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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

A cidade construída em Marte parecia um gigantesco globo de neve.

Prédios, bairros, lojas, casas — tudo o que havia na Terra, ali também tinha. Era inteiramente construída com titânio puro. Claro que demãos de tinta eram aplicadas, mas existia também a opção de revestir o interior com outros materiais; tudo para melhorar o conforto acústico e térmico. Assim os habitantes poderiam sair da monotonia do eterno prateado.

Havia sido decidido de comum acordo que, com a colonização do Sistema Solar, a Terra seria o centro do comércio e recursos extraterrenos — e por isso deveria ser protegida. No caso de uma invasão, descobririam e tomariam providências apenas quando os inimigos já estivessem dentro do planeta, o que não adiantava de nada. Assim, fizeram uma base em Marte, com o apoio da ONU. A cidade foi batizada de “Bahram”.

As gigantescas bases militares, subsidiadas por todos os países terráqueos, contornavam a cidade como um cinturão, armado até os dentes com alta tecnologia. Todavia, não havia apenas soldados, diplomatas e políticos ali. Sendo a cidade-porto dos humanos viajantes, cidadãos abastados o suficiente também podiam comprar um lugar, ou apenas alugar, conforme transitavam entre planetas.

Era tudo muito diferente da Terra. Era absolutamente silencioso. Os habitantes também entravam na lista de peculiaridades — eram robôs. No começo, ao menos, eram os únicos que moravam em Bahram e recepcionavam os viajantes extrassolares. Demorou um tempo até garantirem que a base instalada em Marte era segura para comportar vidas humanas. Quando o “ok” foi dado, androides passaram a dividir Bahram com os humanos.

Logo, criaram entretenimento e toda sorte de coisas. Conforme foram passando os anos, os telões dos prédios produziam barulho e informação visual o suficiente para assemelhar à Terra. Também trouxeram as classes sociais para Bahram. Depois de anos, o desbalanço social reinava. Com a adição de novas espécies à rotina humana, que transitavam por Bahram para obter acesso à Terra, novas doenças também entraram na lista de ameaças. Algumas eram inofensivas, tanto quanto um resfriado; outras, muito mais letais.

É onde a história de uma habitante da Galáxia de Andrômeda tomou um rumo solitário e infeliz. Aglaya pegava qualquer coisa na rua que pudesse vender. Com um grande saco atolado de papéis, metais, peças e vidro, ela transitava pelas ruas procurando por mais. Pés descalços, roupas surradas e sujas, os cabelos embaraçados, a expressão permanente de desolação em seu rosto em formato de coração.

A temperatura dentro do domo de vidro era controlada para ficar no meio termo, mas de nada adiantava para a espécie dela, os andryanos. Embora possuíssem silhueta humanoide, diferiam com seu tom de pele reluzente e dourado, parecendo revestidos de folhas lisas de ouro. O planeta deles, An44, localizado na Galáxia de Andrômeda, era muito quente, requerendo que a espécie tivesse evoluído até possuir sangue frio. Sem o calor excessivo dentro de Bahram, era comum que os transeuntes vissem Aglaya tremendo. Nada faziam, é claro. A fome, a sede e o cansaço eram rotina para ela.

Fora filha de um casal andryano de classe alta. Adoravam viajar em família — lembrava-se da época em que era criança. Hoje em dia, eram apenas memórias nas quais se agarrava para não esquecer de suas mães, Akkakalys e Anaytys, e seus irmãos: Abbrax, Achym e Ayays.

A sequência era repassada mentalmente — primeiro as mães de Aglaya, depois os irmãos — enquanto ela catava detritos e coisas descartadas. Era uma forma de se manter sã.

Ela já tinha viajado por sete planetas diferentes. Divertia-se com os três irmãos pelas dependências dos hotéis e pousadas que as empresas humanas possuíam em outros mundos. Assim, desfrutavam das melhores coisas. Mimada e protegida, vivia e aproveitava das novas paisagens, ouvindo línguas alienígenas e sorrindo a seres muito diferentes dos humanos.

Com sete anos de idade, tinha visto mais do universo do que a maioria das crianças. Conversava e mostrava suas fotos para as crianças de classe média e alta. Mostravam seus celulares, tablets e outros incríveis aparelhos tecnológicos, todos abarrotados de vídeos contendo outros mundos. Hoje, tentava lembrar-se com uma mente fraca quais eram aqueles lugares, mas eram lembranças muito vagas. Sabia que um planeta era frio, o outro era muito quente e um cuja chuva era neon, mas nada além. 

Dez anos atrás, uma bactéria de um habitante do planeta Urano tinha feito vítimas incontáveis, tanto humanas quanto de outras espécies. Uma bactéria, volátil até mesmo para uranianos, tinha efeitos horrendos nos infectados. Aglaya lembrava do horror que sentira ao observar vários corpos se debatendo no chão. Alarmantes quantidades de pus enegrecido saíam por todos os orifícios possíveis. O pior de tudo, entretanto, era o sangue inundando os olhos dos coitados, escapando por seus poros como se tal substância, tão essencial para a vida, fosse prejudicial ao organismo. Não muito tempo depois, a estação espacial tinha fechado em quarentena por dois anos, tentando desesperadamente controlar a contaminação e ajudar os que ainda podiam ser salvos.

Aquilo custara caro para vários viajantes, mas era melhor do que ter uma cidade inteira abatida. Fora assim que alguns tornaram-se desabrigados e miseráveis. A estação especial Bahram, no qual estavam morando por um ano, era protegida pelo domo de vidro. Fechados ali, a doença se espalhou mais rápido. Aglaya ainda não sabia como tinha sido incubada a tempo, mas se lembrava vividamente, como pouquíssimas coisas atualmente, de assistir à sua família perecer do outro lado da sala. Fora uma visão horrenda, que desejava apagar de sua mente. Entretanto, seria como perder uma parte da vida deles, da qual Aglaya desfrutara pouquíssimo. Lembrava de estarem incubados, mas já em estágios da doença avançados demais para que fossem salvos.

Por dois anos, a jovem andryana tinha sido preservada até que uma cura fosse desenvolvida. Quando acordou com o antídoto sendo vaporizado dentro da cápsula, Aglaya, agora órfã, descobriu que mendigos tinham roubado tudo de sua casa, até mesmo documentos. Sem ter como provar quem era, o governo a colocou num horrível orfanato sem hesitar. Assim prosseguiu pela vida, à própria sorte e à deriva. Em Bahram, conheceu o inferno. Viu doses de crueldade serem ministradas por infantes, jovens e adultos. As mais marcantes, porém, foram no orfanato. Ao invés de se unirem para atenuar a dor da orfandade, as crianças lá jogadas preferiam exaurir a dor através de ruindade. Aglaya não se lembrava de um dia naquele lugar que não tivesse sido regado por suas lágrimas. Cortaram-lhe os cabelos, espetavam-lhe o corpo com qualquer objeto afiado e até mesmo roubavam o pouco de comida que era entregue para ela. Não era a única a sofrer nas mãos de crianças revoltadas e magoadas, mas certamente fora uma das poucas que não devolveu os maus tratos na mesma moeda. Em sua terra natal, lembrava-se de um ditado: Ayshhrai etray kay. Algo próximo de “Com dois olhos se enxerga, mas, com vingança, nenhum resta”. Era o que os mais velhos costumavam dizer, o equivalente ao ditado terráqueo “A vingança é uma pedra que se volta contra quem a atira”. Depois, acabou fugindo e preferindo as ruas. Antes, comia três vezes ao dia; agora, comia sobras do lixo. Outrora vestindo roupas limpas e caras, agora estava aos trapos. Seus orbes escuros e brilhantes de felicidade hoje passavam pelo chão e pelos cantos, à procura do que vender. Os longos cabelos cor de violeta estavam tão bagunçados que a faziam parecer selvagem.

Com dezessete anos, escondia no cós da calça um grande caco de vidro para se proteger. Vivia numa pequena barraca, feita de pedaços de tecido, madeira e barras de ferro, numa rua sem saída entre prédios abandonados. Além de vender coisas que podiam ser recicladas ou reaproveitadas, ela também fazia esculturas com o que não conseguia vender. Dentro de sua casa, passava horas usando rochas Barrares para bater em colheres, facas, pequenas placas de metal e parafusos — encaixando-os uns nos outros após moldar, formava diferentes animais de diversos mundos, guiada por sua memória.

Hoje, segundo o relógio na torre da praça central, era quase onze horas da “manhã”. Circulando, Aglaya seguia cantarolando sua rima usual. Os pés descalços produziam um taptaptap enquanto caminhava. Abaixou a cabeça a fim de procurar alimento. Era sempre um processo degradante, o de se alimentar. Enfiava-se nos lixos públicos ou vasculhava o chão por comida que caíra ali. Como era dia de limpeza, constatou depois de uma hora procurando que os lixeiros tinham chegado antes dela. Hoje, Aglaya não conseguira catar nada na praça. Tinha apenas algumas coisas dentro do saco, todas coletadas pelas ruas da classe média e da favela, que eram o caminho mais rápido até o centro.

— Hoje, estamos bem egoístas, hein, senhores lixeiros. — Ela bufou. Um sorriso triste despontou em seu rosto.

Enquanto continuava sua caminhada ao redor e por dentro da praça, Aglaya vasculhou a mente sobre quando foi a última vez que comeu. Talvez três dias atrás… É, foi quando achei um lanche inteiro na lixeira, pensou contente. Cansada pela busca, eventualmente acabou sentando contra uma árvore. Toda a fauna ali era cuidada para que não morresse, por isso sua coloração era de um bonito verde. Às vezes, desejava ser uma árvore para ser bem-cuidada assim também; ela as invejava por todo o cuidado que recebiam. Desviando os olhos amendoados da copa da árvore, admirou o vasto céu vermelho e o grande sol.

Sentiu a compressora saudade do próprio planeta, que era parecido com Marte. Os membros finos de Aglaya ficavam cada vez mais sem forças conforme os roncos de seu estômago pioravam. A fome era uma companhia constante. Delineou cada curva, cada nuvem de Marte. Estava desejosa de qualquer coisa que pudesse sanar aquela fome, mas, se cutucasse a árvore, os policiais viriam ensiná-la “pacificamente” a não depredar a natureza de Bahram. Já tinha acontecido antes; ela não queria passar por aquilo novamente.

Com um estalo de resolução, Aglaya ergueu-se em pernas bambas e inspirou profundamente. Demoraria, e nem tinha certeza de que suas pernas conseguiriam levá-la até lá, mas precisava tentar antes que realmente perdesse as forças. Com o saco sobre um ombro e mirando o Espaço escuro, Aglaya obrigou-se a seguir até a região mais abastada de Bahram. Nos prédios e pousadas, era mais difícil devido à segurança, então tentaria a sorte numa das casas. Cantarolando uma rima andryana, observando o céu escarlate e os arredores poeirentos que contornavam Bahram, finalmente chegou nos bairros ricos e escolheu uma casa: uma mansão cujo muro não estava cercado por seguranças armados ou lasers. 

Retirou força do desespero e escalou-o, caindo desajeitada do outro lado. Aquilo renderia bons hematomas, mas agora pouco importava. Agachada, seguiu sorrateira para dentro da casa. Não tinha energia para focar em nada, exceto na cozinha. Chegou lá após abrir as portas de vidro, mas sua pressa se esvaiu ao notar como estava limpa. Um breve flashback a acometeu: um momento longínquo onde ela e a família sentavam ao redor do fogão à lenha-cinza, onde o pai costumeiramente cozinhava. O peito de Aglaya comprimiu em agonia, tirando-lhe o ar. Olhando para os próprios pés, notou como emporcalhava um ambiente tão imaculado e bonito só por tê-lo adentrado. Encolheu, intimidada e constrangida com seu estado de sujeira. No momento seguinte, obrigou-se a vasculhar a geladeira e a despensa, dado que um ronco ensurdecedor surgiu de sua barriga. Estava tão faminta que precisaria invadir a cozinha de alguém para não morrer. Ignoraria esse constrangimento em favor da própria sobrevivência, é claro, mas sabia que mais tarde se sentiria suja por dentro tanto quanto estava por fora. Não se sentia apropriada a pisar num local tão cheio de luxos, um eco nostálgico do luxo que ela provara quando mais nova. Algumas das coisas que encontrou decidiu jogar dentro de seu saco, enquanto outras comia sem nem saber o que era. Nem sentia o gosto, de tão rápido que as consumia. Com a comida, Aglaya também sentia a culpa descer por sua garganta, amarga e sombria. Reprimiu um choramingo ao ver as marcas sujas que seus dedos deixavam onde tocavam. Queria ter um teto pra me proteger e um lugar assim pra não morrer de fome... Queria nunca ter saído de An44.

— Você não deveria comer tão rápido — uma voz masculina soou de trás da ilha —, você pode passar mal.

Aglaya assustou-se violentamente, deixando a borda do saco escapar das mãos e espalhar tudo pelo chão. Erguendo-se devagar, arriscou olhar sobre a ilha, ficando visível apenas dos olhos para cima. Um rapaz alto de pele chocolate, cabelos e olhos castanhos, a olhava do outro lado, encostado no arco que dividia a cozinha da sala de estar.

 — Me chamo Khan Desae, caso te interesse. — O rapaz sorriu ao se apresentar. Ele falava a língua dela com uma fluência alarmante depois de ter claramente percebido a qual espécie ela pertencia. Seu cabelo violeta e pele dourada eram mesmo reveladores. — Você comeu o requeijão e o patê de ricota que fiz, e isso não sustenta de verdade alguém que esteja… igual a você.

Aglaya continuou a encará-lo naquela mesma posição, sem saber o que falar. As pessoas com quem “conversara” nos últimos nove anos não eram gentis; tratavam-na como um verme nojento que desejavam longe de seus pertences caros. Até mesmo os recicladores eram ríspidos, falando apenas o necessário com ela. Os moradores de rua geralmente ficavam em silêncio, poupando energia para procurar comida. Khan Desae parecia gentil e despreocupado que Aglaya estivesse ali na cozinha dele. Por ter crescido nas ruas, porém, ela já tinha aprendido que as pessoas mentiam e fingiam.

— Se quiser, posso fazer um almoço decente enquanto se lava — sugeriu. Ele tinha os braços cruzados em frente ao peito. Trajava o uniforme turquesa dos pilotos juniores da Academia de Aviação Interplanetária de Bahram. Hmm… deve ser por isso que sabe outra língua. Deve conviver com pilotos Andryanos, ela pensou. — Aí, aproveito pra comer algo também, já que hoje fiquei preso na aula.

As sobrancelhas de Aglaya ergueram tanto que quase sumiram debaixo da franja irregular e suja. Como assim, “se lavar”? Que ele quer?, pensou, mas nada disse.

— Ei, não vai me dizer ao menos seu nome?

Khan desencostou-se e deu alguns passos para dentro da cozinha, fazendo Aglaya vacilar e cair sentada com um grito.

— Cuidado! — veio a voz dele, ficando cada vez mais próxima até que aparecesse uma mão apoiada na superfície da ilha enquanto inclinava-se para tentar ajudar Aglaya a levantar. — Eu prometo que não vou fazer nada contra você.

Estatelada no chão, ela permaneceu encarando-o, tremendo de corpo inteiro, completamente tomada pelo medo.

— Se te tranquilizar, deixo minha arma na sua mão. É a única que tenho — ele ofereceu, retirando uma arma escura e de cano longo de um coldre preso à coxa. Deixou-a em cima da ilha e afastou de lá com ambas as mãos acima da cabeça.

Ela levantou de um salto, sacando o caco de vidro do cós da calça. Além de se cortar, Aglaya descobriu que sua arma tinha quebrado quando caiu no chão. Uma queimação em sua cintura, adicionada à ardência vinda da linha amarelada recém-aberta em seus dedos, a fez soltar o vidro no chão. Aninhou a mão contra o peito, olhando desesperada para o rapaz. Khan tinha voltado ao lugar de antes, as mãos ainda acima da cabeça. Rapidamente, pegou o revólver e o mirou. Destravada, só faltava puxar o gatilho para garantir que ninguém a machucaria. Olhando para a porta de onde tinha vindo, notou que seria muito mais trabalhoso escalar o portão com uma mão machucada.

— Posso chamar alguém para te ajudar, se você deixar eu me mover. Depois, posso fazer nosso almoço. Que acha disso?

— E vai querê o que em troca? — ela rosnou, tentando soar ameaçadora; tudo o que conseguiu, no entanto, foi parecer ainda mais desesperada, como um gato de rua acuado.

— Companhia. E que pare de sujar minha casa — Khan abriu ainda mais seu sorriso. — É pedir muito?

— Ninguém ajuda os ôtros de graça.

— E eu não estou. Você vai lavar a louça também.

Encararam-se longamente; Aglaya, confusa, e Khan tão sereno, que chegava até a ser engraçado.

— Pode usar a arma se eu tentar algo — ele insistiu.

Ainda receosa, Aglaya assentiu. Khan virou e inclinou-se para dentro do cômodo que ficava próximo à cozinha. Parecia a sala de estar.

— Bryan, pode vir aqui com o kit de primeiros socorros, por favor?

Em alerta, ela pôde ouvir o som de passos se aproximando. Momentos depois, um homem de olhos pretos e pupilas brancas surgiu com uma caixa em mãos. Era um androide, evidente pelos olhos peculiares.

— Olá — ele a cumprimentou. Seu timbre era firme, porém com um tom gentil que não a fazia se sentir ameaçada. — Posso? — Ele gesticulou para o machucado que vertia sangue amarelo como ouro.

Aglaya deixou-o limpar os cortes e espirrar um líquido de cheiro pungente no local, onde pareceu formar uma camada lisa sobre os machucados. Depois, Bryan deu-lhe roupas e um par de sapatos. Aglaya notou serem roupas femininas, mas não comentou. O androide a levou até o banheiro térreo, deixando-a sozinha depois.

Embora tenha sido difícil ligar o chuveiro, acabou aproveitando o banho por quase uma hora. Percebeu, debaixo do jato d'água, que o spray tinha impermeabilizado seus machucados, o que achou fascinante. Vestiu as novas roupas, descartando as antigas no lixo, e encarou-se no espelho. Vendo o próprio reflexo estando limpa, tornava-se fácil ver as cicatrizes angariadas ao longo dos anos.

Sentiu-se autoconsciente do próprio corpo, mas em algum momento precisava sair do banheiro.


Quando voltou à cozinha, a arma desajeitadamente em mãos, a bagunça estava terminando de ser limpa por Bryan, que cantarolava despreocupadamente. Khan cozinhava algo que cheirava extremamente bem. Duas outras moças estavam sentadas em frente ao balcão. Pareciam entretidas com os dotes culinários dele, até verem Aglaya entrar. Elas eram tão humanas quanto Khan, e semelhantes o suficiente para fazer Aglaya refletir se seriam primas ou irmãs dele.

Ouvindo o barulho dos passos de Aglaya, Khan virou a cabeça, recebendo-a com o mesmo sorriso de antes.

— Agora está bem melhor, não? E que bom que as roupas da Kanti te serviram. — Khan virou para tirar a panela do fogo, indicando com o queixo uma vasilha perto de uma das moças. — Me ajuda aqui, Jyoti?

A moça de cabelos curtos levantou do banco e pegou a vasilha, ajudando Aglaya a definir qual delas era Jyoti. Ela ajudou o rapaz com o risoto, depois levou para outra sala. No caminho, a moça passou ao lado de Aglaya e deu-lhe um beijinho no rosto, rindo quando a andryana se sobressaltou.

— Elas são minhas irmãs — ele explicou, colocando a panela dentro da pia e indo pegar duas jarras geladas de suco na geladeira. — Jyoti é muda, Kanti é surda. Espero que não seja um problema para você. — Entregou as duas jarras para a irmã restante, que as pegou com um sorriso adorável. Khan ergueu as mãos para contar-lhe algo, um gesto significativamente indicando Aglaya.

Kanti assentiu com veemência, indo à sala de jantar. Aglaya continuou parada onde estava, desconfortável e constrangida. Ela só olhava, tomada pela curiosidade.

A voz de Aglaya estava rouca pelo desuso e devido à garganta seca, precisando limpá-la antes de dizer:

— Se tem companhia, por que me pediu para ficar?

— É o certo a se fazer, tendo uma casa desse tamanho — ele assoprou uma mecha da franja para longe dos olhos —, e posso estar errado, mas você reagiu de forma agressiva e surpresa exacerbadas demais para estar acostumada a gestos de gentileza ou ajuda. Fora o fato de que conheço você… bem, mais ou menos. E nas vezes em que te vi na rua, nunca esteve com ninguém. Embora não se lembre de mim, achei que não se importaria de ser absorvida por nossa pequena família.

— Me conhece? — Aglaya arregalou os olhos, retesando o corpo. Khan, no entanto, estava tranquilo, chegando até a recostar o quadril contra a ilha da cozinha.

— Sim, já comprei uma de suas esculturas uns anos atrás. — Ele apontou para um coelho esculpido com colheres, facas e pequenos pedaços de vidro. A escultura tinha sido polida para que o ferro brilhasse, e estava encarapitada sobre a geladeira.

Aglaya lembrava de tê-la feito, mas nunca guardava o rosto de seus raros compradores. Precisava ocupar a mente com coisas mais importantes, como os lugares onde tinha mais sucatas ou comida desperdiçada… Ou onde a polícia não confiscaria os pertences dos moradores de rua.

— Você ainda mora na rua, e aqui tem espaço o suficiente pra te acomodar, se quiser ficar. Mamãe e Papai eventualmente nos visitam, mas não se importarão de vê-la aqui; são boas pessoas e entenderão.

Naquele dia, Aglaya ficou para o almoço. Ainda desconfiada, assistiu à família Desae conversar na língua de sinais enquanto comia. Bryan era falante e contente demais para um androide, o que a surpreendeu. Embora respondesse esporadicamente ao falatório dele, Bryan sorria e continuava o monólogo, sem se desestimular. Apesar de Khan insistir, Aglaya decidiu partir durante a tarde. Assim, surpreendeu-se novamente quando o humano e o androide encheram seu saco com mais comida em potes, deixando-o mais pesado. Pelo menos Aglaya já se sentia um pouco mais forte e pôde carregá-lo.

Só não esperava que, nas semanas seguintes, vários jovens trajando uniformes da Academia de Aviação Interplanetária começassem a transitar por onde ela costumava passar ou ficar. Compravam suas esculturas e saíam com sorrisos impressionados. Não era dinheiro suficiente para comprar muita coisa, mas Aglaya percebeu seu estoque acabar rapidamente. Na segunda semana após conhecer os Desae, várias pessoas a cumprimentaram na rua. Por um lado, a chuva de atenção a deixou desconfortável e arisca. Era especialmente visível quando lidava cara a cara com aquelas pessoas, ficando ainda mais monossilábica e retraída. Quando tudo se tornava demais para ela, apertava os olhos e desejava nunca ter ido à mansão daquela família. Tinha plena consciência de que eram os culpados por tão descarado arroubo de compaixão, vindo de seres que nunca lhe tinham prestado atenção ou ajuda.

Por outro lado... não cabia em si de tanta felicidade.


***


Três semanas se passaram desde que conheceu aquela família peculiar. Olhando os potes naquela manhã, encontrou apenas um cheio. Tinha pães temperados com especiarias da Terra, deliciosos demais. Dando uma dentada e mastigando devagar, ela sorriu. Encostou na parede de sua barraca puída e cheia de furos, sentindo o frio da parede metálica do muro que separava os distritos pobres dos mais abastados.

— Vou ter que ficar uns dois dias sem comer pra poder economizar, ou vou ter que comer menos… — Aglaya ponderou, pendendo a cabeça para o lado.

Infelizmente, tinha se acostumado a comer uma porção generosa de comida todos os dias. Olhou os potinhos empilhados no lado esquerdo da barraca, sentindo-se triste de não ter onde lavá-los. Queria devolver, não para pegar mais comida dos Desae mas sim porque não gostava de ficar com o que não lhe pertencia. Colocou o último pote na pilha e, em seu lado esquerdo, começou a escolher peças para fazer sua próxima escultura. Dessa vez, arriscaria fazer um busto masculino ao invés de animais. Enquanto seus dedos trabalhavam no metal, encaixando o que dava e entortando o que não entrava facilmente na escultura, ela cantarolava uma música qualquer.

— Com licença.

Sobressaltando-se, ela ergueu a cabeça e deparou com Bryan parado diante de sua barraca, uma mão segurando a porta de pano para o lado e a outra, um carrinho. Estava bem arrumado como da última vez em que o viu: trajando um uniforme que se ajustava extremamente ao corpo, os cabelos loiro-acinzentados penteados para o lado num topete suave, os olhos pretos de pupilas brancas parecendo exalar confiança e sua pele bronzeada lisa e livre de falhas. Vendo-a espantada, ele abriu um sorriso singelo e apologético.

— Sinto ter te assustado, mas eu a chamei algumas vezes. Quando não respondeu, escaneei sua casa para ver se estava. Achei que não faria mal abrir a porta.

Aglaya olhou-o surpresa e confusa por alguns segundos, depois soltou uma risada.  O androide usava termos polidos demais para se referir a um local tão inferior à mansão em que vivia. Sentiu-se encher de carinho e simpatia por alguém tão educado e empático quanto ele.

— Tudo bem, me distraio bastante fazendo minha arte.

— Trouxe comida. — Bryan puxou o carrinho para mais perto, abrindo a mochila encaixada nele para mostrar mais potes. — Pelas minhas estimativas, seu estoque de comida acabaria hoje, então trouxe mais.

O sorriso da andryana aumentou.

— Não precisa! A divulgação de vocês já me rendeu mais clientes, daí tem mais dinheiro.

— Excelente! — Ele baixou os olhos para a escultura em processo de construção nas mãos dela.

Deixou o carrinho parado ao seu lado, esgueirou-se para dentro da barraca de forma jeitosa e sem tanta dificuldade e segurou as mãos dela entre as dele. Aglaya arrepiou-se com o toque súbito e quente, mas não o repeliu.

A tecnologia estava tão avançada que até mesmo tinham feito sangue sintético aquecido para que parecessem mais vivos. Sempre com frio, ela agradeceu o pequeno foco de calor para seus dedos rígidos.

— O quê?

— Gostaria muito de te fazer um convite. Tem três anexos na mansão dos Desae, onde em um deles eu moro. Sou funcionário e também parte da família, como bem sabe, e tenho poder de fala para convidá-la a morar lá. — Ao perceber que Aglaya iria tomar fôlego para responder sem muito ponderar, prosseguiu: — Não será incômodo algum. Eles gostaram de você, Aglaya, e não querem te ver na rua. O problema é que não querem pressioná-la a ir e afugentá-la no processo. Não poderia considerar?

— Não quero morar de favô e depender dosotros. Não deviam gastar com uma estranha.

— Sim, deveriam.

A resposta brusca a fez arregalar os olhos e silenciar.

— Não concordo. Eles têm dinheiro sobrando, nada mais justo que apadrinhar ou ajudar quem precisa. Conversei seriamente com eles na semana passada e os fiz enxergar que já compactuaram tempo demais com a pobreza daqui de Bahram. São ótimas pessoas, uns dos poucos humanos que pagam androides e os tratam com respeito e dignidade, mas gastam dinheiro com frivolidades demais. — Bryan a olhava com uma intensidade justiceira tão inabalável que só a deixava cada vez mais sem palavras. — Eles entenderam meus argumentos e, depois de considerar, disseram que a ajudariam no que pudessem, mas sem lhe tirar a liberdade. Tudo depende de você, agora.

Havia um mar de possibilidades à frente dela, o que nunca considerou ser possível depois de perder sua família. Parecia bom demais para ser verdade, mas também fez o coração dela comprimir com o medo e a dúvida de serem armadilhas. Talvez a estivessem manipulando para conseguir algo macabro dela ou o que quer que as mentes doentes deles poderiam querer. Erguendo os olhos, receosa, notou que Bryan a leu rapidamente e sorriu, compreensivo.

— Você é livre para ir embora, se não gostar de nada que eles têm a oferecer. — Bryan ergueu a mão até sua nuca e retirou de lá um quadradinho fino, onde via-se o desenho de um círculo no centro. — É meu cartão mestre, que tem acesso direto ao meu sistema. Se por um acaso você se sentir ameaçada, só apertar esse botão e me autodestruirei. Causará uma explosão grande o suficiente para destruir um quarteirão, depois de uma contagem regressiva. Tempo suficiente para você fugir, se for o caso.

Ainda em silêncio, ela pegou o chip e o virou entre os dedos. Era uma garantia de que poderia revidar caso alguém a ameaçasse. Pressionou um minúsculo botão no topo do chip, fazendo as pupilas de Bryan piscarem em vermelho. Era mesmo do sistema dele. Mordeu o lábio inferior, ponderando por mais um tempo. No fundo, já sabia o que escolheria.


***


Conforme os meses passaram, Aglaya começou a se acostumar a viver numa casa novamente. A presença de Khan, Kanti e Jyoti já não a fazia se encolher contra as paredes. Tão natural quanto respirar, acabou aprendendo a língua de sinais com as garotas. Iam sempre visitar o anexo onde ela estava, engajando Aglaya em milhares de assuntos. Ganhou roupas, produtos de limpeza, sapatos. Receosa de que algo desse errado, sempre andava com o chip mestre de Bryan escondido em algum lugar de suas roupas. Sentindo que incomodava com seus gastos extras, decidiu que ajudaria Bryan nas tarefas domésticas, entrando numa rotina confortável com o androide. Nenhum dos Desae se opôs, querendo que ela fosse livre em suas escolhas dentro da casa.

Foi com a vinda de Aglaya que eles começaram a realizar tarefas domésticas também, ao invés de deixar tudo para Bryan. Assim, ela foi gradualmente se sentindo parte daquela família.

Bryan fez questão de acompanhar a andryana ao médico, onde faria uma bateria completa de exames. Assim que os resultados saíram, praticamente uma caixa grande com vários remédios foi comprada. Aglaya passou a tomar suplementos, comer frequentemente e ingerir muito líquido. Ganhar peso — um horror para algumas garotas da Academia de Khan — foi uma bênção à Aglaya. Com o passar do tempo, parecia mais cheia de vida e cada vez menos com um esqueleto ambulante.

No entanto, ainda gostava de vagar por Bahram, coletando sucatas para fazer suas esculturas. As pessoas agora a conheciam como a “nova adição da família Desae” e não a olhavam mais com desprezo ou pena. Tinha sido apadrinhada pelos pais de Khan, visto que negara ser adotada. As coisas, na perspectiva de Aglaya, estavam perfeitas. Agora tinha uma pequena e jeitosa casinha, só para ela; tinha roupas simples e boas, comida constante e um pequeno ateliê onde fazia suas esculturas.

Era mais do que já tinha sonhado durante sua vida nas ruas. No entanto, embora gozasse de posição privilegiada, Aglaya não esquecera dos moradores de rua. A pequena pensão que recebia dos Desae era usada para comprar comida, roupas e produtos de higiene, que Aglaya distribuía em suas visitas às ruas. Bryan recebia um salário bom por seus serviços à família e, estimulado pelas ações de Aglaya, começou a gastar tudo com roupas para os moradores. Khan, quando não estava nas aulas de pilotagem da Academia, seguia numa scooter ao lado da andryana e do androide, carregando o que era pesado demais para levarem a pé.

— Sabe — depois de um bom tempo em silêncio, durante a caminhada daquele dia, Khan comentou, tranquilamente dirigindo a scooter ao lado dela —, tinha um grande palpite de que você fosse assim, incrível. Não só por causa das esculturas, mas porque você parece compartilhar de uma áurea que já vi em outra. Fico feliz que você não os esqueceu, Aglaya.

— Agora que estou comendo, não esqueço de mais nada — disse com orgulho, catando pequenas placas de metal e guardando dentro de sua bolsa de coleta. — Não teria como. Sei o que estão passando, e ninguém deveria viver desse jeito.

— Concordo. Quem sabe não abrimos uma ONG para ajudar os moradores de rua de Bahram?

— Sim. Bahram precisa de uma dessas. É muita desesperança para um lugar tão incrível, não acha?

Khan soltou uma mão do guidão para pegar a dela. O toque era quente e confortável. Era ainda estranho, mas Aglaya aos poucos ia acostumando com o contato frequente. Notando o olhar extremamente cálido do rapaz, ela sentiu o rubor subir por sua face. Percebera recentemente o quanto Khan a tratava com um carinho especial, mas ainda não sabia como processar aquilo.

— Canta aquela música bonita que você tanto murmura, Bryan? — pediu.

O androide esboçou um sorriso de canto de boca.

— Claro.

Enquanto seguiam pelas frias ruas de Bahram, as luzes dos prédios e outdoors tingindo suas peles com tons coloridos e abstratos, a voz baixa e melodiosa de Bryan embalava e apaziguava o coração dela. Enchia Aglaya com o doce e nostálgico sentimento de ser querida.


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