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A casa de New Orleans
Conto

A casa de New Orleans

Muito se fala sobre a famosa casa do Sol Nascente. Dizem que sua história inspirou a letra de uma canção folk famosa, que ao menor soar de seus acordes, todos são capazes de reconhecer a melodia e cantar sua letra. Mas não se engane, as letras que permeiam a partitura dessa canção (pelo menos as que você conhece), foram reescritas ao longo dos anos.

Allyson Kovacs
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A casa de New Orleans
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Muito se fala sobre a famosa casa do Sol Nascente. Dizem que sua história inspirou a letra de uma canção folk famosa, que ao menor soar de seus acordes, todos são capazes de reconhecer a melodia e cantar sua letra. Mas não se engane, as letras que permeiam a partitura dessa canção (pelo menos as que você conhece), foram reescritas ao longo dos anos. A mais famosa conta a história de um garoto, cuja mãe era uma costureira e o pai bebia muito. Esse conto, meu caro amigo, não passa de fantasia. Vou te contar a história mais fidedigna, do que realmente aconteceu na Cidade de New Orleans, no ano de 1905. Mais precisamente, na Casa do Sol Nascente.

Para isso, preciso lhe apresentar uma garota, negra, de cabelos com longos cachos, volumosos, que ela mantinha preso em um rabo de cavalo baixo. Seus olhos eram famosos na cidade. Filha de um italiano vindo da imigração e de uma negra vinda da escravidão, ela acabou por herdar um olho azul e um marrom. Uma heterocromia que causava espanto, fascínio e, como em toda comunidade, burburinhos. É claro que seu pai não havia assumido a devida paternidade, afirmando que uma mulher como a mãe dela se deitava com qualquer estrangeiro por alguns trocados. Já sua mãe, que havia caído no papo do italiano alto e loiro, fazia questão de apontar o pai de Anna na rua. Dizia para guardar bem o rosto daquele homem, pois apesar de sua péssima conduta, ele ainda era seu pai. 

Dizer que Anna chorou no enterro de seu pai (que sua mãe fez questão de ir para olhar pela última vez o rosto daquele homem) seria mentir. Ela apenas olhou para o corpo no caixão, e ficou imaginando o que, além do olho azul, teria puxado dele. 

Seu pai, assim como tantos outros, faleceu de febre amarela. O surto só teve fim por volta de 1905, quando coincidentemente, a Casa do Sol Nascente foi inaugurada. 

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A arquitetura do local não era muito diferente dos outros tantos casarões presentes em New Orleans. O que diferia-o de tantas outras construções era o seu interior, permeado de belas mulheres, trocando uma noite de amor por algum dinheiro. A casa recebeu seu nome depois de tantos jovens homens esperarem até os primeiros raios de Sol para se retirarem do local. A então Casa do Sol Nascente era sinônimo de prazer, diversão e alegria para tantos e tantos clientes que a frequentavam. 

Mas a sua maior atração era proveniente de uma senhora, com seus 50 e tantos anos. De pele negra e cabelos negros, exceto por uma faixa de cabelos grisalhos que davam charme ao coque (que na maioria das vezes era escondido por um turbante), Mama Joan jurava ler o futuro dos clientes em cartas, ensinar mandingas e realizar alguns rituais de Voodoo. O atendimento com Mama Joan era restrito, com agenda pouco convencional, onde a prestadora de serviços teria que, literalmente, ir com a cara do cliente para atendê-lo. Enquanto tantos outros iam atrás da, então conhecida, “bruxa” da cidade apenas por puro capricho, ela buscava atender aqueles que realmente precisavam. Até o dia em que atendeu Anna. 

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Anna acabou optando por trabalhar na Casa do Sol Nascente. Primeiro buscou o cargo de garçonete, para auxiliar nas despesas de casa, e quando sua mãe decidiu se mudar para longe da cidade que a amaldiçoou, ela se viu obrigada a fazer dois turnos. Limpava a Casa pela manhã, conversava com as mulheres que lá trabalhavam e, a noite, retornava para trabalhar, entregando as bebidas que regavam conversas animadas. 

Após fazer algumas contas, decidiu que ganharia a vida como tantas das garotas que lá trabalhavam. Seu corpo voluptuoso e olhar intrigante se tornaram os favoritos de muitos clientes. Aprendeu a flertar e a encantar tantos homens quanto fosse necessário, emaranhava-os em mentiras e retirava-lhes cada centavo por uma noite de prazer. Fazia juras de amor e recebia presentes na manhã seguinte. Percebeu que estes homens sentiam prazer em exibi-la durante o dia e assim o fazia. Saia com eles, ia a eventos, encantava e apaixonava tantos e tantos clientes.

Com o passar dos anos, muitos perceberam as mentiras que Anna contava. Passaram a chamá-la apenas para satisfazer necessidades físicas. Passou a ser cada vez menos procurada, e sua cama, cada vez mais vazia. Ficou com a fama que sua mãe recebera da amaldiçoada New Orleans. Tornara-se uma “Puta Mentirosa”. Trabalhava a noite na Casa do Sol Nascente por alguns trocados, e durante o dia, passava de bar em bar, procurando homens que caíssem em sua teia. 

Em uma noite, após diversas rejeições, Anna se jogou em uma das mesas da Casa, sozinha. Bebericava seu drink e observava a movimentação do salão, quando sentiu uma mão em seu ombro esquerdo. 

Se virou abruptamente, derrubando um pouco da bebida no chão. A figura de Mama Joan estava lá, de pé, atrás dela. Ela se vira e começa a seguir pelo corredor da casa, mas não sem antes se virar para Anna e perguntar:
- Não precisa me contar nenhuma mentira hoje, criança. Deve apenas me seguir. Os companheiros do outro plano querem te alertar.

Assustada, Anna se levantou num pulo, e seguiu-a apressada. O ritmo do salto batendo no chão de taco refletia o ritmo de seus batimentos cardíacos.  

Mama Joan parou em frente a um batente que possuía um pano de veludo vermelho no lugar da porta, similar a uma cortina. Puxou uma das laterais, exibindo para Anna sua sala de atendimento. O recinto era todo decorado de vermelho, com toalhas e poltronas da mesma cor das paredes. Poderia ser comparado a um quarto ensanguentado, mas Anna preferiu acreditar que este não seria o caso. Joan gesticulou para a poltrona a frente da que iria se sentar.

Anna sentou-se na poltrona, se ajeitando desconfortavelmente, enquanto Mama Joan pegava algo que lembrava pequenos ossos de pássaros ou mamíferos, sacudia-os para então, jogá-los na mesa redonda. Após alguns minutos de silêncio ensurdecedor, a não ser pelo click clack dos ossos se batendo, Joan suspirou e olhou para a moça a sua frente:

  • Nada bom criança, você tem algo ruim, muito ruim aí dentro. Isso pode causar a sua ruína.
  • Não estou entendendo nada do que você diz - dizia Anna, cruzando os braços.- Não tenho nada de ruim aqui. 

Mas Anna não podia deixar de lembrar do semblante de seu pai, pálido e imóvel no caixão, e do questionamento que havia feito a si mesma, tantos anos atrás. Mama Joan continuou:

  • Não adianta se enganar, você mesma já sabe o que é, criança. Seu reflexo logo será revelado. 
  • Continuo sem entender nada. Não sei porque as pessoas brigam para falar com você. A senhora não diz coisa com coisa. 

Nervosa, Anna se levantou, irritada com as palavras que escutou. Disparou pelo salão, buscando algum homem para enganar e tirar seu ganha pão diário. Encontrou um rapaz, em seus 20 e poucos anos, uma isca perfeita. Convidou-o para dar uma volta, contornando o quarteirão da Casa. Encontrou um andaime e resolveu se mostrar para o jovem. Subiu e se debruçou, fingindo que ia se jogar várias vezes, rindo do garoto a cada susto que ele levava. 

Percebendo que ela estava apenas se divertindo a suas custas, jogou 5 dólares no chão e largou sozinha. Ainda rindo da reação do garoto, tentou descer e percebeu que seria impossível sem ajuda, Gritou para que o rapaz voltasse. Gritou chamando por alguém que a ajudasse. Alguns homens que passavam pela rua apenas diziam para a “Puta Mentirosa” ir dormir, já que mais ninguém cairia em suas mentiras. Perdendo-se no desespero, Anna acabou sendo vencida pelo cansaço e adormeceu na estrutura de metal. 

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Os primeiros raios de Sol aqueceram a pele escura de Anna e a despertaram, Ela se levantou, com um pouco de frio devido a noite ao relento, largada no andaime. Um trabalhador da construção a qual o andaime pertencia ajudou-a a descer, já que ela estava atrasando o seu trabalho. 

Andou pelo quarteirão, mas passou reto pela Casa do Sol Nascente. Não queria ver a cara de Mama Joan, que aparentemente, havia amaldiçoado a sua noite. Queria andar pela cidade, procurar um novo lugar com novas pessoas para encantar. 

Foi quando avistou uma grande tenda de circo, com listras brancas e vermelhas. Os vergalhões altos traziam magnitude à lona listrada, que, em seu topo, apresentava um letreiro, iluminado por lâmpadas gordas com os dizeres ‘Circus Capella’. 

Anna tentava entender de onde surgiu aquele circo. Não vira cartazes nem murmurinhos de clientes sobre a vinda de uma atração como essas. Mas a presença do circo, apesar de bizarra, trouxe lembranças de quando ela havia ido pela primeira vez a tal local com a sua mãe. Se lembrou do cheiro da pipoca, dos animais que se apresentavam e dos diversos seres bizarros que se apresentavam e que, de certa forma, acabavam por assustar-lhe. 

Fitou a tenda por mais alguns minutos, quando notou um homem com vestes que traziam as cores da tenda, convidando todos a visitarem o “Estupendo Circus Capella”:

  • Ora mocinha, esses belos olhos trazem uma dualidade. - disse o então apresentador do circo, torcendo a ponta de seu volumoso bigode. - Não gostaria de ver o que eles refletem? Nossa magnífica Casa de Espelhos espera por você. 

Seguindo na direção apontada pelo homem, Anna chegou a então mencionada Casa de Espelhos. Entrar nela não lhe traria nenhum mal, e seria até bem divertido. Pensou que, enquanto o circo ficasse na cidade, a casa de espelhos seria um bom lugar para brincar com possíveis clientes. Abriu a porta e encontrou uma simples sala, rodeada de espelhos, com paredes opostas. Mas a visão mais fascinante era a de um único espelho.

O espelho do centro chamava a atenção e, sendo atraída por ele, Anna chegou mais perto. Notou que seu reflexo estava diferente. Ela estava com roupas similares as de Mama Joan, e seus olhos estavam brancos. A visão a perturbou e ela fechou os olhos, tentando escapar daquela visão. Quando escutou um sussurro atrás dela:

  • Encontrou o que buscava criança? Encontrou aquilo que você carrega? Encontrou a sua maldição?

Anna manteve os olhos fechados com mais força e levou as mãos aos ouvidos, gritando com a situação que seu cérebro lutava em digerir. Sentia-se no meio de um turbilhão, escutava cada uma das pequenas mentiras que contava para satisfazer seu ego e escutava sua maior mentira, dizendo que em nada puxará seu pai. 

Agachou no chão, sentia-se tonta e recusava olhar novamente para seu reflexo. Tinha medo de abrir os olhos e ver o que iria se tornar. As vozes ficaram mais e mais altas e então, o silêncio. 

Abriu os olhos e se viu na frente da Casa do Sol Nascente. Não era mais a mesma Anna, disso ela sabia. Sentia-se diferente, sentia-se capaz de conseguir tecer sua teia com quem quisesse. Anna estava na casa de espelhos e estava, igualmente, na Casa do Sol Nascente. Essa era sua maior certeza. 

Entrou na Casa e seguiu entorpecida na direção da sala de Mama Joan. Ela estava sentada em sua poltrona habitual e não hesitou em dizer:

  • Ah sim, agora esta é a Anna que eu havia visto. Faça aquilo que veio fazer. 

Anna voou por cima da mesa para cima de Joan, passando as mãos pela volta de seu pescoço e apertando-o com força. Soltou somente ao notar que os espasmos do corpo abaixo do seu havia parado. Seu propósito estava quase concluído. Em breve teceria quantas teias fossem necessárias para atrair quantas moscas precisasse,

Retirou as roupas do corpo desfalecido e as vestiu. Agora seria Mama Anna, diria para as pessoas aquilo que queriam ouvir, Atenderia toda a agenda preguiçosa de Mama Joan e seria amada. As moscas vaidosas cairiam em sua teia de ego e mentiras. Seria a mulher mais poderosa de New Orleans. 

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As filas para falar com Mama Anna, que jurava ler o futuro dos clientes em cartas, ensinar mandingas e realizar alguns rituais de Voodoo, tornavam-se cada vez mais escassas. Diziam que a “Bruxa” mentia e levava todos os seus clientes para a ruína. Diversos casais se separavam, homens poderosos perdiam todas as suas riquezas, empresários perdiam fortunas em empreitadas que nunca dariam certo. 

Seus olhos que uma vez encantavam, tornaram-se sinônimo de maldição. 

Quanto mais escassas as filas ficavam, mais Anna surtava, sentindo sua outra Anna gritando por socorro, dentro de algo que parecia um espelho, distante da cidade de New Orleans no momento. 

Em um desses surtos, após escutar um comentário sobre seus olhos amaldiçoados, Mama Anna decidiu dar um fim a sua maldição e furou seus olhos. Esse ato não trouxe nenhum êxito no fim de tal “maldição”. A busca por Mama Anna cessou, e ela acabou se tornando apenas uma lenda na cidade que tentava a sorte em meio a suas mudanças. 

--

Dizem que Mama Anna acabou por sair da Casa do Sol Nascente. Outros dizem que seu espírito assombra a Casa. Alguns dizem que você pode encontrá-la mendigando, próxima das margens do Mississipi. 

Mas poucos, e nestes sim, você pode acreditar, dizem que existe um circo itinerante, que migra de cidade em cidade, sem aviso e sem motivos, com um letreiro grande e reluzente com seu nome acima da lona vermelha e branca. No Circus Capella, além da famosa Casa de Espelhos, você pode se consultar na “Tenda da Mama Anna”, onde você pode tentar a sorte em meio a mentiras tecidas em teias, prontas para aprisionar as moscas que buscam suas migalhas de vaidade. 


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