A Morte De Uma Fada

Fantasia
Outubro de 2019
Começou, agora termina queride!

Aline Moreira

Autor
"Pedras no caminho? Guardo todas. Um dia, vou construir um castelo." Fernando Pessoa

Conquista Literária
Conto publicado em
Nas Mãos da Morte

Prólogo

Epílogo

Conto

Áudio drama
A Morte De Uma Fada
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“Eu não acredito em fadas.” Bastaram essas palavras para que, no mesmo instante, eu sentisse minhas asas pararem de bater; e, num milésimo de segundo, meu corpo caiu no chão com um pequeno baque, parecendo tão pesado quanto chumbo.

Não havia ninguém ao meu lado, ninguém que pudesse me acompanhar naqueles últimos momentos, pois minhas irmãs haviam saído para ajudar as fadas que tinham acabado de nascer. Era algo que soava incrivelmente irônico o fato de que outras fadas nasciam enquanto eu morria. No entanto, também era triste. A vida de uma fada poderia durar uma eternidade, contudo, a descrença dos humanos em nossa existência está cada vez pior, o que nos reduziu a uma vida que dura cerca de um mês.

Um mês. A vida de uma mosca dura um mês. Nos reduzimos a isso; somos quase moscas hoje em dia. A tristeza desse pensamento me inundou, e lágrimas surgiram em meus olhos. Estes eram meus últimos minutos no mundo, e eu perdia tempo chorando. Não era certo, nem justo, entretanto, nós fadas somos pequenas demais e, por isso, comportamos apenas um sentimento de cada vez. Eu não queria morrer com aquele sentimento de tristeza, pensei enquanto as lágrimas caíam pelas laterais do meu rosto. O peso de meu corpo era tão grande naquele momento que eu nem mesmo conseguia erguer as mãos para afastá-las.

Tentei pensar em outras coisas, em momentos felizes. Lembrei do dia em que nasci. Foi tão incrível! Quando abri os olhos pela primeira vez, estava cercada por minhas irmãs, e todas elas queriam ser as primeiras a se aproximar de mim e me ajudar. Todas queriam me explicar como nosso mundo funcionava e como era maravilhoso viver em meio à natureza. Eu jamais esqueceria o tempo que passamos juntas. Ao menos eu esperava não esquecer. Ninguém nos explicava o que acontecia quando morríamos, porém, eu esperava que as lembranças permanecessem comigo. A esperança me inundava agora.

Não tive uma vida ruim. Nada poderia ser tão ruim quando existia o nascer do sol. Era lindo observar como aquela luz corria pela floresta, iluminando a tudo e a todos. E, quando seu calor tocava minha pele, eu sentia que minhas energias se recarregavam para um novo dia. E eu nunca mais veria o nascer do sol. A autopiedade era uma das coisas que menos me agradava, e eu não permitiria que aquela sensação crescesse em meu peito.

Novamente, busquei memórias felizes e me lembrei de nossas festas. Fadas faziam festas incríveis, e tudo era um motivo para que comemorássemos. Bastava um dia de sol... Ou até mesmo um de chuva, para que nos reuníssemos e iniciássemos uma festividade. Com os olhos fechados, eu sentia a diversão de todas as nossas festas correndo por minhas veias. Aqueles foram momentos incríveis. Assim como nossas pequenas aventuras pela floresta e pelo mundo humano.

Infelizmente, ao abrir meus olhos novamente, percebi que hoje, quando minhas irmãs voltassem com as fadas recém-nascidas, não haveria comemorações. Elas me encontrariam no chão, e a primeira noite daquelas fadinhas seria mergulhada no luto, mesmo que nunca tivessem me conhecido. Toda vez que uma de nós partia, era isso o que acontecia. Eu me perguntava se minhas irmãs sentiriam minha falta. Não sei se terão tempo de se preocupar com isso antes que sigam o mesmo destino que eu. Não sei se eu ainda seria capaz de sentir saudades das outras fadas caso continuasse viva... E, se fosse possível viver, por quanto tempo mais eu duraria? Nossa vida, apesar de suas belezas, não era tão fácil quanto antigamente. As crianças sempre cresciam e se esqueciam das fadas, isso era normal, mas hoje em dia, muitas vezes, elas nem sequer tinham qualquer conhecimento a respeito de nossa existência. A tecnologia trouxe muitos benefícios, porém, com ela também veio o cinismo e a descrença de que algo mágico pudesse existir longe dos computadores e celulares. Era perverso, mas não existia mais infância; não como aquela encontrada nos livros de história do mundo das fadas. Eu mesma nunca vira crianças brincando umas com as outras por aí.

Uma pequena parte de mim acreditava que a morte era melhor do que viver naquele mundo, pois era desesperador imaginar o que o futuro guardava. O presente já era terrível, cheio de guerras e fome. Será que os humanos conseguiriam mudar isso?

Talvez, sim, já que, apesar de todas as coisas ruins, naquele mundo também existia amor; algo que eu nunca sentira e que agora me seria completamente inalcançável. Eu não conseguia enxergar nenhum sentido naquela existência que se acabara tão rápido. Por que eu nascera simplesmente para conhecer o mundo e morrer?

Fechei os olhos tentando afastar o arrependimento que surgia em meu coração por tudo que não pudera vivenciar, e revi todos aqueles que eram importantes para mim. Nesse momento, finalmente, percebi que, mesmo que minhas irmãs não sentissem a minha falta, eu sentiria a delas. Realmente, tivemos ótimos momentos e todos eles valiam por uma vida.

Quando dei meu último suspiro, sorri com a certeza de que o que eu sentia por eles era algo tão grande e avassalador que, mesmo que não fosse amor, seria algo pelo qual valeria vir ao mundo. Eu realmente esperava que aquele sentimento pudesse permanecer comigo, mesmo após a morte, pois, se assim fosse, eu poderia encará-la como se fosse apenas mais uma aventura... Mais um dia brincando na floresta.


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“Eu não acredito em fadas.” Bastaram essas palavras para que, no mesmo instante, eu sentisse minhas asas pararem de bater; e, num milésimo de segundo, meu corpo caiu no chão com um pequeno baque, parecendo tão pesado quanto chumbo.

Não havia ninguém ao meu lado, ninguém que pudesse me acompanhar naqueles últimos momentos, pois minhas irmãs haviam saído para ajudar as fadas que tinham acabado de nascer. Era algo que soava incrivelmente irônico o fato de que outras fadas nasciam enquanto eu morria. No entanto, também era triste. A vida de uma fada poderia durar uma eternidade, contudo, a descrença dos humanos em nossa existência está cada vez pior, o que nos reduziu a uma vida que dura cerca de um mês.

Um mês. A vida de uma mosca dura um mês. Nos reduzimos a isso; somos quase moscas hoje em dia. A tristeza desse pensamento me inundou, e lágrimas surgiram em meus olhos. Estes eram meus últimos minutos no mundo, e eu perdia tempo chorando. Não era certo, nem justo, entretanto, nós fadas somos pequenas demais e, por isso, comportamos apenas um sentimento de cada vez. Eu não queria morrer com aquele sentimento de tristeza, pensei enquanto as lágrimas caíam pelas laterais do meu rosto. O peso de meu corpo era tão grande naquele momento que eu nem mesmo conseguia erguer as mãos para afastá-las.

Tentei pensar em outras coisas, em momentos felizes. Lembrei do dia em que nasci. Foi tão incrível! Quando abri os olhos pela primeira vez, estava cercada por minhas irmãs, e todas elas queriam ser as primeiras a se aproximar de mim e me ajudar. Todas queriam me explicar como nosso mundo funcionava e como era maravilhoso viver em meio à natureza. Eu jamais esqueceria o tempo que passamos juntas. Ao menos eu esperava não esquecer. Ninguém nos explicava o que acontecia quando morríamos, porém, eu esperava que as lembranças permanecessem comigo. A esperança me inundava agora.

Não tive uma vida ruim. Nada poderia ser tão ruim quando existia o nascer do sol. Era lindo observar como aquela luz corria pela floresta, iluminando a tudo e a todos. E, quando seu calor tocava minha pele, eu sentia que minhas energias se recarregavam para um novo dia. E eu nunca mais veria o nascer do sol. A autopiedade era uma das coisas que menos me agradava, e eu não permitiria que aquela sensação crescesse em meu peito.

Novamente, busquei memórias felizes e me lembrei de nossas festas. Fadas faziam festas incríveis, e tudo era um motivo para que comemorássemos. Bastava um dia de sol... Ou até mesmo um de chuva, para que nos reuníssemos e iniciássemos uma festividade. Com os olhos fechados, eu sentia a diversão de todas as nossas festas correndo por minhas veias. Aqueles foram momentos incríveis. Assim como nossas pequenas aventuras pela floresta e pelo mundo humano.

Infelizmente, ao abrir meus olhos novamente, percebi que hoje, quando minhas irmãs voltassem com as fadas recém-nascidas, não haveria comemorações. Elas me encontrariam no chão, e a primeira noite daquelas fadinhas seria mergulhada no luto, mesmo que nunca tivessem me conhecido. Toda vez que uma de nós partia, era isso o que acontecia. Eu me perguntava se minhas irmãs sentiriam minha falta. Não sei se terão tempo de se preocupar com isso antes que sigam o mesmo destino que eu. Não sei se eu ainda seria capaz de sentir saudades das outras fadas caso continuasse viva... E, se fosse possível viver, por quanto tempo mais eu duraria? Nossa vida, apesar de suas belezas, não era tão fácil quanto antigamente. As crianças sempre cresciam e se esqueciam das fadas, isso era normal, mas hoje em dia, muitas vezes, elas nem sequer tinham qualquer conhecimento a respeito de nossa existência. A tecnologia trouxe muitos benefícios, porém, com ela também veio o cinismo e a descrença de que algo mágico pudesse existir longe dos computadores e celulares. Era perverso, mas não existia mais infância; não como aquela encontrada nos livros de história do mundo das fadas. Eu mesma nunca vira crianças brincando umas com as outras por aí.

Uma pequena parte de mim acreditava que a morte era melhor do que viver naquele mundo, pois era desesperador imaginar o que o futuro guardava. O presente já era terrível, cheio de guerras e fome. Será que os humanos conseguiriam mudar isso?

Talvez, sim, já que, apesar de todas as coisas ruins, naquele mundo também existia amor; algo que eu nunca sentira e que agora me seria completamente inalcançável. Eu não conseguia enxergar nenhum sentido naquela existência que se acabara tão rápido. Por que eu nascera simplesmente para conhecer o mundo e morrer?

Fechei os olhos tentando afastar o arrependimento que surgia em meu coração por tudo que não pudera vivenciar, e revi todos aqueles que eram importantes para mim. Nesse momento, finalmente, percebi que, mesmo que minhas irmãs não sentissem a minha falta, eu sentiria a delas. Realmente, tivemos ótimos momentos e todos eles valiam por uma vida.

Quando dei meu último suspiro, sorri com a certeza de que o que eu sentia por eles era algo tão grande e avassalador que, mesmo que não fosse amor, seria algo pelo qual valeria vir ao mundo. Eu realmente esperava que aquele sentimento pudesse permanecer comigo, mesmo após a morte, pois, se assim fosse, eu poderia encará-la como se fosse apenas mais uma aventura... Mais um dia brincando na floresta.


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