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Já estava tarde, o ar úmido e quente me dizia que era hora de voltar. Investiguei todas as armadilhas ao redor da casa, mas não tivemos sorte o veneno havia exterminado a maior parte dos insetos.

Rafael Carvalho
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A Subida
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Já estava tarde, o ar úmido e quente me dizia que era hora de voltar. Investiguei todas as armadilhas ao redor da casa, mas não tivemos sorte o veneno havia exterminado a maior parte dos insetos. Enrolei o pouco que consegui da melhor forma que pude com a seda que ainda me restava, sabia que aquilo mal me alimentaria e precisava deixar tudo para os pequenos que nascessem. Sem perder tempo coloquei o embrulho nas costas e iniciei meu caminho de volta para casa.

Quando cheguei ao pé da parede as primeiras gotas de chuva já caiam, orei a Anansi¹ para que conseguisse chegar antes que os pequenos começassem a eclodir. A subida não deveria ser difícil, mas era perigosa e precisava ser feita com cautela para não despertar atenção de Mabouia², o embrulho amarrado nas costas e as condições de tempo diminuiriam à chance de escapar dela.

Havia subido menos de um metro quando uma forte rajada de vento fez meu corpo balançar, se a chuva já estivesse escorrendo não conseguiria me manter presa à parede.

Subi mais um metro, faltava menos da metade, Anansi ouviu minhas preces e conseguiria chegar a tempo no ninho, meus sentidos começaram a zunir, era Mabouia, só poderia ser ela, ainda não conseguia ver ela, mas sentia sua língua vibrando e provando o ar que também me cercava.

Bastou uma rápida olhada ao redor para enxergar ela, seu corpo parcialmente camuflado pela tinta descascada quase me impedia de perceber sua presença ali, ainda sim seria impossível não ver aqueles olhos negros vidrados em mim esperando a hora certa para fazer sua refeição.

Apressei a subida, minhas pernas escalando tão rápido quanto possível aquela parede velha e calidamente branca.

A chuva apertou ao mesmo tempo que Mabouia deu suas primeiras passadas em minha direção. Não poderia seguir para a toca e deixar que ela achasse os ovos, precisei trocar meu trajeto para ficar longe do ninho e isso diminuiu meu ritmo, era inevitável agora ser pega, pedi com força para que às teias do destino escolhessem a minha sorte.

As vezes o que te derruba também é o que te salva, no momento que Mabouia lanchou língua em minha direção veio a chuva forte e me derrubou, meu corpo sendo jogado onde teve início minha subida, um corpo caindo, mas um corpo salvo.

Apenas um segundo separou o tempo, entre ser derrubada pela chuva e estar jogada no chão. Olhei para cima buscando na imensidão da parede o olhar de Mabouia, mas não à vi, a chuva já estava passando e o sol já vinha surgindo e estava na hora de continuar a subir.

Estava cansada, quase sem energias, mas lembrei que precisava estar junto dos filhotes quando saíssem dos ovos para que não se perdessem. Além disso, se não tivessem alimento nas primeiras horas depois do nascimento, poderiam acabar devorando uns aos outros, mas não iria entregar meus filhos a esse destino cruel, minha teimosia em salvar eles não permitiria que isso acontecesse.

O medo do pior acontecer com os pequenos me deu força para não desistir e escalei a parede o mais rápido que antes, cheguei ao ponto de onde havia caído com metade do tempo gasto anteriormente. Meu algoz estava lá a minha espera, dessa vez não iria fugir e faria de tudo para chegar ao meu destino.

Em uma luta direta seria devorada imediatamente, meu corpo era muito mais frágil, porém, eu era melhor que um simples corpo. Tracei um plano perigoso, mas necessário.

Sabia que poderia morrer ali, não podia hesitar, tinha que seguir o plano, passei bem próxima a Mabouia e ela avançou em minha direção com o olhar cego que traz a arrogância daquele que sabe que já venceu. A chuva forte deixou parte da tinta da parede prestes a cair e eu contava com a ajuda dela nesse momento, olhei para trás e estava quase sendo pega, passei rapidamente pela tinta prestes a descascar, mesmo em velocidade cuidei para tocar somente as partes ainda firmes da tinta e mal provoquei um trepidar em sua folha que se desprendia da parede, com os olhos fixos em mim e sedentos de raiva Mabouia investia com fúria sobre o caminho de tinta quase solta.

Os olhos de Mabouia se mantiveram fixos em mim, enquanto seu corpo caía pelo ar ainda grudado aquela lasca branca desprendida de tinta.

Segui minha jornada a tempo de ver o primeiro filhote romper o ovo, a felicidade de ter conseguido era maior que qualquer cansaço ou fome, trazia a certeza de que amanhã seria mais um dia de subidas e descidas pela parede da vida.

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