A balada de Malik

Sci-Fi
Março de 2020
Começou, agora termina queride!

Conquista Literária
Conto publicado em
Deles era o mundo

Prólogo

Epílogo

Conto

Áudio drama
A balada de Malik
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Quando a mente angustiada olha para trás vê apenas o vazio. Céu, areia e vento. O cérebro humano não suporta o destino implacável e a dor. Ele prefere fechar os olhos e ignorar os sinais de seu Criador, afastando-se do caminho traçado por Alá.

Os homens estão perdendo a fé? Preferem ficar cegos, buscando uma nova maneira de ver as coisas? Foi este o destino que se abateu sobre a pobre Naira desde que viajou ao Ocidente para estudar e trazer conhecimento para sua terra natal. A verdade é que a peste oblitera todo ser vivente que ousa mencionar o seu nome, acredite ou não no profeta.

Quando a jovem retornou, trouxe mais do que conhecimento. Em sua bagagem carregava as informações sobre a foice da Morte. Uma desgraça que o ser humano não era capaz de lidar. Seu nome? “Malaria Verum”, popularmente conhecida como “a Doença do Pó”, “Expiro Infernal”, entre outros

– Vocês estão atrasando a gente! -  reclamou o líder da caravana, encarando Naira e seu filho.

– Tenha paciência, Akin! Estou cansada. Ninguém está me ajudando.

– Ninguém te ajuda por ser uma filha corrompida pelo Ocidente! Fascinada pela mesma gente que destruiu o mundo e nos expulsou de nossas terras! Os infiéis gostam de matar nosso povo enquanto assistem pela televisão.

– Não é verdade, Akin. Assim como nós, eles também estão sofrendo. Bilhões de mortos. Todo adulto, velho ou criança, homem ou mulher, estão sendo dizimados!

– Está jogando palavras ao vento, Naira - disse alguém - Mal tínhamos água ou comida! Graças a sua “maravilhosa ciência”, somos forçados a disputar os restos com os cães!

A caravana era composta por trinta pessoas e alguns animais. Estavam todos em silêncio, assustados pela discussão e pelo clima de terror dos últimos quatro dias.

Cada um viajava em uma carroça, trazendo os seus pertences e poucos sobreviventes de suas famílias. Não era diferente com Naira. No entanto, depois de retornar do ocidente, era inúmeras vezes humilhada.

Como mulher, por dever submissão aos homens da tribo. Como mãe, pelo amor furioso que dedicava ao filho, tendo que suportar todo tipo de privação para que nada lhe faltasse. Como ser humano, por se obrigar a entender toda aquela catástrofe sem sentido. Como ser vivo, porque precisava lutar para sobreviver. Como fiel… Porque a jovem devia esperar, passivamente, até descobrir quais os reais desígnios de Alá.

Seu pobre filho apenas existia, naquele lugar, naquele momento. O pequeno sorria, gemia e, vez ou outra, olhava ao redor. Seus parcos remédios já escasseavam e Naira temia não chegar a tempo ao destino. “Renpenning” e “Duchenne” não são síndromes comuns. No deserto são vistas como castigo… culpa da mulher!

Respirando fundo, abraçou mais forte o seu filho, se deixando levar na carroça. Mesmo o Saara não teria poder para conter o fungo. Ele se espalha pelas pessoas com muita facilidade… pelo ar! Como se a morte zombasse do “sopro da vida”, transformando a respiração em uma arma!

Naira vira na aridez gigantesca deste país o natural isolamento necessário para concluir sua pesquisa que ajudaria na solução para a cura. Sentia que estava, a cada dia, mais perto da cura.

Fizeram uma pequena pausa para o Alá-sari, dobraram os tapetes, guardaram os frascos de água para o wudu e, então, se levantaram. Akin, o líder, gritou palavras de ordem para o grupo. Deu uma bronca em dois moleques que brincavam, depois montou seu dromedário e tomou a frente. Passando por Naira postou-lhe um olhar de desprezo tão simples quanto natural que a pressentira de problemas.

A contra-gosto dos ocupantes das outras carroças o grupo esperou até que Naira embarcasse com seu filho, Malik, colocando a cadeira de rodas sobre a carroceria sem a ajuda de ninguém. A criança estava bem mais calma após ter se alimentado e feito suas necessidades.

Em sua jornada a mulher percebeu que não conquistaria tão facilmente o respeito de sua gente. Akin sempre fora encrenqueiro e severo e o fato da família de Naira lhe ter dado autonomia para um ‘não’ em ser sua esposa o ofendeu a ponto do ódio. Ela seguia pária.

O dia a dia era a fonte de muitos traumas. Impossível escapar dessa sina. A mente insistia em se lembrar de que a doença mortal estava bem ali, ao seu lado.

Acampamento de refugiados em Marrocos, arredores de Marrakesh. Lá, a pandemia bateu um novo recorde de morticínio devido ao afluente turístico e retorno dos conterrâneos achando que em casa estariam a salvos. Na tentativa desesperada de fugir da peste o lugar perdeu quase todos os seus habitantes. Casablanca também caíra, Rabat, isolada. Naira não conseguia esquecer daquelas cenas.

A pesquisadora já havia presenciado a desintegração, a aniquilação silenciosa de várias pessoas. Naquela ocasião seu tutor, Dr. Harrison, e equipe se protegiam com roupas seladas como as de um astronauta.

Ela viu uma mãe embalando um bebê no colo. A doença estampava o rosto daquela mulher, braços, pescoço, cada centímetro de sua pele então com a textura de um tecido poroso. Todavia, continuava ali, murmurando uma cantiga. O que eram palavras sussurradas se tornaram um sutil assovio como de uma velha asmática… E de repente… Silêncio. Uma poeira começa a sair do corpo, aumentando em quantidade, espalhando-se como talco, cinzas ou o que quer que seja que se eleve à mais leve brisa.

O que sobrava ficava ali, inerte, sustentando o pobre nenenzinho. Naira apressou-se para tomar a criança das mãos do cadáver na esperança de salvar sua vida, no entanto, a pobrezinha já havia começado a tossir por inalar as ‘cinzas’ da mãe.

Dr. Harrison segurou o seu braço e a advertiu de que já era tarde. Em pouco mais de um dia o nenem sofreria o mesmo destino. O fungo Malaria Verum infecta um corpo são com o mais leve contato. Transmitido pelo ar, podia também ser passado para um novo hospedeiro pelo toque. A criança provavelmente já estava infectada antes. Ter inalado os esporos não faria qualquer diferença.

Mais à frente um idoso fazia orações em alto e bom som. Ajoelhou-se para louvar a Alá e ao erguer suas mãos começou imediatamente a se desfazer! Talvez pela idade avançada e a pele ressequida, o corpo do ancião desintegrou-se, bem ali, diante dos olhos de Naira! Derme, carne e sangue se transformaram em uma farinha fina levada pela brisa. Cada partícula daquela poeira transportava os esporos da morte.

Dentro de mais ou menos trinta e seis horas a mulher, o homem, a criança e inúmeros outros naquele campo seriam apenas ossos e cabelos naquele lugar.

Duas horas após o contágio a vítima começa a sentir uma sede profunda consumindo desesperadamente água ou qualquer outro líquido que a tenha. Em seguida, o suor frio, depois a febre e agitação. A ingestão de líquidos pioravam os efeitos. O estranho é que após um tempo o organismo sofria invariavelmente de desidratação, um inversão dos sintomas iniciais, recusando todo líquido a base de água. Nesse ponto, o paciente buscava lugares abertos e altos, alucinado. O fungo preparava assim os meios para sua proliferação. A poeira contagiosa continuava altamente reativa por cerca de vinte e quatro horas.

Alguns enfermeiros retiraram a pobre criança e tão logo um soldado despejou uma gigante língua de fogo sobre a mãe, o senhor ajoelhado e todos os outros. Um cenário dantesco!

Naira olhava para aquelas chamas sem grandes expectativas. Naquela altura as partículas finas que antes se soltaram já estavam espalhadas pelo ar, alçando voo, buscando a sobrevivência do fungo. Fora de um corpo ficarão vivos por um dia e até então, tal como um batalhão que descansa posto a posto em uma odisseia, até cair com a chuva, a neve ou o vento sobre mais uma população desavisada. Assim o fungo simplesmente ganhava terreno… ganhava ter…

Naira ‘acorda’ tropeçando no próprio abaya, deixando tombar e abrir uma das malas. Vidros, potes, ferramentas cirúrgicas, pinças, bisturis, bastões, ficaram esparramados pelo chão arenoso e com pedregulhos. Alguns recipientes quebraram, o solo sedento sugando o que quer que tenha sido vermelho, roxo, turvo. Ali se perdia parte de sua pesquisa, um pouquinho das armas contra o fungo conquistadas nos últimos anos na universidade na América. Os outros membros da caravana olhavam, curiosos, porém, sem mover um músculo para ajudá-la.

– O que foi isso? - alguém diz.

– A mulher deixou cair a sua parafernália médica… mais parece uma bruxa!

– Esses cacarecos não servem para nada contra um veneno que penetra o corpo e a alma. Ninguém pode detê-lo… - cochicha um outro.

– Não sei o que é. A moça é médica, só isso, mas não me arrisco - diz um ancião que ia à frente do grupo - eu queimaria tudo.

Naira fica para trás com o filho. Começa a juntar as coisas, ajoelhada, ignorando toda aquela hostilidade. Seu filho não entende nada, continua rindo. Quinze anos e tudo que tem é a inocência. Aos outros, ignorância descarada em repulsa ao coitado.

Os outros viajantes seguem em frente, sentindo uma mistura de pena e repulsa pela mulher e a garoto deficiente. Não é a primeira vez que enfrenta a frieza dos outros membros da tribo. O que então fazia ela ali? Fugindo com seu filho, ver se sua família ainda está viva em sua vila natal, terminar a sua missão.

Sem suporte, as poucas armas que descobriram contra o fungo estavam sendo perdidas, uma a uma. Teria sido mais proveitoso ter ficado na universidade, na América… Porém, se fizesse isso, temia encontrar as cinzas do seu povo quando voltasse para casa. Quando os cientistas começaram a andar em círculos debatendo as velhas conclusões sem descobrir nada de novo, enquanto a peste matava o mundo inteiro, a jovem Naira decidiu fazer as malas e partir para sua terra natal e tentar descobrir em campo o que os pesquisadores não conseguiam desvendar atrás de um computador. Mas algo mais carregava sem que soubessem.

– Essa mulher idiota só nos atrapalha, nos atrasa. Deixem ela e seu filho para trás…

Aquela foi a gota dágua para Naira. Olhou furiosa para Akin:

– Você me culpa pela peste, Akin, quando sou a única aqui que está lutando para curá-la! Você é paranóico! Vê inimigos onde não existem! Não entende nada do que está acontecendo. Nem tem ideia do que é ou não possível.

– Vamos todos morrer se nos desviarmos do caminho, mulher idiota. Você já devia saber! Este é o meu trabalho: guiar os sobreviventes para um lugar seguro!

– Não há lugar seguro! Apenas a cura pode garantir a nossa sobrevivência. Você devia confiar em mim! Prefere me abandonar aqui, no deserto, enquanto leva essas pessoas para lugar nenhum? Vamos continuar fugindo, como rebanho sem pastor? Acha que pode vencer uma batalha contra a morte sem qualquer conhecimento da verdade?

– Isso é o que eu posso fazer!

– Só vai conseguir levar essas pessoas para morrer em casa!

O discurso de Naira foi contundente. Porém, não encontrou quem a escutasse no meio daquela multidão de gente desesperada, ignorante e fanática. A mulher estava fraca, com as pernas bambas, respiração ofegante. Nem percebeu quando um dos guardas da caravana chegou ao seu lado e lhe deu uma coronhada na cabeça. Sua vista escureceu e desmaiou.

O cérebro tenaz da jovem pesquisadora continuava funcionando, sob as trevas da inconsciência. Por Alá! Será que aquilo tudo valia a pena? Pensava em tudo que viveu nos últimos meses. A luta para continuar a pesquisa enquanto só encontrava preconceito e incompreensão por parte de seu povo. Eles, sim, pareciam viver para atrapalhar, atrasar, impedir que a mulher conseguisse as respostas para deter a morte onipresente.

Os ouvidos atentos de mãe procuraram pelo filho, Malik. Quando Naira finalmente abriu os olhos, encontrou a criança ali, séria, apenas a observá-la. Inocente, o menino não tinha a mínima noção do que estava se passando. Sem marido, sem um homem que falasse em seu nome, a própria cultura dos beduínos não permitiria que conseguisse qualquer progresso em sua terra.

– Sua cria não é capaz de reconhecer a dor da própria mãe! - disse o cruel guia, retornando até onde a carroça da mulher estava estacionada, o restante do povo já estava longe - Sua criança representa um castigo de Alá por sua corrupção pelos modos ocidentais! Seus hábitos impuros, sua mácula, sua torpeza!

– Meu filho não tem nada a ver com isso! Se quiser ter ódio, odeie a mim, não a ele!

– Como ousa pensar que sua criança não tem nada a ver com isso? Você teve um filho fora do casamento, ignorando todas as nossas leis! Nem mesmo o membro mais sujo de nossa irmandade perderia tempo com você depois de tudo o que fez!

O ódio de Akim não tinha limites.

– Deixe-nos em paz! - gritou a mulher, levantando-se e abraçando o seu filho, ainda na cadeira de rodas.

– Você é uma prostituta! Uma feiticeira que trouxe a praga para destruir todos nós! Volte para a América! Devolva o mal para os infiéis!

– Eu quero ajudar o meu povo! Sou uma cientista! Se eu não puder usar tudo o que aprendi com meus estudos, então todo o meu sacrifício terá sido em vão!

– Mentira! Como uma serpente, você só sabe espalhar veneno e morte com suas palavras! Você me diz que “foi para a terra dos infiéis para estudar”… Porém, seu filho foi gerado lá, com um estranho de sangue estrangeiro! Foi assim que teve o Malik, não foi?

– Deixe meu filho fora disso!

– Eu não tenho raiva do menino… Coitado, ele não merece uma mãe como você! Quanto ao pai, Alá já o castigou com o Espirro Infernal…

– Deixe-me em paz! - gritou Naira.

Ao final, Akim parece ter se cansado. Contornou com o dromedário e foi embora para acompanhar o resto de sua gente.

Cada palavra dita pelo líder era como uma faca que perfurava a alma de Naira. A esperança de encontrar a salvação em sua terra natal foi se desgastando a cada dia. A própria cultura de seu povo era fechada demais para qualquer inovação do ocidente. Aquilo criava uma verdadeira barreira contra qualquer hábito ou cuidado que pudesse protegê-los contra o avanço da praga.

Os rituais, a tradição, os velhos costumes tratavam tudo o que vinha de fora como uma ameaça. Eles disseminavam a desconfiança e o medo. A cultura de seus ancestrais era assim. O tal Pó Infernal apenas deu aos mais velhos a desculpa de que precisavam para esmagar qualquer pessoa que pensasse diferente deles! Nesse aspecto, Akin era um perfeito exemplo dos defensores da ignorância e do terror.

Mesmo afastada da caravana a jovem continuou a segui-la. Passaram-se dois dias. A mulher parava para descansar, ao escurecer. Enchia os cantis em oasis, pelo caminho, e continuava seguindo.

A esperança, de repente, começou a retornar ao seu coração. Quando tinha tempo, reexaminava suas anotações. Devia ter algum detalhe que estava escapando. Algo que pudesse isolar os esporos, neutralisá-los dentro de um corpo vivo…

A solidão daqueles dias foi benéfica, de certa forma. Sem a raiva dos seus conterrâneos, ela teve mais liberdade para pensar.

Encontrar a cura era possível! Ela estava próxima de descobrir… Por Alá, podia sentir que estava…

Então, Akin e um dos soldados voltaram para buscá-la… E a esperança acabou de vez!

Eles a encontraram a beira de uma caverna. A garota montou seu acapamento lá dentro, para passar a noite protegida da poeira e do vento. Não foi difícil ver o brilho da fogueira.

– O que estão fazendo aqui? Não tinham decidido me deixar para trás?

– É o que eu preferia ter feito. Porém, a assembléia dos cidadãos deliberou que voltássemos para verificar certos detalhes.

– Detalhes?

– Alguns insistem que você é uma bruxa. A pessoa culpada por trazer a danação contra o nosso povo. Viemos investigar se o que eles suspeitam é verdade!

– Não pode estar falando sério? Eu sou uma cientista, não uma bruxa!

– Eu não teria tanta certeza assim. Não sei o que os ocidentais colocaram na sua cabeça. Por dias viemos tolerando sua presença e seus hábitos pouco convencionais. Nunca pedi para verificar o que trazia em suas bolsas e valises. Porém, não posso ser negligente com minhas obrigações.

– O que está insinuando?

– Vamos! Quero ver as bagagem! Vou dar uma olhada em tudo o que escondeu de nós!

Sem escolha, Naira já se preparava para o pior. Ela não tinha como impedir aqueles homens de vasculhar os seus pertences. Os dois subiram na carroça, onde Malik se acomodava. Eles empurraram a cadeira de rodas para o lado e, sem qualquer cuidado, pegaram as suas malas.

O menino se assustou com tanta brutalidade. Ele gemeu, incomodado:

– Saiam de perto de meu filho! Ele é só uma criança, pelo amor de Deus! - Naira subiu na carroça para amparar o menino.

Enquanto os dois homens abriam a mala e jogavam seus pertences no chão, ela desviava o seu olhar para o Oeste, o Ocidente, de onde seu povo acreditava que vinha todos os males do mundo. E graças a esse gesto impensado a jovem pode ver, no horizonte, um tom avermelhado que se aproximava.

Tempestades de areia são comuns no Saara. No entanto, aquilo que se aproximava era algo bem diferente… As partículas em suspensão não eram cilício, poeira ou a comum poluição. O corpo desta tormenta carregava fragmentos de fungos. Pele e carne desintegradas, cobrindo como um delicado véu o firmamento!

Inclinada sobre Malik, na cadeira de rodas, embalando sua cabeça, a única coisa que a mulher pode sentir foi resignação:

– Calma, meu reizinho! Calma… Mamãe está aqui, meu querido!

Um soldado ouviu aquilo. De dentro dele, a zombaria:

— Rei? Por acaso, há um rei entre nós? Será que espera que a gente se prostre aos seus pés?

Akim olhou para a mulher, a fonte de todo seu despreso. Principiou a rir, imaginando toda a situação.

– Salve o rei! - gritou ele.

– Estou comendo areia, meu rei. Por favor, ordene que vire farinha!

– Quero água! Se puder, transforme o seu mijo em água pra gente!

Aquela chacota cruel não parecia ter fim. Não havia ninguém ali que pudesse reprimir o ímpeto daqueles dois homens degenerados. O soldado se aproximou e se prostrou com a face para o chão:

– Quer que limpe seus pés, meu rei?

O sujeito agarrou o pezinho de Malik. Naira, furiosa, chutou a cabeça do homem. A reação do militar não podia ser mais explosiva:

– Sua porca! - o rapaz agarrou a perna de Naira e puxou, derrubando a jovem no chão.

– Pare! O que está fazendo?!

O homem não demonstrou nenhum medo de seu superior. Simplesmente sentou-se sobre a barriga da mulher e começou a estapeá-la. Uma, duas, três vezes… Quando o sangue começou a escorrer dos lábios e nariz de Naira, Akim decidiu que era hora de parar.

– Chega, Omã! - o velho marchou até onde estava seu cavalo. Ele montou e, então, chegou mais perto do militar.

Omã entendeu o tom de ameaça na voz do chefe. O soldado se levantou, cuspiu no rosto da mulher e, então, encarou o chefe. Depois, abaixou a cabeça e se afastou procurando sua própria montaria.

No entanto a raiva do homem ainda não estava plenamente saciada. Com as escusas de pegar alguma coisa foi à carroça, agarrou a cadeira para afastar ao lado. Assustado, Malik mordeu o braço do soldado.

– Desgraçado! - em resposta, o militar jogou a criança no chão.

O garotinho começou a chorar, desconsolado.

– Malik! - ignorando sua própria dor, a garota corre para acudir o filho - Oh, Meu amor… Meu bebê! O que vocês fizeram, seus monstros?

– Segura o seu cão, mulher, e talvez possamos ir embora - disse Akin.

– Akin! O que é aquilo! - disse o soldado, apontando para algo que se desprendeu da carroça.

Havia uma pequena bolsa presa sob o acento da cadeira de rodas. Quando a criança foi arrancada a bolsa veio junto caindo e espalhando seu conteúdo pelo chão. Uma quantidade grande de frascos com pós, cinzas e o que parecia sangue se esparramaram pelo chão da caverna.

Sangue… Poeira… Cinzas… Aquilo tudo era sinônimo da peste! Naira, tentando salvar o trabalho de uma vida, correu para recolher as amostras.

Os dois homens ficaram ali, de queixo caído, observando, incrédulos. Aquela “falsa batida” do conselho dos costumes acabava de se transformar em uma diligência verdadeira!

– O que temos aí, mulher? - Pergunta Akin, enquanto descia do dromedário.

– São amostras… material para os meus estudos… A alfândega já examinou o conteúdo da bolsa quando eu entrei no país. Você não precisa…

— Tenho o direito de examinar o que eu quiser! - então, gritou:

– Essa mulher veio de uma terra que produz veneno, onde as criaturas ousam se dizer Filhos de Deus! No entanto, não passam de um bando de infiéis e blasfemadores! Criaturinhas imundas, de um reino que não nos pertence! Somos melhores! Somos mais fortes!

– Parem! Me deixe em paz! Vocês não sabem o que estão fazendo! - a garota fechou a bolsa e ficou abraçada a ela como se fosse o próprio filho.

– Um homem do nosso povo vale por cem dos ocidentais! Nós temos fé, temos humildade! Se morremos pelas mãos de Alá, somos consagrados. Se perecermos pela causa de Alá, somos salvos! Porém, os demônios do oriente querem tirar a vida de nossa carne! A força de nossos corações! Querem destruir a nossa fé, privando nosso povo da salvação!

Respirou profundamente contemplando o efeito de suas palavras a quem ouvisse:

– O criador nos fez do pó e ao pó voltaríamos quando chegada a nossa hora. No entanto, a ordem natural das coisas foi quebrada pelos infiéis! O pó, a morte, está no ar. A feiticeira do ocidente quer que a destruição penetre em nossos pulmões!

– Os frascos… A peste está nos frascos daquela bolsa?_ perguntou o soldado, assustado.

Sem poder se defender, sem ter para onde fugir, Naira se limitou a olhar para Malik, que chorava. Se aqueles homens tomassem tudo o que existia em suas bolsas, acabariam levando também os remédios da criança. Então, quando o menino tivesse a próxima crise, seria o fim.

Quando os dois homens marcharam para pegar as bolsas, a mulher pode apenas recorrer ao seu Deus, nos altos céus, para protegê-la.

– Onde está o Senhor, oh, Alá?

– Vamos! Você já nos fez perder tempo demais com sua teimosia! Entregue logo todos essa injúria à Criação, bruxa! - falou Omã, puxando-a pelo braço.

Inutilmente a garota tentou se agarrar a bolsa. O bruto empurrou-a para longe e, no final das contas, acabaram espalhando todo o conteúdo no chão.

Enquanto o homem recolhia os frascos, a jovem conseguiu colocar alguns deles nos bolsos. Era o mínimio que podia fazer para salvar a sua pesquisa.

Um daqueles recipientes em particular continha uma amostra reativa do mortífero fungo. Aquilo não poderia ser manipulado de qualquer jeito. Precisava de todo o cuidado. A substância era, ao mesmo tempo, uma arma biológica poderosíssima e a chance de cura de uma nação inteira! Depois de esvaziar todas as bolsas, deixando os muitos fracos na areia, eles foram até a carroça e a confiscaram.

Desceram a cadeira do menino e entregaram a mulher.

– Agora, você vai empurrando a cadeira a pé.

– Eu não vou ficar para trás?- perguntou a moça.

– Não. A assembléia acha perigoso demais. Você vem com a gente.

O soldado subiu na carroça e levou-a embora. Reiniciaram a caminhada. O destino estava bem próximo. Naira se esforçava para empurrar a cadeira na trilha de areia e pedras.

De vez em quando, olhava para trás. Ainda podia ver o local onde ficava a caverna. Todas aquelas amostras continuavam ali, jogadas ao chão. A maioria, material inerte, inofensivo. Porém, algumas poderiam ser bem perigosas, se manipuladas por mãos negligentes.

A expressão no rosto da jovem não era apenas de vergonha ou tristeza, pela humilhação sofrida nas mãos daqueles homens cruéis. Era, sim, o medo de que as ampolas com a cepa fúngica pudesse ser aberta por algum curioso.

O vento seco soprava forte aquela hora da noite. Era como se quisesse empurrar os viajantes para o seu destino. Mais três horas de caminhada árdua eles chegaram ao acampamento da caravana.

Durante todo o percurso, o pequeno Malik continuou em silêncio. Se chorou o fez bem baixinho, de modo que a mãe nem sequer percebesse. Qual seria o seu destino?  E o de seu pobre filho? Seria pior para eles ter ficado na América? Estariam mortos?

A peste fúngica também assolou os Estados Unidos, espalhando morte por toda parte. Se propagou com grande rapidez chegando à Europa e África em questão de semanas. Era como se as trombetas do apocalipse estivessem tocando.

De repente os pensamentos de Naira foram interrompidos pelo rugido de caças. Os aviões passam direto sobre eles. Sem conseguir identificar a que país eles serviam só pode deduzir que estavam armados com bombas e mísseis e que iriam atingir um alvo, a qualquer momento.

Talvez seu objetivo nem fosse uma instalação militar. Cada grande povoado transformou-se em uma fonte inesgotável de infecção a medida que seus habitantes eram transformados em poeira e carregados pelo vento. Isso tinha levado alguns países vizinhos à medidas desesperadas.

Bombas de napalm! Em quantidade suficiente para incinerar uma cidade inteira!

Também não estava descartado o uso de armas químicas ainda mais perigosas para destruir os esporos e o fungo. No entanto, tais mecanismos eram tão letais ao “Espiro do Inferno” quanto às outras formas de vida. Até o solo ficaria infértil quando todo aquele pesadelo acabasse.

Então, finalmente, a garota viu o brilho das fogueiras do acamapmento. A multidão fez seu abrigo nas ruínas de uma antiga aldeia. O lugar ainda exibia marcas de balas, incêndios e explosões, fruto de antigos conflitos inter-tribais.

Omã tomou a frente e cumprimentou alguns de seus companheiros do exército. Akin, por sua vez, continuou vigiando a mulher e seu bebê.

Faltava meio dia de viagem para chegarem ao seu destino, a cidade de Al Mabarut. Cansados, os viajantes acenderam suas fogueiras, comeram e beberam os mantimentos que restavam. Tinham esperança de que todo o sofrimento da viagem chegaria ao fim no dia seguinte.

No entanto, embora Akim e Omã tenham se juntado aos outros, a jovem cientista não pode fazer o mesmo. Um homem truculento se aproximou e falou:

– Você aguarda aqui, mulher.

Com a tarde já derradeira a maioria das pessoas se preparava para se abrigar nas casas destruídas para não ficarem expostas ao vento cortante. Naira se viu, mais uma vez, olhando para o horizonte.

O céu estava estranhamente claro e fosco no ponto mais distante. Cores que variavam do azul ao avermelhado. Uma luminosidade feérica, sobrenatural, como uma espécie de aurora boreal… ou uma miragem ao anoitecer.

À sua frente, o vilarejo abandonado ficava levemente mais baixo de onde estavam, um declive na planície a mais ou menos uns cento e cinquenta metros, podendo ver quase todas as suas poucas construções de pedras e barro e alguns tecidos de tenda que insistiram dilacerados pelo clima.

Enquanto esperava, a garota examinou o pequeno Malik. Quieto, ferido, retribuiu o olhar da mãe. Apesar do silêncio do menino, o pequenino estava muito atento. Era como se o pobrezinho esperasse por algo que estava por vi.

“Uma de suas crises está se aproximando” - pensou Naira.

Seu pequeno Malik estava condenado à morte. Ter vindo para cá, para o deserto do Saara, para a terra de seus ancestrais, foi um grande erro. Os pensamentos arcaicos de seu clã empurravam a tribo para o abismo, numa sucessão de erros, sem qualquer chance de salvação.

Apesar de todo sofrimento, Naira amava o seu povo. O seu erro não estava em tentar ajudá-los. Tampouco lhe faltou coragem ou garra para enfrentar um desafio tão grande.

Por outro lado, ela devia ter se preparado melhor. Suposto que enfrentaria dificuldades bem maiores do que o mero Malarium Verum.

Akin e seus soldados podiam ser vistos conversando, à distância, perto de uma fogueira que adiantaram para a noite. Da maneira que gesticulavam e batiam os pés no chão deviam estar discutindo. Mas, o quê?

De repente, um garoto de pouco mais de quatorze anos veio até ela. O rapazinho exibia um uniforme militar. A jovem Naira, agora atrás da cadeira de Malik, cumprindo a tradição, limitou-se a olhar para baixo, sem encarar o recém-chegado.

Nos olhos da mãe está seu filho, visto de cima para baixo em perspectiva de uma criatura única. Sua cabeça com o fez inspirava pena. Ela sabia que algo estava a acontecer, pressentimento que a acompanhara mais dilacerante que a peste.

O menino não se mexia. Olhava seu peito num leve respirar. E eis que surgiram no peito de Malik, tão repentino quanto o som mas que se fez surda ante a visão, um após o outro, dois furos, vermelhos e tão logo se tornando uma mancha ensangue. E sem reação, a única que lhe restara, o arquejar de respirar cessa.

Naira levanta a cabeça e só vislumbra o assassino de costas, terminando de ajeitar a AK-47, voltando para o grupo que o observava. Foi como se tivesse apenas entregado um recado qualquer à Naira.

O tempo parecia se mover com infinita lentidão.

Por mais estranho que fosse, a mulher, serva de Alá, sabia que algo assim poderia acontecer. Não havia nada que pudesse evitar. A criança estava condenada antes mesmo de começarem aquela terrível viagem.

O sentimento, para espanto de Naira, era de profunda resignação. Já sofrera muito abuso mental por parte dos homens da tribo. As mulheres não tinham vez, nem respeito ou escolha alguma.

Conformada, sua reação foi de lágrimas, raiva e silêncio. Submissa. Resignada.

Meia hora se passou.

A pobre mãe, e o cadáver de seu filho, ficaram ali. Mais uns minutos e a noite tomaria seu lugar. O vento forte soprou, sempre empoeirado, ainda só poeira. Implacável, atravessando o vilarejo destruído, entrando em cada fresta, cada abertura, cada buraco de paredes e telhados.

No entanto, o sofrimento de Naria não tinha acabado. Os soldados voltaram, com Akim, além de Omã.

– Agora é sua vez, bruxa. Sabemos muito bem o que tentou fazer. Você foi julgada pelos seus crimes - Omã repetia a mesma ladainha de sempre.

–  Não na frente do meu menino… - disse a pobre mãe.

Os homens se entreolharam. Que diferença faria o que que quer que acontecesse diante de um cadáver? Todavia, devem ter entendido aquilo como “o último pedido de um condenado”. No final, Akim ordenou:

– Está bem. Peguem a mulher e a levem para lá. - disse o líder apontando para um casebre, caindo aos pedaços, a uns cinquenta metros de distância.

Antes de ir, Naira abraçou, mais uma vez, o corpo do pobre Malik usando seu sujo véu para cobrir a intimidade da despedida final, tampando seus rostos da vista dos assassinos. Ainda se lembrava do sorriso alegre e inocente do menino. Uma felicidade sincera que nunca mais voltaria.

–  Alá vai cuidar da gente, meu amor... Perdoe-me por não ter feito o suficiente para salvá-lo… - A mãe se demorou ali, um pouco mais, cobrindo a criança, e o próprio choro, com o seu véu.

A despedida foi mais breve do que gostaria. Aqueles homens não tinham o menor respeito pelos vivos, quanto mais pelos mortos ou condenados.

– Vamos, infiel! - disseram os soldados, agarrando a mulher e puxando-a para longe do menino.

–  Alá honrará o seu nome, meu menino… Nosso Deus nos fará a justiça! - murmurou Naira.

O vento e a poeira estavam mais fortes do que nunca. Como último ato, a mulher arrancou o seu véu e cobriu a cabeça da criança.

–  Vamos, mulher. Não tome mais o nosso tempo… - sorriu Akin, realizando sua derradeira vingança que, junto com Omã e os outros, riram e arrastaram a mulher para longe.

Um deles ainda revistou os seus bolsos para ver se encontrava algo de valor. Descobriu alguns frascos e os jogou no chão. Os soldados tiveram o cuidado de pegar os recipientes e atirar na fogueira.

O corpo de Malik continuou ali, como um rei, sentado em sua cadeira de rodas. O queixo encostado no peito, encoberto pelo véu da mãe. Ninguém mais dava atenção ao menino.

A condenada e os seus executores desapareceram no casebre. Passou-se um tempo. Então, ouviu-se um tiro.

Akin, Omã e os outros sairam do local. A casa ficava longe do acampamento. Era um bom lugar para enterrar a mãe e o seu filho. Além disso, um dos cadáveres já estava lá.

Os homens vieram até Malik, rindo, satisfeitos. Encontraram algum dinheiro nas bagagens da mulher.

–  Acho que ainda podemos usar essa cadeira para alguma coisa. Ela está boazinha, vocês podem ver… - disse o Akin.

–  E o que mais? Roupas? Sapatos?

Sem qualquer cerimônia Omã puxa o véu que cobria o pequeno cadáver sentado na cadeira. Para sua surpresa era como se o tecido estivesse cobrindo uma fogueira, uma poeira fina como talco veio acompanhada do pano quando ele o puxou. Imediatamente todos os presentes começaram a tossir.

A nuvem de poeira tinha tons avermelhados. A cabeça de Malik continuava tombada para frente, agora, porém, estava sem pele alguma. A carne se desfazia, rapidamente, transformando o corpo em fumaça! O vento uivava.

O medo tomou conta daqueles homens robustos e cruéis.

— Suleiman! Na boca! - balbuciou um deles.

Os olhos vítreos do defunto, já sem pálpebras, encaravam os algozes, como se fossem de uma medusa das lendas gregas. Na boca do menino estava vertido e vazio um pequeno tubo de vidro, daqueles mesmos que eles quebraram e queimaram.

Olhavam para Malik, este agora como um acusador e carrasco, se desfazendo e unindo-se ao vento que penetrava em cada rachadura, fresta e buraco que a ambição humana assinou naquele vilarejo mais à frente, encontrando a vida de cada um que ali repousava.

Prólogo

Epílogo

Conto

Quando a mente angustiada olha para trás vê apenas o vazio. Céu, areia e vento. O cérebro humano não suporta o destino implacável e a dor. Ele prefere fechar os olhos e ignorar os sinais de seu Criador, afastando-se do caminho traçado por Alá.

Os homens estão perdendo a fé? Preferem ficar cegos, buscando uma nova maneira de ver as coisas? Foi este o destino que se abateu sobre a pobre Naira desde que viajou ao Ocidente para estudar e trazer conhecimento para sua terra natal. A verdade é que a peste oblitera todo ser vivente que ousa mencionar o seu nome, acredite ou não no profeta.

Quando a jovem retornou, trouxe mais do que conhecimento. Em sua bagagem carregava as informações sobre a foice da Morte. Uma desgraça que o ser humano não era capaz de lidar. Seu nome? “Malaria Verum”, popularmente conhecida como “a Doença do Pó”, “Expiro Infernal”, entre outros

– Vocês estão atrasando a gente! -  reclamou o líder da caravana, encarando Naira e seu filho.

– Tenha paciência, Akin! Estou cansada. Ninguém está me ajudando.

– Ninguém te ajuda por ser uma filha corrompida pelo Ocidente! Fascinada pela mesma gente que destruiu o mundo e nos expulsou de nossas terras! Os infiéis gostam de matar nosso povo enquanto assistem pela televisão.

– Não é verdade, Akin. Assim como nós, eles também estão sofrendo. Bilhões de mortos. Todo adulto, velho ou criança, homem ou mulher, estão sendo dizimados!

– Está jogando palavras ao vento, Naira - disse alguém - Mal tínhamos água ou comida! Graças a sua “maravilhosa ciência”, somos forçados a disputar os restos com os cães!

A caravana era composta por trinta pessoas e alguns animais. Estavam todos em silêncio, assustados pela discussão e pelo clima de terror dos últimos quatro dias.

Cada um viajava em uma carroça, trazendo os seus pertences e poucos sobreviventes de suas famílias. Não era diferente com Naira. No entanto, depois de retornar do ocidente, era inúmeras vezes humilhada.

Como mulher, por dever submissão aos homens da tribo. Como mãe, pelo amor furioso que dedicava ao filho, tendo que suportar todo tipo de privação para que nada lhe faltasse. Como ser humano, por se obrigar a entender toda aquela catástrofe sem sentido. Como ser vivo, porque precisava lutar para sobreviver. Como fiel… Porque a jovem devia esperar, passivamente, até descobrir quais os reais desígnios de Alá.

Seu pobre filho apenas existia, naquele lugar, naquele momento. O pequeno sorria, gemia e, vez ou outra, olhava ao redor. Seus parcos remédios já escasseavam e Naira temia não chegar a tempo ao destino. “Renpenning” e “Duchenne” não são síndromes comuns. No deserto são vistas como castigo… culpa da mulher!

Respirando fundo, abraçou mais forte o seu filho, se deixando levar na carroça. Mesmo o Saara não teria poder para conter o fungo. Ele se espalha pelas pessoas com muita facilidade… pelo ar! Como se a morte zombasse do “sopro da vida”, transformando a respiração em uma arma!

Naira vira na aridez gigantesca deste país o natural isolamento necessário para concluir sua pesquisa que ajudaria na solução para a cura. Sentia que estava, a cada dia, mais perto da cura.

Fizeram uma pequena pausa para o Alá-sari, dobraram os tapetes, guardaram os frascos de água para o wudu e, então, se levantaram. Akin, o líder, gritou palavras de ordem para o grupo. Deu uma bronca em dois moleques que brincavam, depois montou seu dromedário e tomou a frente. Passando por Naira postou-lhe um olhar de desprezo tão simples quanto natural que a pressentira de problemas.

A contra-gosto dos ocupantes das outras carroças o grupo esperou até que Naira embarcasse com seu filho, Malik, colocando a cadeira de rodas sobre a carroceria sem a ajuda de ninguém. A criança estava bem mais calma após ter se alimentado e feito suas necessidades.

Em sua jornada a mulher percebeu que não conquistaria tão facilmente o respeito de sua gente. Akin sempre fora encrenqueiro e severo e o fato da família de Naira lhe ter dado autonomia para um ‘não’ em ser sua esposa o ofendeu a ponto do ódio. Ela seguia pária.

O dia a dia era a fonte de muitos traumas. Impossível escapar dessa sina. A mente insistia em se lembrar de que a doença mortal estava bem ali, ao seu lado.

Acampamento de refugiados em Marrocos, arredores de Marrakesh. Lá, a pandemia bateu um novo recorde de morticínio devido ao afluente turístico e retorno dos conterrâneos achando que em casa estariam a salvos. Na tentativa desesperada de fugir da peste o lugar perdeu quase todos os seus habitantes. Casablanca também caíra, Rabat, isolada. Naira não conseguia esquecer daquelas cenas.

A pesquisadora já havia presenciado a desintegração, a aniquilação silenciosa de várias pessoas. Naquela ocasião seu tutor, Dr. Harrison, e equipe se protegiam com roupas seladas como as de um astronauta.

Ela viu uma mãe embalando um bebê no colo. A doença estampava o rosto daquela mulher, braços, pescoço, cada centímetro de sua pele então com a textura de um tecido poroso. Todavia, continuava ali, murmurando uma cantiga. O que eram palavras sussurradas se tornaram um sutil assovio como de uma velha asmática… E de repente… Silêncio. Uma poeira começa a sair do corpo, aumentando em quantidade, espalhando-se como talco, cinzas ou o que quer que seja que se eleve à mais leve brisa.

O que sobrava ficava ali, inerte, sustentando o pobre nenenzinho. Naira apressou-se para tomar a criança das mãos do cadáver na esperança de salvar sua vida, no entanto, a pobrezinha já havia começado a tossir por inalar as ‘cinzas’ da mãe.

Dr. Harrison segurou o seu braço e a advertiu de que já era tarde. Em pouco mais de um dia o nenem sofreria o mesmo destino. O fungo Malaria Verum infecta um corpo são com o mais leve contato. Transmitido pelo ar, podia também ser passado para um novo hospedeiro pelo toque. A criança provavelmente já estava infectada antes. Ter inalado os esporos não faria qualquer diferença.

Mais à frente um idoso fazia orações em alto e bom som. Ajoelhou-se para louvar a Alá e ao erguer suas mãos começou imediatamente a se desfazer! Talvez pela idade avançada e a pele ressequida, o corpo do ancião desintegrou-se, bem ali, diante dos olhos de Naira! Derme, carne e sangue se transformaram em uma farinha fina levada pela brisa. Cada partícula daquela poeira transportava os esporos da morte.

Dentro de mais ou menos trinta e seis horas a mulher, o homem, a criança e inúmeros outros naquele campo seriam apenas ossos e cabelos naquele lugar.

Duas horas após o contágio a vítima começa a sentir uma sede profunda consumindo desesperadamente água ou qualquer outro líquido que a tenha. Em seguida, o suor frio, depois a febre e agitação. A ingestão de líquidos pioravam os efeitos. O estranho é que após um tempo o organismo sofria invariavelmente de desidratação, um inversão dos sintomas iniciais, recusando todo líquido a base de água. Nesse ponto, o paciente buscava lugares abertos e altos, alucinado. O fungo preparava assim os meios para sua proliferação. A poeira contagiosa continuava altamente reativa por cerca de vinte e quatro horas.

Alguns enfermeiros retiraram a pobre criança e tão logo um soldado despejou uma gigante língua de fogo sobre a mãe, o senhor ajoelhado e todos os outros. Um cenário dantesco!

Naira olhava para aquelas chamas sem grandes expectativas. Naquela altura as partículas finas que antes se soltaram já estavam espalhadas pelo ar, alçando voo, buscando a sobrevivência do fungo. Fora de um corpo ficarão vivos por um dia e até então, tal como um batalhão que descansa posto a posto em uma odisseia, até cair com a chuva, a neve ou o vento sobre mais uma população desavisada. Assim o fungo simplesmente ganhava terreno… ganhava ter…

Naira ‘acorda’ tropeçando no próprio abaya, deixando tombar e abrir uma das malas. Vidros, potes, ferramentas cirúrgicas, pinças, bisturis, bastões, ficaram esparramados pelo chão arenoso e com pedregulhos. Alguns recipientes quebraram, o solo sedento sugando o que quer que tenha sido vermelho, roxo, turvo. Ali se perdia parte de sua pesquisa, um pouquinho das armas contra o fungo conquistadas nos últimos anos na universidade na América. Os outros membros da caravana olhavam, curiosos, porém, sem mover um músculo para ajudá-la.

– O que foi isso? - alguém diz.

– A mulher deixou cair a sua parafernália médica… mais parece uma bruxa!

– Esses cacarecos não servem para nada contra um veneno que penetra o corpo e a alma. Ninguém pode detê-lo… - cochicha um outro.

– Não sei o que é. A moça é médica, só isso, mas não me arrisco - diz um ancião que ia à frente do grupo - eu queimaria tudo.

Naira fica para trás com o filho. Começa a juntar as coisas, ajoelhada, ignorando toda aquela hostilidade. Seu filho não entende nada, continua rindo. Quinze anos e tudo que tem é a inocência. Aos outros, ignorância descarada em repulsa ao coitado.

Os outros viajantes seguem em frente, sentindo uma mistura de pena e repulsa pela mulher e a garoto deficiente. Não é a primeira vez que enfrenta a frieza dos outros membros da tribo. O que então fazia ela ali? Fugindo com seu filho, ver se sua família ainda está viva em sua vila natal, terminar a sua missão.

Sem suporte, as poucas armas que descobriram contra o fungo estavam sendo perdidas, uma a uma. Teria sido mais proveitoso ter ficado na universidade, na América… Porém, se fizesse isso, temia encontrar as cinzas do seu povo quando voltasse para casa. Quando os cientistas começaram a andar em círculos debatendo as velhas conclusões sem descobrir nada de novo, enquanto a peste matava o mundo inteiro, a jovem Naira decidiu fazer as malas e partir para sua terra natal e tentar descobrir em campo o que os pesquisadores não conseguiam desvendar atrás de um computador. Mas algo mais carregava sem que soubessem.

– Essa mulher idiota só nos atrapalha, nos atrasa. Deixem ela e seu filho para trás…

Aquela foi a gota dágua para Naira. Olhou furiosa para Akin:

– Você me culpa pela peste, Akin, quando sou a única aqui que está lutando para curá-la! Você é paranóico! Vê inimigos onde não existem! Não entende nada do que está acontecendo. Nem tem ideia do que é ou não possível.

– Vamos todos morrer se nos desviarmos do caminho, mulher idiota. Você já devia saber! Este é o meu trabalho: guiar os sobreviventes para um lugar seguro!

– Não há lugar seguro! Apenas a cura pode garantir a nossa sobrevivência. Você devia confiar em mim! Prefere me abandonar aqui, no deserto, enquanto leva essas pessoas para lugar nenhum? Vamos continuar fugindo, como rebanho sem pastor? Acha que pode vencer uma batalha contra a morte sem qualquer conhecimento da verdade?

– Isso é o que eu posso fazer!

– Só vai conseguir levar essas pessoas para morrer em casa!

O discurso de Naira foi contundente. Porém, não encontrou quem a escutasse no meio daquela multidão de gente desesperada, ignorante e fanática. A mulher estava fraca, com as pernas bambas, respiração ofegante. Nem percebeu quando um dos guardas da caravana chegou ao seu lado e lhe deu uma coronhada na cabeça. Sua vista escureceu e desmaiou.

O cérebro tenaz da jovem pesquisadora continuava funcionando, sob as trevas da inconsciência. Por Alá! Será que aquilo tudo valia a pena? Pensava em tudo que viveu nos últimos meses. A luta para continuar a pesquisa enquanto só encontrava preconceito e incompreensão por parte de seu povo. Eles, sim, pareciam viver para atrapalhar, atrasar, impedir que a mulher conseguisse as respostas para deter a morte onipresente.

Os ouvidos atentos de mãe procuraram pelo filho, Malik. Quando Naira finalmente abriu os olhos, encontrou a criança ali, séria, apenas a observá-la. Inocente, o menino não tinha a mínima noção do que estava se passando. Sem marido, sem um homem que falasse em seu nome, a própria cultura dos beduínos não permitiria que conseguisse qualquer progresso em sua terra.

– Sua cria não é capaz de reconhecer a dor da própria mãe! - disse o cruel guia, retornando até onde a carroça da mulher estava estacionada, o restante do povo já estava longe - Sua criança representa um castigo de Alá por sua corrupção pelos modos ocidentais! Seus hábitos impuros, sua mácula, sua torpeza!

– Meu filho não tem nada a ver com isso! Se quiser ter ódio, odeie a mim, não a ele!

– Como ousa pensar que sua criança não tem nada a ver com isso? Você teve um filho fora do casamento, ignorando todas as nossas leis! Nem mesmo o membro mais sujo de nossa irmandade perderia tempo com você depois de tudo o que fez!

O ódio de Akim não tinha limites.

– Deixe-nos em paz! - gritou a mulher, levantando-se e abraçando o seu filho, ainda na cadeira de rodas.

– Você é uma prostituta! Uma feiticeira que trouxe a praga para destruir todos nós! Volte para a América! Devolva o mal para os infiéis!

– Eu quero ajudar o meu povo! Sou uma cientista! Se eu não puder usar tudo o que aprendi com meus estudos, então todo o meu sacrifício terá sido em vão!

– Mentira! Como uma serpente, você só sabe espalhar veneno e morte com suas palavras! Você me diz que “foi para a terra dos infiéis para estudar”… Porém, seu filho foi gerado lá, com um estranho de sangue estrangeiro! Foi assim que teve o Malik, não foi?

– Deixe meu filho fora disso!

– Eu não tenho raiva do menino… Coitado, ele não merece uma mãe como você! Quanto ao pai, Alá já o castigou com o Espirro Infernal…

– Deixe-me em paz! - gritou Naira.

Ao final, Akim parece ter se cansado. Contornou com o dromedário e foi embora para acompanhar o resto de sua gente.

Cada palavra dita pelo líder era como uma faca que perfurava a alma de Naira. A esperança de encontrar a salvação em sua terra natal foi se desgastando a cada dia. A própria cultura de seu povo era fechada demais para qualquer inovação do ocidente. Aquilo criava uma verdadeira barreira contra qualquer hábito ou cuidado que pudesse protegê-los contra o avanço da praga.

Os rituais, a tradição, os velhos costumes tratavam tudo o que vinha de fora como uma ameaça. Eles disseminavam a desconfiança e o medo. A cultura de seus ancestrais era assim. O tal Pó Infernal apenas deu aos mais velhos a desculpa de que precisavam para esmagar qualquer pessoa que pensasse diferente deles! Nesse aspecto, Akin era um perfeito exemplo dos defensores da ignorância e do terror.

Mesmo afastada da caravana a jovem continuou a segui-la. Passaram-se dois dias. A mulher parava para descansar, ao escurecer. Enchia os cantis em oasis, pelo caminho, e continuava seguindo.

A esperança, de repente, começou a retornar ao seu coração. Quando tinha tempo, reexaminava suas anotações. Devia ter algum detalhe que estava escapando. Algo que pudesse isolar os esporos, neutralisá-los dentro de um corpo vivo…

A solidão daqueles dias foi benéfica, de certa forma. Sem a raiva dos seus conterrâneos, ela teve mais liberdade para pensar.

Encontrar a cura era possível! Ela estava próxima de descobrir… Por Alá, podia sentir que estava…

Então, Akin e um dos soldados voltaram para buscá-la… E a esperança acabou de vez!

Eles a encontraram a beira de uma caverna. A garota montou seu acapamento lá dentro, para passar a noite protegida da poeira e do vento. Não foi difícil ver o brilho da fogueira.

– O que estão fazendo aqui? Não tinham decidido me deixar para trás?

– É o que eu preferia ter feito. Porém, a assembléia dos cidadãos deliberou que voltássemos para verificar certos detalhes.

– Detalhes?

– Alguns insistem que você é uma bruxa. A pessoa culpada por trazer a danação contra o nosso povo. Viemos investigar se o que eles suspeitam é verdade!

– Não pode estar falando sério? Eu sou uma cientista, não uma bruxa!

– Eu não teria tanta certeza assim. Não sei o que os ocidentais colocaram na sua cabeça. Por dias viemos tolerando sua presença e seus hábitos pouco convencionais. Nunca pedi para verificar o que trazia em suas bolsas e valises. Porém, não posso ser negligente com minhas obrigações.

– O que está insinuando?

– Vamos! Quero ver as bagagem! Vou dar uma olhada em tudo o que escondeu de nós!

Sem escolha, Naira já se preparava para o pior. Ela não tinha como impedir aqueles homens de vasculhar os seus pertences. Os dois subiram na carroça, onde Malik se acomodava. Eles empurraram a cadeira de rodas para o lado e, sem qualquer cuidado, pegaram as suas malas.

O menino se assustou com tanta brutalidade. Ele gemeu, incomodado:

– Saiam de perto de meu filho! Ele é só uma criança, pelo amor de Deus! - Naira subiu na carroça para amparar o menino.

Enquanto os dois homens abriam a mala e jogavam seus pertences no chão, ela desviava o seu olhar para o Oeste, o Ocidente, de onde seu povo acreditava que vinha todos os males do mundo. E graças a esse gesto impensado a jovem pode ver, no horizonte, um tom avermelhado que se aproximava.

Tempestades de areia são comuns no Saara. No entanto, aquilo que se aproximava era algo bem diferente… As partículas em suspensão não eram cilício, poeira ou a comum poluição. O corpo desta tormenta carregava fragmentos de fungos. Pele e carne desintegradas, cobrindo como um delicado véu o firmamento!

Inclinada sobre Malik, na cadeira de rodas, embalando sua cabeça, a única coisa que a mulher pode sentir foi resignação:

– Calma, meu reizinho! Calma… Mamãe está aqui, meu querido!

Um soldado ouviu aquilo. De dentro dele, a zombaria:

— Rei? Por acaso, há um rei entre nós? Será que espera que a gente se prostre aos seus pés?

Akim olhou para a mulher, a fonte de todo seu despreso. Principiou a rir, imaginando toda a situação.

– Salve o rei! - gritou ele.

– Estou comendo areia, meu rei. Por favor, ordene que vire farinha!

– Quero água! Se puder, transforme o seu mijo em água pra gente!

Aquela chacota cruel não parecia ter fim. Não havia ninguém ali que pudesse reprimir o ímpeto daqueles dois homens degenerados. O soldado se aproximou e se prostrou com a face para o chão:

– Quer que limpe seus pés, meu rei?

O sujeito agarrou o pezinho de Malik. Naira, furiosa, chutou a cabeça do homem. A reação do militar não podia ser mais explosiva:

– Sua porca! - o rapaz agarrou a perna de Naira e puxou, derrubando a jovem no chão.

– Pare! O que está fazendo?!

O homem não demonstrou nenhum medo de seu superior. Simplesmente sentou-se sobre a barriga da mulher e começou a estapeá-la. Uma, duas, três vezes… Quando o sangue começou a escorrer dos lábios e nariz de Naira, Akim decidiu que era hora de parar.

– Chega, Omã! - o velho marchou até onde estava seu cavalo. Ele montou e, então, chegou mais perto do militar.

Omã entendeu o tom de ameaça na voz do chefe. O soldado se levantou, cuspiu no rosto da mulher e, então, encarou o chefe. Depois, abaixou a cabeça e se afastou procurando sua própria montaria.

No entanto a raiva do homem ainda não estava plenamente saciada. Com as escusas de pegar alguma coisa foi à carroça, agarrou a cadeira para afastar ao lado. Assustado, Malik mordeu o braço do soldado.

– Desgraçado! - em resposta, o militar jogou a criança no chão.

O garotinho começou a chorar, desconsolado.

– Malik! - ignorando sua própria dor, a garota corre para acudir o filho - Oh, Meu amor… Meu bebê! O que vocês fizeram, seus monstros?

– Segura o seu cão, mulher, e talvez possamos ir embora - disse Akin.

– Akin! O que é aquilo! - disse o soldado, apontando para algo que se desprendeu da carroça.

Havia uma pequena bolsa presa sob o acento da cadeira de rodas. Quando a criança foi arrancada a bolsa veio junto caindo e espalhando seu conteúdo pelo chão. Uma quantidade grande de frascos com pós, cinzas e o que parecia sangue se esparramaram pelo chão da caverna.

Sangue… Poeira… Cinzas… Aquilo tudo era sinônimo da peste! Naira, tentando salvar o trabalho de uma vida, correu para recolher as amostras.

Os dois homens ficaram ali, de queixo caído, observando, incrédulos. Aquela “falsa batida” do conselho dos costumes acabava de se transformar em uma diligência verdadeira!

– O que temos aí, mulher? - Pergunta Akin, enquanto descia do dromedário.

– São amostras… material para os meus estudos… A alfândega já examinou o conteúdo da bolsa quando eu entrei no país. Você não precisa…

— Tenho o direito de examinar o que eu quiser! - então, gritou:

– Essa mulher veio de uma terra que produz veneno, onde as criaturas ousam se dizer Filhos de Deus! No entanto, não passam de um bando de infiéis e blasfemadores! Criaturinhas imundas, de um reino que não nos pertence! Somos melhores! Somos mais fortes!

– Parem! Me deixe em paz! Vocês não sabem o que estão fazendo! - a garota fechou a bolsa e ficou abraçada a ela como se fosse o próprio filho.

– Um homem do nosso povo vale por cem dos ocidentais! Nós temos fé, temos humildade! Se morremos pelas mãos de Alá, somos consagrados. Se perecermos pela causa de Alá, somos salvos! Porém, os demônios do oriente querem tirar a vida de nossa carne! A força de nossos corações! Querem destruir a nossa fé, privando nosso povo da salvação!

Respirou profundamente contemplando o efeito de suas palavras a quem ouvisse:

– O criador nos fez do pó e ao pó voltaríamos quando chegada a nossa hora. No entanto, a ordem natural das coisas foi quebrada pelos infiéis! O pó, a morte, está no ar. A feiticeira do ocidente quer que a destruição penetre em nossos pulmões!

– Os frascos… A peste está nos frascos daquela bolsa?_ perguntou o soldado, assustado.

Sem poder se defender, sem ter para onde fugir, Naira se limitou a olhar para Malik, que chorava. Se aqueles homens tomassem tudo o que existia em suas bolsas, acabariam levando também os remédios da criança. Então, quando o menino tivesse a próxima crise, seria o fim.

Quando os dois homens marcharam para pegar as bolsas, a mulher pode apenas recorrer ao seu Deus, nos altos céus, para protegê-la.

– Onde está o Senhor, oh, Alá?

– Vamos! Você já nos fez perder tempo demais com sua teimosia! Entregue logo todos essa injúria à Criação, bruxa! - falou Omã, puxando-a pelo braço.

Inutilmente a garota tentou se agarrar a bolsa. O bruto empurrou-a para longe e, no final das contas, acabaram espalhando todo o conteúdo no chão.

Enquanto o homem recolhia os frascos, a jovem conseguiu colocar alguns deles nos bolsos. Era o mínimio que podia fazer para salvar a sua pesquisa.

Um daqueles recipientes em particular continha uma amostra reativa do mortífero fungo. Aquilo não poderia ser manipulado de qualquer jeito. Precisava de todo o cuidado. A substância era, ao mesmo tempo, uma arma biológica poderosíssima e a chance de cura de uma nação inteira! Depois de esvaziar todas as bolsas, deixando os muitos fracos na areia, eles foram até a carroça e a confiscaram.

Desceram a cadeira do menino e entregaram a mulher.

– Agora, você vai empurrando a cadeira a pé.

– Eu não vou ficar para trás?- perguntou a moça.

– Não. A assembléia acha perigoso demais. Você vem com a gente.

O soldado subiu na carroça e levou-a embora. Reiniciaram a caminhada. O destino estava bem próximo. Naira se esforçava para empurrar a cadeira na trilha de areia e pedras.

De vez em quando, olhava para trás. Ainda podia ver o local onde ficava a caverna. Todas aquelas amostras continuavam ali, jogadas ao chão. A maioria, material inerte, inofensivo. Porém, algumas poderiam ser bem perigosas, se manipuladas por mãos negligentes.

A expressão no rosto da jovem não era apenas de vergonha ou tristeza, pela humilhação sofrida nas mãos daqueles homens cruéis. Era, sim, o medo de que as ampolas com a cepa fúngica pudesse ser aberta por algum curioso.

O vento seco soprava forte aquela hora da noite. Era como se quisesse empurrar os viajantes para o seu destino. Mais três horas de caminhada árdua eles chegaram ao acampamento da caravana.

Durante todo o percurso, o pequeno Malik continuou em silêncio. Se chorou o fez bem baixinho, de modo que a mãe nem sequer percebesse. Qual seria o seu destino?  E o de seu pobre filho? Seria pior para eles ter ficado na América? Estariam mortos?

A peste fúngica também assolou os Estados Unidos, espalhando morte por toda parte. Se propagou com grande rapidez chegando à Europa e África em questão de semanas. Era como se as trombetas do apocalipse estivessem tocando.

De repente os pensamentos de Naira foram interrompidos pelo rugido de caças. Os aviões passam direto sobre eles. Sem conseguir identificar a que país eles serviam só pode deduzir que estavam armados com bombas e mísseis e que iriam atingir um alvo, a qualquer momento.

Talvez seu objetivo nem fosse uma instalação militar. Cada grande povoado transformou-se em uma fonte inesgotável de infecção a medida que seus habitantes eram transformados em poeira e carregados pelo vento. Isso tinha levado alguns países vizinhos à medidas desesperadas.

Bombas de napalm! Em quantidade suficiente para incinerar uma cidade inteira!

Também não estava descartado o uso de armas químicas ainda mais perigosas para destruir os esporos e o fungo. No entanto, tais mecanismos eram tão letais ao “Espiro do Inferno” quanto às outras formas de vida. Até o solo ficaria infértil quando todo aquele pesadelo acabasse.

Então, finalmente, a garota viu o brilho das fogueiras do acamapmento. A multidão fez seu abrigo nas ruínas de uma antiga aldeia. O lugar ainda exibia marcas de balas, incêndios e explosões, fruto de antigos conflitos inter-tribais.

Omã tomou a frente e cumprimentou alguns de seus companheiros do exército. Akin, por sua vez, continuou vigiando a mulher e seu bebê.

Faltava meio dia de viagem para chegarem ao seu destino, a cidade de Al Mabarut. Cansados, os viajantes acenderam suas fogueiras, comeram e beberam os mantimentos que restavam. Tinham esperança de que todo o sofrimento da viagem chegaria ao fim no dia seguinte.

No entanto, embora Akim e Omã tenham se juntado aos outros, a jovem cientista não pode fazer o mesmo. Um homem truculento se aproximou e falou:

– Você aguarda aqui, mulher.

Com a tarde já derradeira a maioria das pessoas se preparava para se abrigar nas casas destruídas para não ficarem expostas ao vento cortante. Naira se viu, mais uma vez, olhando para o horizonte.

O céu estava estranhamente claro e fosco no ponto mais distante. Cores que variavam do azul ao avermelhado. Uma luminosidade feérica, sobrenatural, como uma espécie de aurora boreal… ou uma miragem ao anoitecer.

À sua frente, o vilarejo abandonado ficava levemente mais baixo de onde estavam, um declive na planície a mais ou menos uns cento e cinquenta metros, podendo ver quase todas as suas poucas construções de pedras e barro e alguns tecidos de tenda que insistiram dilacerados pelo clima.

Enquanto esperava, a garota examinou o pequeno Malik. Quieto, ferido, retribuiu o olhar da mãe. Apesar do silêncio do menino, o pequenino estava muito atento. Era como se o pobrezinho esperasse por algo que estava por vi.

“Uma de suas crises está se aproximando” - pensou Naira.

Seu pequeno Malik estava condenado à morte. Ter vindo para cá, para o deserto do Saara, para a terra de seus ancestrais, foi um grande erro. Os pensamentos arcaicos de seu clã empurravam a tribo para o abismo, numa sucessão de erros, sem qualquer chance de salvação.

Apesar de todo sofrimento, Naira amava o seu povo. O seu erro não estava em tentar ajudá-los. Tampouco lhe faltou coragem ou garra para enfrentar um desafio tão grande.

Por outro lado, ela devia ter se preparado melhor. Suposto que enfrentaria dificuldades bem maiores do que o mero Malarium Verum.

Akin e seus soldados podiam ser vistos conversando, à distância, perto de uma fogueira que adiantaram para a noite. Da maneira que gesticulavam e batiam os pés no chão deviam estar discutindo. Mas, o quê?

De repente, um garoto de pouco mais de quatorze anos veio até ela. O rapazinho exibia um uniforme militar. A jovem Naira, agora atrás da cadeira de Malik, cumprindo a tradição, limitou-se a olhar para baixo, sem encarar o recém-chegado.

Nos olhos da mãe está seu filho, visto de cima para baixo em perspectiva de uma criatura única. Sua cabeça com o fez inspirava pena. Ela sabia que algo estava a acontecer, pressentimento que a acompanhara mais dilacerante que a peste.

O menino não se mexia. Olhava seu peito num leve respirar. E eis que surgiram no peito de Malik, tão repentino quanto o som mas que se fez surda ante a visão, um após o outro, dois furos, vermelhos e tão logo se tornando uma mancha ensangue. E sem reação, a única que lhe restara, o arquejar de respirar cessa.

Naira levanta a cabeça e só vislumbra o assassino de costas, terminando de ajeitar a AK-47, voltando para o grupo que o observava. Foi como se tivesse apenas entregado um recado qualquer à Naira.

O tempo parecia se mover com infinita lentidão.

Por mais estranho que fosse, a mulher, serva de Alá, sabia que algo assim poderia acontecer. Não havia nada que pudesse evitar. A criança estava condenada antes mesmo de começarem aquela terrível viagem.

O sentimento, para espanto de Naira, era de profunda resignação. Já sofrera muito abuso mental por parte dos homens da tribo. As mulheres não tinham vez, nem respeito ou escolha alguma.

Conformada, sua reação foi de lágrimas, raiva e silêncio. Submissa. Resignada.

Meia hora se passou.

A pobre mãe, e o cadáver de seu filho, ficaram ali. Mais uns minutos e a noite tomaria seu lugar. O vento forte soprou, sempre empoeirado, ainda só poeira. Implacável, atravessando o vilarejo destruído, entrando em cada fresta, cada abertura, cada buraco de paredes e telhados.

No entanto, o sofrimento de Naria não tinha acabado. Os soldados voltaram, com Akim, além de Omã.

– Agora é sua vez, bruxa. Sabemos muito bem o que tentou fazer. Você foi julgada pelos seus crimes - Omã repetia a mesma ladainha de sempre.

–  Não na frente do meu menino… - disse a pobre mãe.

Os homens se entreolharam. Que diferença faria o que que quer que acontecesse diante de um cadáver? Todavia, devem ter entendido aquilo como “o último pedido de um condenado”. No final, Akim ordenou:

– Está bem. Peguem a mulher e a levem para lá. - disse o líder apontando para um casebre, caindo aos pedaços, a uns cinquenta metros de distância.

Antes de ir, Naira abraçou, mais uma vez, o corpo do pobre Malik usando seu sujo véu para cobrir a intimidade da despedida final, tampando seus rostos da vista dos assassinos. Ainda se lembrava do sorriso alegre e inocente do menino. Uma felicidade sincera que nunca mais voltaria.

–  Alá vai cuidar da gente, meu amor... Perdoe-me por não ter feito o suficiente para salvá-lo… - A mãe se demorou ali, um pouco mais, cobrindo a criança, e o próprio choro, com o seu véu.

A despedida foi mais breve do que gostaria. Aqueles homens não tinham o menor respeito pelos vivos, quanto mais pelos mortos ou condenados.

– Vamos, infiel! - disseram os soldados, agarrando a mulher e puxando-a para longe do menino.

–  Alá honrará o seu nome, meu menino… Nosso Deus nos fará a justiça! - murmurou Naira.

O vento e a poeira estavam mais fortes do que nunca. Como último ato, a mulher arrancou o seu véu e cobriu a cabeça da criança.

–  Vamos, mulher. Não tome mais o nosso tempo… - sorriu Akin, realizando sua derradeira vingança que, junto com Omã e os outros, riram e arrastaram a mulher para longe.

Um deles ainda revistou os seus bolsos para ver se encontrava algo de valor. Descobriu alguns frascos e os jogou no chão. Os soldados tiveram o cuidado de pegar os recipientes e atirar na fogueira.

O corpo de Malik continuou ali, como um rei, sentado em sua cadeira de rodas. O queixo encostado no peito, encoberto pelo véu da mãe. Ninguém mais dava atenção ao menino.

A condenada e os seus executores desapareceram no casebre. Passou-se um tempo. Então, ouviu-se um tiro.

Akin, Omã e os outros sairam do local. A casa ficava longe do acampamento. Era um bom lugar para enterrar a mãe e o seu filho. Além disso, um dos cadáveres já estava lá.

Os homens vieram até Malik, rindo, satisfeitos. Encontraram algum dinheiro nas bagagens da mulher.

–  Acho que ainda podemos usar essa cadeira para alguma coisa. Ela está boazinha, vocês podem ver… - disse o Akin.

–  E o que mais? Roupas? Sapatos?

Sem qualquer cerimônia Omã puxa o véu que cobria o pequeno cadáver sentado na cadeira. Para sua surpresa era como se o tecido estivesse cobrindo uma fogueira, uma poeira fina como talco veio acompanhada do pano quando ele o puxou. Imediatamente todos os presentes começaram a tossir.

A nuvem de poeira tinha tons avermelhados. A cabeça de Malik continuava tombada para frente, agora, porém, estava sem pele alguma. A carne se desfazia, rapidamente, transformando o corpo em fumaça! O vento uivava.

O medo tomou conta daqueles homens robustos e cruéis.

— Suleiman! Na boca! - balbuciou um deles.

Os olhos vítreos do defunto, já sem pálpebras, encaravam os algozes, como se fossem de uma medusa das lendas gregas. Na boca do menino estava vertido e vazio um pequeno tubo de vidro, daqueles mesmos que eles quebraram e queimaram.

Olhavam para Malik, este agora como um acusador e carrasco, se desfazendo e unindo-se ao vento que penetrava em cada rachadura, fresta e buraco que a ambição humana assinou naquele vilarejo mais à frente, encontrando a vida de cada um que ali repousava.

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