Áudio drama
Assassinos sonham com assassinos?
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Com um sobretudo molhado, olhando para o chão e pronto para fazer um bom trabalho, Abner caminhava firmemente pelo Butantã. Evitando olhar para os prédios e suas enormes e coloridas propagandas que seriam projetadas em suas lentes se o fizesse. Ele não estava muito interessado no restaurante que vende o melhor Strogonoff do Brasil, ou de saber que aquele era o mais confiável banco da América Latina, ou que aquele estabelecimento dava as mais relaxantes massagens da cidade (ele se perguntava porque ainda escondiam...). Hoje não, pelo menos.

Claro que a chuva também contribuía para que a calçada com a linha azul ― a qual indicava o caminho ― fosse tudo que suas Smartlenses pudessem ver naquele dia. Não que Abner fosse um daqueles “lente-dependentes” que sequer sabem ir para a própria casa sem usar a navegação. É que se perder ali não era uma opção. Aquele bairro, naquele horário... Principalmente se você estivesse desarmado, o que, apesar de não ser o caso de Abner, cuja Glock ele sentia em sua cintura, ele não queria que fosse posto à prova.

O destino, embora desconhecido, não era de todo inédito. De fato, nunca tinha ido àquele prédio em específico, mas o tal de Enry Q não era o primeiro operador da Máquina dos Sonhos que Abner teria que visitar. Contudo, digamos que, como Abner não se orgulhava muito do que tinha acontecido nas outras visitas, preferia não pensar muito nelas. Aliás, nada que fizera para a TLT era motivo para se gabar. O que estava prestes a fazer se enquadrava nesse padrão. Até porque, o motivo pelo qual ele ia ao prédio feio do Butantã com um anúncio justamente sobre as Smartlenses não era gravar sonhos da noite anterior, tampouco recuperar versões sem anúncios de momentos de sua memória. Mesmo assim, a Dormência aplicada há algumas horas ainda fazia um pouco de efeito.

A loja se chamava “Enry Q. Smartlenses” e era bastante esquisita. A rua era apertada, e não faltavam anúncios competindo por espaços numa bagunça multicolorida de fazer inveja aos filmes futuristas de Hollywood. Abner provou dessa mistura horrenda quando cometeu o erro de tentar ver o tamanho do prédio, ou se a loja era a única ali. As lentes faziam o melhor que podiam, apagando um ou outro anúncio, mas durante aqueles dois segundos que Abner olhou para cima, não conseguiu identificar completamente uma propaganda sequer, tamanha a sobreposição.

Ao entrar na loja, Abner pôde finalmente levantar o pescoço sem culpa. Logo, a primeira ação foi massagear a própria nuca. Aliás, depois que concluísse seu trabalho, poderia visitar uma daquelas clínicas de massagem.

― Olá, posso ajudar?― perguntou se endireitando o homem de óculos, alto e moreno. Era Enry Q, segundo suas lentes identificaram.

― Sim, sim. Eu queria usar a sua Máquina de Sonhos― disse Abner olhando ao redor.

― É-é acho que o senhor veio no lugar errado― respondeu baixinho olhando a porta se fechar― senhor, Abner Castro― disse provavelmente vendo a identificação em suas próprias lentes.

― Me disseram que eu poderia vir aqui. O Marquinhos disse.― falou agora olhando nos olhos de Enry e sorrindo.

― Ah, o Marquinhos― disse devolvendo o sorriso― Sim, sim. Pode entrar. Espera um pouco― falou Enry enquanto apertava um botão no balcão, causando desconforto em Abner.

Então, surgiu uma mulher muito bonita vinda de uma porta em um canto escuro, ao lado de Enry. Ao chegar mais perto da luz, não parecia ser humana, mas um robô mordomo.

― Vamos― Disse Enry apontando para uma porta na direção oposta da qual o robô viera. Quando se aproximou, viu que na verdade, aquela porta era de um armário. A outra, pela qual os dois entravam, dava para uma escada não muito alta.― Comprei a Sara um mês depois do boom da Dormência. Você sabe, né? Há uns dois meses a Máquina era só uma peça de museu. Tipo, uns três caras vinham aqui por ano para realmente gravar o sonho deles da noite anterior, e eu cuidava da loja sozinho. A máquina era totalmente secundária e a venda de lenses era o que me sustentava. Agora, nossa, todo dia uns dez clientes pra máquina. Não posso ficar fechando a loja toda hora. E tipo, o investimento da Sara vai se pagar logo logo... E também tem o aspecto de segurança, né? Serviço independente de vigilância, graças a um par de lentes também independente.

E Enry foi descendo as escadas sem parar de falar um segundo. Ele era do tipo tagarela. Ninguém da TLT havia preparado Abner para esse aspecto adorável da personalidade de Enry. Marquinhos era bem quieto. Tadson, mais ainda.

― Pois é― assentiu Abner quando finalmente chegou no porão da loja. Ele estava guardando saliva para mais tarde.

― Você pode sentar nessa cadeira aqui. Sua primeira vez na Máquina? Não lembro de você... Mas você conhece o Marquinhos. Usou a Dormência quando?― Perguntou. Abner mal sabia como começar a responder.

― Não, nunca vim aqui. Mas já usei duas vezes. A máquina, né? A Dormência eu apliquei hoje cedo― respondeu.

― Aliás, desculpa o cuidado quando você chegou, viu? Parece que tem umas coisas estranhas acontecendo com operadores recentemente― disse enquanto arrumava a cadeira e ligava os equipamentos.― Você já usou a máquina sem a Dormência? Digo, pra realmente gravar seus sonhos da noite anterior?

― Não, na verdade― respondeu Abner.― Só comecei a usar depois que criaram a Dormência.

― Ok, entendi. O Marquinhos tá legal? Quietão ele, né?― perguntou.

― O Marquinhos? Sim, ele tá muito quieto.― disse olhando para o assento da máquina― Sua cadeira é boa.

― Ah, investimento, né? Vai se pagar em um mês. Tipo, não é por nada, mas você veio aqui e no Marquinhos. Vai comparar, né? Aposto que você volta aqui.― disse Enry rindo.

― Pois é,― sorriu Abner― posso sentar?

― Claro, claro― Abner então agradeceu o fato de Enry não ser uma daquelas pessoas cujas lentes davam propagandas baseadas no que as pessoas falavam. Provavelmente Enry ou tinha boas condições de vida ou havia conseguido hackear as lentes e bloquear o reconhecimento de voz.― Vou começar te dizendo sobre os detalhes do sonho...

Abner se desligou um pouco do que Enry falava. Provavelmente estaria passando o mesmo roteiro que os outros operadores seguiram. Dizer que não vão olhar os seus sonhos se ele não permitir. Que vão tentar fazer o sistema ler tudo que ele lembra durante a meia hora em que a Dormência faz efeito, mas que possivelmente vai haver alguma inconstância. Provavelmente disse que dependendo da qualidade da Dormência o vídeo vai ser mais puro. Mas que de qualquer forma, com certeza a memória seria livre de anúncios e tal. Tudo enquanto digitava algo nos computadores, de costas para Abner que, sentado na cadeira, avaliava como seria sua estratégia para convencer Enry. Agora que conhecia sua veia empreendedora e seu jeito de querer agradar o cliente, possivelmente seria muito mais fácil.

―... então, que horas você usou?― perguntou para Abner finalmente olhando para ele. Mãos na cintura indicando que estava pronto para a extração.

― 10h23― respondeu Abner.

― Nossa, que precisão militar.― Brincou Enry. O sorriso então se desfez. Enry olhava para os olhos, os ombros e braços de Abner. Então sorriu novamente e foi andando até Abner com alguns pequenos eletrodos.― Isso vai no seu lóbulo, isso na sua pálpebra, e isso aqui, na sua nuca― dizia enquanto ligava um por um.

Enry então terminou de preparar Abner e foi até a frente de seus monitores. De fato, o equipamento parecia ser bem melhor que os dos outros. ― Pronto, Seu Abner?― perguntou. ― Bora― e Abner seguiu olhando para Enry que estava agora de costas e teclando. E não parava de teclar...e teclava...e teclava... Abner foi acordando. Curiosamente a sensação logo depois de sair da máquina dos sonhos era sempre muito parecida com à que se tem logo depois de usar a Dormência. É uma sonolência acompanhada de lembranças ainda reverberando na sua mente, cada vez mais fracas, até irem lentamente sumindo. Justamente como um eco. Os cientistas que desenvolveram a droga fizeram um excelente trabalho. Dizem que queriam fazer o melhor sonífero do mundo. Uma evolução do clínico para uso doméstico. Mas o cérebro humano acabou discordando um pouco.

― Tudo bem?― perguntou Enry.― Você parece abatido demais... quantas vezes você usou a máquina essa semana?

― Não sei. Três?― disse Abner. Quando as palavras saíram da sua boca fez uma careta se levantando.

― Cara, você sabe que não pode usar tanto assim, né?― disse Enry tentando ajudar Abner a se levantar.

― Então, depende um pouco da pessoa. Eu consigo― disse fechando sua frase com um bocejo.

― Não parece.

― Sim, eu consigo. A TLT me preparou bastante bem pra essa semana.

Quando Abner terminou a frase, Enry se afastou do homem e quase caiu para trás. Como se tivesse vendo uma assombração.

― O-o que você tá fazendo aqui?― perguntou Enry.

― Calma, calma. Fica tranquilo. Eu tenho uma proposta pra você― disse Enry.

― Proposta?― perguntou Enry enquanto olhava ao redor procurando alguma coisa.

― Sim! Senta aí, e relaxa um pouco, cara.― Abner então abriu o paletó mostrando sua arma― Tá tudo bem. Enry respirou fundo e se sentou na cadeira em que havia ficado durante o procedimento. Sua expressão era de terror, mas foi se suavizando até que uma outra de ódio tomasse conta.

― Fala logo o que você quer comigo― disse tremendo.

― Então, em nome da TLT eu queria te fazer uma proposta pela sua máquina, pela sua cadeira, e eventualmente pela sua experiencia com a máquina.― Viu a expressão confusa de Enry e continuou― Olha, a gente da TLT gosta muito dessa tecnologia e queria entendê-la melhor. E claro, aperfeiçoá-la.

― E monetizá-la. E fazer anúncios… e que mais?― disse Enry aparentando bastante raiva.

― Então, não há muitas dessas máquinas no mundo. No Brasil só cinco. Em São Paulo, três. Como você me disse lá em cima, essa era uma peça de museu até ontem. Como identificamos que há uma demanda grande pela lembrança de memórias antigas ou sonhos mesmo, queremos deixá-la ainda melhor. Claro, sem a necessidade de uma droga ilegal como a Dormência. E dessa forma, tirá-la desse nicho e massificá- la.― disse Abner forçando um sorriso.

― A demanda é a de lembranças puras. Sem anúncios ou edições. Tenho certeza que se vocês comprarem minha máquina, vão encher as lembranças das pessoas de propagandas. Isso se não mudarem tudo. Digo, uma ida ao restaurante da esquina vira uma ida ao McDonald’s, claro, se eles pagarem. E assim por diante. Aí, depois de anos com o disco lá, a pessoa esquece que foi no restaurante da esquina. Pega o disco, vê o McDonald’s e acredita. Né?― Levantou― E pra que vocês precisam? Tipo, as lentes já têm gravação. Se for pra ter anúncio ninguém vai querer.

― Seu Henrique, a oferta pela sua máquina e seus serviços é de Dois Milhões de Reais.― disse Abner cada vez mais cansado daquele papo ideológico que tinha sido forçado a ouvir também das últimas duas vezes. Sabia o roteiro e pra onde aquilo tudo levaria.

― Nunca― respondeu Enry se levantando e continuando com a busca de alguns minutos atrás― o que eu não entendo é, por que vocês não simplesmente matam a gente, destroem os prédios, e criam a máquina de vocês. Não falta tecnologia pra TLT.

― Por que a TLT não faz esse tipo de coisa.― disse Abner provocando uma gargalhada alta e medrosa de Enry.

― A TLT não deixa de fazer isso, né? Vocês eliminam a concorrência da pior forma possível. E o governo nunca faz nada. Aliás, vocês são o governo, né?― disse Enry fazendo com que Abner se remexesse na cadeira.― A resposta é: nunca

― Nós somos um grande parceiro do governo brasileiro― o que provocou mais risadas de Enry― Senhor Henrique, pra talvez convencer o senhor a aceitar a oferta, você poderia, por favor, ver minha lembrança? É curtinha― perguntou Abner sorrindo.

Enry não perdeu tempo e se virou de lado encarando ao mesmo tempo o computador, sem perder Abner de vista. Este permaneceu imóvel e sorridente enquanto Enry abria o vídeo, o qual continha a esposa de Enry amarrada a uma cadeira, amordaçada e em um galpão grande. Parecia uma garagem. Havia dois carros bem velhos ao lado da cadeira da mulher. Ela estava com um belo, apesar de aparentemente gasto, vestido preto. Quando reconheceu a mulher, Enry tirou os olhos de Abner e ficou vidrado no vídeo.

― A TLT, pra provar que é a empresa cuida de gente, vai manter a oferta de 2 milhões pela sua máquina, e promete que, quando você chegar em casa hoje a noite depois de aceitar a oferta, tudo estará nor--

― Dodge Charger, acho que 2013 e Camaro 2012.― Interrompeu Enry.

― O que?

Enry tirou de vez os olhos do monitor assim que o vídeo acabou. Examinando o homem, olhando para seu rosto com os olhos apertados.

― Os modelos daqueles carros.― falou com um sorriso sarcástico - Sei que aquela não é minha esposa. Eu já vi muita memória real. E nada com tantos detalhes quanto aquele galpão. As pessoas não lembram disso tudo. Dá pra ver o modelo dos carros, cara.

Abner não mudou sua postura, tampouco sua expressão. Continuava olhando para Enry com um sorriso.

― Eu já disse para a TLT que as edições não estavam enganando ninguém. Mas, vou te explicar por três motivos: porque gostei de você e porque você é mais esperto que os outros três.― Abner se levantou, mas não abotoou o sobretudo.― Tem um cara lá, espertão assim igual você, que queria mostrar a superioridade do nosso produto e da qualidade da gravação da memória da TLT. Acho que por isso que ele manteve assim depois de tudo que eu disse a ele. Aliás, isso explica porque as pessoas vão querer as memórias alte-- aperfeiçoadas pela TLT: Alta definição.

― E falsidade, né?― disse Enry se levantando― aí vocês contrataram uma atriz, você usou a Dormência, aceitou que editores trocassem o rosto dela a partir de sua lente e acharam mesmo que essa edição toda passaria desapercebida por mim? Isso é idiota até pra TLT. Vocês não têm vergonha?

Enry, já recuperando sua tagarelice cativante, esperava, com os braços cruzados na frente do corpo, uma resposta de Abner. Mas o agente da TLT apenas se levantou gemendo um pouco.

― Ei, espera― disse Enry― Você disse três motivos.

― Ah é.

Foi quando Abner sacou a arma e deu dois tiros na testa de Enry, que caiu sem vida.

O cansado Abner foi até o computador de Enry e desabilitou todos os bloqueios à TLT, deixando o caminho livre para edições das câmeras de segurança, por exemplo. Então o sonolento e cansado Abner, subiu as escadas e saiu, sempre olhando para o chão.

Mas, o sonolento, cansado e atento Abner esqueceu de Sara.

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