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A última nota do nosso réquiem

Ricardo Ventura
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Áudio drama
A última nota do nosso réquiem
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Esperança e entusiasmo elevavam nossos espíritos. Inocência e ignorância também. Olhávamos abobalhados para cima, mas ninguém lá em cima olhava para baixo. A ciência é uma religião, hoje admito. O intelecto humano supôs a história terrestre, apresentou uma infinidade de argumentos favoráveis e nossa fé manteve inabalável o ponto final no passado. Qualquer pensador que cultivasse uma história individual digna de nota se apoiava nos pilares do conhecimento, contestá-los seria vergonhoso. Afinal, por que examinaríamos páginas amareladas quando escrevíamos capítulos novos? A veneração aos ídolos da razão sustentou inúmeras correntes teóricas, entretanto, seus evangelhos estavam em grande parte errados. Veja, a Bíblia se aproximou mais da verdade do que a ciência. O Éden permanece no recôndito do universo, onde nossos ancestrais ou se esqueceram ou ainda choram por nós, suas crianças perdidas. Aconteceu com a minha tripulação e acredito que aconteceu antes. A Terra não é nosso lar original, apenas outra prisão conveniente para invasores.


Escrever se tornou meu vício favorito desde o infortúnio da Intrepidus, ou o único que me resta. Após tantos relatórios ao longo de tantos anos, parece-me que preciso registrar minha existência para validá-la, caso contrário, rejeitaria a realidade e de bom grado cederia à insânia. Minhas memórias agora ocupam cascas e folhas, qualquer superfície que aceite o lápis improvisado, ao invés de bytes espaçosos. Ainda resguardo a dignidade e, portanto, não recorri à arte rupestre. Temo a decisão seguinte se recorresse. De certo também carregaria minha companheira pelo cabelo para lá e para cá ou dirigiria um automóvel de pedra movido a sebo nas canelas. Meu jardim de palavras assim floresce, informações amontoadas que a natureza decomporá. Nossa história para ninguém, a menos que decidamos criar filhos nesse planeta dissimulado.


Queríamos crer a princípio que estávamos na Terra. A ingenuidade que brotou da angústia nos levou a considerar que a apreensão era infundada e que o suicídio a bordo se tornara ainda mais amargo diante da alegria inesperada. Alimentaríamos a ilusão por mais alguns segundos se as três luas não fossem tão evidentes no céu azul. O anel navegou entre as estrelas em uma velocidade impensável rumo ao planeta vago mais semelhante à nossa terra natal. Dedos cósmicos aterrissaram a nave, avariada e sem combustível, com a delicadeza de quem organiza sua coleção de cristais. Aquela coisa indiferente, entretanto, jamais me enganou. Não foi misericórdia ou qualquer outra forma de benevolência, foi nada além do que o cumprimento da sentença.


Discussões acerca do primeiro contato com os captores eram rotineiras, contato que erroneamente julgávamos inevitável. Encontramos atmosfera, gravidade e vegetação familiares nesse planeta, alimentamo-nos de frutos análogos aos terrestres, porém nenhum anfitrião nos recebeu e nenhuma fera nos intimida. Percorremos a ilha e não descobrimos um animal sequer. Minhas lágrimas se juntaram ao oceano quando ele nos abandonou aqui. A música incessante das ondas era uma lembrança terna de outra vida, um contraste bem-vindo à quietude do espaço. No segundo ano de exílio é perversa e enlouquecedora, não apenas porque reforça o que perdemos, mas porque a água é consciente e está determinada a repelir e a zombar do nosso empenho.


Que capitão formidável me tornei. Há sempre um ângulo positivo, e fico aliviado por desconhecer as censuras dos superiores. Até os escoteiros recusariam meus serviços se retornássemos dessa missão. A Intrepidus desbravou as margens do mapa sob o meu comando e agora sou incapaz de manter um barco fora de perigo. Ellias Synclair talvez seja mesmo uma fraude, conforme ouvi de subordinados, pois receio os pensamentos que reprimi. Naveguei através de deduções, mas prefiro ignorar as áreas nebulosas do meu próprio julgamento. Devo negar, entretanto, qualquer desalento a fim de garantir nossa sobrevivência, devo negar fraqueza inclusive no diário. Ainda assim, sou também incapaz de largar o lápis. Estou convicto de que tomei decisões razoáveis e que a desventura seguinte era imune à inteligência humana. Estaríamos à deriva em um caixão espacial se aguardássemos ou retrocedêssemos. Apesar das frustrações, ao menos há esperança. A responsabilidade é minha, porém pagamos um preço muito alto por cruzar fronteiras que ignorávamos, linhas invisíveis no vácuo que delimitam o avanço de determinadas espécies. Culpar-me é injusto.


Sabíamos que estávamos condenados e estávamos em paz. A maioria entre nós, pelo menos. Falhamos ao final, porém nossas conquistas iluminariam o caminho para a próxima expedição, e isso nos confortava, conferia honra à morte. Os acidentes infelizes inutilizaram nosso planejamento e até mesmo os planos de emergência. O sistema Arp 87 nada tinha a nos oferecer e, por mais rígido que tornássemos o racionamento, esgotamos as provisões. Vivemos ocasiões miseráveis. A nave não retornaria à Via Láctea e a ajuda jamais chegaria a tempo, salvo o serviço funerário. Adiante estava a dúvida, atrás a certeza. Preferiria, e prefiro, perder a prostrar-me. Prosseguimos, portanto, em busca de um lar provisório, uma tarefa vã que existia somente para ocupar as mentes e afugentar a melancolia, fato que ninguém ousara expressar verbalmente. Agimos com profissionalismo exemplar, isto é, até que a Intrepidus consumiu sua última porcentagem de energia e Fedorov se desesperou. Ele aproveitou a vigília para mergulhar no abismo, abriu uma porta e saltou. Deus, nosso android desistiu! O que eu, como capitão, poderia dizer ou fazer para revigorar seus espíritos? A orquestra não pode reparar notas erradas e aquela foi a última do nosso réquiem.


Paramos de sonhar a partir de então. Abandonamos postos e funções, cada um se tornou o capitão dos seus últimos momentos. Sem ordens ou deveres, parte se dedicou à introspecção e parte ao consolo sensual. Ainda hoje não sei o que pensar sobre isso, se foi uma atitude aceitável ou absurda. Jamais os repreenderia, afinal buscavam amenizar os eventos desafortunados que eu manejei. Parte preparava as despedidas que deixaríamos na Intrepidus no caso de um resgate póstumo, uma vez que a comunicação com as pontes já era inviável, enquanto a parte que carecia de vínculos na Terra celebrava a vida como podia. O testemunho de ambos os cenários seria deprimente para Fedorov. Ele era o membro mais eficiente, com certeza previu o que ocorreria nos próximos dias. Creio que uma máquina sem biografia, bastante limitada na sua capacidade de interação, renunciaria à observação impotente, ao reconhecimento da sua natureza artificial no instante derradeiro, ou ele só julgou nosso drama tedioso demais para suportar. De qualquer maneira, errou a previsão.


Reescrevia as cartas pela décima vez quando a Intrepidus começou a vibrar. Acho que eu fazia de tudo para não terminá-las, revisava vírgula por vírgula, trocava a ordem das palavras de novo e de novo, talvez porque a convicção de que haveria mais a contar estivesse à espreita. Escutei gritos e passos apressados no corredor, alguém me chamava e batia na porta, alguém estável o bastante para se lembrar da hierarquia. Somos astronautas distintos, classificamos de imediato e com precisão graus de turbulência e impacto, ou seja, conhecemos o idioma das nossas espaçonaves. Aquela vibração incógnita tateava áreas e objetos como se examinasse o que éramos e o que possuíamos. Acionei a janela, despreparado, como qualquer um estaria, para se deparar com a resposta à principal questão humana. A parede então translúcida do meu quarto revelou os outros insetos que a peneira cósmica reuniu: dezenas de veículos alienígenas exibiam sua multiplicidade fascinante de formas e tamanhos, amontoados em um pátio de sucata.


Cada espécie estava em sua respectiva jaula, mas estávamos todos no mesmo barco. A vibração invadiu e controlou os sistemas das naves, substituiu as fontes de energia por sua própria magia, apanhou-nos e garantiu que sairíamos somente se desejasse. Restou a nós, humanos ou não, admirar a descoberta mútua atrás de janelas e estudar técnicas de comunicação com silhuetas estranhas. Não estávamos amedrontados, ao contrário, ríamos e chorávamos. Eram disformes e de certo éramos monstruosos para eles também. Sei que compartilhávamos a mesma incredulidade maravilhosa, era como se houvesse espelhos entre nós. Se ao menos a circunstância do contato fosse diferente... Ou só cedo ao romantismo, e na realidade estavam frustrados porque não conseguiam explodir uns aos outros.


Chamam o cretino de Caronte, o barqueiro responsável por conduzir as almas ao além, porém creio que piscineiro seja o ofício adequado, já que apenas remove os seres indesejados e insignificantes que se aventuram na água negra e os descarta no buraco mais próximo. Há bons argumentos ao contrário, inclusive alguns que elaborei, mas revolvo o raciocínio de que aquela coisa apática é orgânica, que pensa, respira, se alimenta, excreta e comete erros, e não uma mera ferramenta. É um anel colossal, Mercúrio se encaixaria com facilidade, sem anexo aparente ou indício inequívoco de que seja tripulado. Vejo uma auréola que se perdeu do anjo titânico sobre o qual uma vez pairou, e que partiu em busca de transgressores para substituí-lo. Fomos longe demais e desrespeitamos suas regras, a humanidade e essa fanfarra extraterrestre cruzaram fronteiras proibidas e caíram em teias invisíveis no diâmetro do anel.


Aguardávamos a vinda da aranha faminta ou a impaciência da nossa própria fome, todavia, não tivemos que esperar muito. A Intrepidus e as outras naves permaneciam imóveis enquanto Caronte remava através da infinitude. O fulgor do halo às vezes se tornava ofuscante a ponto de nos obrigar a desligar as janelas, momentos em que, acreditamos, ele saltava pelo espaço e talvez também pelo tempo, seguindo o itinerário que estudou para cada um dos seus turistas atrevidos. Notávamos que o número de veículos no pátio reduzia com regularidade até que, afinal, nós desembarcamos. E foi belo, o anel nos conhecia direito. Posso odiar esse planeta por diversos motivos e ainda reconhecer sua beleza e sua conveniência. À primeira vista nosso novo lar se confunde com o antigo, é uma Nova Terra e prosperamos na ilha. Construímos uma modesta comunidade ao redor dos ossos da Intrepidus, o deus tecnológico no coração da vida tribal, embora neguemos gestações na terra estranha por ora, em parte devido à esperança que as aparições de Caronte ao longo desses dois anos reavivaram. Eles oram pela possibilidade de uma carona de volta, para junto de seus familiares e amigos. Uma tremenda estupidez, na minha opinião. As respostas não estão acima ou abaixo, estão entre nós. Apesar do que testemunhamos, continuamos sozinhos no universo e devemos bastar. Se eu reiniciasse minha vida, e é isso o que cabe à tripulação, olharia menos para o céu. Muito menos.


O barqueiro, ou a divindade por trás do barqueiro, é o ventríloquo do cosmo. Controla o destino a seu bel-prazer e articula sua voz através de fantoches. Desconhece a lógica e as leis naturais, viola qualquer previsibilidade a fim de garantir a supremacia da sua vontade. Montanhas desabam, céus e mares se curvam, invertem-se apenas para deixá-lo passar. Abandonamos os esforços para investigar o planeta além da ilha, pois o oceano está cada vez mais criativo e perigoso. Precisamos de semanas para construir uma nova embarcação e ele de horas para destruí-la. Permite que naveguemos algumas milhas e então o vento muda repentina e impetuosamente, ou as nuvens se apressam e tecem cortinas de raios, ou envia ondas em todas as direções para achincalhar a nossa teimosia. Nessas expedições falhas não houve sequer uma fatalidade, é como se houvesse limite para a execução da ordem e a água devesse nos repelir, porém nos poupar. Estamos fartos de apostar a sorte, a madeira restante agora queima para nos aquecer.


Há mais semelhanças com a Terra do que imaginamos. Um navio estrangeiro se aproxima da costa, maior do que nossos projetos somados, e o mar abre caminho com generosidade. Os bramidos ininteligíveis ecoam, as formas, entretanto, são bastante familiares. Creio que estaria menos apreensivo caso avistasse escamas e tentáculos na proa, mas são homens as criaturas que festejam o descobrimento e empunham as armas ao alto. Homens com vestimentas extravagantes, mas homens sem dúvida. Isso é desesperador. Nós somos os nativos e eles os colonizadores. Sabemos o que nos aguarda, a epopeia humana se repetirá de acordo com os caprichos do ventríloquo. Quantos simulacros da Terra existem? O que pretendem as coisas mudas que vivem para lá das fronteiras proibidas? Quantos roteiros reescreveram e a quantas apresentações da nossa tragédia já assistiram?


Eles desceram do navio, abraçavam-se e gritavam embriagados pela conquista. Abrigamo-nos na Intrepidus, contudo, algoritmos são desnecessários para prever o futuro conhecido. Ou forçarão a entrada e nos subjugarão ou consumiremos o estoque dentro da espaçonave e teremos que nos render, exceto, é claro, se finalmente a aceitarmos como caixão. Estou no final do lápis e da folha, e não posso providenciar outros. Quem sabe meus relatos terão valor arqueológico. É-me estranho escrever ao invés de dizer diante de uma câmera... Que seja.


Capitão Ellias Synclair, fim do diário de bordo da expedição 751- Intrepidus.


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