Conto

Apenas Um Pequeno Ponto Pálido

Ana Machado
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Áudio drama
Apenas Um Pequeno Ponto Pálido
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Os prédios metálicos pareciam enraizados no solo, o qual era igualmente cinzento. Eles pareciam brotar do chão como as antigas árvores, mas em vez de folhas tinham muitas janelas de vidro moderno e espelhado. Ela queria ter visto uma árvore que nem as que via nos arquivos digitais disponíveis na biblioteca. Ela refletia sobre tudo isso enquanto passava despercebida pelos muitos seres que transitavam pelo local. Apressados para os seus afazeres. Para preencherem mais um dia da história deles. 

Ela era apenas um pequeno ponto pálido. Como tudo era cinza, facilmente se misturava com os prédios metálicos e os veículos. Era muito semelhante aos humanos, o que a diferenciava era a pele cinzenta. Era muito semelhante aos robôs, o que a diferenciava era que tinha órgãos internos semelhantes aos dos humanos — a grande maioria, na verdade. 

Tinha uma capacidade de ver no escuro um pouco superior aos humanos, e isso a deixava curiosa sobre o planeta de onde havia vindo, pois nele isso pode ter tido uma importância ainda maior. Sabia que os aliens não eram uma única coisa e. Cada espécie tinha uma anatomia diferente e um sistema de órgãos internos que poderiam se adaptar de acordo com o ambiente em que estavam, e geralmente adaptação era uma coisa muito importante naquele ambiente. Principalmente para seres como ela, que viviam à margem da modernidade que não era para todos. Era como se tivesse uma linha invisível que ainda não tinha permissão para cruzar. 

Como ela raramente era notada, gostava de ficar nos lugares observando e criando histórias para os seres que via passar. Seu passatempo favorito era tentar adivinhar quem era humano e quem era robô. A tecnologia estava tão avançada que era quase impossível diferenciar um do outro, mas tinham detalhes que possibilitavam a diferenciação. Principalmente os olhos e a forma de falar.

Os olhos humanos por vezes eram tão inexpressivos como os das máquinas, mas se olhasse bem era possível notar um brilho no fundo deles. Talvez o brilho fosse algum sonho que teimasse em existir mesmo que a rotina a todo custo tentasse sufocá-lo. Não tinha como ter certeza, mas achava que robôs não conseguiam sonhar, ou se sonhassem eram sonhos mais racionas que não transpareciam em seus olhos opacos. 

Sabia que os seus olhos mostravam um brilho semelhante ao dos humanos, talvez um pouco mais intenso, pois buscavam refúgio nos seus sonhos e nas suas histórias para encarar o seu dia a dia em um local que parecia vê-la somente como parte da paisagem. Mas isso tinha suas vantagens, a fez desenvolver uma nova habilidade.

Era muito habilidosa na sua observação, e devido a essa característica já havia reparado há algum tempo que parecia haver uma divisão social entre os robôs, pois enquanto alguns estavam na sua melhor forma outros não estavam no seu melhor estado. Era possível ver que tinham a pele artificial saindo em alguns pontos e por vezes deixavam uma pequena trilha de peças que se soltavam e ficavam esquecidas em meio a outros lixos eletrônicos. A menina alien tinha o costume de pegar algumas dessas peças, mesmo que não entendesse para que elas funcionassem. Gostava de guardá-las só pelo prazer de guardar. Ela sentia como se estivesse conservando a parte da história de alguém, mesmo que sentisse que a cada dia sua história passava meio que despercebida. Se perguntava se alguém lembraria da sua história ou teria pelo menos alguma lembrança dela. 


 Na sua casa, as coisas eram um pouco diferentes. Sentia que entre os seus era amada, apesar que devido a sua personalidade tímida e quieta era o membro da família que menos se destacava. Morava em um pequeno apartamento com a sua mãe, irmãos e seus tios já um pouco mais velhos. Todos descendentes dos aliens que vieram há alguns anos para a Terra. Não sabia bem o porquê de eles terem vindo para outro planeta ou se o local de origem do seu povo ainda existia. Por algum motivo, não costumavam falar muito nisso. Tinha a possibilidade do lugar de origem de seu povo ser apenas mais um dos planetas que deixou de existir na imensidão da galáxia. Não tinha coragem de perguntar sobre o passado, pois sabia que a resposta poderia decepcioná-la. Preferia usar a sua imaginação para formar a imagem do planeta. 

Certa noite, notou que não era apenas ela que sonhava com isso, pois viu um de seus tios mais idosos olhando para o céu de forma distante. Era como se procurasse alguma coisa entre as estrelas. Ela se juntou a ele sem dizer nada, pois sabia que naquele tempo o silêncio falaria muito mais que as palavras. Em cada um dos dois corações, diferentes esperanças.

Nutria o sonho de um dia voltar para esse planeta, mesmo que ela não soubesse nem o nome dele. Pensava que lá poderia quem saber ser a protagonista de alguma aventura, não apenas ela, mas sua família e quem sabe os robôs que também se sentiam rejeitados. No planeta que imaginou, todos teriam o seu espaço. Os seus sonhos pareciam trazer um pouco mais de cor para aquela selva cinza.

Pensava que talvez no seu planeta pudesse deixar de ser somente um ponto cinza no meio da multidão.


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