A Máscara da Morte Vermelha

Clássicos
Começou, agora termina queride!

Conquista Literária
Conto publicado em

Sinopse

Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

A história retrata a tentativa do Príncipe de evitar uma praga, conhecida como Morte Vermelha, escondendo-se em seu reino. Ele, junto com muitos outros nobres, hospeda um baile de máscaras em sete salas, cada uma decorada com uma cor diferente.‍

Prólogo

Epílogo

Conto

Áudio drama
A Máscara da Morte Vermelha
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A “Morte Vermelha” devastava havia muito o país. Nenhuma pestilência jamais fora tão fatal, ou tão hedionda. Sangue era seu Avatar e sua marca — a vermelhidão e o horror do sangue. Havia dores agudas, e tonturas repentinas, e então sangramento profuso pelos poros, culminando no óbito. As manchas escarlates sobre o corpo e especialmente nas faces da vítima eram o banimento pestilente que as afastava da ajuda e da simpatia de seus iguais. E todo o contágio, progresso e término da doença precipitavam-se no correr de meia hora.

Mas o príncipe Prospero era feliz, destemido e sagaz. Quando seus domínios estavam dizimados quase pela metade, ele convocou a presença de mil amigos saudáveis e despreocupados dentre os cavalheiros e damas de sua corte, e com eles retirou-se para a profunda reclusão de uma de suas abadias fortificadas. Tratava-se de uma extensa e magnífica estrutura, criação do próprio gosto excêntrico, porém augusto, do príncipe. Uma forte e elevada muralha a circundava. Essa muralha possuía portões feitos em ferro. Os cortesãos, tendo entrado, trouxeram fornalhas e maciços martelos e soldaram os parafusos. Decidiram não deixar qualquer meios entrada para repentinos impulsos de desespero ou saída para o frenesi dos de dentro. A abadia estava abundantemente provisionada. Com tais precauções, os cortesãos podiam assim impor desafio ao contágio. O mundo exterior que tomasse conta de si próprio. Nesse meio tempo, era tolice lamentar-se, ou pensar. O príncipe havia providenciado a todos as ferramentas para a diversão. Haviam bufões, haviam improvisadores, haviam dançarinos de balé, haviam músicos, havia a Beleza, havia vinho. Tudo isso, e a segurança do lado de dentro. Sem a “Morte Vermelha”.

Ao final do quinto ou sexto mês de reclusão, enquanto a pestilência assolava mais furiosamente do lado de fora, o príncipe Prospero ofereceu aos seus mil amigos um baile de máscaras da magnificência mais extraordinária.

Fora uma cena voluptuosa, essa mascarada. Mas, primeiro, deixem-me contar sobre os salões em que ela tevera lugar. Haviam sete — um conjunto majestoso. Em muitos palácios, contudo, tais conjuntos formavam uma perspectiva longa e corrediça, enquanto as portas dobráveis deslizam próximas das paredes em ambas as direções, de forma que a vista de toda a extensão do lugar fosse vista quase sem impedimentos. Aqui, o caso era bem diferente; tanto quanto o esperado do gosto pelo excêntrico que o duque possuía. Os aposentos eram dispostos tão irregularmente que a visão não os compreendia mais do que um de cada vez. Havia uma curva acentuada a cada quase vinte ou trinta metros, e a cada curva, uma sensação de novidade. À esquerda e à direita, no meio de cada parede, uma janela gótica alta e estreita encarava de cima um corredor fechado que percorria os meandros do conjunto. Essas janelas eram feitas com vitrais cuja cor variava de acordo com a tonalidade predominante das decorações da câmara para a qual elas se abriam. A câmara da extremidade leste era composta, por exemplo, de cores azuis — e de um vívido azul eram também suas janelas. A segunda câmara era púrpura em seus enfeites e tapeçarias, e aqui suas vidraças eram púrpuras. A terceira era inteiramente verde, e assim eram seus caixilhos. A quarta era mobiliada e iluminada em laranja — a quinta, em branco — a sexta, em violeta. O sétimo aposento era densamente envolto por tapeçarias de veludo negro, pendendo por todo o teto e descendo pelas paredes, caindo em pesadas ondulações sobre o carpete feito do mesmo material e com a mesma matiz. Somente neste recinto, porém, a cor das janelas deixava de corresponder com a das decorações. As vidraças eram escarlates — uma profunda cor sanguinolenta. Ora, em nenhum dos sete aposentos havia qualquer lâmpada ou candelabro em meio à profusão de ornamentos dourados que jaziam espalhados por todos os lados ou pendendo do teto. Não havia qualquer espécie de luz emanando de lamparina ou vela dentro do conjunto de salões. Mas nos corredores que trespassavam o conjunto, ficava, diante de cada janela, um pesado tripé carregando um braseiro cujo fogo se projetava através do vidro colorido e iluminava deslumbrantemente o espaço. E assim se produziam uma variedade de espalhafatosos e fantásticos fenômenos. Mas, no aposento ocidental, ou a câmara negra, o efeito da luz do fogo que fluía sobre as cortinas escuras através das vidraças tingidas de sangue era pavoroso ao extremo, e produzia uma expressão tão selvagem nos semblantes daqueles que ali adentravam, que muito poucos dentre os convidados mostravam coragem o suficiente para sequer colocarem os pés naquele recinto.

Havia neste aposento, também, postado de encontro a parede oeste, um gigantesco relógio de ébano. Seu pêndulo oscilava para frente e para trás com um surdo, pesado e monótono clangor; e quando o ponteiro dos minutos completava seu circuito pelo mostrador, e a hora estava para ser tocada, vinham dos brônzeos pulmões do relógio um som que era claro e alto e profundo e extremamente musical, mas de uma nota tão peculiar e de uma ênfase que, a cada lapso de hora, os músicos da orquestra eram obrigados a fazer uma pausa momentânea em sua execução, para ouvir o som; e deste modo os valsistas forçosamente interrompiam suas evoluções; e um breve desconcerto tomava todo o alegre grupo; e, enquanto as badaladas do relógio ainda soavam, observava-se que os mais agitados empalideciam e os mais velhos e calmos passavam as mãos sobre suas frontes como se mergulhassem em um devaneio ou meditação. Mas quando os ecos cessaram completamente, uma onda de risadas despreocupadas percorria a multidão; os músicos se entreolhavam e sorriam como que de seu próprio nervosismo e tolice, e sussurravam promessas, uns para os outros, de que o próximo toque do relógio não produziria neles semelhante emoção; e então, após transcorridos mais sessenta minutos (que abrangem três mil e seiscentos segundos do Tempo que voa), seguia-se outra badalada do relógio, e então havia o mesmo desconcerto e tremor e meditação de antes.

Mas, a despeito de tais coisas, fora uma festa alegre e magnífica. Os gostos do duque eram peculiares. Ele possuía um olho aguçado para cores e efeitos. Desprezava as decorações da moda comum. Seus projetos eram ousados e apaixonados, e suas criações brilhavam com um esplendor barbárico. Alguns o teriam julgado louco. Seus admiradores sentiam que ele não era. Era necessário ouvi-lo e vê-lo e tocá-lo para ter certeza de que ele não o era.

Ele havia posicionado, em sua maioria, os adornos dispostos nas sete câmaras, por ocasião desta grande festa; e fora sob a orientação de seu próprio gosto que determinara a caracterização dos mascarados. Sem dúvidas eram grotescos. Havia muito brilho e esplendor e coisas chamativas e fantasmagóricas — muito do que se tem visto desde Hermani. Haviam figuras arabescas em fantasias inusitadas. Havia extravagâncias delirantes como as concepções de um louco. Havia a beleza em excesso, lascívia em excesso, o bizarro em excesso, um quê de terrível, e não pouco do que talvez suscitasse aversão. Aqui e acolá no decorrer de todas as sete câmaras o que as espreitavam era, na verdade, uma multidão de sonhos. E estes — os sonhos — contorciam-se por toda parte, assumindo a matiz dos aposentos, e fazendo com que a frenética música da orquestra parecesse um eco de seus passos. E, em seguida, as badaladas do relógio de ébano no salão de veludo. E então, por um momento, tudo é quietude, tudo é silêncio, salvo a voz do relógio. Os sonhos rigidamente congelados onde estavam. Mas os ecos do carrilhão se desvanecem — não duraram mais que um instante — e uma sonora risada despreocupada começa a flutuar em seguida a eles, conforme se vão. E agora novamente a música se eleva, e os sonhos revivem, e se contorcem de um lado para o outro mais do que nunca, assumindo a matiz dos inúmeros vitrais através dos quais vertem os raios dos tripés. Mas, no salão que fica mais ao oeste dos sete, agora nenhum dos mascarados se aventura: pois a noite começa a minguar; e ali flui uma luz rubra pelos vidros coloridos de sangue; e o negror das cortinas de zibelina horrorizam; e àquele cujo pé repousava sobre o tapete escuro, chegava de próximo do relógio de ébano um estrépito abafado mais solenemente enfático do que qualquer outro ruído que alcançava os ouvidos daqueles que entregavam-se às alegrias mais remotas dos demais aposentos.

Mas estes outros aposentos estavam mais densamente abarrotados, e neles batia mais febrilmente o coração da vida. E a festa prosseguia rodopiante, até que finalmente começou o toque da meia-noite no relógio. E então a música cessou, como num comando; e as evoluções dos valsistas se aquietaram; e apreensivamente tudo o mais cessou, como antes. Mas agora haviam doze badaladas a soar do relógio; e desse modo aconteceu, talvez, que mais pensamentos se insinuaram, com mais tempo, nas meditações dos mais pensativos entre os que festejavam. E assim, igualmente, aconteceu, talvez, que antes que o último dos ecos do badalar houvesse totalmente afundado em silêncio, de muitos indivíduos na multidão começarem lentamente a se dar conta da presença de uma figura mascarada a qual não chamara a atenção particularmente de ninguém antes. E tendo o rumor desta nova presença se disseminado aos sussurros ao redor, enfim surgiu em toda a comitiva um burburinho, ou murmúrio, expressando desaprovação e surpresa — depois, finalmente, de terror, de horror, e de repulsa.

Numa reunião de fantasmas como essa que pintei, pode-se muito bem se supor que nenhuma aparência ordinária seria capaz de incitar tal sensação. Na verdade, a licença para as fantasias daquela noite eram praticamente ilimitadas; mas a figura em questão havia superado em herodianismo o próprio Herodes, e fora muito além até do limite de decoro indefinido do príncipe. Existem acordes nos corações dos mais imprudentes que não podem ser tocados sem emoção. Mesmo aos completamente perdidos, para quem a vida e morte são igualmente brincadeira, há assuntos sobre os quais nenhuma brincadeira pode ser feita. Toda a comitiva, de fato, parecia agora sentir profundamente que no traje e no comportamento do estranho não existiam nem humor, nem civilidade. A figura era alta e descarnada, e era envolta dos pés à cabeça por roupagens vindas da sepultura. A máscara que selava suas feições era feita de modo a se assemelhar tanto com o semblante de um cadáver enrijecido que mesmo um escrutínio mais detido teria dificuldades em detectar o embuste. E contudo, tudo isso poderia ter sido suportado, senão aceito, pelos exasperados foliões ao redor. Mas o mascarado fora longe demais ao assumir a caracterização da Morte Vermelha. Sua vestimenta estava salpicada de sangue — e sua ampla fronte, com todas as características de um rosto, estava aspergida com o horror escarlate.

Quando os olhos do príncipe Prospero repousaram sobre a espectral imagem (que com movimentos lentos e solenes, como que para sustentar completamente seu papel, esgueirava-se para lá e para cá entre os valsistas), ele foi visto em grande agitação, num primeiro momento tomado por um grande estremecimento, de terror ou desgosto; mas, em seguida, suas faces coraram-se de fúria.

— Quem ousa? — ele inquiriu rispidamente para os cortesãos mais próximos de si. — Quem ousa nos insultar com tal blasfêmica zombaria? Agarrai-o e desmascarai-o — para que saibamos quem temos de enforcar nas ameias ao nascer do sol!

Era no salão leste ou câmara azul onde se encontrava o príncipe Prospero quando pronunciara estas palavras. Elas reverberaram pelos sete aposentos em alto e bom tom — pois o príncipe era um homem bravo e robusto, e a música havia começado a diminuir a um aceno de sua mão.

Era no aposento azul onde estava o príncipe, com um grupo de pálidos cortesãos ao seu lado. De início, quando ele falara, houve uma intuitiva e ligeira movimentação do grupo na direção do intruso, que no momento estava quase ao alcance da mão, e agora, com determinados e majestosos passos, aproximava-se daquele que falara. Mas, em razão de um certo assombro inominável que as exaltadas impressões que o mascarado inspirara em toda a festa, não houve quem estendesse uma mão para segurá-lo; assim sendo, desimpedido, ele passou a quase um metro da pessoa do príncipe; e, conforme a vasta plateia, como que em um único impulso, encolhia-se do centro das salas para as paredes, ele galgava seu caminho ininterruptamente, mas com o mesmo passo solene e comedido que o distinguira desde o início, da câmara azul à púrpura — da púrpura para a verde — da verde para a laranja — e desta novamente para a branca — e ainda daí para a violeta, antes que qualquer gesto fosse feito para detê-lo. Fora então, entretanto, que o príncipe Prospero, enlouquecendo de raiva e de vergonha de sua momentânea covardia, disparou apressadamente pelas seis câmaras, enquanto ninguém o seguisse devido ao terror mortal que se apoderara todos. Brandia uma adaga desembainhada, e se acercara, em rápida impetuosidade, a dois ou três passos da figura que se retirava, quando esta última, tendo atingido a extremidade do aposento aveludado, virara-se subitamente e confrontara seu perseguidor. Houve um grito agudo — e a adaga tombou cintilando sobre o tapete escuro, sobre o qual, instantaneamente após isso, caíra prostrado em morte o príncipe Prospero. Então, evocando a coragem selvagem do desespero, uma multidão de foliões arremeteu de uma só vez do salão negro, e, agarrando o mascarado, cuja alta figura permanecia ereta e imóvel à sombra do relógio de ébano, ofegaram em inexprimível horror ao descobrir que o sudário e máscara cadavérica, os quais haviam se apossado com tamanha violência e rudeza, não eram habitados por nenhuma forma tangível.

E agora era reconhecida a presença da Morte Vermelha. Ela viera como um ladrão na noite. E, um a um, tombaram os convivas pelos corredores banhados de sangue de sua festa, morrendo cada qual na posição de desespero em que haviam caído. E a vida do relógio de ébano expirou-se juntamente com a do último folião. E as chamas dos tripés se extinguiram. E as Trevas e a Decadência da Morte Vermelha estenderam seus ilimitados domínios sobre todos.

Palma, palma... Logo os contos desta obra serão selecionados e aparecerão aqui.

Sinopse

Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

A história retrata a tentativa do Príncipe de evitar uma praga, conhecida como Morte Vermelha, escondendo-se em seu reino. Ele, junto com muitos outros nobres, hospeda um baile de máscaras em sete salas, cada uma decorada com uma cor diferente.‍

Prólogo

Epílogo

Conto

A “Morte Vermelha” devastava havia muito o país. Nenhuma pestilência jamais fora tão fatal, ou tão hedionda. Sangue era seu Avatar e sua marca — a vermelhidão e o horror do sangue. Havia dores agudas, e tonturas repentinas, e então sangramento profuso pelos poros, culminando no óbito. As manchas escarlates sobre o corpo e especialmente nas faces da vítima eram o banimento pestilente que as afastava da ajuda e da simpatia de seus iguais. E todo o contágio, progresso e término da doença precipitavam-se no correr de meia hora.

Mas o príncipe Prospero era feliz, destemido e sagaz. Quando seus domínios estavam dizimados quase pela metade, ele convocou a presença de mil amigos saudáveis e despreocupados dentre os cavalheiros e damas de sua corte, e com eles retirou-se para a profunda reclusão de uma de suas abadias fortificadas. Tratava-se de uma extensa e magnífica estrutura, criação do próprio gosto excêntrico, porém augusto, do príncipe. Uma forte e elevada muralha a circundava. Essa muralha possuía portões feitos em ferro. Os cortesãos, tendo entrado, trouxeram fornalhas e maciços martelos e soldaram os parafusos. Decidiram não deixar qualquer meios entrada para repentinos impulsos de desespero ou saída para o frenesi dos de dentro. A abadia estava abundantemente provisionada. Com tais precauções, os cortesãos podiam assim impor desafio ao contágio. O mundo exterior que tomasse conta de si próprio. Nesse meio tempo, era tolice lamentar-se, ou pensar. O príncipe havia providenciado a todos as ferramentas para a diversão. Haviam bufões, haviam improvisadores, haviam dançarinos de balé, haviam músicos, havia a Beleza, havia vinho. Tudo isso, e a segurança do lado de dentro. Sem a “Morte Vermelha”.

Ao final do quinto ou sexto mês de reclusão, enquanto a pestilência assolava mais furiosamente do lado de fora, o príncipe Prospero ofereceu aos seus mil amigos um baile de máscaras da magnificência mais extraordinária.

Fora uma cena voluptuosa, essa mascarada. Mas, primeiro, deixem-me contar sobre os salões em que ela tevera lugar. Haviam sete — um conjunto majestoso. Em muitos palácios, contudo, tais conjuntos formavam uma perspectiva longa e corrediça, enquanto as portas dobráveis deslizam próximas das paredes em ambas as direções, de forma que a vista de toda a extensão do lugar fosse vista quase sem impedimentos. Aqui, o caso era bem diferente; tanto quanto o esperado do gosto pelo excêntrico que o duque possuía. Os aposentos eram dispostos tão irregularmente que a visão não os compreendia mais do que um de cada vez. Havia uma curva acentuada a cada quase vinte ou trinta metros, e a cada curva, uma sensação de novidade. À esquerda e à direita, no meio de cada parede, uma janela gótica alta e estreita encarava de cima um corredor fechado que percorria os meandros do conjunto. Essas janelas eram feitas com vitrais cuja cor variava de acordo com a tonalidade predominante das decorações da câmara para a qual elas se abriam. A câmara da extremidade leste era composta, por exemplo, de cores azuis — e de um vívido azul eram também suas janelas. A segunda câmara era púrpura em seus enfeites e tapeçarias, e aqui suas vidraças eram púrpuras. A terceira era inteiramente verde, e assim eram seus caixilhos. A quarta era mobiliada e iluminada em laranja — a quinta, em branco — a sexta, em violeta. O sétimo aposento era densamente envolto por tapeçarias de veludo negro, pendendo por todo o teto e descendo pelas paredes, caindo em pesadas ondulações sobre o carpete feito do mesmo material e com a mesma matiz. Somente neste recinto, porém, a cor das janelas deixava de corresponder com a das decorações. As vidraças eram escarlates — uma profunda cor sanguinolenta. Ora, em nenhum dos sete aposentos havia qualquer lâmpada ou candelabro em meio à profusão de ornamentos dourados que jaziam espalhados por todos os lados ou pendendo do teto. Não havia qualquer espécie de luz emanando de lamparina ou vela dentro do conjunto de salões. Mas nos corredores que trespassavam o conjunto, ficava, diante de cada janela, um pesado tripé carregando um braseiro cujo fogo se projetava através do vidro colorido e iluminava deslumbrantemente o espaço. E assim se produziam uma variedade de espalhafatosos e fantásticos fenômenos. Mas, no aposento ocidental, ou a câmara negra, o efeito da luz do fogo que fluía sobre as cortinas escuras através das vidraças tingidas de sangue era pavoroso ao extremo, e produzia uma expressão tão selvagem nos semblantes daqueles que ali adentravam, que muito poucos dentre os convidados mostravam coragem o suficiente para sequer colocarem os pés naquele recinto.

Havia neste aposento, também, postado de encontro a parede oeste, um gigantesco relógio de ébano. Seu pêndulo oscilava para frente e para trás com um surdo, pesado e monótono clangor; e quando o ponteiro dos minutos completava seu circuito pelo mostrador, e a hora estava para ser tocada, vinham dos brônzeos pulmões do relógio um som que era claro e alto e profundo e extremamente musical, mas de uma nota tão peculiar e de uma ênfase que, a cada lapso de hora, os músicos da orquestra eram obrigados a fazer uma pausa momentânea em sua execução, para ouvir o som; e deste modo os valsistas forçosamente interrompiam suas evoluções; e um breve desconcerto tomava todo o alegre grupo; e, enquanto as badaladas do relógio ainda soavam, observava-se que os mais agitados empalideciam e os mais velhos e calmos passavam as mãos sobre suas frontes como se mergulhassem em um devaneio ou meditação. Mas quando os ecos cessaram completamente, uma onda de risadas despreocupadas percorria a multidão; os músicos se entreolhavam e sorriam como que de seu próprio nervosismo e tolice, e sussurravam promessas, uns para os outros, de que o próximo toque do relógio não produziria neles semelhante emoção; e então, após transcorridos mais sessenta minutos (que abrangem três mil e seiscentos segundos do Tempo que voa), seguia-se outra badalada do relógio, e então havia o mesmo desconcerto e tremor e meditação de antes.

Mas, a despeito de tais coisas, fora uma festa alegre e magnífica. Os gostos do duque eram peculiares. Ele possuía um olho aguçado para cores e efeitos. Desprezava as decorações da moda comum. Seus projetos eram ousados e apaixonados, e suas criações brilhavam com um esplendor barbárico. Alguns o teriam julgado louco. Seus admiradores sentiam que ele não era. Era necessário ouvi-lo e vê-lo e tocá-lo para ter certeza de que ele não o era.

Ele havia posicionado, em sua maioria, os adornos dispostos nas sete câmaras, por ocasião desta grande festa; e fora sob a orientação de seu próprio gosto que determinara a caracterização dos mascarados. Sem dúvidas eram grotescos. Havia muito brilho e esplendor e coisas chamativas e fantasmagóricas — muito do que se tem visto desde Hermani. Haviam figuras arabescas em fantasias inusitadas. Havia extravagâncias delirantes como as concepções de um louco. Havia a beleza em excesso, lascívia em excesso, o bizarro em excesso, um quê de terrível, e não pouco do que talvez suscitasse aversão. Aqui e acolá no decorrer de todas as sete câmaras o que as espreitavam era, na verdade, uma multidão de sonhos. E estes — os sonhos — contorciam-se por toda parte, assumindo a matiz dos aposentos, e fazendo com que a frenética música da orquestra parecesse um eco de seus passos. E, em seguida, as badaladas do relógio de ébano no salão de veludo. E então, por um momento, tudo é quietude, tudo é silêncio, salvo a voz do relógio. Os sonhos rigidamente congelados onde estavam. Mas os ecos do carrilhão se desvanecem — não duraram mais que um instante — e uma sonora risada despreocupada começa a flutuar em seguida a eles, conforme se vão. E agora novamente a música se eleva, e os sonhos revivem, e se contorcem de um lado para o outro mais do que nunca, assumindo a matiz dos inúmeros vitrais através dos quais vertem os raios dos tripés. Mas, no salão que fica mais ao oeste dos sete, agora nenhum dos mascarados se aventura: pois a noite começa a minguar; e ali flui uma luz rubra pelos vidros coloridos de sangue; e o negror das cortinas de zibelina horrorizam; e àquele cujo pé repousava sobre o tapete escuro, chegava de próximo do relógio de ébano um estrépito abafado mais solenemente enfático do que qualquer outro ruído que alcançava os ouvidos daqueles que entregavam-se às alegrias mais remotas dos demais aposentos.

Mas estes outros aposentos estavam mais densamente abarrotados, e neles batia mais febrilmente o coração da vida. E a festa prosseguia rodopiante, até que finalmente começou o toque da meia-noite no relógio. E então a música cessou, como num comando; e as evoluções dos valsistas se aquietaram; e apreensivamente tudo o mais cessou, como antes. Mas agora haviam doze badaladas a soar do relógio; e desse modo aconteceu, talvez, que mais pensamentos se insinuaram, com mais tempo, nas meditações dos mais pensativos entre os que festejavam. E assim, igualmente, aconteceu, talvez, que antes que o último dos ecos do badalar houvesse totalmente afundado em silêncio, de muitos indivíduos na multidão começarem lentamente a se dar conta da presença de uma figura mascarada a qual não chamara a atenção particularmente de ninguém antes. E tendo o rumor desta nova presença se disseminado aos sussurros ao redor, enfim surgiu em toda a comitiva um burburinho, ou murmúrio, expressando desaprovação e surpresa — depois, finalmente, de terror, de horror, e de repulsa.

Numa reunião de fantasmas como essa que pintei, pode-se muito bem se supor que nenhuma aparência ordinária seria capaz de incitar tal sensação. Na verdade, a licença para as fantasias daquela noite eram praticamente ilimitadas; mas a figura em questão havia superado em herodianismo o próprio Herodes, e fora muito além até do limite de decoro indefinido do príncipe. Existem acordes nos corações dos mais imprudentes que não podem ser tocados sem emoção. Mesmo aos completamente perdidos, para quem a vida e morte são igualmente brincadeira, há assuntos sobre os quais nenhuma brincadeira pode ser feita. Toda a comitiva, de fato, parecia agora sentir profundamente que no traje e no comportamento do estranho não existiam nem humor, nem civilidade. A figura era alta e descarnada, e era envolta dos pés à cabeça por roupagens vindas da sepultura. A máscara que selava suas feições era feita de modo a se assemelhar tanto com o semblante de um cadáver enrijecido que mesmo um escrutínio mais detido teria dificuldades em detectar o embuste. E contudo, tudo isso poderia ter sido suportado, senão aceito, pelos exasperados foliões ao redor. Mas o mascarado fora longe demais ao assumir a caracterização da Morte Vermelha. Sua vestimenta estava salpicada de sangue — e sua ampla fronte, com todas as características de um rosto, estava aspergida com o horror escarlate.

Quando os olhos do príncipe Prospero repousaram sobre a espectral imagem (que com movimentos lentos e solenes, como que para sustentar completamente seu papel, esgueirava-se para lá e para cá entre os valsistas), ele foi visto em grande agitação, num primeiro momento tomado por um grande estremecimento, de terror ou desgosto; mas, em seguida, suas faces coraram-se de fúria.

— Quem ousa? — ele inquiriu rispidamente para os cortesãos mais próximos de si. — Quem ousa nos insultar com tal blasfêmica zombaria? Agarrai-o e desmascarai-o — para que saibamos quem temos de enforcar nas ameias ao nascer do sol!

Era no salão leste ou câmara azul onde se encontrava o príncipe Prospero quando pronunciara estas palavras. Elas reverberaram pelos sete aposentos em alto e bom tom — pois o príncipe era um homem bravo e robusto, e a música havia começado a diminuir a um aceno de sua mão.

Era no aposento azul onde estava o príncipe, com um grupo de pálidos cortesãos ao seu lado. De início, quando ele falara, houve uma intuitiva e ligeira movimentação do grupo na direção do intruso, que no momento estava quase ao alcance da mão, e agora, com determinados e majestosos passos, aproximava-se daquele que falara. Mas, em razão de um certo assombro inominável que as exaltadas impressões que o mascarado inspirara em toda a festa, não houve quem estendesse uma mão para segurá-lo; assim sendo, desimpedido, ele passou a quase um metro da pessoa do príncipe; e, conforme a vasta plateia, como que em um único impulso, encolhia-se do centro das salas para as paredes, ele galgava seu caminho ininterruptamente, mas com o mesmo passo solene e comedido que o distinguira desde o início, da câmara azul à púrpura — da púrpura para a verde — da verde para a laranja — e desta novamente para a branca — e ainda daí para a violeta, antes que qualquer gesto fosse feito para detê-lo. Fora então, entretanto, que o príncipe Prospero, enlouquecendo de raiva e de vergonha de sua momentânea covardia, disparou apressadamente pelas seis câmaras, enquanto ninguém o seguisse devido ao terror mortal que se apoderara todos. Brandia uma adaga desembainhada, e se acercara, em rápida impetuosidade, a dois ou três passos da figura que se retirava, quando esta última, tendo atingido a extremidade do aposento aveludado, virara-se subitamente e confrontara seu perseguidor. Houve um grito agudo — e a adaga tombou cintilando sobre o tapete escuro, sobre o qual, instantaneamente após isso, caíra prostrado em morte o príncipe Prospero. Então, evocando a coragem selvagem do desespero, uma multidão de foliões arremeteu de uma só vez do salão negro, e, agarrando o mascarado, cuja alta figura permanecia ereta e imóvel à sombra do relógio de ébano, ofegaram em inexprimível horror ao descobrir que o sudário e máscara cadavérica, os quais haviam se apossado com tamanha violência e rudeza, não eram habitados por nenhuma forma tangível.

E agora era reconhecida a presença da Morte Vermelha. Ela viera como um ladrão na noite. E, um a um, tombaram os convivas pelos corredores banhados de sangue de sua festa, morrendo cada qual na posição de desespero em que haviam caído. E a vida do relógio de ébano expirou-se juntamente com a do último folião. E as chamas dos tripés se extinguiram. E as Trevas e a Decadência da Morte Vermelha estenderam seus ilimitados domínios sobre todos.

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