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A Morte E A Literatura
Prefácio

A Morte E A Literatura

Guilherme Milner
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Áudio drama
A Morte E A Literatura
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Ao procurarmos nos dicionários o significado de morte, podemos encontrar, além de informações de cunho linguístico, outros tipos de aspectos contextuais e interdisciplinares que estariam em diálogo com questões socioculturais em que o verbete acaba por se inserir. Entretanto, vai nos chamar a atenção a ideia costumeiramente aceita pela nossa expectativa prévia da morte: simplesmente como “cessação definitiva da vida; ato de morrer”. E, indo além dessa definição simplista, poderíamos pensar nesse final da vida que poderia ocorrer repentinamente, ou gradualmente, sendo precedida pela velhice. Esta, por sua vez, inutilizando aos poucos todas as partes do organismo, com sofrimento crescente, até a sua destruição completa, como afirmava Schopenhauer.

Imediata ou gradual, devemos pensar que, com os avanços nos campos tecnológicos e na medicina, esta última trazendo sempre novos tratamentos para enfermidades, passamos a viver em uma sociedade em que a morte deixa de ser um processo natural e bastante presente na vida dos indivíduos para ser combatida como a consequência de uma doença e se tornando, inclusive, um assunto difícil e doloroso de ser comentado. Criamos um tabu tão forte em torno da questão que, quando a morte de um familiar querido acontece, os pais costumam dizer para seus filhos que ele teria viajado para longe ou que descansa em um belo e florido jardim, tornando regra a tentativa de neutralizar os ritos funerários e tudo o que diga respeito à morte. Então, nos fica a pergunta: o que realmente sabemos sobre a morte?

Entre todas as dúvidas que podemos ter sobre a morte, o filósofo Marcel Conche pontua três coisas que sabemos de maneira absolutamente certa. A primeira coisa é que sabemos que vamos morrer. Essa seria a verdade primeira e fundamental que comandaria toda a sua vida. Mesmo na incerteza de tudo, restaria a certeza de morrer. Afinal, sabemos que vamos morrer e que nada podemos fazer para mudar isso; podemos apenas, no máximo, adiar essa condição. O que liga essa verdade primeira e fundamental com um sentimento de impotência de mudá-la, não podendo escapar de nosso destino. A segunda é que vamos morrer, mas não sabemos o que isso significa. O que seria para o homem morrer ou estar morto? É ou não ser aniquilado totalmente? É a morte como renascimento em outro lugar? Para Conche, isso seria impossível de responder e não poderíamos ir além de um “talvez”. Dessa forma, toda a vida humana passaria “sob o signo de uma primordial e absoluta incerteza a respeito de si mesma”. Por fim, a terceira e última coisa seria: vamos morrer, não sabemos o que isso significa, e homem algum jamais o saberá. “Enquanto houver homens, e que vão morrer, a morte será para eles certa e, ao mesmo tempo, desconhecida em sua significação.”

Assim, coloca-se a morte na fronteira do incognoscível, isto é, aceitando que jamais teremos um real conhecimento dela, mas que em linhas gerais podemos aceitá-la como o ato ou o fato de morrer; o fim da vida animal ou vegetal. De acordo com o sociólogo Norbert Elias, podemos encarar a morte como fato de nossa existência e ajustar nossas vidas e nosso comportamento em relação às outras pessoas e à duração limitada de cada vida. Lembrando-nos, ainda, que existiriam dois jeitos distintos de lidar com a morte e enfrentar a finitude de nossas vidas: o primeiro seria evitar a ideia da morte, “assumindo uma crença inabalável em nossa própria mortalidade”. Assim, a morte vira um objeto doloroso do pensamento que necessita ser afastada para alcançar a felicidade.

A outra maneira que Elias enxerga estaria na ideia de enfrentar o fim da vida humana acreditando nela como uma passagem para uma pós-vida em outro lugar, como Conche já tinha questionado. Assim, acabaríamos por retornar àquelas perguntas supracitadas, milenares, que só poderiam ser respondidas pela filosofia e pela teologia, envolvendo o destino após a morte. Não o do corpo — a carcaça inerte —, pois este sabemos que fica neste mundo e que entre seus pares é sepultado, mas assumindo a crença na alma, esta, imortal, que dependendo da doutrina seguida poderia ascender aos céus para uma nova vida de bonança no Paraíso, ou descer ao Inferno, para uma eternidade de castigos e punições dependendo do tipo da vida que aquele ser tivesse levado.

Entre todo esse saber teórico — filosófico e teológico —, qual seria, então, o papel da literatura no meio desse debate?

Ora, a literatura, com toda a sua capacidade criativa, expositiva e argumentativa, melhor do que ninguém, ao longo dos séculos, soube ilustrar todo esse conhecimento do arcabouço da nossa civilização. Nesse último grupo, dos passeios pelos lugares-além, caminhamos juntos de Dante, acompanhado por Virgílio — e depois por Beatriz —, pelo Inferno, passando pelo Purgatório e chegando ao Paraíso, em Divina Comédia. Em Paraíso Perdido, John Milton, inspirado no livro de Gênesis, nos mostra, entre os mais de dez mil versos, a criação e ascensão do Inferno e do reino de Satã após a malfadada rebelião contra Deus. Muitos são também os relatos na Ilíada e na Odisseia entre os heróis gregos que tiveram que descer ao Reino de Hades, ao submundo dos mortos, como teria feito Ulisses no canto XI da Odisseia, lá encontrando com Aquiles, Ájax e outros de seus companheiros que lutaram na guerra de Troia. Trazendo para a literatura brasileira, como poderíamos esquecer, por exemplo, do julgamento de João Grilo após ser morto pelo bando de Severino, em Auto da Compadecida?

Por outro lado, se ela possibilita o descobrimento e difusão dos discursos desses espaços “pós-morte”, do Paraíso, do Inferno, de Hades, da Valhalla, ou de qual for, ela, da mesma forma, vai permitir dar voz para as narrativas de seres individuais e do momento da morte — ou do percurso até a morte — dessas personagens... que é justamente a proposta desta coletânea, organizada por Erick Alves e Nayara Nunes, servindo como uma força de resistência de um assunto que a sociedade geralmente se recusa a discutir, mas que a literatura encara como terreno fértil. Assim, nos contos que seguem, aqui selecionados, nós encontraremos justamente essas trajetórias finais das personagens, com toda uma pluralidade de abordagens, percursos, espaços, destinos para nos mostrar essa ideia de que, apesar de toda a carga negativa que o assunto carrega, a morte é o que há de mais normal na vida humana, um processo natural, o último passo da jornada. E, justamente por morrermos, é que nós somos afortunados, como nos lembra o biólogo Richard Dawkins em Desvendando o Arco-Íris. Afinal, 


A maioria das pessoas nunca vai morrer, porque nunca vai nascer. As pessoas potenciais que poderiam estar no meu lugar, mas que jamais verão a luz do dia, são mais numerosas que os grãos de areia da Arábia. Certamente, esses fantasmas não nascidos incluem poetas maiores que Keats, cientistas maiores que Newton. Sabemos disso porque o conjunto das pessoas possíveis permitidas pelo nosso DNA excede em muito o conjunto das pessoas reais. Apesar dessas probabilidades assombrosas, somos você e eu, com toda a nossa banalidade, que aqui estamos.



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