Ad Aeternum

Drama
Maio de 2020
Começou, agora termina queride!

Tic Tac

Conquista Literária
Conto publicado em
O Deus chamado Tempo

Sinopse

Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

O tempo, uma criação humana e apenas isso. O passado é o presente que deixou de existir e o futuro nada mais é do que o presente que ainda não começou a existir, tudo é o agora e o agora é tudo o que temos.

Prólogo

Epílogo

Conto

Áudio drama
Ad Aeternum
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O mundo é redondo. Um círculo. Isso já deveria ser uma dica, mas a gente não nota.

Enquanto meu carro repetidamente girava no ar e se chocava contra algo, eu rezava para Deus como qualquer pessoa à beira do inevitável. Rezei durante todo o tempo em que estive consciente. Depois, fui engolida pela escuridão.

Quando acordei no hospital, os olhares de espanto da equipe médica me assustaram. Teria eu chegado assim tão perto da morte? A resposta era “sim”. Além dos ossos quebrados, sofri severos danos em órgãos vitais e extensas porções de meu cérebro foram afetadas. Foi um milagre eu ter acordado, ainda mais sem danos neurológicos aparentes.

Após a longa e dolorosa recuperação, voltei para casa e foi então que comecei a ver a face de Deus.

Foi bem confuso no começo. Ainda é. Em meio a cefaleias lancinantes, via constantemente imagens do passado, que atribuí à melancolia, à fragilidade emocional causada pelo trauma e à culpa. Mas as imagens eram muito detalhadas e intensas, vinham acompanhadas de emoções claras e sensações vívidas. Como era possível que eu me lembrasse do exato momento em que entrei em casa escondida de madrugada, aos 15 anos? Como era possível que eu me lembrasse do que sentia, do que estava pensando, do contato do jeans sobre minha pele, do cheiro do jasmineiro de minha mãe, da música que meu vizinho ouvia?

Eu não estava me recordando do passado. Eu o estava vivendo.

Depois, foi o futuro. Tinha vislumbres de cenas estranhas, de coisas que não compreendia. E então, um dia, a cena estranha se desenrolava diante de meus olhos e eu entendi que havia experimentado o futuro. O mais estranho é que eu não somente via o futuro. Eu sentia saudades do que via. Nostalgia do futuro.

No começo, minhas visões, ou melhor dizendo, minhas vivências, ocorriam sem controle e de forma esporádica. Pensei que estivesse enlouquecendo. Depois, subitamente, houve uma explosão de visões. Elas se sucediam rapidamente e de forma ininterrupta. Presente, passado, futuro, eu via tudo ao mesmo tempo, sem controle, sem lógica, apenas uma torrente de visões, sentimentos e sentidos. Vi meu nascimento, minha morte, vi os filhos que ainda não tive, vi novamente meu nascimento, vi o mundo girando, a vida rodando, um ciclo eterno e estacionário ao mesmo tempo. Desmaiei e fiquei desacordada por alguns dias.

Quando acordei, as dores de cabeça haviam passado, mas não as visões. Elas continuam, elas ocorrem simultaneamente, o tempo todo. Isto não me incomoda. E, quando ficou absurdamente claro para mim que o tempo não existe, ou melhor dizendo, apenas um tempo existe, então a face de Deus ficou nítida. Deus é o Presente. O Agora onipresente, onisciente, onipotente.

Tudo acontece no Agora. Toda nossa vida, todas as vidas, toda a existência ocorre no mesmo átimo, o que é demais para nosso cérebro abarcar. Então, ele criou o tempo: uma estrutura usada pela mente para conseguir organizar e interpretar o infinito Agora. O tempo é um simplificador da existência.

Então, você deve imaginar que a vida ficou mais fácil para mim agora que sei tudo, que vi o Agora em sua totalidade. Ledo engano. Pois eu não só vi meu futuro. Eu já o vivi. Eu o estou vivendo agora, enquanto falo com você. Eu estou nascendo, eu estou indo para a faculdade, estou me casando, estou indo ao meu primeiro dia de aula, estou sendo abandonada pelo meu noivo, estou me formando, estou tendo meu filho mais velho, estou me aposentando, estou me divorciando, estou morrendo, estou levando minha caçula a livraria, estou me casando de novo, estou acampando com meus amigos pela primeira vez.

Não se trata de ver o futuro e poder, talvez, mudá-lo com base no presente. O futuro, tal como o passado, já aconteceu. Não há mudança possível. Toda a vida está já vivida, escrita, sentida.

O lado bom é que não é possível haver arrependimentos. Ninguém se arrepende no Agora. Só é possível se arrepender no instante seguinte a ação. Instante esse que não existe para mim. E é assim que vivo eternamente minha vida inteira, em um único instante, sem arrependimentos. Não posso me arrepender de ter me colocado sempre sem segundo lugar, de não ter ido morar no exterior ou de não ter telefonado para meu irmão naquela noite que seria a última dele. Da mesma forma que não me arrependerei de ter comido escondida toda a caixa de bombons, ou de não ter ido morar com meu filho quando ele me chamou ou de ter colocado a culpa do vaso quebrado sobre meu cachorro. Nem sequer de ter causado o acidente de carro que acabou por abrir para mim as portas do tempo e me apresentar o deus Agora.

E é isto. Do nascimento a morte, vejo minha vida inteira. Só me intriga o que há além, depois do meu último suspiro cansado. Não está claro para mim. Não há um ponto final. Não o vejo. O que vejo é um túnel, ou ponte, uma estrutura que não parece sólida e que vai se tornando visível aos poucos. A cada passo, ele se torna mais visível, mais escuro e apertado. Não quero prosseguir, quero voltar. Mas algo me impele a continuar e me arrasta na única direção possível. O ar me falta, quero respirar, mas não consigo, está muito apertado e escuro. E então, sou puxada para fora, o ar frio entra enfim em meus pulmões e eu grito.

- Parabéns, é uma menina.

Sinopse

Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

O tempo, uma criação humana e apenas isso. O passado é o presente que deixou de existir e o futuro nada mais é do que o presente que ainda não começou a existir, tudo é o agora e o agora é tudo o que temos.

Prólogo

Epílogo

Conto

O mundo é redondo. Um círculo. Isso já deveria ser uma dica, mas a gente não nota.

Enquanto meu carro repetidamente girava no ar e se chocava contra algo, eu rezava para Deus como qualquer pessoa à beira do inevitável. Rezei durante todo o tempo em que estive consciente. Depois, fui engolida pela escuridão.

Quando acordei no hospital, os olhares de espanto da equipe médica me assustaram. Teria eu chegado assim tão perto da morte? A resposta era “sim”. Além dos ossos quebrados, sofri severos danos em órgãos vitais e extensas porções de meu cérebro foram afetadas. Foi um milagre eu ter acordado, ainda mais sem danos neurológicos aparentes.

Após a longa e dolorosa recuperação, voltei para casa e foi então que comecei a ver a face de Deus.

Foi bem confuso no começo. Ainda é. Em meio a cefaleias lancinantes, via constantemente imagens do passado, que atribuí à melancolia, à fragilidade emocional causada pelo trauma e à culpa. Mas as imagens eram muito detalhadas e intensas, vinham acompanhadas de emoções claras e sensações vívidas. Como era possível que eu me lembrasse do exato momento em que entrei em casa escondida de madrugada, aos 15 anos? Como era possível que eu me lembrasse do que sentia, do que estava pensando, do contato do jeans sobre minha pele, do cheiro do jasmineiro de minha mãe, da música que meu vizinho ouvia?

Eu não estava me recordando do passado. Eu o estava vivendo.

Depois, foi o futuro. Tinha vislumbres de cenas estranhas, de coisas que não compreendia. E então, um dia, a cena estranha se desenrolava diante de meus olhos e eu entendi que havia experimentado o futuro. O mais estranho é que eu não somente via o futuro. Eu sentia saudades do que via. Nostalgia do futuro.

No começo, minhas visões, ou melhor dizendo, minhas vivências, ocorriam sem controle e de forma esporádica. Pensei que estivesse enlouquecendo. Depois, subitamente, houve uma explosão de visões. Elas se sucediam rapidamente e de forma ininterrupta. Presente, passado, futuro, eu via tudo ao mesmo tempo, sem controle, sem lógica, apenas uma torrente de visões, sentimentos e sentidos. Vi meu nascimento, minha morte, vi os filhos que ainda não tive, vi novamente meu nascimento, vi o mundo girando, a vida rodando, um ciclo eterno e estacionário ao mesmo tempo. Desmaiei e fiquei desacordada por alguns dias.

Quando acordei, as dores de cabeça haviam passado, mas não as visões. Elas continuam, elas ocorrem simultaneamente, o tempo todo. Isto não me incomoda. E, quando ficou absurdamente claro para mim que o tempo não existe, ou melhor dizendo, apenas um tempo existe, então a face de Deus ficou nítida. Deus é o Presente. O Agora onipresente, onisciente, onipotente.

Tudo acontece no Agora. Toda nossa vida, todas as vidas, toda a existência ocorre no mesmo átimo, o que é demais para nosso cérebro abarcar. Então, ele criou o tempo: uma estrutura usada pela mente para conseguir organizar e interpretar o infinito Agora. O tempo é um simplificador da existência.

Então, você deve imaginar que a vida ficou mais fácil para mim agora que sei tudo, que vi o Agora em sua totalidade. Ledo engano. Pois eu não só vi meu futuro. Eu já o vivi. Eu o estou vivendo agora, enquanto falo com você. Eu estou nascendo, eu estou indo para a faculdade, estou me casando, estou indo ao meu primeiro dia de aula, estou sendo abandonada pelo meu noivo, estou me formando, estou tendo meu filho mais velho, estou me aposentando, estou me divorciando, estou morrendo, estou levando minha caçula a livraria, estou me casando de novo, estou acampando com meus amigos pela primeira vez.

Não se trata de ver o futuro e poder, talvez, mudá-lo com base no presente. O futuro, tal como o passado, já aconteceu. Não há mudança possível. Toda a vida está já vivida, escrita, sentida.

O lado bom é que não é possível haver arrependimentos. Ninguém se arrepende no Agora. Só é possível se arrepender no instante seguinte a ação. Instante esse que não existe para mim. E é assim que vivo eternamente minha vida inteira, em um único instante, sem arrependimentos. Não posso me arrepender de ter me colocado sempre sem segundo lugar, de não ter ido morar no exterior ou de não ter telefonado para meu irmão naquela noite que seria a última dele. Da mesma forma que não me arrependerei de ter comido escondida toda a caixa de bombons, ou de não ter ido morar com meu filho quando ele me chamou ou de ter colocado a culpa do vaso quebrado sobre meu cachorro. Nem sequer de ter causado o acidente de carro que acabou por abrir para mim as portas do tempo e me apresentar o deus Agora.

E é isto. Do nascimento a morte, vejo minha vida inteira. Só me intriga o que há além, depois do meu último suspiro cansado. Não está claro para mim. Não há um ponto final. Não o vejo. O que vejo é um túnel, ou ponte, uma estrutura que não parece sólida e que vai se tornando visível aos poucos. A cada passo, ele se torna mais visível, mais escuro e apertado. Não quero prosseguir, quero voltar. Mas algo me impele a continuar e me arrasta na única direção possível. O ar me falta, quero respirar, mas não consigo, está muito apertado e escuro. E então, sou puxada para fora, o ar frio entra enfim em meus pulmões e eu grito.

- Parabéns, é uma menina.

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