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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

1.


Ninguém da equipe de exploração estava confortável com aquele planeta. Não bastassem os sinais de civilização, todas as circunstâncias chegavam a se parecer quase com uma piada sem graça.

Quando o capitão disse que era uma bola de concreto, pensaram que era brincadeira. Mas era a mais pura verdade: toda a superfície era coberta de vias e túneis que seriam perfeitas para o tráfego de qualquer veículo terrestre. O ar respirável, mas incrivelmente poluído, — que forçou o grupo a descer com roupas protetoras, máscaras e respiradores — complementava o que parecia um pesadelo de séculos anteriores. Aquele era um mundo todo cinza e morto, destruído pela civilização.

Não que a Terra fosse tão melhor, mas certamente não precisavam de tantas precauções lá, e certamente havia muito mais vida. Na bola de concreto não existia sinal de vida baseada em carbono, nem aparentemente outras alternativas. Estranhamente, porém, ainda parecia ter sinais de energia em algum lugar seguindo o caminho dos túneis que dominavam a paisagem.

— Eu esperava ver carros — resmungou Anton, conforme o trio seguia por uma das vias abandonadas.

— Hrm — gemeu Troya. A cientista parecia mais incomodada. — Eu esperava vida.

— Mas se tem tudo isso, algum dia teve vida, não? — arriscou Alyssa, soando quase esperançosa.

— Esse é o problema — retorquiu Troya. — Por que é que não há mais?

— Medições de qualidade do ar alternando entre “Péssimas” e “Tóxicas" — disse Anton, parcialmente como resposta, olhando para seu analisador. — Na volta, vamos isolar e destruir esses trajes, por via das dúvidas.

Troya fungou, incomodada.

Um pouco à frente do grupo estava o destino que haviam observado da nave: um dos grandes túneis que levava ao que parecia ser um labirinto subterrâneo. Toda aquela crosta de civilização certamente teria material interessante, mas era consenso que precisavam de um ponto para iniciar a exploração, um objetivo específico. Descobrir o que ainda estava funcionando parecia a meta mais sensata, especialmente porque responderia algumas das perguntas que inquietavam a tripulação.

Nenhum dos instrumentos da nave foi capaz de penetrar muito profundamente. Tanto o concreto quanto os acabamentos de metal dificultavam o processo, e o excesso de túneis sobrepostos confundia os instrumentos. A única coisa que ficava mais ou menos clara eram as leituras de energia, e aquele túnel era um dos poucos que levava a um local com indicações evidentes.

— Equipe técnica, podem me ouvir? — perguntou Alyssa, segurando um disco metálico que retirou de sua mochila.

— Na escuta — respondeu a voz de Rulu, com um leve ruído de estática.

— Vamos entrar no túnel em instantes. Vou instalar a primeira antena. Fiquem prontos para confirmar recebimento de sinal.

— No aguardo.

Alyssa posicionou o disco no centro da pista e, afastando-se alguns passos, pressionou o ativador. 

Com um zumbido baixo, peças de metal se deslocaram, levantando a forma a alguns centímetros do chão como se fossem pernas de uma aranha, e outras se elevaram, revelando pequenas superfícies convexas apontando para o alto. Alguns estalos metálicos e estava pronto.

— Recebimento confirmado — disse Rulu, a voz agora completamente clara.

— Perfeito — confirmou Alyssa. — Vamos entrar.

— Esperem — interrompeu Anton. — Mudança de planos.

Troya foi perguntar o que acontecia, mas também ouviu. E então todos ouviram, até Rulu: de dentro do túnel se aproximava um carro.



2.


Era um veículo autônomo. Esse tanto foi fácil de descobrir por vários indicativos, mas o principal foi que o carro se movia independentemente do piloto, que estava mumificado em seu interior.

Ele veio lentamente, em direção à antena, e quando preparou-se para desviar dela, se deparou com os exploradores e parou completamente. Em pouco tempo a equipe viu que ele não se moveria enquanto houvesse pessoas em frente e, sem muito esforço, conseguiram abri-lo e descobrir que era autônomo.

O corpo no interior não era humano o suficiente para que se sentissem confortáveis de chamá-lo assim, mas certamente não estava muito longe. Troya não parecia nada feliz com a descoberta.

— Biologicamente, a diferença é desprezível. Claro que esse estado de mumificação me impede de fazer uma análise mais completa, mas certamente sobreviveria na Terra.

Na nave havia algum alvoroço com a descoberta. O Capitão já havia sido avisado.

— Ele morreu de quê? — perguntou Alyssa, incapaz de parar de sorrir.

— Difícil dizer, agora. Não há sinal de trauma, nem ferimentos visíveis. Considerando as circunstâncias, tenderia a dizer que foi a poluição, ou doença ou envenenamento  — diagnosticou Troya, ainda soturna. — Apesar desse carro parecer razoavelmente isolado do ambiente de fora, claramente foi só o suficiente para mumificá-lo após sua morte.

— Isso está te incomodando tanto quanto a mim, né? — perguntou Anton, com um sorriso nervoso para Troya.

— Sim — assentiu a cientista.

Alyssa encarou os colegas com uma expressão confusa.

— O que houve?

— Nós temos um planeta concretado, cheio de vias e sem carros visíveis. O único carro que encontramos tem alguém que parece humano, morto.

Alyssa franziu a testa.

— Tá, é estranho, mas o que isso quer dizer?

— O problema é justamente esse: não temos como saber bem. Encontrar vida já é grande, e encontrar sinais de vida, também. Mas isso aqui… Se fosse diferente de nós eu me incomodaria menos.

— Com licença — disse a voz de Rulu pelos comunicadores.

— Sim? — respondeu Alyssa.

— O Capitão pede que transportem e isolem a múmia para análise. E se algum de vocês puder entrar no veículo, seria ideal para nós. Queremos algumas imagens dos controles.

Enquanto Alyssa e Troya desdobravam um saco de isolamento, Anton abriu a porta de passageiro — o veículo não era muito diferente de um carro terrestre —, e sentou-se ao lado do corpo. 

O traje poderia capturar as informações do ambiente, e as câmeras capturariam tudo que estava ao redor. Por dentro, o carro tinha dois assentos em frente e três atrás, com ergonomia similar aos terrestres. No painel frontal, telas cristalinas levavam o que pareciam ser palavras em uma língua local. Indicadores e botões pareciam sensíveis ao toque, mas Anton preferiu não arriscar tocá-los até que Rulu tivesse alguma novidade.

— O que estão achando? Acham que podemos dirigir este negócio?

— Hmm — gemeu Rulu.

— “Hmm”? O que isso quer dizer?

— Que existe algo estranho acontecendo. O computador já acha que consegue traduzir parte dessa linguagem — Anton não sabia dizer com certeza, mas parecia haver medo na voz de Rulu.

— Isso não era esperado? O computador não é bom o suficiente para isso?

— Essa é a questão, linguagens não são tão simples. A teoria é que qualquer linguagem alienígena fosse completamente diferente de qualquer uma da civilização humana. Seriam símbolos diferentes para reproduzir sons diferentes… Isso se usassem símbolos e sons.

— Ou seja?

— Do que estou entendendo, esta é uma língua humana demais. Talvez com uma amostra um pouco maior o computador já consiga traduzir algumas frases mais complexas. Isso é altamente irregular, vai contra qualquer teoria que temos sobre como funcionaria a vida alienígena. Isso mataria do coração qualquer antropólogo.

— Por favor, não morram — brincou Anton, encarando as letras.

— Não morreremos, ainda mais agora. Pode parecer loucura, mas o computador já está especulando que esse alfabeto possa ser lido praticamente como uma cifra de substituição. Há até uso de espaços e certos tipos de pontuação.

Anton balançou a cabeça, confuso.

— Então estamos em um planeta com quase-humanos e com uma linguagem quase-humana.

— Por absurdo que pareça, é mais ou menos esse o caso.

Do lado de fora do carro, Troya e Alyssa haviam terminado de arrumar o equipamento. As duas, que vinham apenas ouvindo a conversa por seus comunicadores, tinham os olhares claramente tensos. Qualquer resquício de excitação em Alyssa pela descoberta parecia ter desaparecido.

— Rulu, eu posso estar especulando demais, mas gostaria de seu parecer sobre uma ideia — perguntou Troya.

— Sim?

— Você diria — começou a cientista, hesitando. — que existe a chance dos habitantes deste planeta terem a mesma origem que os terrestres, de alguma maneira?

— Eu diria que aquele cadáver disse isso antes de mim, mas se quer minha opinião, me parece que a possibilidade é considerável.



3.


Depois de um pouco de experimentação, os controles do carro ficaram mais ou menos claros para a equipe.

A múmia foi isolada e retirada com cuidado, posicionada junto à antena para transporte posterior. Isso feito, o trio entrou no veículo e redirecionou-o para dentro do túnel, apesar de protestos de Troya sobre os riscos de utilizarem tecnologia desconhecida.

— Não sabemos a extensão exata destes túneis, — insistiu Anton, olhando pela janela para as paredes do túnel. — e vai que encontramos outros carros com menos cuidado que este?

— Ou pode ser que este carro nos tranque e nos mate e nós viremos múmias viajando em um planeta morto — disse Troya, em um tom que sugeria humor, mas era muito mais frustração.

Alyssa nada dizia, apenas dirigia, tentando enxergar o que havia no interior da passagem.

Os túneis por onde passaram eram regulares. Cinzentos, divididos em duas faixas em alguma regra de trânsito que não estava totalmente clara, mas que não parecia muito diferente das normas humanas. As paredes não levavam marcas, exceto pelas luminárias que surgiam de poucos em poucos metros, acompanhando a iluminação do teto. Em certos pontos havia sinais de acidentes, com danos superfícies e lâmpadas destruídas.

A rota se dividiu diversas vezes, conforme continuavam, mas aparentemente havia apenas um caminho para seguir, que era o que ainda retinha iluminação.

A cada bifurcação, o caminho escuro quase sempre levava carros abandonados, muitos com outras múmias no interior, outros com corpos que pareciam ter apodrecido a ponto de manchar o estofado e acabamento dos carros, ainda que muito tempo antes. Outros carros, ainda, estavam completamente vazios. Por padrão, nenhum desses veículos em áreas escuras eram funcionais, e ainda que alguns parecessem acidentados, a maioria estava tão intacta quanto o carro da múmia, só que não conseguiam ativá-los por nada.

Pararam algumas vezes para analisar os casos conforme apareciam, e as causas de morte pareciam tão vagas quanto com o primeiro corpo, mas decidiram por não levar mais nada. Seria mais fácil terminar de explorar e retornar com uma equipe maior.

— Não consigo detectar nenhuma entrada clara de energia nesses carros — comentou Anton, depois da quinta parada, onde analisou um dos veículos destruídos e quebrou parte da iluminação de um dos corredores — e o que temos de eletricidade na bateria no nosso parece incompatível com seu funcionamento.

— Alguma chance de que a luz esteja garantindo seu funcionamento, de algum modo?

— Não sei dizer, mas não é impossível que exista algum mecanismo de condução em jogo. Ainda mais que a sequência de caminhos com luz segue uma rota para a fonte de energia que detectamos. Não chamaria isso de coincidência.

— Coincidências demais para o meu gosto — gemeu Rulu, da nave.

Pouco depois Alyssa gritou, e só não perdeu o controle do carro porque, para todos efeitos, isso não era possível. O autônomo estava em uma aproximação de controle manual, simplesmente porque não conseguiram ditar seu destino específico, e seguia uma rota indicada por ela em uma combinação de setas e de um mapa das proximidades. Quando viu o outro carro se movendo, vindo diretamente em frente, seus tapas descontrolados na tela sensível ao toque fizeram apenas com que o veículo reduzisse até uma parada suave, e em seguida todos correram para fora para tentar parar o outro carro.

Momentos depois, com dois veículos autônomos estacionados lado a lado, Anton não conseguiu deixar de fazer o comentário que estava na mente de todos.

— Céus, esses alienígenas usam mão inglesa!

— Claramente seres evoluídos — brincou Troya, nascida e criada na Grã-Bretanha.

Anton e Alyssa se entreolharam e balançaram a cabeça, rindo.

— Considerando que todos eles morreram, acho difícil afirmar isso — espetou Anton.

Touché!

— Falando em “touché" e “morreram”, pessoal — anunciou Alyssa. — Estes aqui também estão mortos. Temos uma família inteira.






4.


As diretrizes da missão foram mantidas, apesar das circunstâncias imprevistas. A única mudança era que, caso o sinal com a nave ficasse fraco demais, deveriam reagrupar para organizar uma nova incursão com mais equipamento, para montar uma sequência de antenas e manter a comunicação. Enquanto isso, seguiam, sempre acompanhados de Rulu, que seguia como ponte.

Dentro dos túneis, ainda que a poluição ainda fosse acima dos níveis toleráveis, havia claramente algum fornecimento de oxigênio, e algum nível de filtragem de ar. Haviam passagens claras, mas por recomendação do Capitão, o grupo se ateve à passagem principal.

Outros carros autônomos eventualmente surgiram. Todos iam e viam, geralmente carregando corpos e sem destinos claros. A equipe chegou a testemunhar momentos em que um deles virou para um dos corredores escurecidos e, avançando alguns instantes trevas adentro, apagou suas luzes e parou de se mover.

Com o passar das horas, os três foram se alternando na direção. As roupas cobriam as necessidades de alimentação e excreção, mas não resolviam o sono. Troya dirigia, acompanhada de Anton, enquanto Alyssa se esticava nos bancos de trás.

— Uma civilização inteira morreu, talvez por conta de poluição, e o que sobrou foram carros autônomos funcionando simplesmente porque ainda estavam ligados — sentenciou Troya, incrédula. — é isso mesmo, Rulu?

— É uma possibilidade — respondeu a voz cansada de quem havia horas vinha repassando informações para toda a equipe da nave e tentando tirar leite de pedra para entender uma língua alienígena apenas com base em painéis de carros. — só acho estranho que todo mundo tenha morrido mais ou menos do mesmo jeito.

— E os corpos estão só em carros — comentou Alyssa, que não conseguira dormir, apesar do movimento constante do carro e dos olhos fechados. — O que isso significa?

— Que não existiam pedestres nesse povo? — perguntou Anton. Alyssa fez uma careta, mas quando abriu os olhos para encarar o colega, viu que ele não estava brincando. — Talvez eles realmente não saíssem dos carros a essa altura. Talvez só lá por baixo.

Troya meneou a cabeça.

— Não deixa de fazer sentido. É esquisito, mas faz sentido. Alguma chance de que encontremos algum contaminante se encontrarmos mais sinais de civilização, Rulu?

— Sempre há a chance, mas o equipamento não detectou nada fora do normal em nenhum dos corpos, então provavelmente não. O equipamento de vocês também deve ser o suficiente para bloquear qualquer ameaça, então não se preocupem.

— “Deve”? — perguntou Anton.

— Não faço promessas. Mas, se anima vocês, fizemos algum progresso na língua.

— Sim? — disse Alyssa, se espreguiçando.

— Conseguimos calcular uma equivalência numérica a partir dos indicadores do painel e da velocidade do carro. Aparentemente eles realmente usavam números como nós, e mais surpreendentemente, para mim, também usam contagem com base 10.

Anton gemeu.

— Quanto mais você fala que eles se parecem conosco, mais errado tudo isso me parece.

— Eu sei — respondeu Rulu, com o mesmo desgosto. — Não é nada bom ver um reflexo nosso destruído dessa maneira.

— O que mais? — perguntou Troya, interrompendo propositalmente o sofrimento dos colegas.

— Bom, conseguimos ver que eles não usam exatamente o sistema métrico. O carro de vocês tem seguido com uma velocidade média de 60 km/h, e o painel deles indica o que entendemos que seja “40”.

— É pior do que eu pensava — suspirou Anton. — pelo jeito eles usavam milhas por hora.

— Claramente uma civilização inferior — riu Alyssa.



5.


Mais um turno se passou até que chegaram ao que pensaram que seria uma cidade.

Era Anton que dirigia pela túneis sem fim, passando por mais carros transportando mortos, e foram ele e Alyssa os primeiro a ver as placas que pareciam indicar locais.

Rulu continuava forte na nave, incapaz de deixar o posto apesar dos repetidos e preocupados pedidos do Capitão. Em pouco tempo, ainda que não soubessem ler qualquer uma das palavras observadas, já haviam compilado um léxico impressionante e isolado um alfabeto que parecia ter 28 letras. A essa altura, isso impressionava menos, e em vez de chocar-se com a semelhança à Terra, a equipe da nave se perguntava se as duas letras a mais seriam apenas variações de acentuação, ou sons distintos.

De todo modo, todos aceitaram como pressuposto que as placas indicavam locais e, se as leituras de números estivessem certas, os caminhos iluminados em que podiam seguir pareciam claramente seguir em direção a um desses locais, que foi definido simplesmente de “Destino 1”.

O nome, um meio-termo entre técnico e místico demais, causou uma impressão forte na mente cansada de Anton, de modo que, quando finalmente pareceram chegar lá, se decepcionou.

— Parece… Parece… — hesitou Alyssa.

— Parece um estacionamento — grunhiu Anton.

Era verdade. A primeira visão que tiveram quando o túnel acabou e se alargou foi de um imenso galpão, onde incontáveis veículos padronizados estavam estacionados em marcações no chão, como vagas, enquanto outros tantos zanzavam de um lado para o outro.

— Rulu, está vendo isso?

— Estou vendo o que vocês estão vendo e o que o equipamento pega, mas os instrumentos da nave já não alcançam nada aí.

Troya levantou com um salto, surpreendendo os amigos, depois olhou devagar ao redor.

— Temos sinais de vida? — perguntou, com a voz pequena.

— Negativo — respondeu Alyssa, olhando para seus instrumentos. — Eu diria que todos esses carros também carregam corpos.

— Encontramos o coração do cemitério móvel —  disse Anton, quase lamentando, quase rindo.

— Não só móvel — corrigiu Alyssa, apontando para uma parede distante, algumas centenas de metros à esquerda de onde estavam.

Lá estava: depois do espaço delimitado para estacionamento, havia um piso de pedra, onde podiam ver distintamente corpos espalhados pelo chão. Ou, ao menos, restos do que pareciam ter sido corpos.

— Devemos comemorar isso? — respondeu Anton, e dessa vez era realmente um lamento.



6.


Depois de estacionar, o grupo determinou que a melhor política seria explorar a pé aquela área que parecia ter sido habitada. O modo como tudo parecia ter sido montado para atender humanos chegava a perturbar. Havia escadas, elevadores, portas deslizantes, computadores, e alguns dispositivos móveis que, mesmo sem baterias, pareciam similares aos seus.

E havia os corpos, claro. Todos humanos demais, ainda que não totalmente.

Não demorou para verificarem que aquela não era uma cidade propriamente dita, mas um tipo de base. O fornecimento de energia seguia por outros túneis, e ainda que a diretriz da missão fosse de localizar essa fonte, uma parada naquele ponto era não apenas recomendável, como necessária: mesmo dormindo no carro, todos estavam exaustos.

Desviando dos restos mortais que se espalhavam por toda Destino 1, Alyssa, Anton e Troya passaram a explorar o que parecia ser um tipo de prédio administrativo que tomava basicamente toda aquela região ladeando o imenso estacionamento, que ainda não parava. Boa parte do espaço ali parecia dedicado a controlar o tráfego dos túneis, manter a manutenção dos carros e, com o que conseguiam supor da linguagem desconhecida e inferências a partir da disposição de informações e imagens, a acompanhar dados da superfície. Não era um lugar para diversão, nem para famílias.

Havia uma grande sala de operações, com painéis onde métricas e opções desconhecidas se mostravam mas, no primeiro dia de estadia, aquilo não foi nem de longe o que mais atraiu o grupo: a série de alojamentos contíguos trouxe lágrimas aos olhos do trio que, com aprovação da Intrepidus, dormiu por horas ininterruptas em camas de espuma.

Rulu e seu time aproveitaram a deixa para descansar, também e, enquanto a nave ainda permanecia tensa com as misteriosas descobertas, a suspensão não deixou de ser agradável.

Só no segundo dia que todos passaram a notar um fato peculiar que haviam ignorado completamente: todos haviam aceitado que lá só encontrariam corpos, que todos naquele planeta aparentemente haviam morrido e que as máquinas continuaram funcionando após suas mortes, mas ninguém havia notado que nenhum dos habitantes parecia estar no que Rulu definiu como “situação de morte.”

— Eles simplesmente morreram fazendo o que faziam — finalizou, na primeira conferência que fizeram para determinar os próximos passos da missão.

De fato, cada um dos habitantes do planeta parecia estar ocupado com alguma atividade no momento da morte, e a ausência quase completa de corpos nos alojamentos indicava que ainda era um período de trabalho quando seja lá o que tivesse matado a todos havia acontecido. Os que estavam ocupados em operar seus painéis permaneceram em seus assentos, ou próximos deles. Outros morreram em corredores, outros aparentemente em meio a diálogos, enquanto usavam o banheiro — instalações essas, aliás, que pareciam reproduções de culturas orientais da Terra —, ou até enquanto comiam. Não havia sinal claro de envenenamento ou doença, nem de desespero.

Nenhum dos cadáveres estava tão preservado quanto os dos carros, muito pelo contrário, mas algo na filtragem do ar havia impedido a proliferação de insetos. Ou, talvez, os insetos já tivessem sido todos destruídos pela poluição antes mesmo de que aqueles humanos morressem. Era difícil saber.

— O que me preocupa — explicou Troya — é que o mesmo aconteça conosco, mesmo com estas roupas de proteção.

— Não há indicativo algum de que possa acontecer — retorquiu Rulu.

— Bom, eles também deveriam pensar que não havia nenhum indicativo de que morreriam, e olha só como acabaram — disse Anton, sempre sarcástico.

— Isso é, mas não temos garantia que vá se repetir — opinou Alyssa.

— Também não temos o contrário.

Todos ficaram em silêncio por alguns instantes, ignorando os corpos, até que a voz de Rulu retornou:

— Se possível, eu gostaria que exaurissem as opções. Quero que revirem todos os cantos, para descobrirmos para que servia essa base, e me mostrem o que puderem desses computadores. Vejam se conseguimos descobrir algo e, se em 24 horas não tivermos qualquer novidade, vocês retornam.

Nenhum dos três estava totalmente confortável com a ideia, mas terminaram por aceitar.



7.


As 24 horas se tornaram 48, que se tornaram 72.

Com auxílio do computador da Intrepidus e dos esforços de Rulu e sua equipe, ainda que a linguagem daquele povo permanecesse misteriosa, conseguiram isolar alguns termos. Uma sequência de seis letras, por exemplo, parecia denominar “túnel”, e com ela conseguiram confirmar que boa parte das opções dos sistemas de Destino 1 eram dedicadas a eles.

Várias das máquinas eram conectadas a gravações e transmissões em tempo real de túneis. Outras contavam com visão de calor, e outras pareciam acompanhar métricas que pareciam incompreensíveis.

Em outra parte do mesmo sistema, uma palavra de três letras parecia denominar “carro”. Aprenderam ainda o que talvez fosse “ar”, e o que talvez fosse “poluição” — ou, como Rulu reforçou, possivelmente “ar de baixa qualidade”, ou “ar poluído”, já que havia semelhança entre as duas palavras —, dentre outras palavras repetidas.

Mas não foi o entendimento dessas palavras que atraiu o grupo, apesar do medo de uma morte instantânea e imprevisível: foi o fato de terem aprendido o termo equivalente de “porta”, em uma sequência de oito letras. Primeiro, a expressão surgiu em controles de espaços, mas havia também uma recorrência específica do termo em diagramas e mapas no interior das instalações. Havia uma porta específica, ou um lugar chamado “Porta”, que parecia muito importante.

Com algum custo, a equipe logo identificou-o como um portal localizado em uma passagem na parte mais isolada da base, muito abaixo das salas de controle.

Havia algo de peculiar ali, que começava pelo fato de que os cadáveres próximos da passagem pareciam utilizar o que pareciam ser uniformes militares, e seguravam dispositivos que se pareciam muito com armas terrestres. Nenhum deles estava funcional, mas era claro para todos ali que naquele ambiente tão humano, aqueles armamentos estavam sendo usados para controlar o acesso à Porta.

O ar era de segredo, de conspiração, e o portão de metal era firme e levou o time a muito tempo de deliberação: arrombá-lo, ou não arrombá-lo? Não sabiam o que poderia existir do outro lado, nem se haveria algum sistema de segurança ainda ativo que poderia ameaçá-los. O desejo de exploração e estudo batia de frente com a necessidade de segurança.

A solução foi um plano do tipo que ninguém esperava ter de executar, com rotas de fuga e um dos carros autônomos pronto para levar o trio de volta, incluindo contingências para facilitar o acesso da nave. Mas tudo começava, de todo modo, com o arrombamento da grossa porta de metal.

Todos desistiram rapidamente de uma intervenção eletrônica. A porta aparentemente utilizava-se de uma senha, e mesmo que não houvesse consequências caso errassem a senha — o que era incerto —, o computador estimava que todas as combinações possíveis de letras demorariam anos para poderem ser executadas. A inadaptabilidade do equipamento para que tentassem hackear o software da trava, juntamente do desconhecimento da língua, não ajudava. A solução era uma intervenção física.

O parco equipamento que tinham fez pouco contra a superfície resistente, mas permitiu que conseguissem instalar os explosivos com certa felicidade. Com tudo instalado, o trio se abrigou em seu carro, prontos para escapar no menor sinal de que a explosão ativassem algum protocolo de segurança que ameaçasse isolá-los. E então, com o pressionar de um botão, veio a explosão.

E nada aconteceu.

Não havia alarme, não havia armas, nem tremor de terra, nem paralisação dos equipamentos. Na verdade, os carros autônomos, em suas eternas rotas automatizadas, chegaram a desacelerar por alguns instantes frente ao estouro, mas segundos depois retomaram a atividade.

Por recomendação da Intrepidus, os três ficaram abrigados em seu carro por mais duas horas, coletando o que podiam de informações com seus instrumentos, até que todos concordaram que nada havia mudado. De fato, nem sabiam se os explosivos haviam realmente aberto a Porta, até que desceram para a área isolada e descobriram o metal retorcido e a passagem aberta.

Ninguém sabia exatamente o que esperar daquele ponto em diante. Enquanto analisavam o plano, todo tipo de especulação passou por suas mentes, e ela sempre partia do ponto de vista humano que haviam aceitado que era comum aos dois povos. Seria um cofre? Um arsenal? Instalações VIP? Uma base militar?

Algo pareceu estranho quando, seguindo pelo corredor depois da Porta, começaram a avistar os primeiros corpos.

— Esses parecem desesperados — anunciou Anton, com um riso nervoso que desconcertou Alyssa.

— Eles estão fugindo? Ou correndo para avisar alguém de algo? — refletiu Troya.

— Rulu, está vendo isso? — perguntou Alyssa, sem conseguir afastar os olhos dos mortos.

— O sinal está piorando, mas conseguimos receber — respondeu a voz entrecortada.

Eram uniformes diferentes dos que viram antes. E roupas que pareciam mais caras. Parecia mesmo uma base militar, e instalações VIP e talvez mesmo um arsenal, porque aqueles soldados mortos tinham armas, mas o fato de que estavam fugindo indicava algo mais.

Quanto mais avançavam, mais corpos. Salas laterais começaram a surgir, algumas vazias, outras ocupadas por corpos que pareciam divididos entre pânico e indolência.

Mas não demorou para ficar claro que havia ali um único grande ponto central, que era uma imensa sala com mais equipamento eletrônico. Havia máquinas ininteligíveis e uma série de painéis e, quando o trio parou na porta, desviando de alguns últimos cadáveres, sabiam que era algo grande.

Havia, na parede maior, um imenso painel curvo dividido em cinco partes. Cada um deles tinha a representação do que parecia ser um planeta, cercado de palavras que denominavam diferentes características e métricas. O que chamava mais atenção, porém, é que reconheciam alguns planetas ali.

O primeiro planeta, arroxeado, era desconhecido. Suas métricas estavam simbolizadas com cor vermelha e eram estáticas. Vários marcadores indicavam o que entendiam que fosse “0”. O segundo, com um bege que lembrava júpiter, também era acompanhado de métricas zeradas.

O terceiro era sem dúvida alguma o planeta em que estavam, o planeta de concreto e túneis. E seus números também indicavam zero. Abaixo desse ponto do painel via-se um agrupamento de corpos, todos retorcidos em caretas de desespero.

Mas era o quarto planeta que chamou a atenção da equipe. Era uma representação do Planeta Terra. E seus números corriam, coloridos em verde. O quinto planeta, alaranjado, tinha métricas estáticas, mas com números altos e indicados em azul.

Por muito tempo, nada foi dito por nenhum dos presentes, até que Troya resolveu falar.

— Rulu, eu posso estar especulando demais, mas gostaria de seu parecer sobre uma ideia.

— Sim? — veio a voz, hesitante.

— Você acharia viável que os moradores deste planeta tivessem detectado algum cálculo de tempo de vida de uma civilização?

A tensão cresceu entre todos na sala, e parecia palpável também na nave, mesmo pelo comunicador.

— Como assim? — perguntou Rulu, mas seu tom indicava que a pergunta era mais uma negação de um fato do que uma dúvida real.

— Você acha que possa existir alguma lógica universal que diga que só possa existir um planeta por vez com vida inteligente, e que essa lógica possa ser mensurada?

— Os dois primeiros planetas vieram antes desse… — balbuciou Alyssa, mais para si mesma, conforme refletia sobre a realidade daqueles fatos.

— Depois veio o terceiro. E depois que o terceiro acabou, viemos nós — completou Anton. — E depois de nós tem aquele outro. Alternância de planetas com vida, nunca simultaneidade.

Mais um instante de silêncio.

— Vamos analisar aqueles números — respondeu finalmente Rulu, e havia um tipo de desespero em sua voz.


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