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A Morte Aponta o Caminho
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A Morte Aponta o Caminho
Conto

A Morte Aponta o Caminho

Danilo Battistini
7
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Áudio drama
A Morte Aponta o Caminho
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Mais um dia se passou no cinzento e chuvoso condado de Galway… Desde a última vez que comecei a contar essa história, eu tenho refeito os passos do estranho grupo que veio para cá. O jornalista Brannon, o Professor Oliver, o Golpista Thomas, o Psicólogo Alexey e o Apostador Ryan. Eu me sinto andando em um território amaldiçoado para ser sincero. O ar aqui é pesado. Parece que medos e incertezas são derramados sobre este lugar em cada gota da incessante chuva em Galway.

Estou bem nos limites da cidade, próximo de onde comecei a contar a história de Brannon… Parece que faz tanto tempo isso… Enfim, essa história não é sobre mim, mas sim sobre o que aconteceu em Galway no ano de 1984. Vejamos… Eu… já contei sobre como cada um deles chegou até aqui. Como foram chamados por um desconhecido até a casa número 4 na rua Gleann Na Coille onde foram recebidos por um mordomo e presenciaram a cena de um crime. Um homem foi morto naquele lugar, investigando seu corpo encontraram alguns cadernos, anotações e fotos. Também foi onde Thomas encontrou um cubo estranho. Quando se reuniram mais tarde naquela noite, Ryan teve uma visão envolvendo o homem que haviam encontrado morto na mansão e uma coruja deixou um brinco para eles que parecia encaixar perfeitamente em uma abertura do cubo. Começarei a história de hoje de onde paramos…

Na sala da casa de Oliver, todos olhavam um para os outros apreensivos. Parecia que quanto mais perto de entender alguma coisa eles chegassem, mais o mistério se mostraria maior do que imaginavam.


-O brinco… parece encaixar no cubo – Disse Alexey.

-Quer tentar? - Perguntou Oliver esticando o brinco na direção de Alexey


Todos encararam o brinco. Uma esfera vermelha como um rubi. Como algo que parecia tão inofensivo poderia deixar todos tão apreensivos? Alexey, que ainda estava com uma das mãos segurando sua arma as relaxou, largou o revólver e pegou o brinco das mãos de Oliver.


Ele manuseou o cubo com a mão livre com cuidado, vendo as duas aberturas que haviam surgido há alguns minutos quando ele pareceu ter entendido um pouco melhor como operar aquele mecanismo. Seus olhos fitavam a esfera vermelha, um pouco menor que seu próprio olho, e a tirou com delicadeza da corrente dourada, admirando agora a esfera na palma de sua mão.


A esfera parecia encaixar perfeitamente no cubo.

-Tem certeza? - Perguntou Brannon


Alexey apenas olhou para o jornalista de pé do outro lado do cômodo.

Ele respirou fundo e colocou a esfera em uma das aberturas do cubo. Ao fazer isso, puderam ouvir mais um clique e um barulho que parecia uma engrenagem o que fechou as aberturas e, Alexey, segurou novamente o cubo maciço com algumas estranhas inscrições que não sabiam o que significava.


-E agora? - Perguntou Thomas

-Não dá mais para mexer nele. - Respondeu Alexey vendo se conseguia fazer com que as aberturas surgissem mais uma vez – Bom, pelo menos sabemos com quem está o outro.

-Sabemos? - Perguntou Brannon

-O mordomo que nos recebeu na mansão… - Disse Alexey

-Ele tinha um brinco azul. - Concluiu Ryan

-Talvez ele nem saiba o que é. - Disse Brannon

-Eu não contaria com isso – Disse Alexey colocando o cubo com cuidado na mesa de centro.

-E o que os animais tem a ver com isso? De onde veio aquela coruja? - Disse Oliver que começou a andar até as bebidas se servindo de um conhaque.

-E isso tudo deve ter alguma ligação com a Sarah… A gente viu o nome dela no caderno do morto. - Disse Thomas em um canto acendendo um cigarro.

-E os nossos nomes estavam lá também – Disse Brannon pegando o caderno folheando os nomes. - A gente não conhece praticamente nada sobre ninguém nessa cidade.

-Pra ser sincero… Eu nem conheço vocês. - Disse Alexey acendendo um cigarro também.


Todos se entreolharam naquele momento. Era verdade, apesar de um tipo estranho de ligação os terem trazido para essa situação, ninguém ali realmente conhecia aquelas pessoas. Brannon rabiscou no canto da página de um de seus cadernos uma pergunta: Será que alguém ali seria um assassino?


-Você tem razão, Alexey. - Disse Brannon quebrando o silêncio. - Então precisamos conhecer mais sobre esse lugar. Os únicos que conheço por nome são a Sarah, o delegado August Corbin e o Padre Austin Cramer.

-E provavelmente por causa dos escândalos. - Disse Thomas

-Não podemos levantar suspeitas. - Disse Ryan

-Acho que devemos começar pela Sarah. Ela tem família? Namorado? Porque o nome dela tá circulado nesse caderno e por que ela foi crucificada? - Disse Branon


O grupo voltou a conversar tentando chegar a alguma decisão dos próximos passos a se tomar. Não foi coincidência que eles foram parar ali… alguém estava por trás disso. Ou alguma coisa….

Com muitas perguntas e, praticamente, nenhuma resposta, decidiram que Thomas iria descobrir se a igreja sabe alguma coisa sobre os acontecimentos, já que estava hospedado lá. Enquanto isso os outros iriam tentar descobrir mais sobre Sarah, a mansão e, sinceramente… Com um pouco de sorte porque eles foram levados para Galway.


-O cubo vai ficar aqui? - Perguntou Brannon

-O professor é o único com uma casa própria. É o mais seguro. - Falou Alexey


Oliver apenas assentiu com a cabeça, claramente aquilo fazia sentido mas ele não se sentia menos incomodado em ter aquele objeto sob o mesmo teto em que ele estava hospedado.


-Thomas, posso ficar com os cadernos? - Perguntou Alexey pegando os livros de cima da mesa.

-Ahn… Claro. Não vejo porque não. - Respondeu Thomas dando as costas


Thomas abriu a porta e saiu para a chuva fina que continuava caindo sem parar em Galway. Em seguida os outros fizeram o mesmo, deixando Oliver, enfim, sozinho em sua casa. Ele trancou a porta, olhou para o cubo em cima da mesa… Olhou para a sala, tentando absorver tudo o que estava acontecendo desde que chegou.


-Deveria ter sido eu em Compostela...


Ele pegou o cubo com muito cuidado e o guardou dentro do armário de bebidas. Depois pegou um casaco e saiu de casa, iria para um local onde sempre se sentiu seguro: A biblioteca.

Fico pensando se tivessem noção no que estavam se metendo… Se eles teriam seguido essas investigações. Tanto sofrimento… Tanto sangue derramado…. Enfim, todos seguiram seu rumo para descobrir alguma coisa do que os aguardava. Brannon foi para a delegacia, Alexey voltou para onde estava hospedado, Oliver e Ryan foram para a biblioteca e Thomas voltou para a igreja.

Quando Brannon chegou na delegacia a chuva estava um pouco mais fraca, embora o frio fosse quase insuportável por conta das roupas molhadas. Assim como todo o condado, a delegacia de Galway era uma casa simples de 2 andares. Após entrar na delegacia viu que tinha, pelo menos, mais um andar na parte de baixo, pois viu uma escada no fundo do andar térreo. Talvez tivessem algumas celas, já que o segundo andar parecia ser algo mais administrativo. Viu dois policiais conversando em uma mesa mais afastada próxima da janela e uma policial atrás do balcão principal no centro do andar preenchendo alguns formulários

Brannon pensou que talvez fosse ser abordado por alguém quando entrasse lá, mas talvez fosse apenas costume de alguém que veio de uma cidade grande. Os dois policiais na mesa olharam para Brannon e depois voltaram a conversar. A policial nem sequer parecia ter visto ele entrar. Era uma mulher por volta dos 30 anos com o cabelo loiro preso em um rabo de cavalo. Brannon se aproximou para conversar com ela.


-Olá, com licença. Como se chama? - Perguntou Brannon


A policial abaixou os papéis e olhou para frente com uma expressão séria, mas respondeu Brannon.


-Lianna. - Ela disse

-Bom dia, Lianna. - Continuou Brannon - Eu me chamo Brannon, sou do jornal de Dublin e vim fazer uma reportagem sobre os acontecimentos recentes e me disseram para procurar o delegado August Corbin. Ele se encontra?

-No momento não. - Ela respondeu

-Sabe onde ele está? - Perguntou Brannon

-Ele saiu pra atender um chamado faz algumas horas e ainda não voltou.


Brannon começou a pensar se o delegado estaria na mansão em que viram o homem morto e encontraram o cubo. O jornalista sentiu um misto de ansiedade e medo. Ansioso por saber se encontrariam alguma coisa sobre o verdadeiro assassino. Medo de que, de alguma forma, algo naquela mansão levasse o delegado até eles.


-Bom - Pigarreou Brannon e continuou - Talvez você possa me ajudar nessa reportagem. - Ele disse se aproximando do balcão e falando um pouco mais sussurrado - Estou aqui por conta do assassinato de Sarah McDowell, ela tinha familiares na região? Algum problema com a igreja? Pode compartilhar alguma coisa?

-Problemas com a igreja? - Ela esboçou um leve sorriso - Muito pelo contrário, a Sarah sempre foi uma pessoa extremamente religiosa. Acreditamos que, quem quer que tenha feito essa barbaridade é algum pagão.

-E vocês tem algum suspeito? - Perguntou Brannon

-Ela teve um problema com um rapaz com quem ela saia. Mas… - Ela olhou em volta e falou em voz baixa - Isso faz uns 4 meses… Ele prendeu ela por algumas horas na casa dele mas ela fugiu… Ele parecia ser o suspeito perfeito mas o chefe da polícia confirmou o álibi dele...

-Entendo - Brannon anotava tudo o que Lianna lhe contava - Você pode me dizer o nome desse rapaz? Eu prometo que não vou usar seu nome na reportagem e nem vou citar o nome dele até conversar com ele primeiro.

-Bom…Ele se chama Ted Phillip.


Lianna pareceu hesitar um pouco para compartilhar essa informação. Brannon escreveu em suas anotações que apesar da hesitação ele sentiu que ela queria compartilhar isso. Talvez ela não acreditasse no álibi de Ted, talvez achasse que não estavam lidando com aquilo como ela gostaria.

Tudo está anotado aqui nas anotações de Brannon. Diversos garranchos, acho que ele devia estar anotando tudo enquanto falava e depois passava algumas informações a limpo… Enfim, Brannon achou que teve um bom começo, talvez a sorte estivesse sorrindo para ele.


-Se você puder avisar o delegado Corbin que passei por aqui…- Ele falava enquanto escrevia e rasgou um pedaço de papel - pode entregar isso para ele? É o hostel em que estou hospedado e meu nome. Não sei ele vai falar comigo, mas estou disposto a ajudar no que puder. Muito obrigado, Lianna, tenha uma boa tarde.

-Boa tarde, Brannon. E…Se cuida... - Respondeu Lianna.


Ela se voltou para os papéis que estava mexendo antes de Brannon chegar. Ele olhou para a delegacia mais uma vez antes de sair, os policiais na mesa estavam cochichando enquanto olhavam em sua direção. Talvez Galway estivesse escondendo alguma coisa… Mas Brannon não conseguiu pensar nisso por muito tempo. Estava embaixo de um toldo do outro lado da rua rabiscando algumas coisas em seu caderno quando viu Lianna e os outros dois policiais entrando no carro da polícia, ligando a sirene e acelerando para longe dali. Algo devia ter acontecido. Ele guardou os cadernos e começou a correr na direção do carro.


Enquanto isso, Alexey havia acabado de voltar para seu quarto onde estava hospedado. Como era de costume, ele vasculhou todo o quarto procurando por algum tipo de escuta, qualquer sinal de que alguém sem ser ele esteve naquele lugar. Quando ficou satisfeito que estava realmente sozinho ele trancou a porta. 

Andou até a cama, sentou acendendo um cigarro e abriu uma lista telefônica que tinha pedido na recepção. Deixou a lista telefônica aberta na cama e começou a tirar dos bolsos internos do sobretudo os cadernos que Brannon e Thomas tinham deixado com ele.


-Vamos ver o que temos aqui… - Ele disse.


Alexey começou a ver que a lista telefônica tinha algumas marcas de caneta ao lado de alguns nomes e, por uma estranha coincidência, alguns nomes batiam com os que tinha no caderno.


-Quem esteve com esta lista? - Disse em voz baixa enquanto continuava virando as páginas.



Quando chegou na página do caderno com o nome de Sarah circulado ele avançou até a letra S na lista telefônica e deu um sorriso involuntário. Parece que estava no caminho certo pois algumas páginas foram arrancadas.


-Ora, ora, ora… Parece que alguém esteve te procurando realmente, Sarah… E, julgando pelo estado do guia, diria que alguém estava obcecado em te encontrar...


Alexey fechou o livro, guardou os cadernos novamente no bolso interno, pegou a lista telefônica e foi até a recepção falar com a dona da hospedagem. Quando saiu do quarto, quase esbarrou em uma família que passava pelo corredor. Observou o homem, a mulher e duas filhas pequenas carregando suas malas indo até o quarto no final do corredor. Depois se virou para a recepção e continuou a andar.


A filha da dona da hospedagem estava atrás do balcão, parecia um pouco incomodada enquanto escrevia algo no livro de registro suspirando em voz alta.


-Algum problema? - Perguntou Alexey


-Nada demais. - A garota respondeu - Apenas uma reserva de última hora… Mas enfim, posso ajudá-lo?


-Gostaria de perguntar uma coisa...Mas gostaria que isso ficasse entre nós. Posso contar com sua discrição?


A garota olhou para ele com um misto de interesse e medo.


-Claro.


-Peguei esta lista telefônica com você mais cedo. Se lembra de algum hóspede que ficou com ela por algum tempo?


-Agora que você mencionou… Sim, por que? - Disse a garota sentindo calafrios no corpo


-E… Se lembra do nome dele?


Ela engoliu seco.


-Senhor, eu sinto muito mas não posso dar essa informação…


-Senhora… Isso pode ter alguma relação com o assassinato da garota.


-Eu--- Acho melhor falar com a polícia. - Ela disse balbuciando


-Se eu for até a polícia… - Alexey começou a dizer calmamente - eles virão até aqui te fazer ainda mais perguntas. Talvez até conduzir algumas buscas pela hospedagem. Imagino que isso seria um problema para a senhora e os hóspedes. Eu posso facilitar as coisas pra você.


Ela ficou um tempo em silêncio. Encarava Alexey que continuava com o rosto sério, porém sua postura calma parecia tranquilizar um pouco a jovem.


-Um instante, por favor.


Ela foi em direção ao telefone que ficava atrás do balcão. Discou alguns números e depois de um tempo começou a falar em voz baixa em um idioma que Alexey estranhou ouvir: Gaélico. Ele não conseguiu entender o diálogo que não durou muito tempo. Enfim ela desligou, pegou o livro de registro e começou a folhear as páginas.


-Ele se chamava… - Ela disse virando as páginas até que parou assustada e deu um passo involuntário para trás.


Alexey encarou a garota em silêncio.


-Algum problema?


Algo que ela viu a deixou com medo.


-Eu--- Preciso fazer uma ligação.


Alexey esperou ela dar as costas para usar o telefone e espiou por cima do balcão para ver o que tinha na página que assustou a mulher. Quando olhou para o livro de registro entendeu a reação dela. Manchas de sangue por toda a folha, a marca parcial de uma mão ensanguentada havia tentado arrancar a página com pressa, mas não conseguiu por inteiro. metade da folha estava rasgada e a outra metade amassada. Olhando a folha apenas um nome havia feito check in naquela data, infelizmente apenas o primeiro nome estava legível.


-Theodore...  - Disse Alexey em voz baixa.


De repente ouviu o som do telefone sendo colocado no gancho e deixou de se apoiar no balcão. Olhou para a garota que estava pálida e com as mãos tremendo.


-Eu… Sinto muito, mas… Não estou me sentindo bem. Meu irmão vai…. Chegar daqui a pouco. Eu… 


-Vá descansar, eu fico na recepção até ele chegar. - Disse Alexey com a voz calma.


-Eu… Vou… Obrigada.


Alexey pensou que poderia ver o livro de registro com mais calma, porém a garota o fechou e levou o livro com ela para seus aposentos. Ele acendeu mais um cigarro e sentou em uma cadeira na recepção e começou a folhear os cadernos procurando pelo nome Theodore.


-Quem é você, Theodore?


Enquanto isso, afastados dali, Ryan e Oliver estavam entrando na biblioteca no centro de Galway. 


-O que vai procurar? - Ryan perguntou para Oliver


-Quero ver o que descubro sobre a mansão que… - Oliver hesitou para terminar a frase


-Sim, isso faz sentido. - Disse Ryan cortando o silêncio.


Ryan era bom no carteado, ele conseguia ler o incômodo que Oliver sentia por estar ali. Se não fosse o lado acadêmico curioso do professor, é bem capaz que ele tivesse partido de Galway logo depois do que viram na mansão. 


-E você? - Perguntou Oliver


-Eu acho que--- Abaixa!


Um carro freando forte.


O grito de uma mulher.


Dois tiros.


Um corpo caindo.


Silêncio.


Outro tiro.


E silêncio.


Ryan havia começado a responder porém não conseguiu concluir a frase. Um pequeno caos se formou na rua onde estavam minutos atrás.


-Mas que merda foi essa? - Oliver perguntou 


Com o barulho do primeiro tiro tanto Oliver quanto Ryan haviam se jogado ao chão instintivamente.


-Só tem um jeito de descobrir - Disse Ryan e saiu apressado da biblioteca.


-Espera! - Oliver falou - Toma cuidado.


Oliver ficou parado por um tempo dentro da biblioteca até tomar coragem de acompanhar Ryan. Ele pensou que já tinha visto corpos demais em Galway, se continuasse nesse caminho, quanto tempo até ele ser o próximo?


Ryan, quando saiu da biblioteca, viu que algumas pessoas haviam saído de seus estabelecimentos ou estavam na janela de suas casas tentando enxergar o que havia acontecido mas com medo de se aproximar da cena que estava a poucos metros da entrada da biblioteca.


Um carro verde estava em cima da calçada, ainda com o motor ligado, parecia um volkswagen beetle dos anos 70, na frente dele na calçada próxima da escada da biblioteca, estava o corpo de uma mulher com dois tiros nas costas e uma poça de sangue cada vez maior se formando. O cabelo, que chegava na altura dos ombros era castanho escuro e ondulado e cobria seu rosto.


Ryan desceu a escada com cautela, dessa vez tentando ver quem era o motorista. O parabrisa estava trincado com dois buracos de bala, ele chegou até a janela do lado do passageiro e viu um revólver caído no colo do motorista que estava com os braços para o lado e a cabeça caída para frente com um buraco na nuca e o sangue escorrendo pelo seu corpo. Ele havia cometido suicídio depois de atirar na mulher.


O motorista parecia familiar para Ryan, quando ele conseguiu encontrar uma posição para ver o rosto dele, ele congelou. Era o mesmo homem que o havia deixado em Galway.


Ryan teve uma sensação estranha, parecida com quando teve a visão do cubo na casa de Oliver. Ele cambaleou para trás sem conseguir se focar em nada, os sons ao seu redor estavam abafados, ele apenas voltou para si quando sentiu uma mão tocando seu ombro. Quando se virou para ver quem era, enxergou um homem sem rosto. Mas, quando piscou o olho, viu um policial falando com ele.


-O senhor viu o que aconteceu? - Perguntou o policial


-Eu… - Ryan procurou palavras mas não conseguia falar nada.


-Olha, eu vou pedir para o senhor se afastar por favor. - Disse o policial entregando Ryan para outro policial que o levou até um banco do outro lado da rua - Jesus… O que está acontecendo nesse lugar?


Ryan estava sentado respirando devagar voltando a si quando ouviu uma mulher falando com ele. Uma policial loira com o cabelo preso em um rabo de cavalo estava na sua frente.


-Tudo bem? Consegue falar? - Ela perguntou


-Sim… Já estou melhor. - Ryan respondeu


-Ótimo. - Seu rosto assumiu um tom sério - Você viu o que aconteceu?


-Não. Eu… Estava na biblioteca quando ouvi o som do carro e os disparos. - Ele respondeu


-Reconheceu o motorista? Ou a vítima?


Ryan hesitou um pouco, se lembrando do rosto do homem que o trouxe para Galway. Então esfregou os olhos e respondeu


-Não.


-Tá… - Ela respondeu - Bom, fique aqui até se sentir melhor. Uma ambulância já está a caminho se precisar de cuidados médicos.


Lianna se virou para a cena e começou a andar na direção dos dois policiais que se dividiam entre fazer anotações, tirar fotos e falar para algumas poucas pessoas que se aproximavam se afastarem querendo ver o que tinha acontecido.


-Não… - Lianna disse em voz baixa - Você não…


Oliver, que havia observava tudo da porta da biblioteca viu a cena e sentiu um pouco de enjoo quando viu o corpo da mulher e a poça de sangue que havia se formado. Viu os dois policiais caminhando em volta do carro com o parabrisa trincado e viu uma policial encarando a mulher com um olhar que ele reconhecia: Culpa e perda.


Por um instante ela pareceu deixar o distintivo de lado e não olhou para a cena como uma policial, mas como uma pessoa que havia perdido alguém e… Ele sabia muito bem como era essa sensação.


Depois seu olhar se virou procurando Ryan e o encontrou sentado em um banco do outro lado da rua. Ele também viu Brannon correndo ofegante pela rua em que o carro da polícia estava parado e, por fim, olhou na direção da sirene de duas ambulâncias que chegaram.


Quatro paramédicos saíram dos veículos, trocaram algumas palavras com os policiais e depois aconteceu algo que chamou a atenção de Oliver. Dois dos paramédicos tiraram o corpo do motorista de dentro do carro e o colocaram em um saco preto, levando-o de volta para uma ambulância e os outros dois paramédicos viraram o corpo da mulher morta e Oliver pode ver o rosto dela. Ela ainda estava com os olhos abertos e, sua cabeça, ficou por algum tempo em uma posição que parecia olhar diretamente para ele. Ele sentiu um frio na espinha e escutou como se fosse um sussurro em seu ouvido uma voz feminina triste.


-Alexa...


Ele olhou assustado para os lados procurando quem falou aquilo, mas não havia ninguém ali. Quando se voltou para a cena, viu os lábios da policial se mexendo enquanto os paramédicos colocavam o corpo da mulher em um saco branco e a levaram para a outra ambulância.


Brannon observava tudo de longe, quando viu Ryan sentado em um banco e Oliver na porta da biblioteca. Ele se aproximou de Ryan e disse em voz baixa sem parar de andar


-Precisamos conversar. - Disse Brannon


Ryan olhou para o lado e viu Brannon entrando em uma pequena viela ali na frente. Ele olhou para a porta da biblioteca e fez contato visual com Oliver. Ele meneou com a cabeça para o lado e seguiu na direção de Brannon.


Oliver esperou alguns poucos minutos até que as ambulâncias foram embora e caminhou na direção da viela que Ryan e Brannon entraram.



-O que foi que aconteceu? - Perguntou Brannon


-O homem no carro ele--- ele atirou naquela mulher e depois se matou. - Respondeu Ryan


-Que merda… - Disse Brannon - Sabe quem eram?


-Não - Mentiu Ryan


-Alexa… - Disse Oliver em voz baixa


-O que disse? - Perguntou Brannon


-Nada. - Disse Oliver e ficou em silêncio


Por uns segundos, estavam apenas escutando a chuva que parecia estar voltando a ficar mais forte. Até que Oliver quebrou o silêncio entre os três ali.


-As ambulâncias… Notaram algo de estranho nelas? - Perguntou Oliver


-Não, por que? - Disse Ryan


-Eles colocaram o homem em um saco preto, mas a mulher foi em um saco branco...E saíram em ambulâncias diferentes. - Respondeu Oliver


-Por que diabos colocariam um cadáver cheio de sangue em um saco branco? - Disse Ryan


-Eu vou passar no hospital e tentar descobrir isso. - Brannon falou procurando um toldo ali perto para puxar suas anotações


-Eu tomaria cuidado com isso. - Disse Ryan


-Sou um jornalista, fazer perguntas faz parte do trabalho. - Disse Brannon enquanto revirava um de seus cadernos - Aliás, descobri algumas coisas na delegacia. A Sarah era uma pessoa extremamente religiosa. Me falaram que o assassino pode ser algum pagão por conta da maneira que ela foi morta.


-Pagão, é? - Disse Oliver repentinamente mais interessado


-Isso. - Respondeu Brannon - Mas o único suspeito que tinham era um cara chamado Ted Phillip. Parece que ele e a Sarah namoravam e alguns meses atrás ele tentou prender ela no quarto dele, mas ela fugiu. Só que a polícia disse que esse Ted tem um álibi pro assassinato da Sarah.


-Bom, eu vou voltar pro hotel onde estou hospedado. - Disse Ryan - Eu… preciso descansar um pouco.


-Eu quero ver se encontro algo sobre esse Ted - Disse Oliver


-E eu vou pro hospital. - Disse Brannon - Acho que nos vemos depois.


E então cada um seguiu seu rumo, sem saber que se veriam mais cedo do que imaginavam.


E não, eu não esqueci de Thomas. No momento deste assassinato, ele estava saindo do centro de Galway indo em direção da igreja. Ele ouviu os disparos ao longe, mas não via sentido em voltar. Ele estava atrás de informações na igreja, com certeza alguns dos outros estariam por lá perto para ver o que tinha acontecido. Isso é, se não fosse nenhum dos homens que conheceu mais cedo que tivesse sido baleado.


Ele ajeitou o colarinho, deixou seu crucifixo mais amostra no peito e continuou caminhando em direção ao terreno da igreja católica de Galway. O fim da tarde estava se aproximando. A pouca luminosidade que tinha por trás das nuvens de chuva que pareciam não cessar nunca em breve daria lugar a noite escura… Ainda mais pela estrada mal iluminada até a igreja um pouco afastada.


Assim como era de se esperar o lugar estava calmo e extremamente silencioso, por isso quando Thomas ouviu o barulho de passos apressados nas poças do chão de terra ele decidiu investigar o barulho.


-Quem será a essa hora? - Disse Thomas em voz baixa


Ele seguiu os passos que iam em direção do fundo da igreja, onde ficavam as acomodações de quem dormia por lá, como era o caso de Thomas. Em uma passagem ao fundo, ele conseguiu ver um frade andando apressado e parecia estar falando sozinho em voz baixa. Ele o seguiu mantendo distância, pois o frade de tempos em tempos olhava a sua volta como se estivesse procurando alguém que o estivesse seguindo.


-Eu já te vi por aqui… - Disse Thomas para si.


Por fim o frade chegou até as acomodações, passou pelo quarto de Thomas e bateu na porta de um quarto mais a frente. Thomas se escondeu atrás de um pilar e observava o homem olhando para os lados e xingando em voz baixa.


-O que você tá aprontando, hein, frade? - Disse Thomas para si mais uma vez.


Pouco tempo depois, a porta se abriu, apenas o suficiente para o homem passar e assim que entrou a porta se fechou atrás dele. Thomas esperou alguns segundos, olhou para os lados e viu que não tinha mais ninguém lá, então seguiu com passos cautelosos para tentar escutar algo dentro do quarto.


Ele respirava com certa aflição, cada passo na direção daquele quarto parecia deixá-lo com medo… Embora ele não entendesse o porquê disso. Quando chegou próximo da janela, se agachou e apenas se concentrou nas vozes que vinham de dentro do quarto.


-Você está por trás desse absurdo? A garota foi morta sem nenhum motivo! - Dizia a voz do frade em um misto de medo e irritação - Onde isso vai parar?


-Falei com ela algumas vezes. - Disse a voz de um homem calmo - Era perigoso, ela sabia dos riscos. Infelizmente não demos a importância necessária para isso mais cedo.


-Isso não vai levantar suspeitas? - Disse o frade


-Não se preocupe, Augustus. - Respondeu com a mesma calma o homem - As peças já estão se movendo. Ele sozinho não será capaz de impedir o que está por vir. Em breve o outro vai morrer e sabe bem o que vem depois disso. É apenas uma questão de tempo, Augustus.


-Sim, eu sei… Mas--- - O frade Augustus foi interrompido


-Não se preocupe. Apenas siga o plano. - O estranho disse.


-Claro… - O frade disse e engoliu seco


-Lembre-se, o enterro dela deve ser em alguns dias. As cinzas do outro devem ser colocadas próximas da entrada.


-Certo… - Disse o frade


Thomas achou que talvez aquela conversa acabasse logo e decidiu entrar em seu quarto. 


-Mas o que…É isso - Thomas disse cambaleando


Porém quando deu o primeiro passo ele sentiu que desmaiaria a qualquer instante.  Aqueles poucos passos até a porta de seu quarto foram os piores que tinha dado em toda sua vida. Cada vez que piscava parecia uma eternidade, se sentia fraco, enjoado… Mas, por fim, ele conseguiu chegar até a porta do quarto, destrancou-a com esforço, entrou e se jogou contra a porta para fechá-la e caiu sentado no chão com as costas apoiando contra a porta, respirando com dificuldade.


-O que é que tá…. acontecendo…. - Thomas disse perdendo os sentidos.


Ele caiu contra o chão como se tivesse sido drogado de alguma forma. Quando abriu os olhos estava em um mundo de sombras. Ainda estava em Galway, ainda estava na igreja, porém o mundo não era o mesmo ao seu redor. Sombras e alguns poucos pontos fracamente iluminados pela cidade. Ele se levantou cambaleante, aos poucos recobrando sua força naquele pesadelo que parecia real demais.


-Onde é que eu tô…. O que foi que aconteceu? - Thomas disse


Ele viu um ponto mais iluminado ao longe e, em meio a escuridão, ele começou a caminhar. Sem saber exatamente para onde estava indo… Nem o que o estava seguindo.


-É só um sonho… É só um sonho… - Ele dizia para si enquanto caminhava.


E enquanto isso tudo acontecia, Alexey ficou aguardando o filho da dona da hospedagem chegar. O que levou mais tempo do que ele gostaria, mas aproveitou o tempo para pensar melhor sobre tudo o que aconteceu naquele dia estranho. Uma ligação de um homem que sabia quem ele realmente era, um convite para uma mansão com um grupo de outros homens que, assim como ele, não eram de Galway. Um assassinato que havia acontecido naquela mesma mansão. Um cubo misterioso. Uma mulher crucificada que parecia ter alguma relação com tudo aquilo que eles estavam vivendo. Brannon, Ryan, Oliver, Thomas, Sarah, Theodore… O que realmente estava acontecendo em Galway?


Uma hora depois o filho da senhora apareceu pedindo desculpas pelo atraso, mas que ele estava longe e veio o mais rápido que pode.


-Não se preocupe. - Disse Alexey tentando tranquilizar o jovem.


O jovem se desculpou e agradeceu mais uma vez Alexey que apenas caminhava em direção de seu quarto, ainda com a mente focada tentando encontrar alguma conexão entre tudo o que acontecia.


Assim que abriu a porta, um gato preto correu saindo de dentro do quarto indo em direção a saída.


-Mas o que--- - Disse Alexey surpreendido - Ei!--


Mas o gato já havia fugido. 


-Merda. - Resmungou Alexey e entrou no quarto trancando a porta


Alguma coisa não estava certa. Alexey revirou seus pertences vendo se alguma coisa estava fora do lugar.


-De onde é que aquele gato veio? - Ele se questionava, irritado


Quando se virou para examinar a cama ele viu algo que não estava ali antes.


-O que é isso? - Ele disse em voz baixa enquanto se aproximava da cama.


Uma pequena fita cassete havia sido colocada em cima de seu travesseiro junto com uma foto. Alexey olhou para a fita que não tinha nenhuma marcação, deixou-a de lado e pegou a foto. Era uma mulher e um homem sorrindo ao lado de uma placa "Marcenaria Família Philip". Ele virou a foto e tinha algo escrito lá.


-Irmão e irmã em abertura da marcenaria… Alexa e…. Ted. - Alexey leu em voz baixa e virou a foto mais uma vez - É você, Theodore?


Ele guardou a foto no bolso e pegou a fita. Não tinha onde escutá-la ali então embrulhou-a em um pedaço de pano e colocou no bolso interno do sobretudo. Alexey respirou fundo e foi em direção da janela. Já estava bem escuro, talvez fosse melhor levar a fita para Oliver no dia seguinte. Ele devia ter uma secretária eletrônica ou um toca-fitas em sua casa. Mais um mistério que teria que esperar. 


Alexey pegou sua whiskeira, tomou um gole generoso e se deitou na cama fechando os olhos se concentrando no barulho da chuva, cada vez mais fraca, contra a janela de seu quarto.


Do outro lado da cidade, Brannon havia chegado no hospital. Ele demorou mais do que gostaria para chegar lá, pensou que fosse mais perto e, quando chegou, já era quase noite.


-A volta pro centro vai ser um inferno de escuro… - Resmungou Brannon 


Assim que entrou no hospital sentiu uma sensação estranha de isolamento. O prédio era relativamente grande comparado com o resto do condado… Talvez grande até demais para um lugar como aquele. Atrás do balcão tinha uma recepcionista fazendo as palavras cruzadas do jornal. 


-Oi, boa noite. - Disse Brannon se aproximando


-Ah, oi! - Disse a recepcionista surpresa - O senhor precisa de ajuda?


-Na verdade sim. - Ele disse tirando a carteira do bolso - Eu me chamo Brannon e sou do jornal de Dublin. Vim para Galway fazer uma matéria que parece crescer a cada dia que passa.


-Uau! Um jornalista da cidade grande. - Ela disse se ajeitando na cadeira e colocando o jornal de lado - Do que precisa, Brannon?


-Bem, eu vim por causa de dois corpos que chegaram aqui deve fazer uma hora, talvez?


-Ah sim, os do acidente, não é?


-Acidente?


-Sim, sim. Parece que o homem perdeu o controle do carro e atropelou uma mulher na calçada lá no centro e depois morreu na batida. Coitados…


Brannon abriu a boca para falar mas não encontrou palavras. Ela não parecia estar mentindo.


-Ahn… Está falando de dois corpos que chegaram, um em um saco preto e um em um saco branco?


-Bom… Eu acredito que os dois devem ter vindo em sacos brancos, sabe? - Ela respondeu


-Por que? - Brannon perguntou


-Bom, porque eles mal chegaram aqui e já foram encaminhados pro crematório.


-Crematório? E pode me dizer quem eram?


-Eu… Eu sinto muito, Brannon. Eu realmente queria ajudar, mas… E que esse tipo de coisa… sabe? Podia custar o meu emprego.


-Claro eu entendo… Obrigado mesmo assim.


Brannon ainda estava incomodado com o fato da recepcionista informar que foi um acidente de trânsito… O que estava acontecendo naquela cidade? Ele passou mais uns trinta minutos fazendo perguntas fingindo que realmente estaria escrevendo aquela matéria para não levantar suspeitas e deixou o hospital. Para sua surpresa a chuva estava parando quando começou a andar de volta para o centro. Ele já havia se acostumado com ela, então quando começou a caminhada de volta o silêncio parecia mais perturbador que a chuva. E o frio parecia piorar a cada passo. Ele acendeu um cigarro tentando evitar pensar em como passaria quase uma hora andando no escuro.


-Lugar escuro de merda… - Resmungou em voz baixa enquanto fumava


Em seus cadernos, Brannon escreveu apenas mais uma coisa sobre essa caminhada… Está por aqui… Ah, aqui… "Nenhuma noite nunca foi tão escura e tão fria quanto essa. Alguma coisa além da noite parece estar me seguindo. Eu nunca mais quero passar por uma escuridão como essa. A palavra 'medo' ganhou um novo significado para mim e, espero, que um dia eu possa esquecer dessa noite.".


Mas Brannon não foi o único que passou por isso.


Oliver estava chegando em sua casa com algumas anotações embaixo do braço de coisas que descobriu na biblioteca. Porém quando entrou em casa, a escuridão que o recebeu parecia palpável. Ele se sentiu sozinho e com medo, como se, por um instante, ele pensasse que nunca mais sentiria calor em sua vida. Respirando fundo ele acendeu todas as luzes de sua casa tentando espantar as sombras que habitavam o lugar.


Ryan que havia voltado para o hotel onde estava hospedado, passou todo esse tempo deitado tentando dormir, porém não conseguia descansar e nem sentia vontade de se levantar. Apenas quando alguém bateu na porta de seu quarto ele se pôs de pé.


-Quem… Quem é? - Ele disse


Nenhuma resposta.


Apenas mais duas batidas na porta.


Ryan se aproximou e, sem tirar o trinco, ele abriu uma pequena fresta para ver quem estava lá. Porém não havia ninguém, apenas uma caixa. 


Ele abriu a porta e olhou para os lados, realmente não tinha ninguém. Não ouviu passos nem nada… Mais uma situação sem explicação desde que chegou ali. Ele pegou a caixa, que não era muito pesada, e a levou para dentro do quarto.


-O que é isso… - Ryan disse colocando a caixa em cima da mesa


Não tinha endereço, nome, nem nada na caixa. Ele decidiu que era melhor acabar com aquilo de uma vez e simplesmente abriu para ver o que tinha dentro. Dentro da caixa tinha um pano branco com as iniciais “M.G.” que envolvia um objeto que parecia um--


-Um martelo… - Disse Ryan pegando o martelo envolto no pano


Mas assim que Ryan começou a tirar o pano, ele sentiu um líquido escorrendo por seu pulso, quando olhou para a parte de baixo do pano ele estava ensopado de sangue que pingava.


-Merda! - Ryan gritou


Ele soltou o martelo que caiu com um baque seco no chão e andou para trás ofegante até chegar na parede do quarto. Quando ele olhou para sua mão, não havia sangue algum ali. Ele olhou para o pano branco e o martelo caído no chão. Nenhum sinal de sangue.


-O que está acontecendo?


Na cabeça e no corpo do martelo ele notou sangue seco, mas não tinha nada escorrendo ali. Sem saber o que havia acabado de acontecer, ele pegou o martelo com cuidado com o pano branco, o colocou de volta na caixa, sentou na cama e deu um longo gole de sua whiskeira. Talvez não fosse seguro ficar ali hoje.


Ele se levantou, pegou a caixa e saiu do hotel apressado.


Alexey acordou assustado com sua janela batendo e o vento frio entrando no quarto.


-Porcaria. - Resmungou indo até a janela.


Quando olhou para Galway, ela parecia mais escura e silenciosa do que o de costume das noites que passou ali. Talvez ele já tivesse se acostumado com a chuva e… Ele nunca pensou que pudesse sentir falta dela. 

O ar parecia mais pesado, tinha algo de errado naquela noite. Ele pegou o maço de cigarro do bolso. Mas nem o fogo do isqueiro parecia querer dar as caras naquela noite.


-Anda, inferno… - Resmungava com o cigarro na boca tentando fazer o isqueiro funcionar.


Alexey fez tanta força, cada vez mais impaciente com o isqueiro, que o único som que ouviu foi o da roda e da mola do isqueiro saindo e rolando pelo chão do quarto. Ele nem viu para onde foram. Apenas respirou fundo e tirou o cigarro da boca. Suas mãos estavam tremendo.


Olhou para a janela como se a noite o estivesse desafiando a conseguir acender o cigarro e foi quando viu uma figura familiar caminhando pelas ruas vazias.


-Thomas? O que é que você está fazendo?- Ele disse para si


Ele reconheceu o rosto do homem quando ele passou por um dos poucos postes de luz nas ruas. 


-Tem algo muito estranho hoje… - Disse Alexey


Ele pegou sua arma e seus outros pertences e saiu do quarto. Na recepção pegou uma caixa de fósforos de trás do balcão vazio, acendeu o cigarro e saiu na noite escura de Galway.


Oliver estava preparando o jantar quando alguém bateu na porta de sua casa. Andou devagar até a entrada, ainda com todas as luzes do andar acesas. Pelo olho mágico, ele viu Ryan parado do lado de fora com um olhar assustado.


-Está tudo bem? - Disse Oliver abrindo a porta


-Hoje não. - Ryan respondeu entrando


Poucos minutos depois, mais uma batida na porta. Dessa vez Alexey e Thomas.


-Vi ele pela janela andando até aqui e resolvi segui-lo - Disse Alexey


-Eu ainda não sei o que aconteceu, mas… Aos poucos as sombras foram se dissipando. - Disse Thomas ainda um pouco abalado


-Entrem, estava preparando algo para comer mesmo. - Disse Oliver - Peguem alguma coisa no bar.


E, por último, Brannon bateu na porta e entrou tremendo de frio.


-Pensei que nunca fosse chegar. - Reclamou Brannon chegando próximo do fogo da lareira acesa crepitando.- Licença.


Mais uma vez todos estavam ali juntos, mais cedo do que imaginavam, todos conectados por um medo que pairava por Galway naquela noite. Eles fizeram uma refeição quase em silêncio, apenas trocando poucas palavras. Até que Ryan se levantou e pegou da mesa de centro da sala a caixa que trouxe. Até então, não havia falado nada sobre o que tinha ali.


-Acho que devem estar nos vigiando… - Disse Ryan retirando o martelo de dentro da caixa - Entregaram isso no meu quarto algumas horas atrás.


-Isso é… - Brannon disse


-É, parece o martelo que esmagou a cabeça daquele homem na mansão. - Concluiu Ryan.


-Não pode ser só um martelo? - Perguntou Thomas


-O pano… - disse Oliver - essas iniciais, “M.G.”. São daquela mansão que estivemos hoje cedo.


-E… Como sabe disso? - Perguntou Alexey


-Eu pesquisei na biblioteca sobre aquela residência. - Começou Oliver - Ela pertencia a duas famílias muito influentes em Galway no passado. Os Murphy e os Gildeon.


-E não é mais deles? - Perguntou Ryan


-Bom, até onde encontrei, a escritura ainda está no nome de Eliza Gildeon. Mas não encontrei nenhum registro dela na cidade. - Concluiu Oliver


-E, mudando um pouco de assunto, eu passei no hospital pra tentar descobrir quem eram os corpos ou alguma coisa do tipo e… - Disse Brannon


-Corpos? O que aconteceu? - Perguntou Alexey


-Eu só ouvi os disparos mesmo - Disse Thomas


Então Brannon, Oliver e Ryan relataram o que viram no centro de Galway mais cedo. O homem que disparou contra a mulher e depois se matou dentro do próprio carro.


-Esse é o ponto. - Brannon voltou a falar - A recepcionista no hospital me disse que foi um acidente de carro… ninguém falou nada em assassinato.


-Mas que merda… - Disse Ryan enquanto acendia um charuto 


-Pois é. - Respondeu Brannon em voz baixa


-E tem mais… - Começou a falar Thomas - Na igreja, eu… segui um frade, ele se chamava Augustus. Tinha algo de estranho em como ele estava agindo. Ele foi para um quarto perto das minhas acomodações lá e… Eu ouvi ele falando que uma garota havia sido morta sem nenhum motivo. E um outro homem respondeu que sabia dos riscos.. E que “ele” não seria capaz de impedir alguma coisa sozinho e que o “outro” vai morrer em breve.


-Viu quem era esse homem? - Perguntou Alexey


-Não, eu… - Thomas ficou sem palavras - Não.


-Certo… - Disse Alexey um pouco decepcionado - Bom, já que estamos falando de coisas que descobrimos. Isso apareceu na minha cama hoje.


Alexey colocou a pequena fita cassete e a foto em cima da mesa.


-O que tem na fita? - Perguntou Oliver


-Não tinha onde escutá-la no hotel. - Alexey respondeu puxando o maço de cigarro - Pensei que você teria algum toca-fitas onde pudéssemos ouvi-la.


-E essa foto… - Oliver pegou ela nas mãos para examinar melhor


Quando Oliver viu o nome Alexa na parte de trás ele soltou a foto.


-Alexa… Eu ouvi esse nome hoje. - Oliver disse - Eu acho que… Ela foi a mulher assassinada.


-Não cheguei a ver o rosto dela mas… pode ser - disse Ryan pegando a foto


-Bom, professor - disse Alexey - onde podemos escutar essa fita?


Oliver se levantou, pegou a fita e foi em direção a sala, todos o seguiram até uma secretária eletrônica em uma mesinha ao lado do telefone.


-Parecia mesmo com uma dessas fitas. - Disse Oliver encaixando ela na secretária eletrônica - Posso?


Alexey apenas fez que sim com a cabeça. Oliver apertou o botão de reproduzir a fita e logo a sala foi tomada pelo leve chiado da gravação, até que uma voz feminina tomou conta da sala.


-Lianna… É a Alexa. Olha, desculpa por hoje cedo, tá? É só que isso tá muito errado, sabe? Sinceramente… Eu não sei o que tá acontecendo com meu irmão, eu não acho que ele--- Eu não sei mais… Acho melhor a gente ir embora. Galway não é mais a mesma… Ela nunca vai voltar a ser a mesma Galway. Eu falei com o Richard,ontem, ele concorda comigo. Ele disse que a gente pode ficar lá até decidir pra onde ir. Sei que você não gosta de ir pra  lá por ser perto da… Bom, você sabe.Mas, Lianna… Pensa bem nisso, tá? Eu preciso sair agora, preciso passar na biblioteca ainda. Me liga depois. Eu…. tchau.


Por mais alguns segundos ele ficaram apenas escutando o chiado da fita até parar por completo. Brannon sentou na poltrona pensando em silêncio, Alexey ficou de pé encarando a secretária-eletrônica. Ryan foi até a janela, ainda fumando. Thomas encostou na parede em silêncio. Oliver subiu as escadas para o andar de cima e foi ao banheiro do lado do quarto principal. 


-Eu devo estar sendo punido… Eu devo estar sendo punido…. - Oliver balbuciava em voz baixa enquanto abria a torneira para lavar o rosto.


Sentiu a água gelada tocar seu rosto e ergueu a cabeça para se olhar no espelho. Foi quando viu de canto de olho um vulto na banheira. Ele gritou involuntariamente e caiu no chão ofegante. A mulher que viu morta na calçada em frente a biblioteca estava deitada na banheira que começava a pegar fogo rapidamente


Ryan, Thomas e Brannon, que estavam mais perto da escada, subiram correndo seguindo o cheiro de fumaça e carne queimando. Alexey puxou sua arma e ficou no primeiro degrau.


-Tudo bem ai em cima?! - Ele disse em voz alta


Ninguém respondeu. Assim que chegaram na porta do banheiro, todos estavam completamente em choque com a cena. Oliver que respirava ofegante sentiu um pouco do choque passar. Se lembrou da gravação que tinha acabado de ouvir.  Se levantou e caminhou na direção da banheira.


-Alexa? - Oliver a chamou


-Procurem Richard… Pousada em Silvestrand…. As cavernas. - Ela disse quase que em um suspiro antes das chamas consumirem a banheira por inteiro.


Oliver tentou agarrá-la em vão. Sua respiração estava forte, o olhar dela se dissolveu em cinzas assim como todo seu corpo. Oliver se viu debruçado sobre uma banheira vazio e, aos poucos, o cheiro de fumaça e carne queimada se dissipava no ar.



-O que ela disse? - Perguntou Thomas assustado


-Devemos procurar Richard… uma pousada em Silverstrand… - Disse Oliver - Alguma coisa sobre cavernas…


-Era a Alexa? - Perguntou Thomas


-É o que parece. - Respondeu Oliver.


-Isso fica cada vez mais estranho.. - Disse Thomas


Eles se entreolharam, se viraram para a banheira vazia mais uma vez e saíram de lá.


-Alexey… Tá tudo bem? - Perguntou Brannon


Todos olharam para Alexey, que apontava sua arma para um gato sentado na frente da porta.


-Quando me dei conta ele estava ali e… É o mesmo que eu vi no meu quarto… - Alexey disse em voz baixa


Oliver passou por Alexey e andou na direção do gato enquanto, aos poucos, o psicólogo abaixava a arma. O gato estava sentado em cima de um papel amassado, Oliver se aproximou dele pois reconheceu aquele olhar… Era o mesmo da coruja que entregou o brinco para eles.


-O que você quer? - Oliver disse pegando o gato.


O gato miou e, por um instante os olhos do animal se transformaram nos de um humano e, tão rápido quanto, voltou a ser o de um animal. Oliver soltou o gato instintivamente que apenas se virou para porta. Oliver a abriu e ele saiu em disparada pela noite escura de Galway. 


Oliver ficou encarando o gato até perdê-lo na escuridão da noite. Ele ouviu os passos de Thomas se aproximando e pegando o papel que o gato estava sentado em cima.


-Parece um mapa. - Alexey disse


-Temos que ir para a pousada de Richard em Silverstrand. - Disse Oliver


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