Conto

Apocalipse: a molécula de Deus

Rener Alcântara
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Áudio drama
Apocalipse: a molécula de Deus
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Tornei-me um matador hábil. Um assassino, talvez? Não. Certamente não

sou nenhum assassino, porque as coisas que eu mato não estão vivas. Definitivamente

são monstros nascidos no submundo e que emergem das profundezas do inferno.

Eles não possuem alma. Já faz dois anos que estou vagando, e com todo esse tempo,

perdi meus familiares e meus amigos. Poderia passar a pensar que não há motivos

para continuar nessa luta que parece em vão, mas a Terra me pertence e matarei até

o último dia em que não mais conseguir erguer um bastão ou apertar um gatilho.

Tudo começou desde quando vi o plantão de notícias na tevê. A informação

fora de que um terremoto relativamente potente surgiu no mundo oriental, principalmente,

atingindo a Europa. Enquanto que para nós pertencentes às Américas,

apenas as regiões litorâneas que sofreram parte desse impacto com um tsunami que

chegou 1 hora após o terremoto.

As consequências desse cataclismo, fez com que o CERN, o famoso colisor

de hádrons europeu para pesquisa nuclear, havia tido sofrido enormes danos e suas

novas partículas geradas, no qual nem sequer, pertencia à tabela periódica, associou-

-se com a radiação de centenas de usinas nucleares, causando algo inimaginável até

então. Essa nova partícula, os cientistas batizaram de “A molécula de Deus”, sendo

considerada a molécula da gênese da vida.

Tal molécula possuía o poder de dar vida ao que já está morto. Em suma, essa

molécula foi como um vírus infectante que trouxe todos os mortos novamente a

vida. No entanto, eles agora são zumbis, ou melhor, monstros das trevas, irracionais

que vegetam e que matam os que não estão infectados. Suas aparências foram drasticamente

alteradas, ocorreu uma bizarra metamorfose em seus corpos, que agora,

parecem verdadeiros demônios. Desde então, estou lutando contra esses monstros

diabólicos sedentos por sangue.

Apesar de estarem mortos, eles não são como os estampados zumbis de séries

de tevê. Não são atraídos por barulhos ou, numa vontade incontrolável de carne

humana. Acho-os mais parecidos com animais selvagens, como as minhocas, que

estão praguejadas a se arrastarem sobre o solo. Assim como na origem do universo,

os primeiros seres eram organismos unicelulares, acredito que “a molécula de Deus”,

transformou esses monstros em um tipo de organismo que rodam as ruas para fagocitarem

os não semelhantes a eles, no caso, eu. Parece ser como um instinto primitivo

de sobrevivência, onde eu me tornei o parasita. Porém, ainda não decifrei por

completo o que os faz me reconhecerem.

Para mim, que sempre acreditei que o apocalipse seria algo mais surreal, numa

batalha travada entre anjos e demônios, céu e inferno, agora, me dou conta que nada

disso fora algo real para acreditar. Nem mesmo o nosso governo possuía um lugar

seguro para casos emergenciais como este e, em nenhuma parte do país, havia algum

lugar seguro para abrigar uma colônia de selecionados. Estávamos cada um por si.

Agora, o mundo está praticamente dominado por esses seres misteriosos. As

urbes estão cheias deles. E há poucos como eu, vagando rumo à sobrevivência. A

visão de todas as cidades era de um todo caótico. Nada estava no lugar, nada mais

era reconhecido. Fogo, cinzas, sangue, monstros, ruínas, medo, são as palavras que

descreviam o cenário. O mundo parecia estar de cabeça para baixo e as aberrações

tomavam contam de onde havia a paz.

O rigor mortis de suas carnes putrefatas os tornava lentos e com pouca coordenação

motora, mesmo assim, eles poderiam me vencer pela quantidade. Mesmo

havendo outros iguais a mim, relutando em desistir, eu sempre andava sozinho. Então,

sempre tinha que me refugiar em torres e edifícios.

Era estanho matá-los. Seus corpos eram gelatinosos e malcheirosos. Geralmente,

meus golpes eram certeiros em suas cabeças que facilmente rolavam feito

uma bola de boliche. Por onde andei, deixei um rastro de sangue. Ainda sinto os

objetos lacerantes que usei para cortar as suas vísceras que caíam ao chão repleto de

líquidos escuros.

Quando não tinha alguma arma em mãos, eu os chutava fortemente, tanto

que o meu pé os atravessavam. No início, meu estômago revirava, sentia o gosto

ácido em minha boca, mas, após algumas centenas de chutes, me acostumei. Hoje,

apenas sinto as suas costelas e demais ossos crepitarem com os meus golpes.

Percebo agora, que eles estão evoluindo rapidamente. Estão ficando resistentes,

e mais velozes. Está tendo uma seleção entre eles próprios, onde, o dominador

jugula o seu oponente o engolindo por completo e ganhando mais força. Já presenciei

batalhas entre dois dominantes que durou cerca de 20 minutos. Para o derrotado,

a sua morte fora uma certeza. O seu sangue apodrecido coloria a rua da cidade.

Somente a chuva fria e forte que caia era o suficiente para lavar todo aquele sangue

espichado, deixando a rua limpa para a próxima batalha.

Nesses dois anos, permaneci na mesma urbe que nasci. Desde então, só encontrei

sobreviventes quatro ou cinco vezes. Porém, estou desenvolvendo as minhas

próprias estratégias para matá-los aos montes, em vez de um por um. Faz alguns

meses que estou determinado a exterminar todas essas aberrações da minha cidade,

para que aqui seja um refúgio para muitos.

Já estou sem munições, por isso, estou juntando o máximo de dinamites em

um metrô da cidade. Quero atraí-los o máximo que eu conseguir e depois detonar

todos. E hoje, é o grande dia.

Sai do meu refúgio e fui procurá-los. Não demorou muito e encontrei um

bando, um dos maiores. Eles me notaram e rastejaram em minha direção, enquanto

eu os guiava para o abatedouro. Consegui deixá-los todos no andar subterrâneo do

metrô e logo acionei o dispositivo que explodiu. Certamente as toneladas de concreto

os esmagaram feito um chiclete no sapato. Porém, a catástrofe fora maior do que

calculei, todo o túnel desabou cortando a cidade ao meio. O abalo foi sentido em cada

pilar dos prédios adjacentes, muitos deles desabaram, inclusive, o que eu estava.

Sobrevivi, mas estou preso há 18 horas sobre os escombros. Agora sei qual

será o meu fim. Vejo o céu nublado, temperatura agradável em torno dos 25 °C, a

paisagem não é a das mais belas, porém, estou achando um dia ótimo para morrer.

Minha única tristeza é saber que após a minha morte, me transformarei num daqueles

seres diabólicos e horrendos.

Ao longe, ainda havia um desses monstros, um relativamente pequeno que

não seguiu o bando para o precipício da morte que lhe fora prometido. Vejo-o lentamente

se aproximar de mim. Ele está a minha procura para me devorar. Será o meu

fim.

Mesmo sempre tendo essa possibilidade em meu subconsciente, em morrer

devorado por um deles, agora que esse fatídico dia chegou, sinto a minha carne

tremer, meus olhos se arregalarem e meu coração acelerar, batendo tão frenético que

sinto minhas veias pulsarem.

Não havia ninguém para que eu gritasse. Não havia nenhum deus para que

eu rogasse. Nem havia ninguém para que eu me despedisse. Após eu exterminar centenas

desses monstros, agora era a hora da vingança, um deles teria o prazer agridoce

de saciar da minha carne quente e ensanguentada com os arranhões que ganhei. Ele

já está a poucos metros, perto o suficiente para que eu sinta o seu mau-cheiro e de

sentir a minha repugnância por seus corpos asquerosos.

Fecho os olhos e espero ser devorado. A última coisa que quero presenciar é

a escuridão. Ouço um barulho ensurdecedor nesse meio tempo seguido de um banho

de gosma que me cobriu por inteiro. Tive que abrir os olhos para entender o acontecido.

Lá estava uma figura distinta de pé, apontando em minha direção uma

arma. A imagem é a de uma humana, uma mulher. Um anjo que surgiu das trevas e

me salvou do vale da morte. Nunca a tinha visto antes, mas, já me apaixonei pela sua

rebeldia.

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