Áudio drama
A ciborgue queimada e os motores harmoniosos
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Ouço o som dos barcos aéreos erguendo voo enquanto puxo com destreza as saias rodadas de tafetá. O espartilho, como sempre, incomoda e limita os movimentos, mas talvez este tribunal tenha vindo em boa hora. 

Se tudo correr como espero, esta será a última vez que terei de usá-lo. 

O funcionário do meu dono me puxa pelo braço mecânico chamuscado para frente enquanto Macus marcha, conseguindo vencer a multidão, que se distancia. 

Não o fazem por amor, mas por medo. 

Estranhos os homens, que querem ser temidos e esperam ser amados em troca. 

Estranho os homens com seus pequenos desejos. 

Nunca saciados. 

Chegamos ao tribunal, num velho teatro usado para ópera, cenário que julgo bastante adequado. O carmesim das cortinas abertas em breve refletiram sangue que vai cair. Mas não sei dizer o quanto já foi despendido, ignoro meu número, não sei dizer como este espetáculo será organizado. 

O Juiz Tomaz Schutter nos chama à frente e Macus é o primeiro a erguer a voz. 

“Senhor, trago hoje esta máquina que está defeituosa. Eu entendo que esses assuntos em geral são ministrados pelo Departamento de Máquinas, mas esta traz uma especificidade que vai contra os protocolos e fui obrigado a me dirigir até aqui”. 

Macus é incapaz de esconder seu asco por baixo da voz. Ele olha para essa parte da cidade como de fosse melhor que eles. Lembro de uma época que eu acreditei nele. Lembro dos meses dourados em que me julguei acima daqueles que agora seriam responsáveis por me julgar numa cena pública que me envergonharia antes, quando dei ouvidos ao meu mestre. 

Ser livre em pensamento sempre vem com um preço. Eu só não imaginava que Macus me faria pagar tão caro. 

A resposta do Juiz Schutter é lacônica. 

“De que especificidade que estamos tratando?”, ele pergunta me analisando atrás das lentes de seus óculos. 

Este Juiz é a engrenagem principal que mantém essa roda girando. Mas não parece a engrenagem mais eficiente. Puxa vez ou outra seus cabelos arruivados, gastos pelos tempo e balança suas pernas nervosamente. 

“Isto não vem ao caso", retruca Marcus. 

“Creio que caiba ao Juiz decidir isso. Responda a pergunta", o Juiz Schutter retorquiu irritado. O funcionário que me segura pelos braços se vira para Macus e fala baixo: 

“Isso não é bom... Ainda temos tempo para deixar esse lugar.” 

Macus nega com a cabeça. 

“Tenho tudo sob controle.” 

Então para o Juiz, fala com a voz confiante: 

"Foi instalada nela uma peça de órgão humano, senhor.”, responde, escolhendo ser vago. 

O Juiz volta a analisar seus registros, desconfiado. 

“Por que essa informação não consta no documento que deu entrada?” 

“Não julguei pertinente”, diz Macus, asfixiado em sua própria importância. 

“Ah, não julgou pertinente?” emenda o Juiz, positivamente irritado. “Pois quem decide isso sou eu, senhor. Não me importa quantos barcos aéreos possua, esta é minha 

jurisdição e eu serei respeitado”. 

Macus lhe lança um olhar de desprezo, mas retruca: 

“Como quiser”, responde num esgar. 

O Juiz Schutter balança a cabeça, já irritado antes mesmo de iniciar meu julgamento. 

Posso ver que isso será rápido. 

“Bem,” faz ele, desistindo de ensinar bons modos ao requerente. “Que peça de órgão humano foi instalado no ciborgue?” 

Os ombros de Macus se retesam, e sei que ele não quer responder a pergunta. O funcionário que me segura assobia alto, chamando atenção ao seu patrão. 

“Tenho tudo sob controle” ele fala entredentes, irritado. Virando-se para o Juiz, afirma “O cérebro, senhor”. 

As pessoas ao nosso redor guincham em espanto e o próprio Juiz ergueu as sobrancelhas. 

“O senhor está ciente de que tal prática foi proibida há mais de cinquenta anos pelo tenente Hermes?” 

“Eu consegui uma autorização especial para este caso”, respondeu Macus seco. 

O Juiz volta a olhar o registro, com as sobrancelhas unidas. 

“Por que nada disso está apresentado nos registros? Eu poderia dar este julgamento como irregular.” 

Macus ergue o queixo. 

“O senhor pode certamente tentar, mas receio que os patrocinadores do julgamento encontrariam problema na manhã seguinte para transportar o que quisesse e em breve, quem estaria em julgamento seria o próprio juiz”. ele fala num gesto amplo. “Ironias da vida.” 

O Juiz, escandalizado com a ameaça, respira com força. 

“Este mundo está falido”, fala baixo, mas eu consigo escutar. A audição dos homens não chega tão longe. Para Macus, volta a perguntar: 

“Muito bem. E o cérebro de quem foi instalado na Ciborgue em questão?”. 

“Esta informação não é necessária ao caso”, diz Macus. 

“Pela última vez, sou eu o Juiz, sou eu quem julga o que é ou não necessário ao caso!”, Schutter irrompe, quase perdendo sua paciência. Se pudesse puxar mais seus cabelos, ficaria careca. 

“Chefe, vamos embora”, intervém o funcionário. “Não estou com uma boa sensação..” 

“Para longe com esses misticismos!”, zomba Macus, irritado. 

“Não tenho o dia todo, Senhor Arys”, volta o Juiz. 

Macus pigarreia. 

Ele está desconfortável e me dá prazer vê-lo se contorcer um pouco. 

Por fim, decide falar. 

“De minha falecida mulher, Juiz.”, ele diz com alguma dignidade e a reação dos 

restantes é ainda mais chocante que a primeira. Os cochichos ficam mais altos. 

“Ordem, ordem no tribunal!”, ele grita. 

Aguardamos todos pararem de falar e sou mais analisada do que antes. 

Máquina ou humana, impossível definir. 

“Este é um caso bastante peculiar”, diz o Juiz, voltando seus olhos em mim. “Foi a partir deste momento que a ciborgue começou a apresentar problemas?” 

“Sim, foi.” 

“Compreensível”, diz o Juiz. “Bem, sem mais delongas, dou por aberto o tribunal de Macus Arys contra sua ciborque XP98. De acordo com os registros, a acusada em questão teria investido num ato de traição contra o seu mestre, tentando causar a própria destruição juntamente com um carregamento estimado a mais de 30 taliões. Entendo que o carregamento, assim como o barco foi perdido, mas a ciborgue recuperada, quase em sua totalidade.” ele fala observa partes chamuscadas de meu corpo. 

“Pode trazer a acusada à frente para que possa ser questionada.” 

O funcionário me empurra para frente e ando sem medo, sob os olhos atentos. Sinto o olhar de Macus em mim e percebo que por baixo dos olhos frios do patrocinador dos barcos aéreos, há dor. 

Dor que um dia já me comoveu. 

“Bom dia, senhor Schutter”, falo com educação e o Juiz balança a cabeça. 

“Não tente usar esses truques comigo, ciborgue”, ele ataca. “Como se defende das acusações que foram feitas a você?”. 

“Eu não me defendo”, respondo alto e claro. 

“Como não se defende? Não tem nada a dizer?”, o Juiz fala intrigado. 

“São perguntas diferentes, não são, senhor Juiz?”, eu pergunto. 

“Já disse que seus truques não vão funcionar aqui”, repete o Schutter. 

Há uma pausa para que eu calcule minhas chances de vitórias aqui. 

A sinceridade será a única política capaz de me levar a algum lugar. 

“Eu me lembro de tudo”, digo. “Lembro da vida como humana, lembro de sensações físicas que hoje como ciborgue desconheço, lembro do homem com quem me casei e lembro do homem que me matou. Mas receio não ser isso que esteja em questão aqui”. 

“Objeção!”, grita Macus, tentando avançar para me pegar de volta, mas sendo detido pelos Guardas do Tribunal. 

“O senhor não tem jurisdição aqui”, diz o Juiz, subitamente atento às minhas palavras. 

“O senhor verá até onde minha jurisdição vai.” 

“Não em meu tribunal, não, não vai.”, retruca o Juiz interessado. “Poderia me contar o que lembra sobre sua vida humana, ciborgue?”. 

“Meu nome era Apolina Arys, esposa de Macus Arys. Fui morta pelo homem com quem me casei e comprada no mesmo dia da minha morte quando meu cérebro foi instalada em sua ciborgue”. 

Há um choque na plateia, mas não noto as pessoas. Elas não podem ajudar aqui. 

“O Senhor Macus poderia se defender das alegações?”, Schutter retorquia. 

Macus mantém o rosto pontiagudo para frente, como se quisesse espetar o ar. 

“São mentiras, Juiz. Como pode Apolina estar morta se está falando com você? Como posso ser responsável pela morte de alguém que está entre nós?”, ele diz. 

“Ele queimou meu corpo, para que pudesse usar meu cérebro em uma mercadoria de sua jurisdição!”, estou gritando, mas não me importo. 

Macus me corta. 

“Infelizmente, a Legislação para Ciborgues me dá o direito de fazer o que eu bem entender com as máquinas em minha posse.” 

O Juiz retoma a palavra. 

“Tudo menos o direito de destruí-las, Macus, que deve ser por isso que está aqui”, se voltando para mim, o tom de Schutter adquire um tom ameno. “Senhora Apolina, algum dia achou estar em perigo com o seu marido? Por que não ocorreu às autoridades?” 

Olhei para ele com raiva. 

“Eu tentei várias vezes, aconteceu que suas leis só são menos eficientes para proteger máquinas do que são para mulheres”. digo, “Ninguém acreditou em mim e no dia que tentei fugir, foi quando Macus deu cabo em seu plano.” 

O Juiz ergue os olhos, confuso. 

“Eu estava certo? Veio aqui porque quer pedir pela destruição da ciborgue?” 

“Infelizmente, não posso destruir uma máquina sem uma ordem judicial de defeito e como todos os meus bens estão declarados, preciso da aprovação deste tribunal.”, ele diz. “É claro, e preciso lembrar aqui, que o cérebro que compõe a XP98 pertence a mim, pois se trata dos remanescentes do corpo de minha mulher, sob qual exerço direitos, em caso de morte de corpo material.” 

O Juiz olha espantado. 

“Como você vê, senhor Juiz, Macus procura por uma autorização de continuar me ter como mercadoria. Mas o meu pedido ao senhor hoje é simples de se resolver: desejo que me queime, com cérebro, todas as partes de mim", falo num fôlego só, não preciso me preocupar com ar desde que deixei de ter pulmões. Falar rápido demais é um efeito colateral de ser ciborgue, isso é agravado com o meu tempo se esgotando nesse julgamento. 

“Não farei isso, criança.” diz o Juiz perturbado. 

Agora sou criança e não ciborgue. 

Tudo que não queria era um senhor ter seu lado paternal despertado agora tentando me proteger. 

“Eu sou culpada”, afirmo convicta. “Eu realmente ateei fogo nos mantimentos de Macus e farei de novo, quando eu tiver oportunidade”. 

“Jamais terá oportunidade semelhante.” cospe Macus venenoso. 

“Se esse é o meu crime, eu vou te dar um conselho”, digo, me atendo ao senhor Schutter. “Me tranque numa jaula para eu nunca mais sair.” 

Continuo falando. Andei calada por tempo demais. 

“Tranque todas. Pois não há lei no mundo a ser feita que garanta submissão infinita. 

Ontem fui eu que acordei, mas amanhã outras vão acordar. E uma por uma, elas vão atrás de seus donos Ou você achou que Macus era o único homem com poder a matar suas mulheres para depois as trancarem dentro de ciborgues e controlá-las? Quantos na Cidade Alta não fazem isso? Quantas autorizações especiais para homens poderosos você acha que são emitidas por semana? Por mês? Por ano?”, paro não para pegar fôlego mas para mirar a expressão do senhor Schutter transtornada. "Vamos admitir: você não tem jurisdição para detê-los". Para meu espanto, o Juiz Schutter se dobra por cima da cadeira alegando precisar se ausentar, por mal estar causado pela ingestão de café estragado. 

Retirado às pressas, sou levada para custódia sob os gritos de ultraje de Macus e seu funcionário. 

OBS: O Juiz Schutter precisou se ausentar desse Julgamento por causa urgente. 

Estranhamente, logo após essa pausa, a ciborgue XP98 foi levada sob custódia do Estado, e 

só foi liberada depois que a lei dos ciborgues livres foi sancionada. 

OBS2: Quanto ao senhor Arys e aos demais donos de ciborgues com cérebros humanos, tiveram suas mercadorias confiscadas como direito do Estado. 

OBS3: A lei dos ciborgues livres alega que todos robôs compostos de parte de inteligência humana não podem mais ser considerado como máquinas e, portanto, não serão tratados como propriedade de alguém. 

OBS4: Macus precisou pagar uma indenização de 90 taliões pela quebra de protocolo.


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