Começou, agora termina queride!

Conquista Literária
Conto publicado em
Deles era o mundo

Prólogo

Epílogo

Conto

Áudio drama
A Torre
0:00
0:00

Nós fomos abandonados, deixados para trás nessa realidade cruel, depois de anos de guerras e destruição por fim o planeta resolveu dar um basta fazendo uma longa tempestade cair sobre nós, não podemos mais ver o brilho das estrelas e o ar que respiramos por fim ceifará as nossas vidas se a fome e a enfermidade não o fizer primeiro.

Não existem mais países, as grandes cidades agora são cemitérios de concreto onde o nosso orgulho e egocentrismo  estão enterrados esperando que pouco a pouco o tempo se encarregue de apagar a nossa existência, tirando é claro pelo último monumento ainda intacto, o nosso último grande pecado contra a própria morte, a Torre Branca.

Mesmo estando a quilômetros da planície negra onde a Torre está localizada em dias em que às nuvens não estão raivosas consigo ver o brilho avermelhado que existe em seu topo, porém tento não pensar muito nela, afinal não há nada que possa fazer.

Em minhas andanças já cruzei com muitas pessoas, algumas interessantes outras perigosas, com tudo os que sempre me chamavam a atenção eram os velhos.

Sou um homem da segunda geração isso significa que nasci na época em que a tempestade cobriu metade do globo, os velhos são os da primeira geração aqueles que estavam lá quando a Torre foi construída e quando fomos abandonados se bem que deve ser estranho ser considerado velho com apenas uns quarenta anos, mas hoje em dia chegar aos quarenta é algo impossível.

Alguns velhos falavam que teríamos ao menos uma terceira geração, mas isso não aconteceu, todos aqueles que nasceram na segunda geração são inférteis, talvez isso seja algo bom, colocar mais pessoas nesse mundo cruel é praticamente um crime.

No momento eu estou em uma velha cidade, estou tentando fugir das nuvens amarelas, elas são as mais perigosas, a tempestade é como um grande quadro multicolorido onde as nuvens são como tinta se movendo sobre nossas cabeças, as nuvens cinzas trazem uma beleza branca que cai do céu na forma de fuligem, as vermelhas trazem raios e trovões, as amarelas acompanham um nevoeiro de cor amarelada que sufoca tudo que encontra enquanto as verdes trazem com sigo uma chuva tão ácida que deforma as rochas.

Está cada vez mais difícil achar abrigo da tempestade, se andasse em grupo poderia me abrigar nos velhos tanques que os pequenos bandos usam para se proteger, porém não consigo mais fazer isso, viver como um desgarrado é melhor do que se apegar a alguém que em breve irá morrer.

Depois de muito procurar finalmente achei um prédio que parecia não correr o risco de desabar, porém de nada adiantaria se não tivesse um lugar que pudesse vedar para me proteger.

O prédio parecia ser um antigo supermercado o que me deu um pouco de esperança, o lugar estava escuro, com tudo de um lugar a frente a fraca luz do sol que atravessava a expressa camada de nuvens entrava por um buraco no telhado criando um ponto iluminado.

As prateleiras estavam vazias assim como esperado, sob as minhas velhas botas podia sentir o lodo que estava impregnado no chão, eu tinha algumas coisas que podia usar para fazer fogo na minha velha mochila, mas não valia apena gasta-los em uma simples exploração, por isso vaguei pela escuridão usando o bastão de madeira que sempre trazia comigo para verificar o caminho a frente.

Eu fui rumo ao fundo do supermercado, enquanto me concentrava tanto no que meu bastão tocava quando no barulho ao redor, nesse mundo é necessário usar  o máximo de seus sentidos se quiser sobreviver.

Não pude deixar de sorrir quando ouvi o som do meu bastão batendo contra o metal, era isso que eu estava procurando uma velha câmara frigorífica, elas eram resistentes a água e muitas vezes tinham paredes expressas que as protegiam do ácido.

A primeira coisa que fiz foi procurar por qualquer abertura fora a porta pela qual entrei e para isso acendi o velho candieiro que tinha na mochila, o querosene estava quase no fim provavelmente essa era a última vez que usaria o meu velho companheiro de noites solitárias.

Para minha alegria não tinha nenhuma, com isso pude me dedicar a segunda etapa, não sabia quanto tempo tinha exatamente até a chegada do nevoeiro, nas depois de olhar as nuvens pela abertura no telhado vi que não tinha muito tempo.

A porta era pesada e as dobradiças estavam duras por causa do lodo e da ferrugem, não seria tolo de me arriscar  a fecha-la por completo, eu a deixei entre aberta e usei a velha lona alaranjada que trazia na mochila junto com uma goma que fiz com árvores mortas pela chuva para fazer uma frágil proteção na porta.

O nevoeiro era acompanhando por uma brisa leve então não precisava me preocupar com o vento ou qualquer outra coisa que pudesse lascar a lona, mesmo assim isso era longe de ser um proteção adequada se o nevoeiro durasse mais que uma noite eu provavelmente morreria.

Depois que fiz a proteção me recolhi em um canto, precisava dormir mesmo não gostando da escuridão sabia que não poderia ficar mais tempo na luz, quando apaguei o candieiro e a escuridão me devorou me permitir pensar no futuro, o que faria até o dia que a natureza cruel me matasse, mas esse não era o único pensamento que tinha.

Sempre nesses momentos eu penso nela, na Torre Branca e naqueles que vivem nela ou melhor existem. A Torre Branca é só o nome popular segundo um velho que conheci, o nome oficial era N.W. a sigla para novo mundo em inglês.

No início dessa era maldita depois da última grande guerra, ela foi construída com o objetivo de vencer a morte, um mundo de fantasia onde as pessoas poderiam abandonar a sua carne e viver eternamente, porém esse era o mundo de poucos.

A guerra terminou por destruir este mundo, ninguém mais queria viver nele, porém viver nas estrelas era um sonho ainda distante e tudo que nós restava era um solo podre e um ar venenoso, mas para quem tinha poder no velho mundo tudo era possível.

Em um último esforço eles se aliaram aos governos em uma empreitada insana, transferir a mente humana para um computador e com isso jogaram fora os nossos últimos recursos para construir a Torre e assim viverem eternos em sua fortaleza onde a sua tecnologia avançada os protege da ira do mundo que eles mataram.

Talvez eu seja rancoroso demais com eles, afinal não foram só eles que destruíram tudo, foram todas as pessoas que viram o mundo morrer e sentaram no sofá sem se importar com que tipo de tormento seus filhos teriam que lidar.

Em meio a escuridão escuto um ruído, um som baixo e fanho como o de um roedor sem muito me agitar agarro o meu bastão, ele têm uma massa arredondada na ponta que fiz com barro e alguns casos de vidro.

Me concentrando no som fiquei de pé e com um movimento rápido atingi o pequeno animal que gritou e por fim ficou em silêncio, fazia meses que não comia carne quando o nevoeiro passasse uma das primeiras coisas que faria seria prepara-lo.

Em algum momento eu adormeci e quando acordei não sabia quanto tempo poderia ter passado, mas com certeza foram mais que alguns minutos, remexi o interior da minha mochila para pegar as roupas mais pesadas, que poderia usar para cobrir todo o meu corpo, assim como a velha máscara de gás.

Com as roupas e a máscara eu poderia durar um pouco durante o nevoeiro, não pude deixar de sentir o meu coração pulsar mais rápido enquanto puxava a lona, usando o pouco de querosene que me restava iluminei o ar fora da câmara e com uma respiração mais aliviada constatei que a névoa já havia passado.

Voltando para dentro da câmara peguei o pequeno roedor e o resto das minhas coisas e resolvi partir, o sol ainda não tinha saído e a noite era como um mar de trevas mesmo assim não tive medo, tinha o meu bastão para me ajudar com o caminho e a noite nada mais era que o dia sem luz, pois tanto sobre o brilho fraco do sol quanto na escuridão da noite, todos os monstros jaziam mortos tirando o maior de todos o bicho homem.

Depois de alguns quilômetros o dia começou a raiar e o colorido das nuvens começou a ficar mais nítido, elas eram vermelhas o que significava que em breve raios e trovões castigariam a região, mas isso não importava muito no momento, pois tinha encontrado uma caravana ou melhor o que sobrou dela.

As caravanas eram um comboio com no máximo oito carroças, que eram velhos tanques alguns de indústrias outros improvisados com sucata arrastados para cima e para baixo pelas pessoas, contendo tudo o que tinham de precioso assim como a proteção necessária contra o nevoeiro e a chuva.

A primeira coisa que fiz foi checar os tanques de segurança que eram os mais bens conservados para poder abrigar as pessoas, não foi uma grande surpresa para mim ver que estavam mortos isso também acontecia, tanques velhos enferrujam e muitas das vezes as pessoas ficavam presas dentro deles ou então eram vítimas da névoa que entrava pelos furos.

Com todos mortos tentei ver se tinham algo útil com tudo não tinham praticamente nada, apenas trapos como vestimentas e nenhuma reserva de comida. De nada adiantaria me prolongar mais naquela região tentaria subir a montanha durante o dia e talvez assim chegar até a planície rochosa em alguns dias depois de passar pelo vale morto.

Dizem que a tempestade é mais amena na planície rochosa, mas não sei se é verdade, ficar parado ou ir em frente sempre me parece a escolha entre dois caminhos para a morte, porém ficar parado é simplesmente desistir e não sou do tipo de pessoa que desisti.

Assim como as nuvens vermelhas indicavam não demorou para raios rasgarem o céu e o brilho dos trovões iluminarem o horizonte, agora na parte mais alta da região ao pé da montanha não pude deixar de parar alguns segundos para ver o espetáculo macabro.

Os raios atingiam o topo dos prédios um atrás do outro como se atraídos por uma força invisível, alguns até mesmo começavam a pegar fogo criando chamas de um brilho azulado, era só questão de tempo até que todos os grandes prédios tombassem  no chão e o fogo os consumisse.

Ainda lembro de uma cidade ao sul por onde passei umas três vezes na época em que tinha uma caravana, na primeira ainda tinha grandes prédios, muitos queimados e com as faces deformadas porém de pé, na segunda vez não tinha nem metade deles de pé e na terceira o local virou uma pilha de escombros.

Tentando não perder mais tempo, comecei a subir a montanha, o chão era cheio de pedras e as grandes rochas eram pretas como se tivessem sido queimadas, não havia sinal de vegetação  tirando pelos cogumelos e fungos que crescem escondidos nas rachaduras da montanha.

Eu tentei procurar algum comestível, mas não tive sorte, eu já tinha andado por algum tempo quando resolvi tratar o rato, ele era relativamente grande para um rato moderno com seus dez centímetros, daria uma refeição boa, desde que estivesse bom para comer.

Com a faca que trazia comigo abri o peito do animal, queria ver o seus pulmões, dependendo da cor eu poderia come-lo, eu não tive sorte dessa vez, os pulmões dele estavam negros cobertos com um visgo escuro, essa era a peste que contaminou quase todos os animais.

Ratos e alguns pássaros eram os únicos que podiam viver com a doença, os demais assim como as pessoas morriam de forma lenta e dolorosa se pegassem. Essa doença enchia os pulmões desse visgo e então sufocava as pessoas lentamente, enquanto a febre alta causa alucinações e dores por todo o corpo que inchava como um balão.

Com um pouco de raiva joguei o rato fora, hoje assim como ontem não teria nada para comer, o vento na montanha é sempre frio e forte o que combinado com o peso da mochila me causou muita dificuldade para passar apenas da primeira metade da face norte.

Descer e tentar dar a volta me pareceu uma ideia muito agradável, mas as nuvens estavam cada vez mais difíceis de prever se perdesse tempo dando a volta muito provavelmente acabaria debaixo da chuva ácida ou preso no nevoeiro.

Com determinação continuei a subir parando um pouco para beber o resto de água salobra que tinha.

O dia já estava quase no fim quando  cheguei a trilha que levava da face norte para o vale morto um velho caminho por entre as montanhas onde corre um rio de lodo que segue em seu fluxo lendo entre as árvores mortas até a planície rochosa, mas isso não me trouxe nenhum alívio pois as nuvens sempre tão imiscíveis estavam se misturando em uma grande tempestade cor de arco-íris.

Eu nunca tinha visto uma dessas era lindo e ao mesmo tempo uma possibilidade completamente nova de morte, retornar era o certo a se fazer, porém ao longe vinda da região a onde estava outra grande nuvem amarela aparecia no horizonte se sobrepondo as nuvens vermelhas, não conseguiria descer a montanha a tempo.

Como disse antes a vida me parece como uma escolha entre duas formas diferentes de morrer, porém nessa situação escolheria o terceiro caminho subiria até o topo da montanha e tentaria ficar acima do nevoeiro, escondido em uma caverna ou entre as rochas se der.

Subi o máximo que deu até ficar completamente escuro, tirando pelas luzes dos trovões que davam contornos sinistros as sombras da montanha, usei o pouco de goma que me restava para prender a lona nas bordas de uma fenda que existia entre dois grandes blocos rochosos que tombaram.

A lona não era capaz de fechar a fenda por completo, por isso o vento entrava e acertava o meu rosto, ao longe já conseguia vez a névoa vindo em direção a montanha não tinha nada que pudesse fazer além de esperar.

Remexi em minha mochila a procura do velho adereço que sempre trazia comigo, um velho espelho, era difícil ver o meu reflexo só com o brilho dos raios e trovões, mas eu sabia o que estava lá mesmo no escuro, debaixo da minha mascara e das roupas pesadas.

Acho que para as pessoas de antigamente eu séria horrendo afinal meu rosto é queimado pelo ácido, meus olhos sempre irritados mesmo com os óculos tem um aspecto vermelho alucinado e meu cabelo é cheio de buracos, enquanto os tufos que me restaram são finos e quebradiços, essa é a nossa face, a face dos últimos humanos que caminham nessa terra amaldiçoada rumo a morte proclamada.

Gostaria de poder olhar as pessoas que fizeram isso comigo e com o mundo nos olhos e perguntar, estão felizes agora? Gostam do que veem? Mas sei que isso não é possível, pois o velhos egoístas que me condenaram a essa vida sofrida estão em seu novo mundo de onde só consigo ver o brilho avermelhado de sua Torre ao longe se perdendo no horizonte deixando assim a ordem desse mundo destruído inalterável, sob o brilho dos trovões me deito para dormir e com o cheiro familiar da podridão adormeço na esperança de que talvez amanhã acorde vivo, mas se não acordar talvez não seja tão ruim também.

Prólogo

Epílogo

Conto

Nós fomos abandonados, deixados para trás nessa realidade cruel, depois de anos de guerras e destruição por fim o planeta resolveu dar um basta fazendo uma longa tempestade cair sobre nós, não podemos mais ver o brilho das estrelas e o ar que respiramos por fim ceifará as nossas vidas se a fome e a enfermidade não o fizer primeiro.

Não existem mais países, as grandes cidades agora são cemitérios de concreto onde o nosso orgulho e egocentrismo  estão enterrados esperando que pouco a pouco o tempo se encarregue de apagar a nossa existência, tirando é claro pelo último monumento ainda intacto, o nosso último grande pecado contra a própria morte, a Torre Branca.

Mesmo estando a quilômetros da planície negra onde a Torre está localizada em dias em que às nuvens não estão raivosas consigo ver o brilho avermelhado que existe em seu topo, porém tento não pensar muito nela, afinal não há nada que possa fazer.

Em minhas andanças já cruzei com muitas pessoas, algumas interessantes outras perigosas, com tudo os que sempre me chamavam a atenção eram os velhos.

Sou um homem da segunda geração isso significa que nasci na época em que a tempestade cobriu metade do globo, os velhos são os da primeira geração aqueles que estavam lá quando a Torre foi construída e quando fomos abandonados se bem que deve ser estranho ser considerado velho com apenas uns quarenta anos, mas hoje em dia chegar aos quarenta é algo impossível.

Alguns velhos falavam que teríamos ao menos uma terceira geração, mas isso não aconteceu, todos aqueles que nasceram na segunda geração são inférteis, talvez isso seja algo bom, colocar mais pessoas nesse mundo cruel é praticamente um crime.

No momento eu estou em uma velha cidade, estou tentando fugir das nuvens amarelas, elas são as mais perigosas, a tempestade é como um grande quadro multicolorido onde as nuvens são como tinta se movendo sobre nossas cabeças, as nuvens cinzas trazem uma beleza branca que cai do céu na forma de fuligem, as vermelhas trazem raios e trovões, as amarelas acompanham um nevoeiro de cor amarelada que sufoca tudo que encontra enquanto as verdes trazem com sigo uma chuva tão ácida que deforma as rochas.

Está cada vez mais difícil achar abrigo da tempestade, se andasse em grupo poderia me abrigar nos velhos tanques que os pequenos bandos usam para se proteger, porém não consigo mais fazer isso, viver como um desgarrado é melhor do que se apegar a alguém que em breve irá morrer.

Depois de muito procurar finalmente achei um prédio que parecia não correr o risco de desabar, porém de nada adiantaria se não tivesse um lugar que pudesse vedar para me proteger.

O prédio parecia ser um antigo supermercado o que me deu um pouco de esperança, o lugar estava escuro, com tudo de um lugar a frente a fraca luz do sol que atravessava a expressa camada de nuvens entrava por um buraco no telhado criando um ponto iluminado.

As prateleiras estavam vazias assim como esperado, sob as minhas velhas botas podia sentir o lodo que estava impregnado no chão, eu tinha algumas coisas que podia usar para fazer fogo na minha velha mochila, mas não valia apena gasta-los em uma simples exploração, por isso vaguei pela escuridão usando o bastão de madeira que sempre trazia comigo para verificar o caminho a frente.

Eu fui rumo ao fundo do supermercado, enquanto me concentrava tanto no que meu bastão tocava quando no barulho ao redor, nesse mundo é necessário usar  o máximo de seus sentidos se quiser sobreviver.

Não pude deixar de sorrir quando ouvi o som do meu bastão batendo contra o metal, era isso que eu estava procurando uma velha câmara frigorífica, elas eram resistentes a água e muitas vezes tinham paredes expressas que as protegiam do ácido.

A primeira coisa que fiz foi procurar por qualquer abertura fora a porta pela qual entrei e para isso acendi o velho candieiro que tinha na mochila, o querosene estava quase no fim provavelmente essa era a última vez que usaria o meu velho companheiro de noites solitárias.

Para minha alegria não tinha nenhuma, com isso pude me dedicar a segunda etapa, não sabia quanto tempo tinha exatamente até a chegada do nevoeiro, nas depois de olhar as nuvens pela abertura no telhado vi que não tinha muito tempo.

A porta era pesada e as dobradiças estavam duras por causa do lodo e da ferrugem, não seria tolo de me arriscar  a fecha-la por completo, eu a deixei entre aberta e usei a velha lona alaranjada que trazia na mochila junto com uma goma que fiz com árvores mortas pela chuva para fazer uma frágil proteção na porta.

O nevoeiro era acompanhando por uma brisa leve então não precisava me preocupar com o vento ou qualquer outra coisa que pudesse lascar a lona, mesmo assim isso era longe de ser um proteção adequada se o nevoeiro durasse mais que uma noite eu provavelmente morreria.

Depois que fiz a proteção me recolhi em um canto, precisava dormir mesmo não gostando da escuridão sabia que não poderia ficar mais tempo na luz, quando apaguei o candieiro e a escuridão me devorou me permitir pensar no futuro, o que faria até o dia que a natureza cruel me matasse, mas esse não era o único pensamento que tinha.

Sempre nesses momentos eu penso nela, na Torre Branca e naqueles que vivem nela ou melhor existem. A Torre Branca é só o nome popular segundo um velho que conheci, o nome oficial era N.W. a sigla para novo mundo em inglês.

No início dessa era maldita depois da última grande guerra, ela foi construída com o objetivo de vencer a morte, um mundo de fantasia onde as pessoas poderiam abandonar a sua carne e viver eternamente, porém esse era o mundo de poucos.

A guerra terminou por destruir este mundo, ninguém mais queria viver nele, porém viver nas estrelas era um sonho ainda distante e tudo que nós restava era um solo podre e um ar venenoso, mas para quem tinha poder no velho mundo tudo era possível.

Em um último esforço eles se aliaram aos governos em uma empreitada insana, transferir a mente humana para um computador e com isso jogaram fora os nossos últimos recursos para construir a Torre e assim viverem eternos em sua fortaleza onde a sua tecnologia avançada os protege da ira do mundo que eles mataram.

Talvez eu seja rancoroso demais com eles, afinal não foram só eles que destruíram tudo, foram todas as pessoas que viram o mundo morrer e sentaram no sofá sem se importar com que tipo de tormento seus filhos teriam que lidar.

Em meio a escuridão escuto um ruído, um som baixo e fanho como o de um roedor sem muito me agitar agarro o meu bastão, ele têm uma massa arredondada na ponta que fiz com barro e alguns casos de vidro.

Me concentrando no som fiquei de pé e com um movimento rápido atingi o pequeno animal que gritou e por fim ficou em silêncio, fazia meses que não comia carne quando o nevoeiro passasse uma das primeiras coisas que faria seria prepara-lo.

Em algum momento eu adormeci e quando acordei não sabia quanto tempo poderia ter passado, mas com certeza foram mais que alguns minutos, remexi o interior da minha mochila para pegar as roupas mais pesadas, que poderia usar para cobrir todo o meu corpo, assim como a velha máscara de gás.

Com as roupas e a máscara eu poderia durar um pouco durante o nevoeiro, não pude deixar de sentir o meu coração pulsar mais rápido enquanto puxava a lona, usando o pouco de querosene que me restava iluminei o ar fora da câmara e com uma respiração mais aliviada constatei que a névoa já havia passado.

Voltando para dentro da câmara peguei o pequeno roedor e o resto das minhas coisas e resolvi partir, o sol ainda não tinha saído e a noite era como um mar de trevas mesmo assim não tive medo, tinha o meu bastão para me ajudar com o caminho e a noite nada mais era que o dia sem luz, pois tanto sobre o brilho fraco do sol quanto na escuridão da noite, todos os monstros jaziam mortos tirando o maior de todos o bicho homem.

Depois de alguns quilômetros o dia começou a raiar e o colorido das nuvens começou a ficar mais nítido, elas eram vermelhas o que significava que em breve raios e trovões castigariam a região, mas isso não importava muito no momento, pois tinha encontrado uma caravana ou melhor o que sobrou dela.

As caravanas eram um comboio com no máximo oito carroças, que eram velhos tanques alguns de indústrias outros improvisados com sucata arrastados para cima e para baixo pelas pessoas, contendo tudo o que tinham de precioso assim como a proteção necessária contra o nevoeiro e a chuva.

A primeira coisa que fiz foi checar os tanques de segurança que eram os mais bens conservados para poder abrigar as pessoas, não foi uma grande surpresa para mim ver que estavam mortos isso também acontecia, tanques velhos enferrujam e muitas das vezes as pessoas ficavam presas dentro deles ou então eram vítimas da névoa que entrava pelos furos.

Com todos mortos tentei ver se tinham algo útil com tudo não tinham praticamente nada, apenas trapos como vestimentas e nenhuma reserva de comida. De nada adiantaria me prolongar mais naquela região tentaria subir a montanha durante o dia e talvez assim chegar até a planície rochosa em alguns dias depois de passar pelo vale morto.

Dizem que a tempestade é mais amena na planície rochosa, mas não sei se é verdade, ficar parado ou ir em frente sempre me parece a escolha entre dois caminhos para a morte, porém ficar parado é simplesmente desistir e não sou do tipo de pessoa que desisti.

Assim como as nuvens vermelhas indicavam não demorou para raios rasgarem o céu e o brilho dos trovões iluminarem o horizonte, agora na parte mais alta da região ao pé da montanha não pude deixar de parar alguns segundos para ver o espetáculo macabro.

Os raios atingiam o topo dos prédios um atrás do outro como se atraídos por uma força invisível, alguns até mesmo começavam a pegar fogo criando chamas de um brilho azulado, era só questão de tempo até que todos os grandes prédios tombassem  no chão e o fogo os consumisse.

Ainda lembro de uma cidade ao sul por onde passei umas três vezes na época em que tinha uma caravana, na primeira ainda tinha grandes prédios, muitos queimados e com as faces deformadas porém de pé, na segunda vez não tinha nem metade deles de pé e na terceira o local virou uma pilha de escombros.

Tentando não perder mais tempo, comecei a subir a montanha, o chão era cheio de pedras e as grandes rochas eram pretas como se tivessem sido queimadas, não havia sinal de vegetação  tirando pelos cogumelos e fungos que crescem escondidos nas rachaduras da montanha.

Eu tentei procurar algum comestível, mas não tive sorte, eu já tinha andado por algum tempo quando resolvi tratar o rato, ele era relativamente grande para um rato moderno com seus dez centímetros, daria uma refeição boa, desde que estivesse bom para comer.

Com a faca que trazia comigo abri o peito do animal, queria ver o seus pulmões, dependendo da cor eu poderia come-lo, eu não tive sorte dessa vez, os pulmões dele estavam negros cobertos com um visgo escuro, essa era a peste que contaminou quase todos os animais.

Ratos e alguns pássaros eram os únicos que podiam viver com a doença, os demais assim como as pessoas morriam de forma lenta e dolorosa se pegassem. Essa doença enchia os pulmões desse visgo e então sufocava as pessoas lentamente, enquanto a febre alta causa alucinações e dores por todo o corpo que inchava como um balão.

Com um pouco de raiva joguei o rato fora, hoje assim como ontem não teria nada para comer, o vento na montanha é sempre frio e forte o que combinado com o peso da mochila me causou muita dificuldade para passar apenas da primeira metade da face norte.

Descer e tentar dar a volta me pareceu uma ideia muito agradável, mas as nuvens estavam cada vez mais difíceis de prever se perdesse tempo dando a volta muito provavelmente acabaria debaixo da chuva ácida ou preso no nevoeiro.

Com determinação continuei a subir parando um pouco para beber o resto de água salobra que tinha.

O dia já estava quase no fim quando  cheguei a trilha que levava da face norte para o vale morto um velho caminho por entre as montanhas onde corre um rio de lodo que segue em seu fluxo lendo entre as árvores mortas até a planície rochosa, mas isso não me trouxe nenhum alívio pois as nuvens sempre tão imiscíveis estavam se misturando em uma grande tempestade cor de arco-íris.

Eu nunca tinha visto uma dessas era lindo e ao mesmo tempo uma possibilidade completamente nova de morte, retornar era o certo a se fazer, porém ao longe vinda da região a onde estava outra grande nuvem amarela aparecia no horizonte se sobrepondo as nuvens vermelhas, não conseguiria descer a montanha a tempo.

Como disse antes a vida me parece como uma escolha entre duas formas diferentes de morrer, porém nessa situação escolheria o terceiro caminho subiria até o topo da montanha e tentaria ficar acima do nevoeiro, escondido em uma caverna ou entre as rochas se der.

Subi o máximo que deu até ficar completamente escuro, tirando pelas luzes dos trovões que davam contornos sinistros as sombras da montanha, usei o pouco de goma que me restava para prender a lona nas bordas de uma fenda que existia entre dois grandes blocos rochosos que tombaram.

A lona não era capaz de fechar a fenda por completo, por isso o vento entrava e acertava o meu rosto, ao longe já conseguia vez a névoa vindo em direção a montanha não tinha nada que pudesse fazer além de esperar.

Remexi em minha mochila a procura do velho adereço que sempre trazia comigo, um velho espelho, era difícil ver o meu reflexo só com o brilho dos raios e trovões, mas eu sabia o que estava lá mesmo no escuro, debaixo da minha mascara e das roupas pesadas.

Acho que para as pessoas de antigamente eu séria horrendo afinal meu rosto é queimado pelo ácido, meus olhos sempre irritados mesmo com os óculos tem um aspecto vermelho alucinado e meu cabelo é cheio de buracos, enquanto os tufos que me restaram são finos e quebradiços, essa é a nossa face, a face dos últimos humanos que caminham nessa terra amaldiçoada rumo a morte proclamada.

Gostaria de poder olhar as pessoas que fizeram isso comigo e com o mundo nos olhos e perguntar, estão felizes agora? Gostam do que veem? Mas sei que isso não é possível, pois o velhos egoístas que me condenaram a essa vida sofrida estão em seu novo mundo de onde só consigo ver o brilho avermelhado de sua Torre ao longe se perdendo no horizonte deixando assim a ordem desse mundo destruído inalterável, sob o brilho dos trovões me deito para dormir e com o cheiro familiar da podridão adormeço na esperança de que talvez amanhã acorde vivo, mas se não acordar talvez não seja tão ruim também.

Para continuar lendo
Clube do Livro

Quer ler esse conto?

Vem fazer parte do Planeta Roxo, nosso clube do livro de terror e ficção científica. Dois contos originais e um clássico todos os meses.

Ambiente de leitura
Claro
Cinza
Sépia
Escuro
-T
Tamanho de Fonte
+T
Ícone de DownloadÍcone de formato de leitura
Ambiente de Leitura
Voltar ao topo

O hub de Literatura Nacional mais legal da internet. Explore o desconhecido e descubra o inimaginável.

Logo do Planeta Roxo, clube do livro digital da Bilbbo

Clube do Livro digital da Bilbbo. Todo mês novos envios para le.

Entre no clube
Logo Viralume, frente de conteúdo sobre o mercado literário da Bilbbo.

Frente de conteúdo da Bilbbo sobre Literatura.

Ouça
Logo Mini, publicações curtas da Bilbbo.

Mini Contos da Bilbbo que que de pequenas não possuem nada.

Leia agora