As roupas velhas do ditador

Drama
Junho de 2020
Começou, agora termina queride!

Conquista Literária
Conto publicado em
Bratva

Prólogo

Epílogo

Conto

Áudio drama
As roupas velhas do ditador
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Os perfumes fortes se misturavam com o intenso odor da fumaça dos cigarros e charutos, massa opaca que formava nuvens fantasmagóricas a pairar pelo teto abobadado do salão, unindo-se também com o cheiro característico das bebidas alcoólicas, que rescindiam de drinks elaborados que praticamente todos no lugar tinham nas mãos. As garçonetes – jovens de corpo delgado e curvas convidativas –, andavam para lá e para com bandejas de prata estendidas, oferecendo aperitivos ou levando pedidos, todas tendo como uniforme saias tão curtas que não havia nada que não mostrassem, nada que ocultassem dos olhos ávidos que as seguiam onde quer que fossem.

Ao lado de cada uma das longas colunas de sustentação que espalhavam-se pelo átrio, luzes neon vermelhas, azuis e brancas brilhavam se sobrepondo, iluminando as mesas e centros de jogos organizados pelo espaço, gritando silenciosamente as cores da Mãe Rússia. Havia, entretanto, repartições mais isoladas que propositalmente eram posicionadas onde estas luzes, ou as demais do salão, evitavam incidir, locais de privacidade e cuja entrada demandava convite, lugares onde somente os verdadeiramente valorosos de nome poderiam desbravar. E era justamente numa destas saletas que Fiódor Nashzaminoff distraidamente lia um calhamaço de folhas de relatórios, tragando seu cigarro eletrônico roxo e bebendo goles demorados de seu copo de kvass. A música animada que permeava o cassino lá fora em nada o incomodava ou atrapalhava sua atenção na leitura, nem os olhos quase hostis que se mantinham fixos em sua figura. Os outros dois líderes que postavam-se diante de Fiódor, seus irmãos de armas da Chetchenskaia, fingiam não demonstrar grande interesse nas informações pelas quais o homem tão displicentemente corria os olhos.

– Hmm... – suspirou ele, remexendo-se na poltrona de couro enquanto puxava um pouco de fumaça do cigarro falso, sobrando seu vapor para cima com gravidade – Os números parecem bons. Bons demais, para dizer a verdade.

Daslan Gragdanoff e Nazir Mikanoff, que até então mantinham-se em silêncio, desataram a fazer toda gama de perguntas, a maioria sem real significância, algumas sem o menor nexo, de tal forma que Fiódor por um momento duvidou do grau de inteligência de seus companheiros – isso até lembrar-se de quem eles eram, de seus anos juntos e o que haviam feito para ascender até suas posições. Com calma, e evitando um linguajar técnico demais, ele acabou com as dúvidas sobremaneira toscas dos homens, explicando os gráficos enquanto os riscava com a caneta.

– Mas, como assim, “números bons demais”? – voltou Nazir ao assunto, coçando o nariz com o dedo mindinho, ao final da aula.

– Assim, desta forma, meu caro: creio que nos estão logrando. As tabelas estão perfeitas como absolutamente nunca estiveram. Algo grande está acontecendo e provavelmente só nós não estamos ainda à parte.

– Rá! – riu-se Daslan, virando de um único gole seu copo de vodca e em seguida inspirando profundamente um pedaço de cebola, que repousava ao lado, desta vez ignorando o pedaço de limão que sempre sugava após a bebida.

– Falo sério – insistiu Fiódor, lançando os papeis que tinha nas mãos sobre a mesa de centro que o separava dos outros, que escorregaram sobre a superfície polida de qualquer jeito. – Isto é uma bela mentira, mas ainda é uma mentira.

– Então, ao minha ver, devemos antecipar ataques de quaisquer direções – afirmou Nazir, resgatando um pouco de sua dignidade intelectual.

– Mas antes precisamos descobrir quem é nosso inimigo – ajuntou Daslan, servindo-se de outra dose, como que alheio à discussão.

– Nós conhecemos boa parte de nossos inimigos – disse Fiódor. – Só saberemos com certeza quando verificarmos o que há de errado nestas listas; quem tem mais a ganhar falsificando estas informações e quais de fato são estas informações. Assim, ou quando for tarde demais...

– Ora, isso implicaria rever tudo!

– Sim, tudo...

– E por que não, digo eu? – falou Fiódor. – Preferem ver nossa Organização esmagada?

– Fazer perguntas demais sobre questões que já foram reportadas dessa maneira certamente atrairia atenção, e alarmaria nosso inimigo, quem quer que este venha a ser. Como sugere proceder neste caso, Nashzaminoff?

– Como fazíamos nos velhos tempos... Confiando apenas em nós mesmos.

Os três homens riram.

– Aquele protocolo? Você teria nervo para ir até o fim? – questionou Daslan, observando o semblante de Fiódor.

– Um brinde às “velhas roupas do ditador”! – respondeu o outro apenas, levantando seu copo para o alto, quase sem emoção.

– Às “velhas roupas do ditador”! – repetiram os outros dois em uníssono.

Naquela noite, ele torrara algumas centenas de rublos na roleta e não se contivera na bebida. Talvez fosse a última vez que bebesse em um longo período de tempo. E, depois, quando acabara sua cota alcóolica e perdera o interesse no jogo, Fiódor satisfez-se nas mulheres. Duas; se bem que ele não se lembrava com muita clareza da segunda...

E então chegara a manhã seguinte, e a enxaqueca subsequente. Uma das piores que se recordava de ter tido. De alguma forma, depois de saciado com as prostituas, ele conseguira guiar sem bater em nada e chegar até seu apartamento, onde, cansado demais para ir até o quarto, dormira no divã. Por sorte Fiódor havia programado o aquecedor antes de desmaiar, se não teria certamente morrido de hipotermia. Os marcadores externos acusavam uma temperatura de -2°C, uma das mais baixas vistas desde o início daquele ano.

Olhando para o hall de entrada, com os olhos ainda meio abertos, ele viu de relance a mesa circular ao centro da saleta abarrotada de pacotes novos e outras entregas recém-chegadas. Sua massiva correspondência sofria um processo de triagem tão grande que, boa parte do que lhe era endereçado passava tantos dias indo de escritório a escritório, sendo checado por sensores raio-X (no caso de enviarem algum dispositivo explosivo) e aberto cuidadosamente por auxiliares (no caso de enviarem algum animal venenoso ou gás nocivo), que, quando finalmente chegava às suas mãos, muitas vezes já era notícia antiga. Ele costumava gabar-se de conseguir adivinhar com excelente precisão o conteúdo de uma carta somente por ver seu envelope. E lhe economizava uma grande porção de tempo abster-se de abrir alguns, que imaginava inúteis – e provavam o sê-lo, depois. Mas, quando viu o pequeno retângulo dourado e as letras perfeitamente espaçadas, num cirílico impecável, ele sabia que deveria abri-lo. Fiódor só recebera um daqueles uma única vez em toda sua vida, quando Madrivana, a Grande Mãe Oculta, o elevara à capi de sua seção.

Quebrando o selo de cera e abrindo o papel perfumado, negro, ele leu silenciosamente as palavras brilhosas:

O Reino é extenso

Mas Três Príncipes são tão bons quanto apenas um

A Tríplice só é Santa se a vontade que a guia é Una

Pois na divisão reside o Caos

Então escolhe.

Ao lado do bilhete, um crisântemo solitário jazia numa minúscula jarra de vidro com água. O enigma da Dona rapidamente tomou conta de todos seus pensamentos. Teria aquilo a ver com o relatório que recebera? Com “Três Príncipes”, ela certamente se referia aos três capi que lideravam aquela região, ou seja, à Fiódor, Daslan e Nazir. Seria um atentado contra eles? Uma tentativa de tomada do poder sobre aquela área? E se assim o fosse, seriam os idealizadores do possível golpe aspirantes à capi ou então algum consigliere, que estava num posto ainda mais elevado? O trio de amigos de juventude ascendera juntos e dividiam praticamente por igual a coordenação da parte que lhes cabia de Chetchenskaia. A fidelidade que um desenvolvera para com o outro era rocha sólida e inquebrável, uma fraternidade que já havia sido posta à prova por várias outras vezes e que, mesmo assim, continuava com a mesma firmeza. Sendo assim, e tendo em vista que a Dona em pessoa, aquela a quem recaía o título de “Capo di tutti capi” particularmente o alertara, algo realmente sério os espreitava, algo que poderia ameaçar a integridade da própria Organização.

Seu desjejum, reforçado com massas amanteigadas e café preto, foi passado sob o peso destas reflexões. A carta mudava tudo, ao mesmo tempo que tudo permanecia igual. Ele continuava no escuro, impotente, tendo como única saída expor-se para, talvez, na melhor das hipóteses, conseguir um relance do que os esperava no futuro, e, quem sabe, assim poderem se preparar para o inimigo que os acercava. Bem, o que Fiódor sabia com certeza era que ficar se lamentando em nada resolveria sua situação; não, ele deveria se recompor logo e agir. Agora que a resolução havia sido tomada, e o antigo protocolo ativado, Daslan e Nazir iriam querer resultados o mais rapidamente possível, de forma que não havia tempo a perder. Tomando a difícil decisão de reter a informação do recebimento do sombrio bilhete por enquanto, Fiódor começou os arranjos necessários para sua empreitada.

Como era de se esperar, tudo foi feito muito discretamente. Para preservar sua nova identidade, sua ausência não poderia de maneira alguma ser notada fora da alta cúpula. Como um dos líderes ocultos de Chetchenskaia, seus recursos eram vastos, porém, movimentar contas de mulas ou contatar um número muito grande de membros da Organizatsiya naquele momento atrairia atenção indesejada. O planejamento já estava pronto, para sua sorte, já desde muito, muito tempo. Os únicos “mantimentos” os quais ele teria acesso eram os que já haviam sido previamente destinados para aquela operação, ou seja, suprimentos de dinheiro em espécie, passaportes e documentos falsos, telefones celulares irrastreáveis, além de kits de sobrevivência, armas, munição e todo o equipamento tecnológico que julgava eventualmente poder precisar – estes senão em sua posse direta e imediata, então escondidos em locais protegidos espalhados por todo o continente.

Por mais que o desagradasse mudar sua aparência, não foi possível evitar ter de tingir os cabelos, pintando seus fios, antes ruivos, de um preto comum e sem graça. As lentes de contato castanhas, que suplantavam o azul natural de seus olhos, também estavam bem à mão. O que mais lhe tomara tempo em sua caracterização foi com certeza desenhar, ele mesmo, uma pequena tatuagem em seu antebraço direito, um elemento memorável que contribuiria para disfarçar suas verdadeiras origens. Mais alguns ajustes nas sobrancelhas e um aparo na barba o fizeram, finalmente, ficar idêntico às fotos que batera tantos anos atrás, as dos documentos que o nomeavam Dimitri Pavechekoff.

Trajado em roupas novas, muito diferentes dos ternos com os quais estava habituado a se vestir, ele saiu de casa como um outro homem, deixando para trás ordens explícitas: não incomodar Fiódor Nashzaminoff sob nenhuma circunstância.

As calçadas estavam brilhantes de uma fina camada de gelo, e neve cobria a maior parte das superfícies visíveis das sacadas dos prédios e lojas, dando uma aparência lúgubre ao cenário urbano. Não havia muito movimento nas ruas, mas ele logo tratou de conseguir um taxi que o levasse ao aeroporto de Gumrak. Por sorte, o voo que sairia de Volgogrado para Grosny possuía ainda vários lugares vagos, e ele não teve de esperar tanto quanto imaginara para o desembarque. Uma vez no céu, Fiódor – ou melhor, Dimitri – aproveitou suas sete horas de viagem para analisar alguns papéis, decorar certos nomes e lugares, e finalmente, para descansar. Sua cabeça ainda doía pelos efeitos da bebedeira da noite passada e algumas horas a mais de sono lhe fariam muito bem.

Quando aterrissaram, Dimitri já havia despertado, e fora um dos primeiros a sair da aeronave, rasgando e descartando a maioria das folhas de informações que tinha em seu poder – já havendo decorado delas tudo o que julgava necessitar. As ruas chechenas tinham a mesma aparência terrosa de que ele se lembrava e conhecia. Depois de tantos anos sem pisar em sua terra materna, era de se admirar que recordasse o caminho para onde deveria ir. Mas, sem grandes dificuldades, ele chegou afinal ao antigo galpão de depósito de aparência abandonada, que secretamente lhe pertencia, e ao ver o prédio ancestral, seu coração pulsou palpitante no peito. “Que tempos!”, pensou consigo mesmo, numa nostalgia amarga. Tudo estava igual a como ele havia deixado, mais de dez anos atrás, como se o tempo não houvesse tocado aquele lugar – ou como se ele, Fiódor, ainda fosse um qualquer, um bandidinho de gangue de rua que vivia de pequenos furtos e se escondia durante o dia em barracões e locais dignos de chamarem-se latrinas; alguém que fora, havia uma vida inteira.

Ladeando o prédio, ele rapidamente encontrou um caminho semioculto entre um punhado de tílias desfolhadas. As árvores, apesar de um pouco negligenciadas e completamente desnudas graças à estação fria, continuavam as mesmas de sempre. Por de trás delas, várias tábuas se sobrepunham, tapando metodicamente uma passagem esquecida. Com dedos habilidosos, Dimitri despregou estrategicamente alguns dos grandes pregos enferrujados que mantinham os blocos colados e, com facilidade, tornou visível uma espécie de túnel, que se abria para uma porta de metal de tinta verde desbotada. Com um meio sorriso, o homem sacou do bolso um molho de chaves e, completamente familiarizado, selecionou a correta, colocando-a imediatamente na fechadura antiga à frente. Os batentes deviam ter-se corroído com o passar dos anos, pois Dimitri teve forçar os ombros para que a porta se abrisse. Bem, não tinha problema, ele havia entrado!

Buscando na mala que segurava pelas alças, Dimitri retirou uma lanterna pequena, e com ela estendida, avançou pela escuridão desoladora, guiado apenas pela memória e pela sorte. Havia poeira e teias de aranha por toda superfície visível, e todo o tipo de velharias empilhadas e montanhas de entulho e sujeira – ou era o que pareceria a um desentendido curioso que porventura adentrasse o lugar. Afastando para o lado uma prateleira de aparência pesada, uma porta camuflada ficou em evidência, claramente delineada sob a luz portátil da lanterna. Quando Dimitri a abriu, usando outra chave do molho que tinha consigo, um novo cenário se apresentou, um consideravelmente mais limpo e organizado.

Seu antigo amigo e associado havia cumprido sua parte no trato; tudo estava de acordo, como o prometido: as armas, o dinheiro, até o carro... Tirando a grande capa de lona que encobria o veículo, Dimitri viu com satisfação que o lada cinza fora mantido em excelentes condições de uso, o que comprovou ao testar o motor ronronante da máquina. Reunindo tudo de que precisava no veículo, o homem encontrou um interruptor escondido e, acionando-o, viu um portão de garagem levantar-se, abrindo-se para um beco deserto. Sem deixar bilhete ou aviso, ele partiu, deixando para trás o antigo esconderijo, agora sem mais utilidade.

A partir dali, semanas se passaram. Com as primeiras conexões, novas vieram. O tempo não o fizera perder o tato; os cuidados estéticos ou a etiqueta não foram capazes de apagar totalmente de sua compleição as durezas do princípio de sua “carreira”, e ele apoiara-se nisso, explorando ao máximo sua habilidade de ser admirado, sem deixar de impor o devido respeito. Em questão de dias, Dimitri havia se infiltrado numa das subdivisões da Organizatsiya, um de seus braços mais distantes, é verdade, mas que o colocavam um passo mais próximo de cumprir com sua missão. O processo de provar seu valor sem permitir chamar muita atenção era realmente o mais difícil em sua rotina. Se as primeiras suspeitas começassem a surgir, questões que ele não poderia responder não tardariam a ser levantadas, e seu disfarce cairia por água abaixo. Mas, paciência certamente era sua maior virtude, isto e a perspicácia calculista que tomava conta de todas suas ações. Assim, ele esperou...

O comando daquela noite em nada fugia do usual. Vassili, o parceiro que o designaram e o qual o acompanhava havia mais de três semanas, andava à frente, esfregando as mãos enregeladas pelo frio da madrugada. O vapor de sua respiração cortava o ar, desaparecendo no escuro do ambiente, iluminado apenas pela lua e as estrelas, e pelo farol do carro deixado aceso atrás deles. Silenciosamente, ele contava os passos, mensurando sua distância no solo arenoso até encontrar o ponto de coleta.

 – A maleta deve estar em algum lugar por aqui – sinalizou para Dimitri, que carregava consigo uma pá pequena, de design militar.

Algo no homem denunciava certa inquietação, um nervosismo mal disfarçado que Dimitri percebera assim o que o vira aquela tarde. Sem jamais perde-lo de vistas, ele começou a cavar, movendo seu instrumento com movimentos amplos e leves, preparado para reagir a qualquer coisa. De onde estavam, era possível ouvir os poucos carros e demais veículos seguindo seu caminho, viajando pela grande ponte, a mesma que havia sido tomada na Batalha de Grozny, anos antes.

– Vamos, Pavechekoff! Quero voltar logo – disse Vassili, estranhamente relutante, mas por fim decidindo-se a ajudar o outro a cavar. – Talvez eu tenha me enganado na contagem... – comentou, após alguns minutos de tensão, as faces muito brancas afloradas pelo esforço, depois de já terem aberto uma alcova de profundidade significativa, sem nada encontrar. Começando novamente o processo, um pouco mais para o lado, os dois tornaram a escavar.

– Realmente estou fora de forma! – falou Vassili, cravando sua pá no chão e tomando fôlego, fazendo-se de extremamente exausto.

Como se tudo o mais houvesse parado, um estranho silêncio pairou sobre os dois.

– Está claro que não há nada aqui – constatou Dimitri, por fim. E nesse momento, antecipando-se ao outro que de repente mergulhou a mão dentro do sobretudo, Dimitri atacou-o com a pá, estourando-a no ombro coberto de Vassili. Involuntariamente apertando o gatilho da arma que tinha escondida entre as roupas, um rápido clarão brilhou ao lado de seu corpo, atravessando o tecido grosso da veste de inverno.

Vassili, cambaleando para o lado com a força do impacto, não teve tempo de reagir antes de ser alvejado duas vezes, o primeiro tiro atingindo-o na perna, e o segundo, no estômago. Tombando afinal, seu corpo encaixou-se quase perfeitamente no buraco que juntos haviam aberto na terra úmida.

– Quem? E por que somente agora? – Dimitri perguntou entredentes ao homem caído, que tinha os olhos esbugalhados de terror, paralisado pela dor.

– Na-Nazir... – engasgou Vassili, o sangue num vermelho-vivo brotando-lhe à boca.

Num choque de reconhecimento, e num lampejo de misericórdia, Dimitri disparou uma vez mais, acertando a cabeça de seu parceiro. Não lhe importava a resposta para a segunda pergunta, ele conseguia imaginar uma com clareza suficiente. Agora tudo fazia sentido.

O envelope dourado imediatamente veio-lhe à mente. A resposta sempre estivera diante de seus olhos, mas a lealdade o fizera cego à verdadeira natureza das coisas. “Três Príncipes são tão bons quanto um...”, “Então escolhe”. Uma simples mensagem que queria dizer que um dos três capi subjugaria os outros dois; não um aspirante, nem um consigliere ou outra organização rival, um dos próprios companheiro! Ele deveria escolher

Não havia sido nada difícil encontrar uma cabine telefônica. Já eram quase nove da manhã. Discando o familiar número às pressas, ele aguardou na linha internacional.

– Passe-me à Daslan. Diga-lhe que é um amigo que usa velhas roupas – falou Dimitri rapidamente ao telefone, tendo sido finalmente atendido por uma secretária pessoal, uma das várias que seu associado gostava de cercar-se para tratar de seus assuntos.

– O Sr. Gragdanoff... – começou a garota, de voz embargada - ... faleceu esta manhã. Ele... – e então a linha foi interrompida.

– Ah, então é você! – ouviu-se de repente a voz grave de Nazir, substituindo a da moça.

– Maldito! – bradou Dimitri, apertando tanto o telefone entre os dedos que não surpreenderia se a qualquer instante o aparelho explodisse em suas mãos.

– Ora, recomponha-se, homem! – riu o outro. – Tolice sua pensar que este momento não chegaria. Não era você mesmo quem dizia que – como era mesmo? –, oh, sim: “Tudo tende ao individualismo”. Há-há-há. Patético! Sinceramente, achei que não chegaria tão longe estando por sua própria conta, afinal você sempre foi um bosta incapaz de qualquer coisa sem alguém te protegendo, por trás.

– Escute aqui, seu!...

– Boa sorte, Dimitri – cortou Nazir, antes que o outro terminasse. Então o som repetitivo da chamada desconectada tomou conta da linha, agourento e definitivo.

As ruas estavam movimentadas naquele dia, especialmente àquele horário. É claro que Nazir conhecia seu paradeiro. Se Fiódor quisesse retornar para um acerto de conta com o traidor, ele teria de se mover rapidamente. Sua melhor opção era sair da cidade e seguir a leste, onde conseguiria documentos novos e criaria uma outra identidade. Lá, ele também encontraria um aeroporto.

A decisão mais sábia seria livrar-se de seu veículo e roubar um carro provisório, mas, além de ser uma operação arriscada àquele período do dia, ele não dispunha de muito tempo.

Tomando a via expressa, Fiódor enfrentou o trânsito, aproveitando-se de todas as brechas e correndo no limite máximo permitido.

Sua mente já estava imersa em fantasias e planejamentos dos pormenores em como tiraria Nazir de sua miséria, quando, olhando de relance para o retrovisor, viu um carro de cor caramelo sobressaindo-se em meio aos demais automóveis.

Fazendo a próxima cura, Fiódor manteve-se atento, observando quem o acompanharia, e, novamente, entre os carros, estava o mesmo veículo caramelo, embora um pouco mais atrás.

Aquilo bastou para alarmá-lo. Então, engendrando como que de surpresa por um retorno mais adiante e depois em uma curva bifurcada, Fiódor adentrou um túnel, pensando ter assim despistado seus perseguidores.

Respirando mais despreocupado, ao olhar para trás e não encontrar o suspeito carro caramelo, quando voltou sua visão outra vez para a frente foi surpreendido com a cena de dois carros de capô aberto estacionados no acostamento asfaltado do túnel, como se estivessem com problemas mecânicos. Diante deles, quatro sujeitos esperavam com metralhadoras automáticas nas mãos. Fiódor compreendeu tudo somente segundos antes de a armadilha se fechar, e as balas choverem sobre seu lada cinza.

Cacos de vidro voavam para todo o lado. De repente, o estouro dos pneus, e, num piscar de olhos, o veículo voava, capotando pela autoestrada coberta.

Prólogo

Epílogo

Conto

Os perfumes fortes se misturavam com o intenso odor da fumaça dos cigarros e charutos, massa opaca que formava nuvens fantasmagóricas a pairar pelo teto abobadado do salão, unindo-se também com o cheiro característico das bebidas alcoólicas, que rescindiam de drinks elaborados que praticamente todos no lugar tinham nas mãos. As garçonetes – jovens de corpo delgado e curvas convidativas –, andavam para lá e para com bandejas de prata estendidas, oferecendo aperitivos ou levando pedidos, todas tendo como uniforme saias tão curtas que não havia nada que não mostrassem, nada que ocultassem dos olhos ávidos que as seguiam onde quer que fossem.

Ao lado de cada uma das longas colunas de sustentação que espalhavam-se pelo átrio, luzes neon vermelhas, azuis e brancas brilhavam se sobrepondo, iluminando as mesas e centros de jogos organizados pelo espaço, gritando silenciosamente as cores da Mãe Rússia. Havia, entretanto, repartições mais isoladas que propositalmente eram posicionadas onde estas luzes, ou as demais do salão, evitavam incidir, locais de privacidade e cuja entrada demandava convite, lugares onde somente os verdadeiramente valorosos de nome poderiam desbravar. E era justamente numa destas saletas que Fiódor Nashzaminoff distraidamente lia um calhamaço de folhas de relatórios, tragando seu cigarro eletrônico roxo e bebendo goles demorados de seu copo de kvass. A música animada que permeava o cassino lá fora em nada o incomodava ou atrapalhava sua atenção na leitura, nem os olhos quase hostis que se mantinham fixos em sua figura. Os outros dois líderes que postavam-se diante de Fiódor, seus irmãos de armas da Chetchenskaia, fingiam não demonstrar grande interesse nas informações pelas quais o homem tão displicentemente corria os olhos.

– Hmm... – suspirou ele, remexendo-se na poltrona de couro enquanto puxava um pouco de fumaça do cigarro falso, sobrando seu vapor para cima com gravidade – Os números parecem bons. Bons demais, para dizer a verdade.

Daslan Gragdanoff e Nazir Mikanoff, que até então mantinham-se em silêncio, desataram a fazer toda gama de perguntas, a maioria sem real significância, algumas sem o menor nexo, de tal forma que Fiódor por um momento duvidou do grau de inteligência de seus companheiros – isso até lembrar-se de quem eles eram, de seus anos juntos e o que haviam feito para ascender até suas posições. Com calma, e evitando um linguajar técnico demais, ele acabou com as dúvidas sobremaneira toscas dos homens, explicando os gráficos enquanto os riscava com a caneta.

– Mas, como assim, “números bons demais”? – voltou Nazir ao assunto, coçando o nariz com o dedo mindinho, ao final da aula.

– Assim, desta forma, meu caro: creio que nos estão logrando. As tabelas estão perfeitas como absolutamente nunca estiveram. Algo grande está acontecendo e provavelmente só nós não estamos ainda à parte.

– Rá! – riu-se Daslan, virando de um único gole seu copo de vodca e em seguida inspirando profundamente um pedaço de cebola, que repousava ao lado, desta vez ignorando o pedaço de limão que sempre sugava após a bebida.

– Falo sério – insistiu Fiódor, lançando os papeis que tinha nas mãos sobre a mesa de centro que o separava dos outros, que escorregaram sobre a superfície polida de qualquer jeito. – Isto é uma bela mentira, mas ainda é uma mentira.

– Então, ao minha ver, devemos antecipar ataques de quaisquer direções – afirmou Nazir, resgatando um pouco de sua dignidade intelectual.

– Mas antes precisamos descobrir quem é nosso inimigo – ajuntou Daslan, servindo-se de outra dose, como que alheio à discussão.

– Nós conhecemos boa parte de nossos inimigos – disse Fiódor. – Só saberemos com certeza quando verificarmos o que há de errado nestas listas; quem tem mais a ganhar falsificando estas informações e quais de fato são estas informações. Assim, ou quando for tarde demais...

– Ora, isso implicaria rever tudo!

– Sim, tudo...

– E por que não, digo eu? – falou Fiódor. – Preferem ver nossa Organização esmagada?

– Fazer perguntas demais sobre questões que já foram reportadas dessa maneira certamente atrairia atenção, e alarmaria nosso inimigo, quem quer que este venha a ser. Como sugere proceder neste caso, Nashzaminoff?

– Como fazíamos nos velhos tempos... Confiando apenas em nós mesmos.

Os três homens riram.

– Aquele protocolo? Você teria nervo para ir até o fim? – questionou Daslan, observando o semblante de Fiódor.

– Um brinde às “velhas roupas do ditador”! – respondeu o outro apenas, levantando seu copo para o alto, quase sem emoção.

– Às “velhas roupas do ditador”! – repetiram os outros dois em uníssono.

Naquela noite, ele torrara algumas centenas de rublos na roleta e não se contivera na bebida. Talvez fosse a última vez que bebesse em um longo período de tempo. E, depois, quando acabara sua cota alcóolica e perdera o interesse no jogo, Fiódor satisfez-se nas mulheres. Duas; se bem que ele não se lembrava com muita clareza da segunda...

E então chegara a manhã seguinte, e a enxaqueca subsequente. Uma das piores que se recordava de ter tido. De alguma forma, depois de saciado com as prostituas, ele conseguira guiar sem bater em nada e chegar até seu apartamento, onde, cansado demais para ir até o quarto, dormira no divã. Por sorte Fiódor havia programado o aquecedor antes de desmaiar, se não teria certamente morrido de hipotermia. Os marcadores externos acusavam uma temperatura de -2°C, uma das mais baixas vistas desde o início daquele ano.

Olhando para o hall de entrada, com os olhos ainda meio abertos, ele viu de relance a mesa circular ao centro da saleta abarrotada de pacotes novos e outras entregas recém-chegadas. Sua massiva correspondência sofria um processo de triagem tão grande que, boa parte do que lhe era endereçado passava tantos dias indo de escritório a escritório, sendo checado por sensores raio-X (no caso de enviarem algum dispositivo explosivo) e aberto cuidadosamente por auxiliares (no caso de enviarem algum animal venenoso ou gás nocivo), que, quando finalmente chegava às suas mãos, muitas vezes já era notícia antiga. Ele costumava gabar-se de conseguir adivinhar com excelente precisão o conteúdo de uma carta somente por ver seu envelope. E lhe economizava uma grande porção de tempo abster-se de abrir alguns, que imaginava inúteis – e provavam o sê-lo, depois. Mas, quando viu o pequeno retângulo dourado e as letras perfeitamente espaçadas, num cirílico impecável, ele sabia que deveria abri-lo. Fiódor só recebera um daqueles uma única vez em toda sua vida, quando Madrivana, a Grande Mãe Oculta, o elevara à capi de sua seção.

Quebrando o selo de cera e abrindo o papel perfumado, negro, ele leu silenciosamente as palavras brilhosas:

O Reino é extenso

Mas Três Príncipes são tão bons quanto apenas um

A Tríplice só é Santa se a vontade que a guia é Una

Pois na divisão reside o Caos

Então escolhe.

Ao lado do bilhete, um crisântemo solitário jazia numa minúscula jarra de vidro com água. O enigma da Dona rapidamente tomou conta de todos seus pensamentos. Teria aquilo a ver com o relatório que recebera? Com “Três Príncipes”, ela certamente se referia aos três capi que lideravam aquela região, ou seja, à Fiódor, Daslan e Nazir. Seria um atentado contra eles? Uma tentativa de tomada do poder sobre aquela área? E se assim o fosse, seriam os idealizadores do possível golpe aspirantes à capi ou então algum consigliere, que estava num posto ainda mais elevado? O trio de amigos de juventude ascendera juntos e dividiam praticamente por igual a coordenação da parte que lhes cabia de Chetchenskaia. A fidelidade que um desenvolvera para com o outro era rocha sólida e inquebrável, uma fraternidade que já havia sido posta à prova por várias outras vezes e que, mesmo assim, continuava com a mesma firmeza. Sendo assim, e tendo em vista que a Dona em pessoa, aquela a quem recaía o título de “Capo di tutti capi” particularmente o alertara, algo realmente sério os espreitava, algo que poderia ameaçar a integridade da própria Organização.

Seu desjejum, reforçado com massas amanteigadas e café preto, foi passado sob o peso destas reflexões. A carta mudava tudo, ao mesmo tempo que tudo permanecia igual. Ele continuava no escuro, impotente, tendo como única saída expor-se para, talvez, na melhor das hipóteses, conseguir um relance do que os esperava no futuro, e, quem sabe, assim poderem se preparar para o inimigo que os acercava. Bem, o que Fiódor sabia com certeza era que ficar se lamentando em nada resolveria sua situação; não, ele deveria se recompor logo e agir. Agora que a resolução havia sido tomada, e o antigo protocolo ativado, Daslan e Nazir iriam querer resultados o mais rapidamente possível, de forma que não havia tempo a perder. Tomando a difícil decisão de reter a informação do recebimento do sombrio bilhete por enquanto, Fiódor começou os arranjos necessários para sua empreitada.

Como era de se esperar, tudo foi feito muito discretamente. Para preservar sua nova identidade, sua ausência não poderia de maneira alguma ser notada fora da alta cúpula. Como um dos líderes ocultos de Chetchenskaia, seus recursos eram vastos, porém, movimentar contas de mulas ou contatar um número muito grande de membros da Organizatsiya naquele momento atrairia atenção indesejada. O planejamento já estava pronto, para sua sorte, já desde muito, muito tempo. Os únicos “mantimentos” os quais ele teria acesso eram os que já haviam sido previamente destinados para aquela operação, ou seja, suprimentos de dinheiro em espécie, passaportes e documentos falsos, telefones celulares irrastreáveis, além de kits de sobrevivência, armas, munição e todo o equipamento tecnológico que julgava eventualmente poder precisar – estes senão em sua posse direta e imediata, então escondidos em locais protegidos espalhados por todo o continente.

Por mais que o desagradasse mudar sua aparência, não foi possível evitar ter de tingir os cabelos, pintando seus fios, antes ruivos, de um preto comum e sem graça. As lentes de contato castanhas, que suplantavam o azul natural de seus olhos, também estavam bem à mão. O que mais lhe tomara tempo em sua caracterização foi com certeza desenhar, ele mesmo, uma pequena tatuagem em seu antebraço direito, um elemento memorável que contribuiria para disfarçar suas verdadeiras origens. Mais alguns ajustes nas sobrancelhas e um aparo na barba o fizeram, finalmente, ficar idêntico às fotos que batera tantos anos atrás, as dos documentos que o nomeavam Dimitri Pavechekoff.

Trajado em roupas novas, muito diferentes dos ternos com os quais estava habituado a se vestir, ele saiu de casa como um outro homem, deixando para trás ordens explícitas: não incomodar Fiódor Nashzaminoff sob nenhuma circunstância.

As calçadas estavam brilhantes de uma fina camada de gelo, e neve cobria a maior parte das superfícies visíveis das sacadas dos prédios e lojas, dando uma aparência lúgubre ao cenário urbano. Não havia muito movimento nas ruas, mas ele logo tratou de conseguir um taxi que o levasse ao aeroporto de Gumrak. Por sorte, o voo que sairia de Volgogrado para Grosny possuía ainda vários lugares vagos, e ele não teve de esperar tanto quanto imaginara para o desembarque. Uma vez no céu, Fiódor – ou melhor, Dimitri – aproveitou suas sete horas de viagem para analisar alguns papéis, decorar certos nomes e lugares, e finalmente, para descansar. Sua cabeça ainda doía pelos efeitos da bebedeira da noite passada e algumas horas a mais de sono lhe fariam muito bem.

Quando aterrissaram, Dimitri já havia despertado, e fora um dos primeiros a sair da aeronave, rasgando e descartando a maioria das folhas de informações que tinha em seu poder – já havendo decorado delas tudo o que julgava necessitar. As ruas chechenas tinham a mesma aparência terrosa de que ele se lembrava e conhecia. Depois de tantos anos sem pisar em sua terra materna, era de se admirar que recordasse o caminho para onde deveria ir. Mas, sem grandes dificuldades, ele chegou afinal ao antigo galpão de depósito de aparência abandonada, que secretamente lhe pertencia, e ao ver o prédio ancestral, seu coração pulsou palpitante no peito. “Que tempos!”, pensou consigo mesmo, numa nostalgia amarga. Tudo estava igual a como ele havia deixado, mais de dez anos atrás, como se o tempo não houvesse tocado aquele lugar – ou como se ele, Fiódor, ainda fosse um qualquer, um bandidinho de gangue de rua que vivia de pequenos furtos e se escondia durante o dia em barracões e locais dignos de chamarem-se latrinas; alguém que fora, havia uma vida inteira.

Ladeando o prédio, ele rapidamente encontrou um caminho semioculto entre um punhado de tílias desfolhadas. As árvores, apesar de um pouco negligenciadas e completamente desnudas graças à estação fria, continuavam as mesmas de sempre. Por de trás delas, várias tábuas se sobrepunham, tapando metodicamente uma passagem esquecida. Com dedos habilidosos, Dimitri despregou estrategicamente alguns dos grandes pregos enferrujados que mantinham os blocos colados e, com facilidade, tornou visível uma espécie de túnel, que se abria para uma porta de metal de tinta verde desbotada. Com um meio sorriso, o homem sacou do bolso um molho de chaves e, completamente familiarizado, selecionou a correta, colocando-a imediatamente na fechadura antiga à frente. Os batentes deviam ter-se corroído com o passar dos anos, pois Dimitri teve forçar os ombros para que a porta se abrisse. Bem, não tinha problema, ele havia entrado!

Buscando na mala que segurava pelas alças, Dimitri retirou uma lanterna pequena, e com ela estendida, avançou pela escuridão desoladora, guiado apenas pela memória e pela sorte. Havia poeira e teias de aranha por toda superfície visível, e todo o tipo de velharias empilhadas e montanhas de entulho e sujeira – ou era o que pareceria a um desentendido curioso que porventura adentrasse o lugar. Afastando para o lado uma prateleira de aparência pesada, uma porta camuflada ficou em evidência, claramente delineada sob a luz portátil da lanterna. Quando Dimitri a abriu, usando outra chave do molho que tinha consigo, um novo cenário se apresentou, um consideravelmente mais limpo e organizado.

Seu antigo amigo e associado havia cumprido sua parte no trato; tudo estava de acordo, como o prometido: as armas, o dinheiro, até o carro... Tirando a grande capa de lona que encobria o veículo, Dimitri viu com satisfação que o lada cinza fora mantido em excelentes condições de uso, o que comprovou ao testar o motor ronronante da máquina. Reunindo tudo de que precisava no veículo, o homem encontrou um interruptor escondido e, acionando-o, viu um portão de garagem levantar-se, abrindo-se para um beco deserto. Sem deixar bilhete ou aviso, ele partiu, deixando para trás o antigo esconderijo, agora sem mais utilidade.

A partir dali, semanas se passaram. Com as primeiras conexões, novas vieram. O tempo não o fizera perder o tato; os cuidados estéticos ou a etiqueta não foram capazes de apagar totalmente de sua compleição as durezas do princípio de sua “carreira”, e ele apoiara-se nisso, explorando ao máximo sua habilidade de ser admirado, sem deixar de impor o devido respeito. Em questão de dias, Dimitri havia se infiltrado numa das subdivisões da Organizatsiya, um de seus braços mais distantes, é verdade, mas que o colocavam um passo mais próximo de cumprir com sua missão. O processo de provar seu valor sem permitir chamar muita atenção era realmente o mais difícil em sua rotina. Se as primeiras suspeitas começassem a surgir, questões que ele não poderia responder não tardariam a ser levantadas, e seu disfarce cairia por água abaixo. Mas, paciência certamente era sua maior virtude, isto e a perspicácia calculista que tomava conta de todas suas ações. Assim, ele esperou...

O comando daquela noite em nada fugia do usual. Vassili, o parceiro que o designaram e o qual o acompanhava havia mais de três semanas, andava à frente, esfregando as mãos enregeladas pelo frio da madrugada. O vapor de sua respiração cortava o ar, desaparecendo no escuro do ambiente, iluminado apenas pela lua e as estrelas, e pelo farol do carro deixado aceso atrás deles. Silenciosamente, ele contava os passos, mensurando sua distância no solo arenoso até encontrar o ponto de coleta.

 – A maleta deve estar em algum lugar por aqui – sinalizou para Dimitri, que carregava consigo uma pá pequena, de design militar.

Algo no homem denunciava certa inquietação, um nervosismo mal disfarçado que Dimitri percebera assim o que o vira aquela tarde. Sem jamais perde-lo de vistas, ele começou a cavar, movendo seu instrumento com movimentos amplos e leves, preparado para reagir a qualquer coisa. De onde estavam, era possível ouvir os poucos carros e demais veículos seguindo seu caminho, viajando pela grande ponte, a mesma que havia sido tomada na Batalha de Grozny, anos antes.

– Vamos, Pavechekoff! Quero voltar logo – disse Vassili, estranhamente relutante, mas por fim decidindo-se a ajudar o outro a cavar. – Talvez eu tenha me enganado na contagem... – comentou, após alguns minutos de tensão, as faces muito brancas afloradas pelo esforço, depois de já terem aberto uma alcova de profundidade significativa, sem nada encontrar. Começando novamente o processo, um pouco mais para o lado, os dois tornaram a escavar.

– Realmente estou fora de forma! – falou Vassili, cravando sua pá no chão e tomando fôlego, fazendo-se de extremamente exausto.

Como se tudo o mais houvesse parado, um estranho silêncio pairou sobre os dois.

– Está claro que não há nada aqui – constatou Dimitri, por fim. E nesse momento, antecipando-se ao outro que de repente mergulhou a mão dentro do sobretudo, Dimitri atacou-o com a pá, estourando-a no ombro coberto de Vassili. Involuntariamente apertando o gatilho da arma que tinha escondida entre as roupas, um rápido clarão brilhou ao lado de seu corpo, atravessando o tecido grosso da veste de inverno.

Vassili, cambaleando para o lado com a força do impacto, não teve tempo de reagir antes de ser alvejado duas vezes, o primeiro tiro atingindo-o na perna, e o segundo, no estômago. Tombando afinal, seu corpo encaixou-se quase perfeitamente no buraco que juntos haviam aberto na terra úmida.

– Quem? E por que somente agora? – Dimitri perguntou entredentes ao homem caído, que tinha os olhos esbugalhados de terror, paralisado pela dor.

– Na-Nazir... – engasgou Vassili, o sangue num vermelho-vivo brotando-lhe à boca.

Num choque de reconhecimento, e num lampejo de misericórdia, Dimitri disparou uma vez mais, acertando a cabeça de seu parceiro. Não lhe importava a resposta para a segunda pergunta, ele conseguia imaginar uma com clareza suficiente. Agora tudo fazia sentido.

O envelope dourado imediatamente veio-lhe à mente. A resposta sempre estivera diante de seus olhos, mas a lealdade o fizera cego à verdadeira natureza das coisas. “Três Príncipes são tão bons quanto um...”, “Então escolhe”. Uma simples mensagem que queria dizer que um dos três capi subjugaria os outros dois; não um aspirante, nem um consigliere ou outra organização rival, um dos próprios companheiro! Ele deveria escolher

Não havia sido nada difícil encontrar uma cabine telefônica. Já eram quase nove da manhã. Discando o familiar número às pressas, ele aguardou na linha internacional.

– Passe-me à Daslan. Diga-lhe que é um amigo que usa velhas roupas – falou Dimitri rapidamente ao telefone, tendo sido finalmente atendido por uma secretária pessoal, uma das várias que seu associado gostava de cercar-se para tratar de seus assuntos.

– O Sr. Gragdanoff... – começou a garota, de voz embargada - ... faleceu esta manhã. Ele... – e então a linha foi interrompida.

– Ah, então é você! – ouviu-se de repente a voz grave de Nazir, substituindo a da moça.

– Maldito! – bradou Dimitri, apertando tanto o telefone entre os dedos que não surpreenderia se a qualquer instante o aparelho explodisse em suas mãos.

– Ora, recomponha-se, homem! – riu o outro. – Tolice sua pensar que este momento não chegaria. Não era você mesmo quem dizia que – como era mesmo? –, oh, sim: “Tudo tende ao individualismo”. Há-há-há. Patético! Sinceramente, achei que não chegaria tão longe estando por sua própria conta, afinal você sempre foi um bosta incapaz de qualquer coisa sem alguém te protegendo, por trás.

– Escute aqui, seu!...

– Boa sorte, Dimitri – cortou Nazir, antes que o outro terminasse. Então o som repetitivo da chamada desconectada tomou conta da linha, agourento e definitivo.

As ruas estavam movimentadas naquele dia, especialmente àquele horário. É claro que Nazir conhecia seu paradeiro. Se Fiódor quisesse retornar para um acerto de conta com o traidor, ele teria de se mover rapidamente. Sua melhor opção era sair da cidade e seguir a leste, onde conseguiria documentos novos e criaria uma outra identidade. Lá, ele também encontraria um aeroporto.

A decisão mais sábia seria livrar-se de seu veículo e roubar um carro provisório, mas, além de ser uma operação arriscada àquele período do dia, ele não dispunha de muito tempo.

Tomando a via expressa, Fiódor enfrentou o trânsito, aproveitando-se de todas as brechas e correndo no limite máximo permitido.

Sua mente já estava imersa em fantasias e planejamentos dos pormenores em como tiraria Nazir de sua miséria, quando, olhando de relance para o retrovisor, viu um carro de cor caramelo sobressaindo-se em meio aos demais automóveis.

Fazendo a próxima cura, Fiódor manteve-se atento, observando quem o acompanharia, e, novamente, entre os carros, estava o mesmo veículo caramelo, embora um pouco mais atrás.

Aquilo bastou para alarmá-lo. Então, engendrando como que de surpresa por um retorno mais adiante e depois em uma curva bifurcada, Fiódor adentrou um túnel, pensando ter assim despistado seus perseguidores.

Respirando mais despreocupado, ao olhar para trás e não encontrar o suspeito carro caramelo, quando voltou sua visão outra vez para a frente foi surpreendido com a cena de dois carros de capô aberto estacionados no acostamento asfaltado do túnel, como se estivessem com problemas mecânicos. Diante deles, quatro sujeitos esperavam com metralhadoras automáticas nas mãos. Fiódor compreendeu tudo somente segundos antes de a armadilha se fechar, e as balas choverem sobre seu lada cinza.

Cacos de vidro voavam para todo o lado. De repente, o estouro dos pneus, e, num piscar de olhos, o veículo voava, capotando pela autoestrada coberta.

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