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A entrevista

Matérias precisam ser escritas, e para isso, precisam de um jornalista. Mais importante que isso, precisam de um entrevistado que possua uma história (ou um mistério) fascinante.

Sandrini Matyas
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Áudio drama
A entrevista
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

A sala tinha um cheiro forte de tabaco. O jovem recém-chegado sentou-se em uma poltrona antiga, onde podia apoiar seu caderno num dos braços confortavelmente, enquanto o homem à sua frente permanecia em pé no meio da sala.

- Você gostaria de alguma coisa? - Ele lhe perguntou, depois de acender um cigarro. - Café, chá, água, suco? Senhor...

- André. E só um café já está bom. - Respondeu, sorrindo.

Ele assentiu, tirou o cigarro dos lábios depois de uma lenta baforada na direção da janela e caminhou para a cozinha. Seus passos foram ouvidos pelo corredor, até sumirem completamente.

O rapaz aproveitou de sua solidão para olhar melhor o local: havia um sofá de dois lugares à sua frente, uma pequena mesa de centro, à sua direita tinha a janela aberta - uma tentativa do seu anfitrião de amenizar o cheiro do cigarro, ele pensou - pela qual se ouvia um carro passando vez ou outra, e do outro lado da sala havia uma estante com livros, bibelôs, lembrancinhas de lugares visitados e uma televisão desligada.

Ele se olhou pelo reflexo da TV: uma mochila azul descansava aos seus pés, segurava um caderno sketch book com uma caneta no braço da poltrona, trajava calças jeans e uma camisa polo. Suspirou pesadamente. Pela janela ele podia ver o céu cinzento. Estavam em pleno outono e a previsão do tempo não tinha notícias sobre dias mais quentes pelo resto da semana.

O ambiente todo era bem velho: o prédio deve ter sido construído no século passado, a falta de elevadores e uma fachada com tintas desbotadas davam uma dica. E dentro do apartamento não era diferente: o item mais novo que ele encontrou foi o sofá. Até mesmo a televisão era de tubo, cerca de quarenta e duas polegadas, e ele se surpreenderia se ainda funcionasse.

Aquilo começava a lhe incomodar. Sozinho a alguns minutos, no mais perfeito silêncio, a sensação que tinha era de estar fora do mundo moderno, uma sensação de distanciamento que lhe apertava o estômago. Cada carro que passava na rua era um alívio, lhe dava certeza de que tudo era bobagem, apenas sua mente cansada lhe pregando peças.

Só podia ser isso porque, ele tinha adquirindo um “apito” dentro da sua cabeça, algo parecido com um alerta vermelho que tocava sempre que ele chegava muito perto de algo perigoso. Era como uma linha que ele não atravessava, um limite. Já ouvira algumas pessoas dizendo que isso era sua intuição, mas ele não chamava assim.

E esse alerta começou a tocar desde que saíra de casa.

Passos pela casa tiraram ele do seu devaneio. Seu entrevistado voltava com duas xícaras na mão - e um cigarro novo entre os lábios.

- Desculpe a demora, precisei passar um café novo. - Disse entre dentes enquanto lhe entregava uma xícara com pires, um conjunto de porcelana branca com vários desenhos de flores rosas ao redor. - Espero que esteja bom. Faz tempo que não faço café para outra pessoa.

- Muito obrigado. - Respondeu. - Essas xícaras são lindas, você ganhou de alguém? Eu lembro de ter visto igual só na casa dos meus avós. Já faz muito tempo.

- Não, eu comprei de um colecionador. - O homem respondeu, se sentando no sofá. - Na minha casa também tinha, quando eu era criança, então quando achei para comprar, não pensei duas vezes.

- Deve ter sido um pouco caro. É uma raridade!

- Mais ou menos. - Ele riu, dando uma última puxada no seu cigarro e apagando-o no cinzeiro no braço do sofá. - Isso faz parte da entrevista?

- Bom, tudo o que você dizer, eu poderei usar para você ou contra você. - Ele riu, assoprando um pouco do café antes de tomar um gole.

Seu entrevistado também riu, e ele sentiu que o clima estava mais descontraído.

- Certo. Foi um pouco caro, mas tudo bem, não foi um problema para mim.

- Que ótimo. - O rapaz se debruçou, pegando o gravador e apertando um botão, deixando uma luz verde acesa e o colocando na mesa. - Então acho que com isso, podemos começar.

- Claro. - Ele deu um gole rápido no seu café, arregalou os olhos para o gravador como se fosse um animal peçonhento. - O que eu devo fazer?

- Pode começar se apresentando. Seu nome, idade, o que faz... Coisas básicas.

- Ah, sim. Certo. - André notou que ele pareceu um pouco desconcertado, perdido. Rodou os olhos rapidamente, como se buscasse algumas informações no fundo de sua mente. - Meu nome é Gustavo Berryann, tenho quarenta e cinco anos e sou empresário. - Ele fez uma pausa, olhando para os lados novamente, como se tivesse tentando lembrar de um texto decorado a muito tempo. - É isso?

- Sim. - O repórter suspirou. Tudo dava sinais de que seria uma longa entrevista. - Senhor Gustavo, estou aqui hoje porque o senhor entrou em contato com a nossa editora, a Rasos e Escuros, dizendo que precisava contar a sua história.

- Exato.

- Qual exatamente é a sua história?

O homem deu mais um gole no seu café, ainda quente, encostando relaxadamente no sofá.

- Recentemente, encontrei um texto de vocês numa revista antiga. - Ele dizia, calmo, porém com o olhar duro e confiante. Difícil dizer que era o mesmo homem perdido em pensamentos de agora há pouco. - Uma edição de quase cinco anos. No começo, confesso que não dei muita bola, mas comprei porquê... Bem, eu gosto de coisas antigas. É um velho hábito meu. – Riu e deu de ombros. - Mas com o passar dos dias, comecei a me indagar se eu não deveria contribuir com aquela história.

- O senhor vai me desculpar por cortá-lo assim. - O repórter ergueu as mãos espalmadas para a frente. - Mas vai ter que me lembrar exatamente do que estamos falando. São quase sete anos de revista, eu não lembro qual edição tinha que tipo de textos, entende?

- Era uma edição sobre lugares místicos e assombrados. Mas tinha uma história, um pouco tendenciosa, eu diria, sobre existir uma cidade mágica em algum lugar do mundo, onde coisas misteriosas acontecem, mas ninguém nunca chegou a visitar.

- Certo... Eu me lembro vagamente. - Ele fez uma pausa, sentindo-se desconfortável com aquela história. Olhou para o café em sua xícara, sem vontade de tomá-lo, e deixou-o em cima da mesa. Lembrava-se de ter existido uma edição assim, como ele descrevia, mas não era uma matéria que lhe dava orgulho. Trabalhava como repórter ali desde o começo, o dono da editora era um amigo seu da faculdade, e o que começou como uma brincadeira, uma forma de acrescentar algo ao seu currículo, acabou se tornando um trabalho, e ele se viu tão envolvido que não tinha forças para sair. - Foi publicada porque, naquela época, era o que o povo dessa cidade queria ler: contos, fantasias, histórias de terror que deixassem acordados a noite. Mas os tempos mudaram, senhor Gustavo, e hoje em dia as pessoas querem veracidade. Com a internet na palma da mão, é preciso ser transparente nas informações e buscar casos reais. Não podemos mais trabalhar apenas com histórias, o senhor entende isso?

Foi quando parou de falar que se sentiu cansado, sem fôlego, como se tivesse subido três lances de escada correndo, sentindo o ambiente estranhamente abafado. Precisou suspirar fortemente para recuperar a respiração. Sabia que estava fora de forma, mas não tanto.

De cabeça baixa, encarava para o gravador enquanto fazia estas indagações. Quando decidiu olhar para seu entrevistado, sentiu um arrepio na espinha.

Gustavo o observava, sorrindo, como se tivesse pensado em tudo que ele havia falado e tivesse uma contraproposta na ponta da língua.

Mas parecia também, que Gustavo analisava não somente suas palavras, mas também suas feições. Como se estivesse se divertindo às suas custas. Como se pudesse ler seus pensamentos.

- É aí que eu entro, senhor. Eu nasci e fui criado naquela cidade. Eu posso comprovar a sua história.


O repórter teve certeza de que haviam se passado alguns minutos de silêncio.

Na verdade, aquilo não estava entrando em sua mente: como é possível?

Na época em que fizeram aquela edição, ele tinha certeza de que a história era uma furada, totalmente inventada pela fonte em troca de algum cachê, mas precisavam publicar mesmo assim. Por isso, aquilo não entrava na sua cabeça.

- O senhor deve estar enganado. Aquela história era...

- Mentira? - Gustavo terminou a frase. - Imaginei que fosse, já que não se falava coisa com coisa.

Ele dando um último gole em seu café, antes de concluir o raciocínio: - Mas a cidade existe de verdade, e agora eu sinto necessidade de compartilhar algumas coisas. Acredito que sua revista, por menor que seja, é perfeita para o trabalho.

O repórter absorvia todas aquelas informações, sem saber no que pensar. Aquilo era uma coisa que só acontecia em filmes: uma pessoa estranha chegar para o personagem principal e dizer “oi, eu vim mudar a sua vida!”.

Aquilo só acontecia na ficção. Ou com outras pessoas, aquelas que ficavam famosas. 

Não com ele.

- Senhor, se essa história for real, você pode escolher qualquer outra editora para o trabalho. Podia ter escolhido um jornal grande, ou até mesmo ido a um programa de televisão. Porque a Rasos e Escuros? - Despejou essas perguntas no colo de Gustavo, tentando falar com uma calma que não estava sentindo.

- Eu simpatizei com a revista de vocês. Tem o tom certo para esse tipo de matéria.

Então, André fez a pergunta que estava presa na sua garganta:

- Porque eu?

- Porque eu vi potencial no senhor, desde a primeira vez que pus os olhos em seus textos. O senhor é uma pessoa boa, só precisa que alguém lhe dê uma chance.


Houve mais uma pausa no gravador para que as xícaras de café fossem enchidas novamente. Gustavo tinha mais um cigarro na ponta dos dedos, assoprando a fumaça em direção da janela. O repórter se recompôs, pediu para ir ao banheiro onde lavou o rosto, e quando voltou, sentiu-se forte para encarar o que estava à sua frente.

- Podemos recomeçar, então?

- Quando quiser.

O gravador voltou a rodar.

- O senhor disse que leu uma revista antiga nossa, onde tinha um texto sobre uma cidade misteriosa que aparecia e desaparecia no mundo, e ninguém sabia se existia de verdade, correto?

- Isso.

- Mas veja bem, aquela história não foi divulgada cem por cento. Muitos fatos foram ocultados. Como o senhor sabe que se trata de uma história real?

- Bom, a matéria pode não ter sido totalmente... Transparente. Mas a cidade existe de verdade. - Ele fez uma pausa, dando uma tragada profunda. - Vocês a chamaram de Cidade Sem Ninguém. Nós temos outro nome para ela, na sua língua significa mais ou menos Lugar Nenhum.

- Na sua língua? Quer dizer que lá vocês têm um dialeto diferenciado?

- Nós aprendemos uma língua antiga, mas também aprendemos algumas línguas atuais. Temos muitas aulas de idiomas.

- Ok senhor Gustavo, vamos começar do começo. Você disse “nós”, quem somos nós?

- Os moradores de Lugar Nenhum.

- Então o senhor morava lá?

- Sim, nasci e fui criado lá até a adolescência. Quando fiz quinze anos, meus pais decidiram sair da cidade, e nunca mais voltamos.

- E porque decidiram se mudar?

- Ah, isso é uma história longa. - Ele riu. - Tenho que contar algumas coisas antes, sobre Lugar Nenhum.

Gustavo deu um gole no seu café antes de voltar ao seu cigarro.


“O que nós estamos falando por cidade, na verdade não seria maior que um bairro de vocês por aqui. Era um amontoado de casas com poucos comércios, cercado de árvores e terra. Tínhamos apenas um hospital, uma delegacia e uma escola, e não precisávamos mais do que isso: como eu já disse, era um lugar pequeno.

Se eu for descrever para vocês como era o lugar, eu não saberia dizer. Quando eu era criança, tudo era normal, a gente nunca julga que mora num lugar diferente do resto do mundo. Mas depois que saí de lá, pude ver como era um lugar... Estranho, para dizer o mínimo.

Por exemplo, eu não saberia como colocar a nossa arquitetura. Eu me lembro das casas pequenas, antigas, feitas de pedra com os telhados em triângulo para não acumular água ou neve; das ruas feitas de cascalho, dos postes acesos durante a noite. Mas não era somente isso, tínhamos construções modernas: nosso hospital e nossa delegacia, eu lembro de terem um letreiro bem grande com um neon piscante, as letras escritas em nosso dialeto - tenho certeza que, para vocês, aquilo não passaria de rabiscos infantis.

Não somente isso, nosso hospital era equipado com uma tecnologia que eu ainda não encontrei, nesses vinte anos que moro fora de lá, em lugar nenhum - nem mesmo em seu Japão, o lugar mais bem desenvolvido em tecnologia que já vi por aqui. Mas nós tínhamos aparelhos inteligentes, robôs minúsculos usados para encontrar e corrigir problemas dentro do seu corpo. Todas as crianças até os seis anos precisavam fazer, anualmente, um exame de rotina: eles passavam por uma máquina que se assemelha muito ao seu scanner, e que dizia se a criança ficaria doente em breve ou não. Nossas cirurgias, que já eram poucas, eram feitas com aparelhos à laser, as cicatrizes eram mínimas, já que os equipamentos tinham capacidade de atingir nível celular.”


O repórter percebeu que não piscava e mal estava respirando, diante aquela conversa. Estava se sentindo cativo de tudo aquilo, de todo o momento. Pensou em desligar o gravador e fazer aquela pergunta in off, mas recolheu a mão. Aquela história estava intrigante demais, encantadora demais, era tudo... Demais. E ele precisava ter tudo registrado.

- Mas Gustavo, não temos essa tecnologia hoje em dia. Os especialistas dizem que é uma tendência apenas para as próximas décadas. O que está sugerindo é que vocês tinham uma tecnologia do futuro?

- Eu não tenho como provar algo assim para você. Mas estamos falando de um lugar que não tem localização fixa, que a cidade pode se mover, não seria de se espantar que tenhamos entrado em contato com alguma civilização do futuro.

André passou a mão na testa, sentindo-a suada.

- Mas não é somente isso que faz a cidade ser... Especial. – Gustavo prosseguiu.


“Quando as crianças de Lugar Nenhum nascem, e durante toda sua infância, eles possuem a pele de uma coloração esverdeada. Não sei porque isso acontece, mas nós vamos perdendo essa cor à medida que crescemos. Por isso é proibido que uma mulher grávida de Lugar Nenhum saia da vila, ou que alguém saia levando crianças pequenas.

Lugar Nenhum tem algumas regras bem rígidas para seguir. Nosso governo é de autopreservação. Da mesma maneira, quando alguém sai da cidade, não consegue voltar, jamais. Não podemos correr o risco de sermos seguidos ou algo semelhante. Não podemos correr o risco de alguém descobrir sobre nós.”


- Espere um momento. – André interrompeu a narrativa do seu entrevistado, pousando a caneta por cima do caderno rabiscado. – Isso é impossível. Seres humanos não tem uma pele verde, igual de um sapo!

- Mas quem disse que somos humanos?

O repórter sentiu um leve arrepio na espinha com aquela pergunta. Gustavo riu baixo e pegou outro cigarro do maço.

- Estou brincando. É claro que somos humanos. – Acendeu o cigarro, dando uma tragada e podendo ver os ombros do repórter relaxarem. – Mas você precisa ter a mente aberta. Só porque algo ainda não foi descoberto, ou não foi provado, não quer dizer que não seja real.

André coçou a cabeça. Aquilo era demais, era muita informação. Ele sempre fora um homem da ciência, sempre acreditara em fatos e em números, e não em superstições ou crendices. Aquela história de “mente aberta”, para ele, era apenas uma maneira estúpida de dizer que ele precisava tolerar ideias ridículas.

- Eu sei que você não acredita nem um pouco em mim, mas isso não importa. – Gustavo apontou com o cigarro entre os dedos para o gravador em cima da mesa. – Isso já é o suficiente para mim. E eu preciso continuar contando a minha história, antes que fique muito tarde.


“Agora, preciso ser bem sincero com você, André. Depois que a gente cresce, acaba amadurecendo e tomando ciência de algumas coisas que acontecem no mundo.

Coisas estranhas aconteciam em Lugar Nenhum, mas quando a gente é criança, não sabe direito o que isso quer dizer, você só percebe depois que cresce. E eu entendi quando saí de lá, é como se existem duas Lugar Nenhum: uma quando você acha que tem alguma coisa de errado, e outra quando você tem certeza que existe alguma coisa errada na cidade.

Existia alguma coisa ruim naquele lugar, alguma coisa maligna. Quando eu era criança, meus amigos compartilhavam essas histórias e achávamos que era algo normal. Eu tinha um amigo da escola que sempre quando ia dormir, precisava deixar uma luz acesa no quarto, se não, ele jurava que duas pessoas apareciam no quarto dele para olhá-lo dormir. E ele morria de medo, chegava a paralisar. Os pais não sabiam o que fazer – depois você entende, na verdade, não tinha o que fazer – então o abajur no quarto dele vivia aceso. Ele nunca sofreu nenhum machucado, mas essa não é a questão aqui.

Lembro também de uma outra vez, com uma menina que morava na minha rua, ela não gostava de ficar sozinha em casa, dizia que era seguida por um senhor que ficava nas portas dos cômodos, observando. Essa menina era corajosa, ela tentou olhar muitas vezes para esse vulto, para tentar ver se era alguém que ela conhecia, mas quando conseguiu, ficou traumatizada para sempre: o senhor não tinha rosto. Era um buraco negro.

Entende, André? Quando somos crianças, essas são história de terror que achamos ser algo passageiro. Mas depois passamos a entender os olhares assustados de nossos pais, os cochichos sobre sair da cidade quando acham que estamos dormindo e as histórias de crianças que simplesmente sumiram.

É como se a cidade fosse amaldiçoada. E todos sabem que uma hora, algo ruim vai acontecer, mas ninguém tem coragem de fazer nada, a não ser sair da cidade. Só o que podemos fazer é torcer para não ser tarde demais.”


Gustavo respirou fundo, deu uma tragada boa no cigarro e virou-se na direção da janela. André estava estático na poltrona, endurecido, ansioso. Nesses momentos de silêncio ele podia ouvir o alerta apitando dentro de sua mente, algo dizia para que ele se levantasse, dissesse que aquilo já estava bom, que tinha bastante material, que entrasse dentro do carro e saísse daquela rua o mais rápido que pudesse.

Mas não conseguia. Viu-se envolvido de tal maneira com aquela história, por mais que ainda duvidasse se deveria acreditar ou não, que ele não conseguia se mover.

- Agora você deve estar se perguntando, o que me levou a sair de lá. Já adianto, senhor André, que comigo nunca aconteceu nada tão assombroso assim. Na verdade, comigo nunca aconteceu nada.

“Bom, isso até aquele dia.

Foi uma decisão dos meus pais de sair da cidade – seria melhor chamá-la de pequena vila. Eu já estava mais velho, com quinze anos já tinha perdido totalmente minha cor verde, podia obter a autorização do governo para sair, se quisesse, mas isso nunca passou pela minha cabeça. Naquela época, eu achava que iria ficar o resto da minha vida ali, que encontraria um trabalho em algum comércio local, ou que poderia tentar algum trabalho na prefeitura. Não era uma má ideia, eram cargos que ganhavam bem, e eu sempre me interessei por política.

Meus pais nasceram e viveram suas vidas ali, e eu não tinha nenhum problema em fazer o mesmo.

Mas então, um dia, um casal novo chegou à cidade.

Eles eram de fora, acabaram entrando ali por engano, estavam perdidos.

Eu soube que eles conseguiram conversar com o nosso prefeito, e obtiveram uma autorização para ficar ali em Lugar Nenhum pelo tempo que fosse. Parece que eles não tinham um lugar para ir, algo sobre fugir de casa, acho que foram se casar escondido dos pais. Eram muito jovens, a moça devia ter só dezoito anos; o rapaz não parecia ter muito mais que isso, também.

Meus pais não queriam que eu conversasse com eles, achavam que poderiam colocar alguma ideia errada sobre o mundo lá fora na minha cabeça, mas isso não foi um problema. Eles foram morar numa casa numa rua um pouco longe da nossa, que era caminho da minha escola, então eu os via rapidamente nesses momentos, mas nunca parei de fato para conversar com qualquer um deles dois.

O que acontece, é que eles tinham um cachorro.

Era pequenininho, devia ser um poodle ou um maltês, e ficava o tempo todo no quintal. Eu até gostava dele, sempre tentava fazer um pouco de carinho nele quando o casal não estava por perto. Eu sempre gostei de animais.

Mas o cachorrinho latia muito.

Latia quando a rua estava cheia de estudantes, indo para a aula. Latia quando não tinha ninguém passando. Sempre que alguém chegasse perto do portão, ele continuava latindo, com ganidos misturados, e se encolhia em algum canto do pequeno jardim.

Um dia quando passei por lá sozinho, saindo mais tarde da escola, e ele estava latindo como sempre; tentei chegar perto das grades do portão, ele deu algumas cheiradas na minha mão, e pensei que pudesse fazê-lo se acalmar. Mas ele correu para os fundos do quintal, deixando um rastro de xixi e fezes por onde passou.

Você deve estar pensando que aquilo era um comportamento normal, de um animal que não estava reconhecendo o ambiente, que não conhecia as pessoas, e que estava com dificuldades de se adaptar. Eu também achava isso – talvez todos achassem.

Mas um dia aquele casal decidiu levar o pequenino para dar uma volta pela cidade, quem sabe assim, ele não se acostumasse? Talvez ele só precisasse dar algumas cheiradas por aí.

Eu estava sentado na calçada de uma praça com alguns amigos. Tínhamos comprado algumas bebidas escondido dos nossos pais, era final de semana e estávamos conversando animadamente quando o casal chegou.

Aquele cachorro não parava de latir.

Uma hora, todo mundo que estava ali na praça começou a olhar para eles, e acho que eles ficaram constrangidos com isso porque começaram a puxar o cachorro de volta para casa. Meus amigos e eu continuamos conversando, mas nós também estávamos olhando pro casal tentando levar o cachorro embora. Eu não me sinto a melhor pessoa do mundo dizendo isso, quando se é jovem, você se diverte vendo as outras pessoas passarem vergonha, seja um cachorro intranquilo, seja um tombo, qualquer coisa

Então, o latido foi parando.

Por alguns segundos, um silêncio imperou ali na praça, o casal achou que finalmente tinham conseguido acalmar o cachorrinho, e todos pareciam olhar, aguardando se ele ia voltar a fazer estardalhaço ou se tinha, realmente, se acalmado.

Foi quando uma criança começou a chorar.

Um choro esganiçado, rouco, um grito estridente que fez meus ossos congelarem. Eu não saberia mais dizer se era um bebê ou uma gralha.

Quando me dei conta do que estava acontecendo, meu estômago se revirou como se tivessem cobras dentro de mim.

O cachorrinho gritava, já não era mais um latido débil. Seu focinho e língua se forçavam, faziam movimentos que nenhum animal devia fazer.

- MON...TO... – Foram as primeiras sílabas que ele conseguiu formular, com muita dificuldade, se tremendo todo. – RUI.. RU-IM... MON-TRO. COE. COE.

CORRE.

A moça pegou o pequenino no colo e eles saíram correndo.

Mas era possível ouvir de longe aqueles gritos.

Aquelas palavras me fizeram tremer inteiro. Eu olhei para meus amigos, ninguém ousou falar nada. Eles estavam brancos, como eu devia estar. As pessoas na praça se entreolharam e começaram a ir embora, sem ninguém dizer nada.

Me levantei e despedi rapidamente dos meus amigos e fui embora para casa. Só quando cheguei que percebi que estava correndo, minha respiração ofegante, as mãos suadas e reparei que tremia. Contei o que aconteceu para meus pais, minha mãe bateu na mesa e disse ‘precisamos ir embora, agora!’ e não perdemos tempo.

Tive um tempo para me despedir dos meus amigos, pedi para fecharem minha matrícula na escola, embalei todas as minhas coisas e, três dias depois, estávamos partindo.”


A sala parecia gelada, e não era por causa da janela aberta. O clima esteve um pouco frio o dia inteiro, mas não era o suficiente para incomodar André. Ele sempre preferiu o clima frio ao calor, quando passava mal de pressão baixa e outros problemas.

Mas agora, ele se sentia congelado na poltrona. Os braços rígidos e as mãos apertando as almofadas, geladas, que já haviam parado de escrever faz tempo. Quando começou a falar, percebeu que estava com a boca seca.

- E o cachorro? O que aconteceu com ele? – Sua voz saiu como um sussurro, rouco e forçado.

Gustavo deu de ombros:

- Sinceramente, eu não sei. Eu imagino que algo assim, as nossas autoridades não iriam deixar passar, devem ter inventado uma desculpa de alguma doença, e sacrificado ele. A questão aqui é outra, André, é como se tivessem duas cidades: uma, que a gente pensa que conhece, que a gente só suspeita que tem alguma coisa errada. E outra quando temos certeza de que existe algo errado. Eu nunca mais olhei para Lugar Nenhum com os mesmos olhos, senti um pouco de falta dos meus amigos, mas eu nunca tive vontade de voltar lá. E mesmo que eu quisesse, não conseguiria, sabe porquê?

- Porque ninguém consegue voltar para lá, depois que sai.

Gustavo sorriu, como um professor que acabou de ensinar algo importante para seus alunos:

- Exato.

“Agora vou te dizer uma coisa, que tem estado na minha cabeça desde que senti necessidade em contar sobre tudo isso: não me importa se você não acredita em mim, eu tinha que passar isso adiante. Agora pelo menos, você sabe, sabe que tem alguma coisa estranha com aquele lugar, sabe que existem mais mistérios do que podemos imaginar, é tudo o que me importa, mesmo que você decida nunca publicar em lugar nenhum essa história. Embora, eu digo, esse artigo te levará longe, se você tiver coragem.

Amanhã tenho certeza de que não estarei mais aqui. Porque quando você sai de Lugar Nenhum, você nunca mais volta, isso tem um significado mais profundo: também significa q você não pode falar sobre a cidade para outras pessoas, nunca.

Alguém virá me visitar, o pessoal da cidade tem muitos contatos do lado de fora, justamente para garantir a segurança de quem ainda está lá dentro. E antes que você me diga, André, para eu me mudar, para ir embora daqui, ainda assim eles iriam me encontrar.

Porque tem algo de muito errado acontecendo por aí. Não sei ainda se é apenas em Lugar Nenhum, ou se já acontece em outras partes do mundo. Mas isso existe, é real, e agora você sabe disso.

Desculpa passar esse fardo para você, mas não acredito que existam coincidências nessa vida. Da mesma forma que eu precisava de alguém para escrever minha história, você precisava de uma história para ser escrita. Isso tudo pode ser o que você tem esperado sua vida inteira.”


André deu por encerrado o trabalho e se levantou para ir embora. Ele não queria ficar nem mais um minuto naquele lugar, que de repente começou a ficar apertado, fazendo-o se sentir sufocado. O alerta em sua cabeça continuava a tocar, fazendo-o se sentir observado o caminho todo descendo as escadas, parecia que os vizinhos de Gustavo haviam acompanhado toda a entrevista. O coração disparado, os corredores pareciam menores, pareciam querer engoli-lo, e teve a impressão de estar demorando mais para chegar à saída do que foi quando entrou.

Finalmente na rua, ele pode respirar o ar gelado invadindo seus pulmões. Por um momento, achou que fosse desmaiar antes de conseguir sair do prédio.

Ele olhou para o gravador em sua mão, não teve tempo de guardá-lo na mochila junto com as outras coisas, quis sair do apartamento o mais rápido possível, pode ter soado até mesmo um pouco grosseiro. Mas algo o fez pensar que Gustavo entenderia.

Seu carro estava estacionado ali em frente, do outro lado da rua. Enquanto caminhava, ainda tinha a sensação de estar sendo observado. Da mesma maneira que parecia que os vizinhos de Gustavo haviam escutado toda a conversa, agora ele tinha a sensação de que todos estavam olhando pela janela, como se esperassem que ele fosse embora logo.

Dentro do carro, ele não soube direito porque, mas olhou para os bancos de trás antes de poder respirar aliviado. Trancou a porta e não abriu a janela, assim ele podia ter um pouco da sensação de segurança.

Deu a partida e saiu cantando pneus, porque queria ir embora dali o mais rápido que pudesse. Só foi respirar mais aliviado quando alcançou a avenida principal e entrou no fluxo de carros – ali, sim, ele se sentia como se estivesse longe de uma zona de perigo.

Em um momento de trânsito parado, ele olhou para o gravador repousado no banco do carona. Suas mãos formigavam e ele percebeu que estava rígido, segurando o volante com força. Olhou novamente para o gravador, sentindo uma vontade inexplicável de ouvir a história novamente; retirou a fita de dentro do gravador e colocou para tocar no rádio do carro.

E então, a sensação de estar sendo observado voltou. Olhou assustado para as pessoas nos outros carros, fazendo coisas normais, mas e se estivessem disfarçando e, quando ele estivesse distraído, olhariam para ele novamente?

Foi quando ele percebeu: aquele apito na sua mente, que muitos diziam ser sua intuição, um sexto sentido, não tinha parado de apitar, mesmo estando longe do prédio.

“Olá, meu nome é Gustavo Berryann, tenho quarenta e cinco anos e sou empresário. É isso?”

Ele adiantou um pouco a gravação, querendo chegar nas partes que importavam.

“Coisas estranhas aconteciam em Lugar Nenhum, mas quando a gente é criança, não sabe direito o que isso quer dizer, você só percebe depois que cresce. E eu entendi, é como se existem duas Lugar Nenhum: uma quando você acha que tem alguma coisa de errado, e outra quando você tem certeza que existe alguma coisa errada na cidade.”

Ele olhou novamente para os carros. O trânsito estava parado a algum tempo. Olhou lá na frente e o sinal estava verde para eles, porque os carros não andavam?

A sensação de estar sendo observado aumentava. Ele olhava para as pessoas na rua, para os outros motoristas. E se eles o observassem, quando ele não estava olhando?

“É como se a cidade fosse amaldiçoada. E todos sabem que uma hora, algo ruim vai acontecer, mas ninguém tem coragem de fazer nada, a não ser sair da cidade. Só o que podemos fazer é torcer para não ser tarde demais.”


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