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A Semente do Céu
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A Semente do Céu
Áudio drama
A Semente do Céu
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

O problema nunca foi a existência dos bairros planejados. O problema é quem está ou não incluído nesses planos.

Este bairro é território humano. Casas para humanos, ruas para humanos com calçadas para humanos e, claro, prédios para humanos. Eles nunca aceitariam que eu dissesse que é “território” deles. Diriam que é uma expressão que incentiva a desunião, o ódio, e começariam um longo discurso sobre igualdade. Mas é claro que a explicação, durante todo o tempo, seria precedida ou interrompida por termos como "você pode não saber", "vocês são bem-vindos", "respeitamos as diferenças e vocês são membros importantes da comunidade" e "para nós, humanos...".

"Nós" e "vocês". E certamente nós somos chamados de "eles", quando não estamos por perto. Não conseguem viver sem destacar as diferenças que dizem não existir ou serem de fácil eliminação. E mesmo que não digam nada, o bairro é um manifesto que repetidamente nos diz que não somos bem-vindos.

Não bastasse a frequência superior com que a polícia nos para, há a desconfiança clara deles com os transeuntes mais parecidos comigo do que com eles. Além disso, qualquer um dos eventuais crimes de ódio é rapidamente minimizado e abafado, pois não é interessante que levantem essa discussão.

Mesmo na estrutura: tudo que é detalhe nas ruas e moradias da região frequentemente grita sobre a incapacidade e ausência total de vontade dos humanos de receber quem é diferente. Começa nas calçadas — incapazes de receber órgãos de locomoção não-humanos, seja com escolhas infelizes de material ou buracos de escoamento e texturas que parecem propositadamente projetados para nos prejudicar —, e segue para maçanetas, largura de portas e passagens, bancos públicos nas praças, e até mesmo escolhas descaradas de iluminação prejudiciais ou irritantes para os órgãos de visão de muitos de nós.

Somos nós, não os humanos, que temos que usar equipamento adaptativo. Somos nós que temos que domar desproporcionalmente nossa biologia, ou nos ausentarmos de ambientes a que não podemos nos adaptar. E, enquanto isso, temos que mostrar-nos felizes, satisfeitos e respeitosos, porque, se respondermos com hostilidade, qualquer uma dessas medidas será entendida como justificada e nós como inescapavelmente errados.

As máquinas se adaptam melhor que nós. As dependentes não questionam, e são construídas para funcionarem apesar de tudo. As independentes se modificam para encontrar meios de adaptação. Algumas mostram certa simpatia por nós, mas predomina a sensação de que não querem causar problemas para si mesmas nos ajudando ou interferindo nas decisões dos humanos.

Eu tenho uma moradia e, como acontece com a maior parte das residências para não-humanos, ela é uma construção humana que foi adaptada para meu corpo e estilo de vida. O meu lar, ao menos, é teoricamente território livre para as alterações que eu desejar. É claro, porém, que tenho que respeitar regras específicas de materiais, aparência e funcionalidades da moradia, para que ela não destoe dos padrões da comunidade, que são definidos por humanos. 

Seguir as regras, na prática, não basta. É inegável o número anormal de visitas policiais para inspeções que dizem ser rotineiras, isso quando não surgem com alguma acusação da qual tenho que me defender, mesmo que não tenham provas de qualquer envolvimento meu. Isso se aplica, é claro, para todos os outros do bairro que se parecem comigo. “Nós” somos sujeitos a esse tratamento de maneira desproporcional por “Eles”, pois estamos no território que não é nosso. Não preciso nem dizer que qualquer diálogo ou escrita em linguagens não-humanas são vistos com muita suspeita, por princípio.

Atrás da minha casa, depois de uma faixa de rua e calçadas, existe um parque. Informaram-me que é um ambiente reproduzido, com grama verde, árvores, caminhos de terra batida ou pedra, mais um lago com peixes clonados. É agradável, e ocasionalmente é uma opção de lazer quando não existem aglomerações muito grandes de humanos. É claro que evitamos formar grupos grandes, para não atrair a atenção, mas lá é possível descontrair e curtir algo diferente do que o metal e concreto. Tudo bem que os bancos, máquinas de exercícios e brinquedos não foram feitos para nós. Mas podemos sentar na grama e ao pé das árvores. Conseguimos ter alguma paz.

Mas esse simulacro de paz sumiu com a chegada da Semente do Céu, e nunca se recuperou totalmente, nem mesmo depois de anos.

O fenômeno, em si, não era novidade: todos conheciam as Sementes há alguns anos, e as quedas vinham ocorrendo com uma frequência cada vez maior. 

Não sei dizer o povo que originou esse conceito. Suspeito que os humanos afirmariam que sem dúvida foram eles os inventores, e suspeito que meu desconhecimento talvez seja uma omissão proposital da origem da tecnologia, mas as Sementes do Céu são cápsulas de sustentação de vida. Grandes formações com o formato de ovos ou grãos, resultantes de um maquinário de sistemas de preservação de vida de colônias espaciais e de naves dos mais diversos fins.

Quando um acidente ocorre em qualquer veículo ou instalação fora de órbita — explosão, despressurização, colisão, ataque, entre outros —, os sistemas são configurados para envolver todos os sobreviventes em uma espuma de suspensão e projetá-los para fora da região comprometida com um invólucro metálico. O indivíduo é então propulsionado em direção à superfície mais viável para sobrevivência, onde a semente irá se acoplar para aproveitar recursos naturais da região, convertendo-os para restaurar o corpo contido no interior da semente.

O histórico de acidentes que ativaram sementes não é tão grande assim, mas vários deles lançaram populações inteiras pelo cosmos. A falha da tecnologia é ser perfeita demais, de modo que a semente necessariamente deve ser plantada, e não pode ser colhida no espaço. Se uma semente se encontrar com uma nave, sobrevivendo ao impacto, ela tentará se plantar em sua superfície. Vários veículos já foram perdidos por conta de situações do tipo, em que as sementes exauriram rapidamente os meios de sobrevivência ou simplesmente as danificaram demais. Assim, ainda que saibamos onde estão pairando pelo espaço, as únicas iniciativas de resgate são, geralmente, de desvios de rotas e órbitas.

Nós já sabíamos, assim, o dia em que a semente iria pousar no parque. O local havia sido escolhido propositadamente, pois o ambiente oferecia nutrientes extremamente necessários para a restauração da vida que se encontrava na cápsula. As Sementes eram hermeticamente fechadas até mesmo para aparelhagem de análise, impedindo os cientistas de precisarem as circunstâncias de encapsulamento e o estado do ser no interior, mas a sujeira e o estado do metal, juntamente com o registro na superfície — data referencial, motivo do encapsulamento e, em alguns casos, estação ou veículo de origem — eram o suficiente para suposições embasadas.

Na tarde do impacto, a polícia cercou toda a região do parque. Um grupo de cientistas humanos, com roupas protetoras, se preparava para registrar a chegada e analisar o estado da Semente. A própria imprensa assistia de longe, com os moradores vindo em seguida. Os primeiros eram os humanos, junto de máquinas (mas não de todas), e depois éramos nós. Havia uma regra social não dita que determinava que nosso tamanho, bloqueando a visão dos humanos, junto de nossa acuidade visual superior, eram justificativas o suficiente para que não ficássemos na frente. A maior parte de nós já não pensava a respeito da convenção, e os que pensavam, do mesmo modo, fingíamos concordar com a suposta praticidade, como se fosse somente ela o motivo.

Me lembro de esperar que o impacto fosse maior, tanto pela distância da área de contato até o primeiro círculo de isolamento da polícia quanto porque a semente realmente era maior do que eu pensava que seria. Só algum tempo depois aprendi que as sementes tinham mecanismos para desaceleração, que também controlavam com cuidado o movimento atmosfera adentro.

Um chiado, um impacto surdo e lá estava a imensa cápsula metálica salientando-se para fora da terra. Não fosse o som, seguido pelas comemorações ao redor e o grupo de cientistas apressado, pareceria que ela tinha saído do chão, ou surgido espontaneamente.

Nenhum dos humanos a tocou, mas todos que se aproximavam registravam os poucos indicativos que tinham. A cápsula tinha quase uma década de idade, e havia vindo de um dos grandes acidentes em estações espaciais. Havia uma vibração inegável entre todos os presentes, com a possibilidade de recuperar alguém que poderia ter se perdido completamente no passado.

Em seguida, o metal começou a emitir um som agudo e dele se estenderam braços finos e longos, que se projetaram em todas as direções. Os cientistas voltaram a se afastar conforme as hastes se moviam, como se fossem animais cegos à procura de alimento, seguindo pela grama e terra. Alguns miraram para cima e se projetaram em ângulos irregulares, capturando ar e luz. Outros enterraram-se em diferentes níveis de profundidade para coletar água e outros recursos. 

E, então, silêncio. Depois, a comemoração. A semente havia se plantado com sucesso.

Era incerto em um primeiro momento quanto tempo levaria para restaurar a vida no interior da cápsula, mas o número de hastes mais a data de encapsulamento indicavam que seriam necessárias algumas boas semanas para restaurar aquela vida. Nesse meio-tempo, o parque ficaria virtualmente inacessível, mas todos compreendiam que era necessário e, mais do que isso, era bem-vindo.

A valorização da vida é um dos poucos conceitos que ocorre universalmente. Tudo que se classifica como vida, incluindo vida inorgânica, vê valor em existir, e vemos como obrigação reconhecer e honrar essas vidas. Eu diria que os humanos veem menos valor nas próprias existências e, portanto, enxergam menos valor em outras existências, mas é claro que eu jamais falaria isso na frente deles, por temor à minha própria vida.

De todo modo, é essa característica em comum que permitiu muito da convivência até hoje, e que reúne todos ao redor da cultura do acompanhamento e quase adoração de cada uma das Sementes do Céu. Para várias culturas, aliás, a adoração é literal. Tanto entre humanos quanto entre meu povo, existem alguns que consideram os que saem das cápsulas como semideuses, criaturas especiais com destinos importantes, chamando-os de “Plantados”, “Renascidos”, “Filhos da Semente” ou, simplesmente, “Sobreviventes”. É claro que nem todos concordam com isso, mas a felicidade da continuidade da vida e a admiração das circunstâncias de sobrevivência faz com que comunguemos com tais sentimentos de modo similar.

Locais de plantação de Sementes se tornam destinos de peregrinação turística e religiosa, bem como de cobertura pela imprensa especializada e amadora. As autoridades tendem a controlar a agitação excessiva, atrapalhando a comunidade com sua presença mais constante, para que a comunidade não seja atrapalhada pela presença constante de turistas e curiosos.

Historicamente, aqueles que saíram das Sementes alcançaram muito sucesso, fato que serviu apenas para aumentar as superstições a respeito de toda a tecnologia. É lógico que, na prática, o sucesso veio porque esses sobreviventes se viram cercados de atenção. Era praticamente impossível que não tivessem prosperidade com toda a adoração a que eram submetidos, com todos sentindo que as próprias existências eram valorizadas pela continuidade da existência dos Plantados.

Por algum motivo, o maior número de sobreviventes das sementes era de humanos. Não há qualquer explicação clara para o fenômeno além da pura sorte (ou azar), já que estatísticas de presença e de vítimas não indicam uma maior proeminência humana. Alguns de nós chegaram a supor que poderia ser proposital, que ocorreria algum tipo de seleção na hora das decisões para redirecionamento de sementes, mas até onde se sabe tal fato é impossível, já que é impossível detectar, com exceção de casos muito específicos, qual a forma de vida no interior de cada semente.

Isso também é parte da expectativa planetária para cada pouso. Raramente se sabe que tipo de ser vivo emergirá de cada um. Todas as espécies, é claro, tendem a esperar seus semelhantes, apostando e torcendo para isso, mas eu diria que, de longe, são os humanos que são mais orgulhosos e intrusivos em suas expectativas. Alguns chegam a acreditar que somente humanos sobrevivem, criando teorias que beiram a xenofobia para justificar seus pontos de vista.

Ah, sim: aqueles que se parecem comigo e que surgem de sementes também se tornam celebridades. Mas há uma distinção clara de preferência e de caminho possível de sucesso para os “Plantados” que, digamos, existem dentro de certo alinhamento de fenótipo dominante.

Enfim, os dias que se seguiram ao pouso foram conturbados, como era de se esperar que fossem. A presença da polícia era constante, e, junto dela, dos especialistas que cuidavam para que a semente continuasse com suas funções ativas. As ruas ao redor do parque estavam majoritariamente bloqueadas, e todas as moradias ao redor, incluindo e especialmente a minha e de outros como eu, eram sujeitas a barulho e incômodos muito específicos.

Dizer que era “complicado” é um eufemismo. A intensidade com que éramos incomodados pelas autoridades no passado parecia mínima com o nível de intromissões que passamos a ter. Inspeções em lares não-humanos eram quase diárias, e aqueles que trafegassem próximos à Semente eram geralmente parados para revista e questionamento, quando não presos por alguma arbitrariedade.

Os crimes de ódio também aumentaram, com, até onde entendo, um viés especial em crueldades contra os meus. Reinava no ar a desconfiança de uma possível sabotagem da vida contida naquela semente, e os ataques de civis eram justificados a partir desse medo.

Essa desconfiança, devo dizer, era um sentimento que não era exclusivamente humano. Todos nós tínhamos nossos medos e preocupações exacerbados pela possibilidade da perda daquela vida, mas era a certeza da predestinação dos humanos, junto de sua vantagem numérica e social, que os tornava piores do que nunca.

Em certa ocasião chegaram a me levar à prisão para prestar depoimento. Eu recebia um grupo de parentes e amigos em casa, e quando, ao sair, paramos para encarar a Semente que se projetava por cima do muro, uma patrulha considerou a aglomeração como suspeita de conspiração e, invadindo minha residência, revistou o local e levou todos. Obviamente, nada foi provado contra nós, mas nenhum dos responsáveis foi punido pela intervenção injustificada.

Não sei dizer se o motivo para a xenofobia crescente da época derivou dos boatos, ou se os boatos nasceram como justificativa posterior à xenofobia. De todo modo, em algum momento descobri por que vários dos humanos vinham desconfiando de nós: alguém havia investigado o histórico da estação espacial que havia dado origem à Semente, e descobriram que era um dos muitos projetos conjuntos entre nós e eles. Isso, em si, não era o problema. A questão era que o acidente que acabou com várias vidas e espalhou centenas de Sementes era ainda inexplicado, não havendo sido descartada a possibilidade de um ataque terrorista ou de sabotagem de alguém infiltrado na própria equipe do projeto. É lógico que, do ponto de vista dos humanos, éramos nós os principais suspeitos do caso.

Assim, existia um grupo que vinha espalhando a teoria de que havia um alinhamento cultural anti-humano de nossa parte, e de que nós sabotaríamos a Semente do mesmo modo que supostamente havíamos sabotado a estação que deu origem a ela.

Não havia prova de qualquer tipo. Nenhuma. Mas ninguém se importava com isso. O que interessava era que todos se juntassem ao redor de uma causa que valorizasse suas identidades e justificasse suas preocupações e medos. O crescimento dos crimes de ódio, assim, tinha como raiz um medo descontrolado de aniquilação, como se fôssemos infiltrados querendo destruir as raízes da civilização humana. 

A polícia não admitia, mas seu raciocínio naturalmente havia sido impactado por esse sentimento. Eles também faziam vista grossa para os grupos de civis humanos que passaram a fazer rondas por conta própria, e pouco fizeram quando as rondas passaram a ser armadas e com placas e camisas com mensagens pouquíssimas discretas que nos colocavam como ameaças.

Se ficássemos isolados, gerávamos suspeita. Se ficássemos ativos, gerávamos suspeita. Se tentássemos tocar nossas vidas naturalmente, gerávamos suspeita. Não havia momento algum em que não existisse ao menos um humano prestando atenção em nós, procurando sinais de conspiração ou de comportamento aberrante em qualquer sentido.

As máquinas passaram a se afastar de nós. Havia um histórico peculiar de máquinas com Sementes, após casos isolados em que robôs independentes revoltosos tentaram atacar cápsulas em processo de plantação, então todas elas preferiam não levantar suspeitas que pudessem lhes prejudicar. Tanto fazia, no fim, já que os humanos se preocupavam mais conosco, minimizando os ataques dos robôs por julgarem-se no controle de todos eles.

Fosse isso verdade ou não, era consenso entre as máquinas independentes que havia certo alívio no fato de que não eram alvo. Era mais fácil para elas se alinharem à classe dominante, o que por sua vez criava um problema de percepção muito específico para vários humanos mais distraídos: era a ideia de que, se até as máquinas se afastavam de nós, havia claramente motivo para desconfiarem, e assim reforçavam as crenças infundadas em nossa suposta culpa, e reforçavam o ódio e a omissão frente a qualquer ação de ódio.

Nas poucas funções sociais em que convivemos com alguma salubridade no período, se mencionássemos a possibilidade de que o ser na Semente não fosse humano, as reações gerais tendiam a uma descrença acompanhada de ridicularização, ou por vezes até mesmo raiva e possibilidade de agressões verbais ou físicas. Especialmente dado o sentimento predominante e as teorias conspiratórias, muitos humanos seguiam na lógica de que não apenas havíamos causado várias mortes, como queríamos ter os nossos como únicos sobreviventes possíveis ou válidos.

É claro que alguns de nós se enfureciam, e vários torcíamos para que a Semente trouxesse um dos nossos não só pelas ausências, mas para que pudéssemos esfregar na cara de cada um dos humanos. Mas aqueles que expressassem tais visões abertamente apenas traziam mais sofrimento ao grupo, pois manifestações do tipo eram munição instantânea, por assim dizer, para armas que já estavam voltadas em nossa direção.

Quando Sementes se aproximavam da data de abertura, efeitos diversos ocorriam. Havia uma alteração distinta de temperatura da superfície, e um tipo de “suor" químico começava a vazar da superfície. Tais sintomas sempre eram observados de perto e, na ocasião, assim que surgiram, foi anunciada oficialmente a data de abertura. Mas ninguém, a essa altura, conseguia comemorar muito.

A confirmação do dia exato surgiu em um momento tenso, onde os conflitos civis haviam levado a intervenções das autoridades. Não havia mais turistas ou curiosos, e a polícia havia envolvido outras esferas do poder para contornar a situação. Chegou em um ponto em que não conseguiam negar os ataques por grupos humanos, mas é claro que só começaram a se envolver depois das primeiras retaliações feitas por aqueles como eu.

A Semente havia sido alvo de alguns ataques com explosivos e até mesmo tentativas de sabotagem com pulsos eletromagnéticos, mas nenhum deles foi bem-sucedido. Nenhuma das hastes foi danificada e tampouco foi o corpo da cápsula ou seu funcionamento. Em apenas uma das circunstâncias, um suspeito foi capturado, e o fato de não ser humano, é claro, foi usado como motivo para mais ódio e repressão. Suspeitas de envolvimento humano em todos os outros casos eram rapidamente varridas para debaixo do tapete, pois reconhecê-los como tais não era comportável dentro da retórica reinante.

No dia do anúncio da abertura da Semente — ou “Dia de Brotar”, como preferiam alguns —, foi com contrariedade palpável que todos se reuniram com o mesmo alinhamento hierárquico habitual ao redor da praça, depois de inúmeras barreiras e mecanismos protetores, mais uma guarda especial para a ocasião.

Projeções eram visíveis acima da plateia, trazendo para perto a imagem da Semente de modo que ninguém deixasse de ver. Na prática, a proximidade física à Semente nem era necessária, e seria possível até mesmo assistir àquelas imagens no conforto de nossos lares — ou basicamente em qualquer outro ponto da cidade ou do planeta —, mas todos queriam estar ali, ao vivo, para testemunhar. Todos queriam saber qual era o tipo de ser vivo que sairia de lá e, em segundo plano, quem é que ele era. 

O que importava era, acima de tudo, sua identidade em um sentido mais amplo. Sua individualidade seria apenas o meio de transmissão de um símbolo, a encarnação de uma vitória de uma batalha muito específica e nunca declarada abertamente pelos que estavam na vantagem. Havia um messias ali.

A tecnologia que analisou os sintomas da Semente era confiável, e a previsão foi acurada. Isso não impediu, claro, que todos se juntassem ali com grande sobra de tempo. Também não impediu que se agitassem, pulsando com um misto de sentimentos complexo demais. Mas todos rapidamente silenciaram quando o som agudo da Semente se fez, e depois dele um chiado.

Todos conheciam o processo que se repetiu, idêntico a todas as outras ocasiões: juntas metálicas surgiram da superfície, antes praticamente lisa, e, deslocando-se levemente para fora, desenharam primeiro um risco horizontal um pouco abaixo do centro da Semente, e depois um risco vertical projetou-se, dividindo a parte superior da cápsula em duas.

Mais um chiado e cada metade cedeu, revelando um emaranhado de fios, metal e espuma que seguia escondendo o corpo do ser vivo no interior. Nesse momento, começavam aqui e ali palpites sobre sinais de um ou outro tipo de vida, ou de alguma característica do ser naquela Semente. Era impossível enxergar através da espuma, e todos sabiam — mas as especulações não partiam da razão, e sim da fé —, mesmo para os que sequer possuíam religião. Todos seres orgânicos pareciam igualmente otimistas, enxergando evidências que apoiavam suas próprias hipóteses, enquanto as máquinas permaneciam em um silêncio educado, mas com sorrisos que tentavam apoiar o sentimento amistoso geral.

A espuma existente no interior das Sementes, quando em contato com a nossa atmosfera, rapidamente entra em processo de decomposição, planejado para liberar rapidamente o ser em seu interior, ao mesmo tempo secretando substâncias para garantir um choque menor nesse contato com o mundo de fora. Assim, ainda existiram mais alguns instantes de desconhecimento total, de possibilidades infinitas, até que o material começou a borbulhar e, em poucos momentos, estava lá o ser que todos esperavam.

Seus olhos não eram como os meus, nem seus órgãos de locomoção, nem seus órgãos internos e nem a sua boca. Mas também não eram humanos os olhos, órgãos e boca. Não era uma máquina, também. Ninguém sabia exatamente como é que poderiam chamar aquele que estava ali. Era algo completamente diferente de todos ali, uma existência inédita, de difícil comparação com qualquer ser conhecido por qualquer um dos presentes.

Depois que o ser foi revelado, manteve-se um silêncio paralisado por um tempo desconfortavelmente longo. Longo demais. Até que alguém começou a gritar. E, logo, outros gritavam. Minha memória da ocasião é confusa e curta, pois talvez minha mente não queira se lembrar disso, já que todos fomos incentivados a esquecer. Mas eu me lembro das pessoas se atacando sem razão específica. Os humanos e os robôs nos atacavam e nós os atacávamos, e eles se atacavam entre si. Eu acredito que foram os humanos que começaram, e há evidências para isso, mas o consenso hoje é que “ninguém sabe”.

Em algum momento, as barreiras foram derrubadas e a guarda se viu incapaz de deter a aproximação da multidão. Creio ter visto alguns dos policiais se juntando aos revoltosos, mas também me lembro de outros caídos, e já não tenho certeza. Os registros desse dia foram, em sua maioria, apagados de onde quer que pudessem apagar, e manipulados de onde não pudessem.

O ponto é que, em algum momento, a criatura havia sido tirada do pedestal da Semente, e as vozes se exaltavam ao redor conforme carregavam-na, confusa, acima de cabeças. Não me lembro de tê-la ouvido falar. Talvez tivesse falado, mas não conseguimos ouvi-la por conta do caos. Pouco tempo depois, já não seria possível que falasse de qualquer maneira, pois me lembro distintamente do momento em que vi um membro arrancado ser erguido em um gesto vitorioso, com um tipo de sangue, que não era igual ao de nenhum dos presentes, espirrando ao redor.

Eu me lembro distintamente do braço arrancado. Dos segundos eternos em que o peso daquele ato caiu sobre mim, parecendo sem qualquer peso para os que gritavam, confusos e cheios de ódio.

Me lembro, depois, apenas de cores e movimento, de sirenes, de uma correria que levou todos às casas, e dos dias de isolamento que se seguiram por conta de conflitos que nenhum de nós sequer entendeu bem por que é que aconteciam.

Hoje, estamos outra vez no simulacro de paz que existia antes da chegada da Semente do Céu. Vivemos fingindo que todos são iguais na comunidade, e que nunca ocorreu qualquer situação em que agredimos nossos vizinhos. Os que morreram naquele dia de ambos os lados são citados apenas uma vez por ano, amenizando o evento ao somar a data com um feriado de lembrança de vítimas e veteranos de guerra.

A Semente foi levada naquela mesma ocasião, e o parque foi restaurado pouco tempo depois de modo a simular que jamais havia surgido ali qualquer coisa para interromper seu verde. Todos os registros remanescentes daquele dia reconhecem que a Semente chegou, mas descrevem tudo com termos vagos, responsabilizando as desgraças da ocasião a “um ataque” e nada além.

Devo dizer que, até hoje, nenhum nome foi definido para o ser da Semente. Algumas tentativas de nomenclatura foram levantadas, mas essas ficaram restritas ao campo acadêmico, e mesmo lá com discrição extrema. Não se fala mais sobre aquela criatura, e nomeá-la envolveria a admissão de sua existência e dos atos que levaram a seu fim.

A única coisa que efetivamente mudou foi a noção de que, se aquele ser estava ali, havia outras criaturas envolvidas na estação espacial. Se aquele ser estava na capsula e não era reconhecido por ninguém, talvez fosse um invasor. Talvez. A mesma possibilidade de que fosse um ser amigável, e de que havia sido vítima do mesmo acidente, era igualmente real, mas desproporcionalmente ignorada. O pouco que voltou a se falar da situação envolveu a especulação desse terceiro elemento, e os mais otimistas de nós pensavam que isso levaria a um melhor tratamento por parte dos humanos. Eles estavam errados, e eventualmente reconheceriam isso, ainda que com certa contrariedade.

Mesmo que existissem provas incontestáveis de nossa inocência, o plano por trás do bairro e da sociedade ao redor tinha princípios muito específicos que não poderiam ser violados. Reconhecer erros do passado pede a alteração de comportamentos presentes, e nenhum dos humanos, que sequer conseguem reconhecer abertamente o que acontece e aconteceu, seria capaz de admitir o erro e se modificar, cobrando de si mesmos e de seus semelhantes atos de responsabilidade e compensação. Tudo aqui funciona com um plano, e nele não existem erros: o que vemos como problemas são características propositais do projeto.

E assim seguimos nossas vidas, desejando que não caiam mais Sementes, pois não temos mais esperança de que algo de bom saia delas. Não temos garantia alguma que, se um de nós sair da cápsula, não será outra vítima por discordar da expectativa reinante.

Este bairro é território humano.

Mas eles nunca aceitariam que eu dissesse que é "território" deles.


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