Conto

A menina que sorria no velório

Coloque seu fone de ouvido e prepare-se para "escutar" mais um dos terríveis depoimentos de Lugar Nenhum.

Erika Atayde
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Áudio drama
A menina que sorria no velório
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Você escuta o som de passos com um leve eco de salto. Uma voz feminina rouca então diz em sua cabeça.

Esse relatório não é recomendado para pessoas sensíveis, ele contém descrições subjetivas porém gráficas de cenas violentas ou do resultado de cenas violentas, bem como ideias presas a um tempo que não existe mais e conceitos virulentos e nefastos que tomam da mente humana como ninho. Os nomes foram alterados porque você não tem nível de habilitação de segurança o suficiente para o consumo saudável de toda a história. Dito isso, vamos começar.


Clique do pressionar de tecla de um gravador de fita-cassete. Som abafado do vento afetado pela qualidade precária da gravação adentra seus ouvidos, seguido pelo início de um distante toque de caixa-de-música, tocando o lago dos cisnes. Uma voz masculina de um homem adulto, provavelmente em seus 60 anos, afetada por um sotaque levemente interurbano faz contato:

Meu nome é Delegado Minutos e esta é a entrada final no meu relatório pro caso da menina Júlia Antares Garcia. Primeiro é importante deixar claro que eu e os rapazes da delegacia começamos a investigação e respondemos logo que nos foi requisitado e seguimos o procedimento. Infelizmente nenhum de nós havia sido treinado pra lidar com o que tinha acontecido com a vítima, que possuía 12 anos na época do ocorrido. 


A memória de todos nós é turva ao redor do incidente, mas eu me lembro de ser umas duas semanas depois do carnaval, e o prefeito tinha permitido que a praça da cidade fosse usada pras celebrações do povo no início do mês, e pro Clube da Tradicional Cultura no fim do mesmo mês. Soldado Peixoto e Soldado Paiva foram chamados pra interferir num conflito entre o Bêbado Aposentado e o Loco-Bola, padrão de segunda na cidade a noite. O que me chamou atenção foi o doutorzinho, que não era de falar comigo, já que ele tinha diproma de adevocacia, mas que se aprochegou naquele dia na delegacia pra falar de os Garcia comigo.


-- Inspetor Minutos, um minuto… Hã, um segundo do seu dia, por favor! -- disse calmamente uma voz diferente, em seus 30 anos, a voz um pouco distante. -- O Eduardo, Eduardo Garcia veio falar comigo hoje de manhã. Ele tinha uma proposta de negócio que eu não podia aceitar, mas acho relevante lhe dizer….

Eu me lembro como se fosse ontem que o respondi com muita calma.

-- Pois fale logo Dotor! -- disse a voz irritada do Minutos, vinte anos mais jovem, igualmente distante. -- E eu sou delegado!

-- Ah, sim, claro… Bom, ele, o Garcia quero dizer, veio no meu escritório esta manhã, falar que precisava de um advogado para defendê-lo de acusações de [CENSURA]… Bom. O senhor deve saber que, como um advogado recém formado eu prefiro não lidar com casos como [CENSURA]… 

A gravação pausa.

Se você estiver prestando atenção, e todos esperamos que esteja, você percebeu, não? Esse apito? Sentimos muito, mas apenas habilitados nível dez podem perceber o Apito-Do-Cachorro nas palavras, mas achei que seria importante que você soubesse o por que de sua incapacidade, para que melhor pudesse compreender a história, afinal, precisamos que você acredite.


O efeito abafado da fita-cassete retorna, dessa vez com uma bossa nova ao fundo. O leve som de engolir líquido é seguido pela batida da descida de um copo de vidro num tampo de madeira próximo do microfone. A voz do Minutos de 60 anos retorna aos seus ouvidos.

Terça… -- ela da uma arfada da queimação do álcool, em cima do microfone -- Terça-feira. Ou foi quarta? Não… Não importa. Foi o velório do pai, eu lembro do dia. Do dia do mê-ês. -- ele soluça um choramingo inaudível -- Equinócio de Outono. Todas as velhas da cidade tavam lá, no velório do Eduardo Garcia, o pai da vítima. Ainda não sei como que fizeram pra esconder as marcas de [CENSURA] que tinha no  [CENSURA] dele.

Tinha um caixão do lado do defunto, na mesma capela funerária, mas sem corpo, os mágicos que consertaram o [CENSURA] do pai não podiam reconstruir toda  [CENSURA] da pobre mulher…

Eu me lembro como se fosse agora, o cheiro de flor sem adubo e molhada com água de torneira pra parecer novinha, o burburinho de gente que cochicha e acha que não vai ser ouvida mas se você chegar bem perto dá pra ouvir até o CPF da pessoa. Todo mundo muito muito branco, menos os bode é claro… Bode não fica branco fica… Fica menos bode, acho. Não sei. Sei que a Júlia tava lá. Ela e as irmãs dela, nos colos das tia, a de 11 anos chorava muito, a de oito anos brincava com um bilboquê de madeira pintado de rosa, a tinta já bem gastadinha. Mas a Júlia ela me olhou… me olha hoje bem nos olhos e sorriu, feliz feliz, apontou pro pai, ainda sorrindo e seguiu me olhando até que eu olhei pro outro lado e fui falar com a avó da menina desejar minhas condolências. Passei pelo morto e… Puta merda eu tava tão nervoso…

-- Parabéns Dona Antares. -- diz a voz do jovem Minutos, pesarosa como quem deseja o melhor,percebendo o incidente -- P-pelo lindo velório! --e então desistindo totalmente. Sons de passos seguem, enquanto o burburinho diminuía ao fundo, o homem saia da capela de velório.


Essa foi a última gravação em vida do Escrivão Minutos. O que? Não, não, ele nunca foi Delegado. Ele era escrivão. Ele sofria delírios de grandeza, que o levou a morte. Se você precisa saber, ele morreu de cirrose crônica pois seu delírio incluía a ideia de que delegados bebiam muito Whisky para apagar os traumas. Parece que deu certo.
Nosso novo narrador será ninguém menos do que eu, afinal, eu estava lá.


Som de metal raspando contra o chão, uma cadeira sendo arrastada uns dois metros até a sua frente.  A voz rouca retorna a sua cabeça. 


19 de Março de 1984, a casa era grande, as paredes de tijolo, assentadas em barro, o teto era de madeira, e os grandes cômodos eram separados apenas por portas, sem a necessidade de corredores. Na sala estava a mãe de Júlia, Tabata Osvaldina Antares Garcia, batia com a mão-do-pilão nos grãos de milho dentro do pilão, o som oco das batidas rítmicas se repetia como um pequeno e caseiro trovão, madeira contra madeira, e de novo, e de novo. Tabata suava, ela tinha ideias, sonhos, desejos e anseios, na tevê a dois meses as pessoas das cidades marchava pela democracia.
Quem sabe um dia ela não sairia da cidadezinha e iria na cidade grande buscar o amor da vida dela? Som do pilão ressoa.

Ou fazer uma faculdade? Som do pilão ressoa.

Quando as meninas crescerem… Ela seguiu seus devaneios de sonhos e liberdades, interrompidos pelo som do pilão, e ao fundo, um impossível gemido de dor, distante, abafado pelo riso de crianças na cozinha. Julia e a irmã do meio lavavam os repolhos e os rabanetes da colheita da temporada ruim, rindo. Ambas de pé em um banco largo de madeira para ficarem da altura de adultos, o som da água mudando de reto e direto até o metal da pia, e de turvo e fraco, desviado pela mão das crianças e os vegetais. Júlia havia encontrado um rabanete que parecia um pequeno homenzinho, e eu disse no ouvido dela que ela poderia quebrar o bracinho do homenzinho se quisesse, que aquilo faria ela feliz, e ela sorriu.

--  [CENSURA] me disse que se eu quebrar essa pontinha eu machuco o homem mau! -- disse a voz alegre da menina de 13 anos, terminando com um risinho.

-- Ai para Julia! -- reclama a voz fininha e irritada de Maria -- Não fala essas coisas.

Elas seguiram lavando os frutos do trabalho de seus pais como se nada houvesse acontecido. Havia um som proíbido ao fundo, que eu não podia ouvir, porque Júlia não acreditava no som. Mas você acredita, não?

O som do pilão ao fundo é interrompido.


Poucas horas tinham se passado; Julia sentava do lado de fora da casa, o raspar dos dedos dela no homenzinho rabanete em sua mão, como uma boneca, o som de cachorros uivando e latindo muito muito longe. Passos de sapato social em cima de barro úmido e ocasionalmente cascalho se aproximam da pequenina. A voz de um homem que daqui a vinte anos estaria morte de cirrose se junta a cacofonia em seu ouvido, falando com Júlia.

-- Cade teu pai e tua mãe -- ele diz, sacudindo instrumentos de policial que Júlia ainda não sabia que se chamavam de arma.

-- Mamãe tá batendo milho.  Papai foi pra roça. Maria foi lavar repolho. Adriana… -- som do vento passando ao fundo, uivos de cachorros seguem mais altos -- Acho que Adriana tava lendo revistinha de brincar, no quarto. Agora tá na floresta.

A voz da menina era chorosa, algo no instinto de Delegado dizia a ele que deveria entrar, mas não era instinto, era minha voz, mas ele não me ouvia, nem os do meu povo faziam quase 600 luas. Ele deixou a menina e o som de passos de sapato caro encontraram o chão de madeira da velha casa dos Garcia.

-- Puta merda! -- o Escrivão Minutos

esbravejou, seguido do inesquecível som de suco gástrico expelido pela boca, e seu encontro num audível baque do vômito contra o chão.

-- Delegado? -- Gritou o soldado Paiva, do lado de fora da casa -- Tá tudo bem ai?

-- Médico! -- Minutos gritou abafado pelo próprio vômito  -- Traz médico!

O soldado paiva desobedeceu a ordem do delegado e entrou no recinto. Seu diário teve como última entrada sua visão daquela noite, a de Tabata Osvaldina Antares Garcia, mãe da vítima, deitada no chão, suas pernas em direção ao arco de entrada, sua camisola branca ensanguentada com fios e gotas da aba de baixo até o grande mar vermelho em seu dorso, encharcado do sangue e com pequenos pedaços de cérebro por cima dele.

A descrição vívida de Paiva inclui o crânio semi-aberto do lado esquerdo , os miolos a vista ao olho nu, o olho esquerdo esmiuçado em uma saliva amorfa escorrendo pela bochecha, e o resto da massa encefálica distribuída pelo carpete como ossos num ritual de divinação proibido. O olho direito perseguia o olhar do Soldado, o encarando numa súplica raivosa de “porque não me salvou seu puto?” e de “quem vai cuidar das minhas meninas?!”

Ainda segundo o relato do diário do Soldado Paiva, o odor acre do recinto era de carne exposta, merda, sêmen e milho. Pedro Paiva, o soldado, viria a cometer suicídio dois anos depois, sem deixar notas escritas.

Júlia caminhou para dentro, avistando Pedro de joelhos rezando e Minutos jogado a parede, ainda vomitando.

-- Cadê Maria? -- ela perguntou, mas nenhum dos homens soube responder, então ela olhou para lugar nenhum e disse. --   [CENSURA], cadê Maria?

-- Dormindo no quarto da mamãe. -- Eu respondi. -- Você tem um bonequinho de homem mau. Quebra ele pra quebrar o homem mau. -- adicionei.

-- Cadê a mamãe? -- ela perguntou, apontando pro cadáver.

-- Mamãe morreu. Homem mau matou mamãe, ele bateu, e bateu e BATEU! -- eu disse, imitando batidas com minha mão contra a parede.

-- Cadê Adriana? -- ela perguntou, sem emoção e começou a chover.

-- Tá com o papai -- eu disse com voz tristonha, rouquinha.

Ela quebrou o bracinho do homenzinho. Então quebrou o outro. E as perninhas, e por fim começou a mastigar cru, cortando a gengiva e o sangue se misturando com o gosto de vingança.

-- Machuca... Homem... Mau… Pra mim? -- ela pede, a voz abafada pelo rabanete destruído enquanto gemia de dor entre cada palavra.

-- Machuco. -- respondi -- Machucho como? -- perguntei, enquanto rabanetes brotavam do chão e sangue escorria do teto até mim, me dando um corpo físico de rabanete com sangue.

-- Que nem ele me machucou.



Floresta atrás do terreno. Chuva forte, água caindo, passos apressados em possas e barros. Gritos de macacos de fundo e uivos de cachorro.

Eduardo foge com medo de ser pego, sua mão fedia a ferro, ele arfava muito, assustado pelo crime que cometeu. Matar a esposa era ruim, era proibido, isso ia dar cadeia. As meninas era ok, todo mundo faz, quem nunca não é mesmo, limpinhas e lisinhas, sem pelinho, a vozinha, ah, tudo perfeito, nenhuma juiz ia julgar ele.

Eu julguei.

Eu julgo.

Eu ponho meu pé na frente do dele, ele tropeça, de cai no barro de cara, gritando assustado o barro entra em sua garganta o afogando de surpresa. 

-- Caralho! -- Ele fala com sua voz de macho assustado -- Mas que porra?!

Eu me agacho e pego ele pelo pescoço que nem ele pegou as menininhas, raízes de rabanete se estendem formando um cordão ao redor do pescoço dele, o som do crescer da planta e do grito sufocado se mesclam e me trazem um sorriso. Eu solto a raiz, como uma corda de cânhamo ao redor de seu pescoço, que nem nas brincadeiras de enforcar das revistinhas que ele leu pra Adriana, por fim eu prendo as mãos dele nas costas.

-- Tá confortável? -- eu te pergunto.

Você fica em silêncio, sem entender o que tem a ver com a história

-- Hein, tá confortável? -- eu repito a pergunta.

Um distante gemido seco semelhante a “não” cresce na sua mente. 

-- .Que bom. -- minha mão toca as costas dele de leve, eu faço carícias em círculos, descendo e subindo a coluna. Meus dedos abrem feridas e o sangue desce como de uma torneira estragada, os urros de dor dele seguem abafados pela coleira de rabanete no pescoço, o ar sumindo, o som da chuva. Um trovão.

-- Não tava confortável pra Julia também. -- meus dedos entram nas costas dele, raízes se espalhando e apertando as que já seguravam o homem

Ele começa a chorar

-- Shhhhh… Calma….. -- Ele segue chorando entre soluços -- Você não amava a Júlia? Então… Eu também vou te amar.




24 de Março de 1984. Eu fui levada pra fora da cidade pela  [CENSURA] e nunca mais vi a cidade. Fui adotada e criada em uma das cidades grandes, e minha vida foi boa, até que eu encontrei você e te disse a história.
E ai. Você acredita? Espero que sim. Essa história é real. Menos a parte da  [CENSURA]. Mas o resto? Aconteceu mesmo. Várias vezes, até, e não só em Lugar Nenhum. Em Todo Lugar.
Não sei que horas são onde você mora nesse exato instante, mas sei que depois de uma hora, a história vai se repetir. E de novo em uma hora. E de novo em uma hora.
Bons sonhos.


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