Eu tinha uma gama de bancos para escolher e assim o fiz. Sentei-me no banco do corredor, já que estava chovendo lá fora e quase todos os bancos da janela estavam levemente molhados. Conforme o ônibus foi enchendo, enchendo, enchendo, os bancos foram sendo ocupados com pessoas úmidas com cheiro de cachorro na garoa.

Ao meu lado sentou-se uma senhorinha, bem velhinha. Ela estava carregando uma sombrinha florida que pingava mais do que a própria chuva que caia lá fora. Isso não me incomodou nem um pouco, afinal uma sombrinha molhada seria inevitável naquele temporal.

Ela tinha um cheiro bom. Cheiro de vó. Todas as avós têm o mesmo cheiro bom de um perfume que só elas sabem onde comprar.

Além do cheiro, outro fato que me fez ter certeza que ela era uma avozinha foram as crianças sentadas no banco imediatamente à minha frente. Elas estavam fazendo a maior algazarra e a velhinha, sempre calma, dizia: “Lucas e Pedro, chega de bagunça”. Com certeza era uma avó, ninguém falaria com tanta calma e amor com aqueles dois capetas em forma de guri.

Para acalmá-los, deu um pacote de salgadinho para cada neto. Não qualquer salgadinho, mas o salgadinho mais fedido de todo o mundo. Salgadinho que só uma avó suportaria o cheiro por amor aos seus.

Aquele cheiro bom de velha se misturou com o chulé de queijo que estava no banco da frente. Fechei os olhos para tentar descansar e tudo que me vinha à mente era a mistura do cheiro da minha avó com o pé do meu pai depois de um dia inteiro trabalhando.

Com o tempo o nariz se acostuma, afinal, odores similares a esses estavam presentes frequentemente no meu dia a dia. E assim me concentrei para tentar alguns minutos de sono. Dormi com o cheiro bom da velhinha, cheiro forte do salgadinho de queijo, até chegar o cheiro azedo de virilha.

Não que meu nariz não fosse se acostumar com aquele odor de cueca levemente urinada, mas aquela situação ultrapassava os meus limites olfativos. Aquela virilha espremida em uma calça jeans que deixaria qualquer cantor sertanejo com inveja estava invadindo a minha honra. O que fazer em uma situação dessas? Pedir licença para o homem da genitália suja?

“Moço, seu píton precisa de um banho. Poderia afastá-lo um pouco do meu rosto?”. Não, essa abordagem não funcionaria.

O moço não tinha muita escolha, era virar a arma para a minha cara ou encoxar quem estivesse ao lado dele. Infelizmente, pelo bem do próximo, e meu pesar, ele fez a escolha certa.

Pensei em virar um pouco mais meu rosto para o cangote da velhota, mas isso seria muito estranho, até mesmo para mim que sempre gostei de mulheres mais velhas. Talvez a melhor alternativa fosse fingir que iria descer em breve, partir para o fundo do ônibus e ficar em pé.

Pensei e isso fiz. Decisão deveras equivocada.

Não me considero um rapaz baixo, mas também não estou nos degraus mais altos da minha espécie e isso nunca foi um grande problema até hoje. Quando você tem alguém ao um pouco mais alto segurando a barra lá em cima para não cair, ser mediano se torna um baita problemão. Dois metros de problema, sendo boa parte disso só braço.

Não havia mais cheiro de avó para confortar, tudo o que eu tinha era um belo sovaco suado na minha cara.

Isso era fácil combater. Levantei também o meu braço, encostei minha cabeça em meus próprios ombros, como se ela fosse um pequeno bebê recém-nascido e comecei a cheirar a minha própria axila. A essência do meu desodorante até que estava durando, ou aquele cheiro era familiar demais para eu reclamar.

Cabeça levemente baixa, apoiada em mim mesmo. Parecia que, finalmente, eu teria o resto de uma viagem tranquila. Só parecia.

Ouvi uma primeira voz dizendo “puta merda”, e mais uma reclamou, e mais uma esbravejou. Levantei para ver o que estava acontecendo e vi uma bela “hôla” se formar.

Como se todos estivessem ensaiados, pessoa por pessoa ia protegendo seus narizes. Alguns com a mão, alguns com a manga da blusa e outros levantando suas golas. O inevitável chegaria em breve até mim... e chegou antes do previsto.

O autor daquela bomba de gás caprichou. Quando o cheiro entrou pela minha narina direita, automaticamente desentupiu a esquerda. Era, com certeza, o peido mais fétido que senti em toda minha vida!

A moça que carregava a caixa de esfihas reclamou. O homem que levava flores para sua esposa também. Assim como a moça atraente e incrivelmente perfumada, a criança que gorfou no chão e a menininha que comia morangos.

Era uma incrível mistura de odores. Chuva, cachorro molhado, idosa, salgadinho, virilha, sovaco, desodorante, gases orgânicos, esfiha, flor, perfume, gorfo e morangos. Realmente, o transporte público tem um forte cheiro de humanidade, com cada humano tendo que aprender a conviver com o cheiro único do próximo.

Saudades de toda essa humanidade.

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