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Alcateia
Áudio drama
Alcateia
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Há exatamente três semana atrás, completei treze anos de idade.

Minha família, que sempre foi numerosa, fez uma festa bem simples para mim. Acho que nunca tinha visto toda ela reunida desse jeito. Consegui manter um bom humor com todo mundo, para alívio da minha mãe, já que não sou um poço de paciência. E tudo parecia colaborar com isso. Foi, definitivamente, meu melhor aniversário.

Quase no fim da festa, meu avô me chamou de canto. Ele tirou do bolso um embrulho feito com o seu lenço. Era uma moeda de prata, pesada e muito antiga.

-Isso aqui era do pai do meu pai. Quando eu tinha sua idade, ele passou para mim. E eu passei para o seu pai, um dia.

Não conseguimos conter a emoção. Meu pai faleceu fazia pouco tempo, de forma abrupta. Achei que a alegria nunca mais voltaria na minha casa, até acontecer aquela festa.

-Ele com certeza passaria isto pra você hoje! Não deixe sua mãe ver, Fio. Sabe como ela muda de humor, né?

-Obrigado, vô!-respondi, e o abracei.

Ele retribuiu, no seu famoso abraço de quebrar costelas. Ele colocou a moeda em minha mão, e me assustei com a quentura daquele objeto, quase derrubando no chão.

-Ficou no meu bolso o tempo todo, deve ser por isso!- ele me respondeu.

Notei, depois que se afastou, que ele me vigiava. Talvez tenha pensado que eu sairia mostrando pra todo mundo, mas eu nunca fui desse tipo. 

Mal sabia que não era com esse intuito que ele me vigiava. 

Depois da festa, todos os sentimentos bons se foram, e ficou uma rotina esquisita.

Meu dia começava acordando de um sonho em que eu corria para salvar minha vida, mas nunca olhava para trás. Minha mente ficava em estado de alerta. Sentia uma angústia secar a boca e meu mau humor só me causava problemas. É claro que ser o único homem em casa sempre pesou, mas parecia que tudo conspirava para uma discussão com minhas irmãs-um copo sujo, uma roupa fora do lugar, uma palavra mal interpretada. Minha mãe, olhava e balançava a cabeça. “Você tá ficando malcriado, Donovan!”, ela falava e saia de perto. Pensei: por onde andava a mãe carinhosa e justa que ela sempre fora? Ela me olhava como se eu fosse um estranho morando em sua casa.

Até na escola, tudo parecia estar contra mim. Se o professor não fosse com a minha cara, eu parava na diretoria. Se começava uma briga, eu parava na diretoria. Por qualquer motivo estúpido, ou coincidência furada, ou história mal contada, acredite: eu ia para a maldita diretoria! Eu sou sincero em dizer que não sou o aluno exemplar, mas aquilo já era perseguição. E todas as vezes que ia para aquela sala, um cara- Zé Maria, se não me engano-me observa, sempre com um ar de deboche. Acho que vou acabar expulso antes dele.

Se estou andando pela rua e passo por um grupo de pessoas, elas param a conversa e me encaram. Só retomam o assunto quando estou longe. Seria doideira dizer que consigo ouvir o que elas falam? “ Alá, lá vai o menino do falecido Geraldo! Pobre homem!”, “É o sem futuro do filho da Carmem! Você sabe o escândalo que ela deu no enterro do finado? Nem te conto!”. Não entendo como as pessoas podem ser más e não conseguem conter a língua dentro da boca. Juruauma-Açu é minúscula, a ponto de mal ter uma delegacia, mas o que mantém essa cidade, com certeza, é a fofoca. Mas o que eles esperavam? Como esperavam que minha mãe reagisse? Como ela vai sustentar sete filhos? Dando…!!Ah, deixa pra lá!

Sinto uma raiva borbulhando no estômago. Estou pronto para esmurrar qualquer coisa. Olho a moeda que ganhei do meu avô, o que ela representou e fico enjoado. Deito na minha cama, no fim do dia, como se tivesse participado de uma guerra, mas não quero ter aquele sonho horroroso novamente. Como eu queria que meu pai estivesse aqui! Sinto que a lua cheia me acolhe. Consigo colocar os pensamentos em ordem. 

"Mau agouro, Donovan, mau agouro", escuto meu pai dizer. Sem nenhuma novidade, sonhei que estava correndo, fugindo para salvar minha vida. Havia muito barulho, com vozes vagamente familiares. Desperto, banhado em suor.

Como vim parar debaixo da cama? Ainda é noite. Me levanto para ver minha mãe. Há um rastro de sangue pelo chão da casa. Meu Deus, há sangue por todo o lado! Entro na sala e desabo no chão, chorando e aos berros, ao ver os corpos de minha mãe e minhas irmãs estraçalhados. É só carne e sangue. Senti o horror tomar conta de mim ao chegar numa conclusão: eu matei minha família! Meu Deus, eu matei minha família!!

A porta da rua é arrebentada. Um homem de touca ninja mira sua espingarda em minha direção. Por pouco não estoura minha cabeça. Corro para a porta dos fundos. Há outro homem, também mascarado e armado. Entro no quarto dos meus pais, pulo a janela e corro pela minha vida. Senhor Deus, se estiver aí, por favor me acorde desse pesadelo!

Tem homens encapuzados por todos os lugares. Escondo-me num velho galpão de máquinas. Queria muito lembrar de ter atacado minha mãe e irmãs, mas não há nada. Não acredito que simplesmente me tornei um lobo, um Lobisomem. Existem tantas justificativas absurdas para animais e pessoas encontradas mortas por esse bicho por aqui...eu achava que era apenas uma historinha do meu avô pra pôr todos os netos na linha, mas faz sentido: ele é o sétimo filho de uma sequência de mulheres, meu pai era e eu também sou. Sempre suspeitei de algo incomum na família, mas não quis acreditar. Meu pai sempre falava de lobos, meu avô sobre causos. Agora só me restou ele. Mesmo com esse bando me caçando, preciso ver se meu avô está bem.

Vagarosamente, deixo meu esconderijo. Escuto um barulho atrás de mim. Era o Zé Maria, o cara da diretoria. Sem o ar debochado, parecia outro cara.

-Ainda bem que eu te achei, cara. Venha comigo, ficaremos mais seguros com a Alcateia reunida.

-Alcateia?

-Pelo o amor de Deus, cara. Não é hora pra crise existencial. Vamos sair daqui.

-Não. Eu preciso ver meu avô!

-Não, cara. A última pessoa que você precisa ver agora é o seu avô.

Lembrei do velório do pai. Da minha mãe histérica. Das minhas irmãs chorando...mas meu avô não derramou uma lágrima. Uma única lágrima para seu único filho homem.

-Eu sinto muito, cara. Por tudo que não te disseram, mas vem comigo! Agora!

Então começaram a bater nas paredes do galpão, chamando para fora, antes que colocassem fogo. Zé Maria balançou a cabeça. Saímos. 

Havia um bando enorme nos esperando. Todos estavam com os rostos cobertos, exceto meu avô, que vestia apenas uma calça. 

-Fio!- ele me chamou-Não sei o que aconteceu, mas tá tudo bem. Não estou bravo com você.

Senti a mão do meu novo amigo segurar meu braço.

-Tá tudo bem. Só vem pra cá pra conversarmos. 

-Não vá!-sussurrou Zé Maria.

Olhei para a lua cheia. Ouvi um uivo distante, e senti que tudo estava esclarecido.

-Vô, vamos parar com esse rodeio. Eu sei, e você sabe que, o que aconteceu em casa não foi por acaso!

-Eu tentei evitar o máximo que isso não acontecesse com você, Fio. Mas o seu pai não me deu ouvidos. Ele achava que era o melhor pra família!

-E a moeda?

-Nunca foi uma herança! Eu só queria saber se era verdade ou não o que ele dizia. Mas eu posso tirar isso de você. Você ainda tem uma chance, só precisa vir comigo, Fio.

-Não acredite nele, Donovan! Ele tá mentindo.

-Vô? Fala a verdade, por favor.

Ele sorriu. Nós sempre fomos franco um com o outro. 

-Sua mãe mal reconhecia você como filho, mas deve ter se arrependido no segundo final quando fui na casa de vocês. Eu ia te pegar, mas todas elas tentaram te proteger. 

-Foi você então?

-Não deu pra me segurar. Achei que você tinha fugido, então comecei uma busca...

Eu rosnei. Minha transformação foi dolorosa. Como se uma corrente elétrica tivesse passado por todo meu corpo. Meus membros se esticaram, tornaram-se peludos, num vermelho-dourado. Minha visão, olfato e audição ficaram afinados como nunca achei que seriam. Meus músculos ardiam, mas eu me senti tão bem.

Parece clichê, mas uivei para a lua. Outros uivos responderam de volta. Vários lobisomens saíram da mata e atacaram os encapuzados. Meu avô, com um ódio mortal no olhar, transformou-se num lobo cinzento e começamos nossa briga de cachorro grande. Para um senhor de quase oitenta anos, ele era muito forte e rápido. Tentei acompanhar seu ritmo, mas percebi que ele retribuía e aumentava o dele. Ele queria me pegar no cansaço. Deixei que ele mordesse um dos meus braços e gritei de dor. Ele caiu na minha armadilha. Abocanhei seu pescoço e chacoalhei, rasgando sua carne e atirando-o para longe. 

Os outros lobos, que terminavam o serviço com os encapuzados, esperavam o desfecho. Meu avô assumiu a forma humana. Estava morrendo.

-Fio...perdoa o Vô por ter deixado que as pessoas fizessem troça de você...por sua mãe e suas irmãs...perdoa o Vô…

-Vô, tá tudo bem!-respondi, assumindo minha forma humana e segurando sua mão.-Entendo agora o que isso significa. Eu já tinha entendido quando cortei a cabeça do meu pai fora.

Meu avô ficou mais ofegante. Estava surpreso.

-Fio...porque…

-A culpa foi dele mesmo, Vô! Ele não deveria ter dito que numa alcateia só existe um Alfa!

Na aurora, toda a Alcateia, na sua forma humana, enterrava os últimos corpos no descampado, atrás do galpão. Enterrei minha mãe e minhas irmãs. Essa maldição nunca deveria ter afetado suas vidas, e só por isso matei meu pai e meu avô. Isso vai terminar comigo. Zé Maria finaliza meu curativo.

-Pronto, cara! Tá novo de novo! Foi muito fundo, mas daqui a pouco ele cicatriza sozinho.

Os homens e as mulheres, de diferentes idades se aproximam de nós. Alguns rostos são conhecidos. Parece que nem todos os corpos que são encontrados em Juruauma-Açu estão mortos.

-Nós seguíamos seu pai, Donovan. Sendo o Alfa agora, seguiremos você. Qual será sua primeira medida como novo chefe?

Não consigo esconder um sorriso de satisfação. 

-Acho que deveríamos ter um belo jantar de comemoração hoje à noite, não acha, Zé?

-Claro, cara. Mas onde vamos encontrar comida pra todo o bando?

Olho para o lado esquerdo do galpão. Alí temos toda a visão de Juruauma-Açu. O bando fica empolgado com a ideia. Zé Maria sorri e dá tapinhas no meu ombro.

-Muito safo, cara. Muito safo!


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