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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Sob as luzes exageradas dos letreiros de lojas decrépitas que iluminavam a cidade média, um homem se movia com o máximo de discrição possível através do fluxo esparso de pessoas apressadas e desatentas, sempre esquivo e preocupado quanto a ser notado. Os olhares distraídos de diferentes seguranças que ladeavam as vitrines à prova de balas atravessavam, por vezes, a multidão, mas nunca encontravam algo que lhes chamasse a atenção para além do normal. No ar abafado e estagnado, predominava um silêncio tenso e recheado por um ruído plano e monótono, como a estática de uma antiga televisão.

Ele dobrou à esquerda para se enfiar num beco, afastando- se do brilho intenso e doloroso dos néons, caminhou pelo espaço estreito e, por fim, chegou a uma porta discreta de madeira, uma relíquia de um tempo outro, sem fechaduras eletrônicas nem conectividade com a rede. Puxou a chave de um bolso no casaco cinzento e desbotado, colocou-a no lugar e girou enquanto olhava ao redor para se assegurar de que ninguém o observava.

Entrou no prédio com rapidez, fechando a entrada atrás de si, e respirou fundo antes de prosseguir quase às cegas pelo corredor mal iluminado. Chegou, enfim, a um pequeno cômodo de paredes cinzentas e desprovido de janelas. A tinta monótona era, por vezes, cortada por grafites e pichações de todos os tipos, que davam alguma vida e personalidade ao ambiente. Sua única mobília era um conjunto de cadeiras metálicas e dobráveis, enferrujadas pela imperiosa passagem do tempo. Estas se dispunham em um círculo irregular no qual se sentava um grupo de jovens dos mais diversos fenótipos e vestuários, mas todos dotados de algo em comum: a origem. Nenhum deles se incluía no grupo dos ricos e poderosos, tampouco dos miseráveis e absolutos marginais. Por um ângulo simplista, seriam o equivalente a uma classe média daquela sociedade: os filhos daqueles (cada vez mais raros) que ainda não haviam sido substituídos por máquinas e exerciam funções específicas para a elite.

― Perdão pelo atraso, pessoal, mas tinha operação no nível zero e quase não consegui deixar a outra turma sem ser visto― disse o recém-chegado, retirando o paletó e sentando- se em um dos assentos vagos. Passou o antebraço na testa, limpando o suor, e sorriu para os outros com a face deformada por uma queimadura que cobria a metade esquerda inferior de seu rosto por completo. A pele se esticou por um breve instante, deixando visível a cavidade ocular vazia sob a lente suja dos óculos.― Mas e aí? O que estamos discutindo hoje?

― Os meios de propaganda, principalmente, professor― murmurou uma garota com implantes oculares ultrapassados, que rangiam com movimentos bruscos.― E como, ao que parece, todo mundo, do mais mísero mendigo ao multimilionário dono de dezenas de colônias de exploração, está convencido de que a Lua, Marte e oito asteroides não são o bastante pra manter a economia de hoje funcionando. Com cada vídeo, cada frase de efeito, cada jingle cativante, eles incentivam essa mentalidade colonial de exploração e expansão, de escravidão e criação constante de máquinas para aumentar a eficiência do sistema.

― Claro. Toda nossa sociedade é construída e mantida assim, do contrário já teria colapsado há séculos. Somos tão bombardeados com narrativas, desinformação controlada e ideologias que mal somos capazes de filtrar de verdade o que está acontecendo. E tudo isso para se conformar, aceitar e defender um plano de manutenção do poder e da ordem das coisas pelas mesmas elites que nos esmagam no dia a dia.

― E não é por acaso que toda escola de hoje seja exclusivista e organizada de acordo com o interesse da empresa que a mantém― resmungou outra menina, com uma rede de cabos metálicos implantados por toda a cabeça raspada e conectada a um pequeno aparelho de realidade aumentada.― Qualquer experiência de autonomia e de fomentação de pensamento crítico é ameaçadora, o velho fantasma da “doutrinação”. Estar aqui já nos torna um bando de criminosos. E enquanto isso, o povo…

― Basicamente massa de manobra― comentou um garoto com um cigarro eletrônico na boca e uma jaqueta de plástico em tom de amarelo fluorescente.― Sempre à espera do mais novo lançamento tecnológico, da mais nova intriga corporativa, do mais novo espetáculo midiático pra acalmar nossas necessidades e desviar nossa atenção. E o tempo todo estamos subjugados diante dessas influências muito maiores, desses projetos seculares das mesmas pessoas que estão no comando a mais tempo do que conseguimos lembrar, que nos atravessam como uma chuva de neutrinos.

― Por isso, sempre tenham cuidado com ideias que não são suas. Em geral, elas vêm pré-fabricadas e cobertas de interesses, muitas vezes atreladas a esses mesmos projetos centenários de manutenção de poder e de legitimação da autoridade. Se você não for capaz de distinguir o que é um desejo ou uma opinião própria do que é uma manipulação cuidadosa da vontade e da ignorância popular, você é incapaz de pensar de maneira crítica― murmurou com uma expressão de seriedade.― E esse é o único propósito da educação, o único motivo pelo qual a gente arrisca nosso pescoço: pra te dar a chance de olhar o mundo que criamos e perceber o que está acontecendo. E, quem sabe, mudar. Da mesma forma que estimulo seu pensamento, busco fazer o mesmo com adolescentes do nível zero que têm que conviver com a violência das polícias corporativas o tempo todo e caçar comida nas sobras do nosso lixo para conseguirem viver. A gente engole merda demais no dia…

― Parados!― ecoou o grito potente pela saleta e pelo corredor, seguido de passos rápidos e cliques metálicos de armas sendo destravadas. Uma dezena de policiais privados, vestidos com uniformes pretos, decorados por dúzias de logotipos de empresas e cobertos por capacetes de viseiras escuras, invadiu o ambiente com fuzis nas mãos. As miras laser dançavam em excitação pelos corpos surpreendidos.― Não se movam! Todos estão presos em flagrante por instigação à insurreição, propagação de ideologias criminosas e formação de quadrilha, além de criação e manutenção de grupo educacional não regulado. Sua prisão é um oferecimento de…

― Vão com calma, por favor, eles são apenas…― interveio o professor, colocando-se de pé aos poucos, com as mãos para o alto em uma vã tentativa de negociação com um sistema que prezava a eficiência ante qualquer forma de empatia ou humanidade. Antes que pudesse sequer terminar a frase, os gatilhos foram apertados por todos os membros da unidade e seu corpo foi alvejado. Despencou no chão como uma massa vermelha e repulsiva, despejando uma mistura de sangue e entranhas despedaçadas pelo piso imundo. De seu rosto inerte e chocado, caíram os óculos antiquados aos pés daquele que lhes dera voz de prisão. Sem hesitar, ergueu ainda o coturno militar, deformou a armação e esmagou as lentes até que estourassem em pequenos cacos de vidro, uma nuvem pulverizada de pixels.

― Qualquer ato de resistência pode ser e será respondido com violência― completou perante as faces pálidas, atônitas e desesperançosas dos jovens.

A competição entre ideias nunca foi justa.

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